É a primeira peça escrita por Harold Pinter. É a primeira
encenação de Ricardo Neves-Neves para o Teatro Experimental de Cascais. Aqui tudo parece circunstancialmente ameaçado, cada vez mais prenunciado, no
interior de uma penumbra de real comédia e sob o véu ou ecrã cinematográfico.
Tal como em «Festa de Aniversário» (também publicada em 1957),
nada é explicado por narrativa clarividente, ou mesmo apenas através de uma exegese
lógica. Um casal vive num quarto alugado num prédio sombrio, frio e húmido, com
vários pisos e corredores e uma cave obscura. Contudo, Rose Hudd (Elsa Galvão) mima
o marido, Bert Hudd (Luiz Rizo), com chás das cinco aprimorados, num
aparente idílio doméstico. Porém, uma série de visitas ou intrusos, o casal
Sands (Joana Castro e Hugo Narciso), ou o senhorio, o Senhor Kidd (Teresa Faria),
ou até a ausência momentânea do marido, vêm colocar Rose num estado de
progressiva ansiedade, desestabilizando a sua sossegada rotina, talvez a sua inusitada
clausura. Qual a razão da ansiedade? Qual a razão do cárcere? Rose esconderá alguma coisa. Ninguém sabe mas os indícios e a suspeita avançam sobre as
rodas de uma possível comédia quase burlesca, quase trágica. Até surgir o
inesperado, mas ainda inexplicado, jovem Riley (Igor Regalla).
Ricardo Neves-Neves coloca em dois planos-palcos as
personagens, como se estivéssemos no teatro isabelino, entre o translúcido da
tela ou o fantasmagórico do fumo ou mesmo o estroboscópio do jogo de luzes e do
jogo da sonoplastia. As personagens movem-se em planos absurdos e cadeiras de
baloiço que se mexem por moto próprio, entre risos e revolveres. A história
conta-se pelo numero de ‘pausas’ que são ouvidas por didascálias. O encenador
brinca e parece assim encontrar-se com o tema forte de Harold Pinter que é esse
dicionário da incompreensão que sempre ensombra o quotidiano de qualquer
família, da casa, de uma comunidade, quase urbana, quase rural. Um tema tão
caro à comédia inglesa.
Uma curta peça, quase um scherzo.
A voz do absurdo quotidiano onde Neves-Neves coloca Harold Pinter entre Lewis
Carroll e David Lynch.
jef, Teatro Municipal Mirita Casimo / Teatro Experimental de
Cascais, 8 de Março de 2026
«O Quarto» de Harold Pinter. Encenação: Ricardo Neves-Neves. Tradução:
Miguel Graça. Com: Elsa Galvão (Rose Hudd), Hugo Narciso (Senhor Sands), Igor
Regalla (Riley), Joana Castro (Senhora Sands), Luiz Rizo (Bert Hudd), Teresa
Faria (Senhor Kidd), voz off Sérgio Silva. Cenografia, Figurinos, Adereços: Fernando
Alvarez. Desenho de luz: Tasso Adamopoulos. Desenho de som e sonoplastia:
Sérgio Delgado. Assistência de encenação Rafael Balão. Operação de som: Tiago
Barão. Operação de luzes: Jorge Saraiva. Direcção de cena: Rodrigo Aleixo.
Produção: Maria Lemos Costa / Teatro Municipal Mirita Casimo / Teatro
Experimental de Cascais. Duração: 50 minutos.
27 de fevereiro a 29 março de 2026 (Quarta a Sábado – 21h00; Domingo – 16h00).





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