sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Sobre o livro «As Janelas Defronte» de Georges Simenon, Cavalo de Ferro, 2025 (1933). Tradução de Diogo Paiva.



 







Georges Simenon é um escritor infinito. Sempre que iniciamos a leitura de um romance seu, também deste apelidado “roman dur”,  não sabemos onde iremos parar. O escritor vira as personagens do avesso, dá-lhes a consistência de um fortíssimo abraço. Ou seja, permite que as vejamos por dentro numa espécie de radiografia programática, demonstrando que uma intriga é válida desde que seja assumido o poder da literatura como definidor de um paradigma global da humanidade. A escrita é rápida, digamos sinteticamente objectiva, a intensidade dos diálogos faz muito mais do que a descrição pormenorizada da paisagem ou do quarto onde se inscrevem. Os cenários são invariavelmente inusitados, cheios de esquinas sombrias, gentes receosas ou poças de água engordurada à beira do porto de Batúmi, na Geórgia, a espreitar o Mar Negro. Cidade densamente afundada na União Soviética. O cônsul da Turquia, bei Adil, chega e aterra numa recepção no consulado da Pérsia, conversa com o casal Pendelli, italianos, porém desentendem-se. O turco sente-se ofendido e sai desalvorado. Pior, sente-se perdido, completamente sozinho. Depois, espiado. O edifício do seu consulado é frio, ainda não tem quem o ajude a limpá-lo. Aguarda a chegada de Sonia, a secretaria russa que também assegurou o trabalho ao seu precedente que morreu, sem nunca lhe terem dado qualquer explicação.

Contudo, para a polifónica verve narrativa de Georges Simenon também não existe qualquer esclarecimento possível. Basta lê-lo e fica tudo dito.


jef, janeiro 2026

 

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