Judeu errante. Tal como Stefan Zweig, o austro-húngaro viveu
e escreveu sem pátria. O império e os Habsburgo em declínio, o arquiduque Franz
Ferdinand morto em Sarajevo. O alistado Joseph Roth, preso na Rússia, vai
percorrendo a Europa para oeste com os seus passos, com a proximidade de uma
segunda guerra, com a sua veia de jornalista. Da Galícia ucraniana e do
Cáucaso, à Sibéria, de Moscovo a Kiev, de Bucareste a Amesterdão. A Paris!
Mas ao contrário de um certo romantismo, trágico e bucólico
de Stefan Zweig, a Paris de Joseph Roth é modernista, cheira a jazz e a charleston, a álcool e a Gatsby.
Também este escritor romântico, diletante, apaixonado e profusamente filosófico.
Avisa logo no início que contará a história, através
de factos sabidos e documentos, de um amigo, camarada e companheiro de ideias:
Franz Tunda – um militar refugiado e escondido na taiga siberiana, filho de um
major austríaco e de uma judia polaca. Polaco por adopção e subterfúgio, eterno
noivo prometido de Irene Hartmann. Forte e indolente, um romântico e apaixonado,
repito: Yekaterina Pavlovna, Natacha Alexandrovna, Alja, à senhora G. ou a Pauline
Cardillac.
Pode dizer-se que Joseph Roth tem o génio de narrar e filosofar,
provocar a sociedade, com um sarcasmo surrealista e ternurento e o delirante humor ácido costurado
entre as linhas das suas descrições, como fizeram, décadas antes, Eça de
Queirós, Flaubert ou Dickens.
«Tunga, porém, personificava a falta
de confiança. Era uma pessoa de tão pouca confiança que nem sequer poderíamos
suspeitar, nele, egoísmo. (…). No fundo era um europeu, um “individualista”,
como dizem as pessoas cultas. Para viver a vida precisava de relações complicadas.
Precisava de uma atmosfera de mentiras confusas, ideais falsos, aparência de
saúde, de putrefação bem conservada, fantasmas pintados de vermelho, no fundo
era a atmosfera dos cemitérios que mais parecem salas de baile, fábricas,
escolas ou grandes salões. Precisava da proximidade de arranha-céus, porque
andamos sempre a adivinhar o dia em que eles irão desmoronar-se, mas por outro
lado têm existência garantida para durar séculos.
Era um “homem moderno”.»
(Franz Tunda ou Baranowics ou) Joseph Roth é um constructor
de cenários de papel sobre pedra e cal, de personagens luminosas de carne osso
e fantasia, tão desesperadamente humano e interior (como Albert Camus) que só
podia manisfestar-se através de uma alma literária enraizada no seu profundo interior, mais
tarde também em nós, em confronto com o riso, a sociedade e a solidão.
Um autor imprescindível.
jef, abril 2026

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