segunda-feira, 9 de março de 2026

Sobre a peça «O Quarto» de Harold Pinter. Teatro Experimental de Cascais, 2026.




 


















É a primeira peça escrita por Harold Pinter. É a primeira encenação de Ricardo Neves-Neves para o Teatro Experimental de Cascais. Aqui tudo parece circunstancialmente ameaçado, cada vez mais prenunciado, no interior de uma penumbra de real comédia e sob o véu ou ecrã cinematográfico.

Tal como em «Festa de Aniversário» (também publicada em 1957), nada é explicado por narrativa clarividente, ou mesmo apenas através de uma exegese lógica. Um casal vive num quarto alugado num prédio sombrio, frio e húmido, com vários pisos e corredores e uma cave obscura. Contudo, Rose Hudd (Elsa Galvão) mima o marido, Bert Hudd (Luiz Rizo), com chás das cinco aprimorados, num aparente idílio doméstico. Porém, uma série de visitas ou intrusos, o casal Sands (Joana Castro e Hugo Narciso), ou o senhorio, o Senhor Kidd (Teresa Faria), ou até a ausência momentânea do marido, vêm colocar Rose num estado de progressiva ansiedade, desestabilizando a sua sossegada rotina, talvez a sua inusitada clausura. Qual a razão da ansiedade? Qual a razão do cárcere? Rose esconderá alguma coisa. Ninguém sabe mas os indícios e a suspeita avançam sobre as rodas de uma possível comédia quase burlesca, quase trágica. Até surgir o inesperado, mas ainda inexplicado, jovem Riley (Igor Regalla).

Ricardo Neves-Neves coloca em dois planos-palcos as personagens, como se estivéssemos no teatro isabelino, entre o translúcido da tela ou o fantasmagórico do fumo ou mesmo o estroboscópio do jogo de luzes e do jogo da sonoplastia. As personagens movem-se em planos absurdos e cadeiras de baloiço que se mexem por moto próprio, entre risos e revolveres. A história conta-se pelo numero de ‘pausas’ que são ouvidas por didascálias. O encenador brinca e parece assim encontrar-se com o tema forte de Harold Pinter que é esse dicionário da incompreensão que sempre ensombra o quotidiano de qualquer família, da casa, de uma comunidade, quase urbana, quase rural. Um tema tão caro à comédia inglesa.

Uma curta peça, quase um scherzo

A voz do absurdo quotidiano onde Neves-Neves coloca Harold Pinter entre Lewis Carroll  e David Lynch.


jef, Teatro Municipal Mirita Casimo / Teatro Experimental de Cascais, 8 de Março de 2026

«O Quarto» de Harold Pinter. Encenação: Ricardo Neves-Neves. Tradução: Miguel Graça. Com: Elsa Galvão (Rose Hudd), Hugo Narciso (Senhor Sands), Igor Regalla (Riley), Joana Castro (Senhora Sands), Luiz Rizo (Bert Hudd), Teresa Faria (Senhor Kidd), voz off Sérgio Silva. Cenografia, Figurinos, Adereços: Fernando Alvarez. Desenho de luz: Tasso Adamopoulos. Desenho de som e sonoplastia: Sérgio Delgado. Assistência de encenação Rafael Balão. Operação de som: Tiago Barão. Operação de luzes: Jorge Saraiva. Direcção de cena: Rodrigo Aleixo. Produção: Maria Lemos Costa / Teatro Municipal Mirita Casimo / Teatro Experimental de Cascais. Duração: 50 minutos.

27 de fevereiro a 29 março de 2026 (Quarta a Sábado – 21h00; Domingo – 16h00).




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