Podemos,
por momentos, esquecer o hiper-realismo,
esquecer também a velha nouvelle vague.
O filme integra uma outra classe estranha de filmes, talvez uma ‘nouvelle vague
hiper-realista’. Mas é sempre redutor classificar. E todos sabemos como, em férias, nessa concentração absoluta do afecto familiar, sem possibilidade de fuga ou redenção, tudo poderá vir à tona.
Se
se sentir confuso, inicialmente, com a sequência narrativa, não se importe, as
férias em família são sempre um pouco assim. Atente mais na evolução do chapéu
de palha que vai passando de cabeça em cabeça, cada vez mais desgraçado. Atente,
depois, no longo percurso a pé de Jean-Philippe (Philippe Katerine), sozinho, por uma rua
da vila da Sardenha, ou na mão pousada sobre a perna de Sophie (Sophie
Letourneur) e na expressão de espanto (ou repulsa) desta. Atente na sistemática
prisão de ventre feminina durante as viagens ou na frequência das birras e do cocó do pequeno Raoul (Esteban Melero). Temos ainda gelados e praias è escolha. Tome atenção na beleza da cara
de Claudine (Bérénice Vernet) que se vê afastada da sua infância pela
omnipresença birrenta do meio-irmão, enquanto ela vai gravando as vozes de umas
férias conquistadas com suor, sangue e picadas de vespa. Essas vozes são para
memória futura de um provável futuro filme. Também pode recordar as versões de alguns
temas Bach em versão electro-pop. Atente, finalmente, nessas ininterruptas,
quase negligentes, ternas e invasoras, aproximações da câmara às faces, às
expressões, aos corpos daquelas quatro personagens-criatura, daqueles quatro maravilhosos actores.
Depois,
tudo é arquitectado (ou tricotado) com minúcia de metrónomo, entre o passado e
o presente filmado, anacrónico, num vaivém que deixa o espectador à mercê irreflectida mas hípersensorial
de umas férias que seriam para esquecer, no interior de uma família onde tudo
de bom pode acontecer, mas onde reside a génese de todo o tédio,
todo o cansaço de uma existência, de uma escolha que, agora, talvez não fosse escolhida.
Assim,
dita Sophie Letourneur, a realizadora: “Ama a vida mais do que a sua lógica.
Dessa forma compreenderás o seu sentido”.
jef,
março 2026
«L’Aventura» de Sophie Letourneur. Com Bérénice Vernet (Claudine), Esteban Melero (Raoul), Philippe Katerine (Jean-Fi), Sophie Letourneur (Sophie), Carmen Letourneur (Carmen), Francesco Arcuri (Francesco). Argumento: Sophie Letourneur, Laetitia Goffi. Produção: Mathieu Verhaeghe, Sophie Letourneur, Thomas Verhaeghe, Tristan Vaslot. Montagem: Sophie Letourneur. Fotografia: Jonathan Ricquebourg. Música: Laure Arto, Carole Verner. França, 2025, Cores, 100 min.






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