domingo, 30 de agosto de 2026

Sobre o livro «Salvo o Meu Coração, Tudo Está Bem» de Héctor Abad Faciolince, Alfaguara, 2024. Tradução de Margarida Amado Acosta.



 







Héctor Abad Faciolince é um verdadeiro cronista, alguém que nos devolve a realidade sob a chama da maior percepção emocional, demonstrando que a literatura ficcionada é uma das principais armas que garante a aceitação da verdade pela razão do leitor. Mas, principalmente, pelo coração do leitor crítico. Pois, é exacto, «Salvo o Meu Coração, Tudo Está Bem» é sobre o coração maior de um padre devoto, Luis Córdoba, 50 anos, gigante em estatura, a viver em Medellín, amante e divulgador reconhecido das artes da música clássica e do cinema, amante também da boa mesa. Porém, um coração periclitante pela própria hipertrofia. Vivendo primeiro na própria casa, na esquina da Villa com a San Juan, em celibato conjugal com o padre Aurelio Sánchez (o narrador), mais tarde, saído da clínica, na casa verde e amarela de Teresa e de Darlis, sem escadas aliás, no bairro Laureles.

Não fiz spoiler nenhum, pois tudo isto está escrito nas primeiras duas páginas do romance-crónica, que se lê sem parar, por capítulos de A a Z (incluindo o Ñ), com direito a Abertura e Coda como uma peça antiga de música barroca. A ordem anacrónica faz-se a favor de uma leitura ágil e emotiva, interceptando as histórias dos dois amigos inseparáveis e também a de Joaquín Restrepo que, afinal, juntará as pontas dos apontamentos memoráveis que Aurelio Sánchez (ou Lelo) foi redigindo e colecionando episódios comuns ou não com o Gordo, ou seja, Luis Córdoba. Joaquín apresentará no final o presente livro que, confessa, gostaria de ter sido ele a escrever.

Um livro importante sobre a vida, a doença, a morte e o luto. Também sobre a dualidade da sublimação do espírito sobre a vocação biológica de um corpo que deseja e precisa de ser fisicamente consumado. Também sobre os abjectos meandros da hierarquia da igreja católica. Também sobre a esperança e a fé, como se um ateu explicasse a fé em Deus a um crente ou um devoto exprimisse a inexplicável vocação em confiar o amor a um ser impalpável e irresolúvel.

Um livro que ensina a ser-se efectivamente alegre, ou feliz, apesar da continua infelicidade que sempre vela, ou ameaça, a existência mais pacífica, e que me deixou lavado em lágrima quando o terminei de ler.

Eu, ateu convicto, confesso, vou sentir falta da bondade, jovialidade, honestidade e clarividência dos padres Aurelio Sánchez e Luis Córdoba, e da Teresa, da Darlis, do Joaquín e de todos os outros.

Nota: o autor nas linhas finais confessa que o leitor deve suspeitar de que o livro se baseia livremente na vida de Luis Alberto Álvarez, “um sacerdote extraordinário, um bom padre do qual fui amigo.”


jef, agosto 2026

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