quinta-feira, 16 de abril de 2026

Sobre o livro «Fuga Sem Fim» de Joseph Roth, Dom Quixote, 2025 (1927). Tradução de José Sousa Monteiro.



 







Judeu errante. Tal como Stefan Zweig, o austro-húngaro viveu e escreveu sem pátria. O império e os Habsburgo em declínio, o arquiduque Franz Ferdinand morto em Sarajevo. O alistado Joseph Roth, preso na Rússia, vai percorrendo a Europa para oeste com os seus passos, com a proximidade de uma segunda guerra, com a sua veia de jornalista. Da Galícia ucraniana e do Cáucaso, à Sibéria, de Moscovo a Kiev, de Bucareste a Amesterdão. A Paris!

Mas ao contrário de um certo romantismo, trágico e bucólico de Stefan Zweig, a Paris de Joseph Roth é modernista, cheira a jazz e a charleston, a álcool e a Gatsby. Também este escritor romântico, diletante, apaixonado e profusamente filosófico.

Avisa logo no início que contará a história, através de factos sabidos e documentos, de um amigo, camarada e companheiro de ideias: Franz Tunda – um militar refugiado e escondido na taiga siberiana, filho de um major austríaco e de uma judia polaca. Polaco por adopção e subterfúgio, eterno noivo prometido de Irene Hartmann. Forte e indolente, um romântico e apaixonado, repito: Yekaterina Pavlovna, Natacha Alexandrovna, Alja, à senhora G. ou a Pauline Cardillac.

Pode dizer-se que Joseph Roth tem o génio de narrar e filosofar, provocar a sociedade, com um sarcasmo surrealista e ternurento e o delirante humor ácido costurado entre as linhas das suas descrições, como fizeram, décadas antes, Eça de Queirós, Flaubert ou Dickens.

«Tunga, porém, personificava a falta de confiança. Era uma pessoa de tão pouca confiança que nem sequer poderíamos suspeitar, nele, egoísmo. (…). No fundo era um europeu, um “individualista”, como dizem as pessoas cultas. Para viver a vida precisava de relações complicadas. Precisava de uma atmosfera de mentiras confusas, ideais falsos, aparência de saúde, de putrefação bem conservada, fantasmas pintados de vermelho, no fundo era a atmosfera dos cemitérios que mais parecem salas de baile, fábricas, escolas ou grandes salões. Precisava da proximidade de arranha-céus, porque andamos sempre a adivinhar o dia em que eles irão desmoronar-se, mas por outro lado têm existência garantida para durar séculos.

Era um “homem moderno”.»

(Franz Tunda ou Baranowics ou) Joseph Roth é um constructor de cenários de papel sobre pedra e cal, de personagens luminosas de carne osso e fantasia, tão desesperadamente humano e interior (como Albert Camus) que só podia manisfestar-se através de uma alma literária enraizada no seu profundo interior, mais tarde também em nós, em confronto com o riso, a sociedade e a solidão.

Um autor imprescindível.

 

jef, abril 2026

Sem comentários:

Enviar um comentário