Héctor Abad Faciolince é um verdadeiro cronista, alguém que
nos devolve a realidade sob a chama da maior percepção emocional, demonstrando
que a literatura ficcionada é uma das principais armas que garante a aceitação
da verdade pela razão do leitor. Mas, principalmente, pelo coração do leitor
crítico. Pois, é exacto, «Salvo o Meu Coração, Tudo Está Bem» é sobre o coração
maior de um padre devoto, Luis Córdoba, 50 anos, gigante em estatura, a viver em
Medellín, amante e divulgador reconhecido das artes da música clássica e do
cinema, amante também da boa mesa. Porém, um coração periclitante pela própria
hipertrofia. Vivendo primeiro na própria casa, na esquina da Villa com a San
Juan, em celibato conjugal com o padre Aurelio Sánchez (o narrador), mais
tarde, saído da clínica, na casa verde e amarela de Teresa e de Darlis, sem
escadas aliás, no bairro Laureles.
Não fiz spoiler
nenhum, pois tudo isto está escrito nas primeiras duas páginas do
romance-crónica, que se lê sem parar, por capítulos de A a Z (incluindo o Ñ), com direito a Abertura
e Coda como uma peça antiga de música barroca. A ordem anacrónica faz-se a
favor de uma leitura ágil e emotiva, interceptando as histórias dos dois
amigos inseparáveis e também a de Joaquín Restrepo que, afinal, juntará as
pontas dos apontamentos memoráveis que Aurelio Sánchez (ou Lelo) foi redigindo
e colecionando episódios comuns ou não com o Gordo, ou seja, Luis Córdoba. Joaquín
apresentará no final o presente livro que, confessa, gostaria de ter sido ele a
escrever.
Um livro importante sobre a vida, a doença, a morte e o luto.
Também sobre a dualidade da sublimação do espírito sobre a vocação biológica de
um corpo que deseja e precisa de ser fisicamente consumado. Também sobre os abjectos
meandros da hierarquia da igreja católica. Também sobre a esperança e a fé,
como se um ateu explicasse a fé em Deus a um crente ou um devoto exprimisse a
inexplicável vocação em confiar o amor a um ser impalpável e irresolúvel.
Um livro que ensina a ser-se efectivamente alegre, ou feliz, apesar
da continua infelicidade que sempre vela, ou ameaça, a existência mais pacífica,
e que me deixou lavado em lágrima quando o terminei de ler.
Eu, ateu convicto, confesso, vou sentir falta da bondade, jovialidade,
honestidade e clarividência dos padres Aurelio Sánchez e Luis Córdoba, e da
Teresa, da Darlis, do Joaquín e de todos os outros.
Nota: o autor nas linhas finais confessa que o leitor deve
suspeitar de que o livro se baseia livremente na vida de Luis Alberto Álvarez, “um
sacerdote extraordinário, um bom padre do qual fui amigo.”
jef, agosto 2026

Sem comentários:
Enviar um comentário