Georges Simenon é um escritor infinito. Sempre que iniciamos
a leitura de um romance seu, também deste apelidado “roman dur”, não sabemos onde iremos parar. O escritor vira
as personagens do avesso, dá-lhes a consistência de um fortíssimo abraço. Ou
seja, permite que as vejamos por dentro numa espécie de radiografia
programática, demonstrando que uma intriga é válida desde que seja assumido o
poder da literatura como definidor de um paradigma global da humanidade. A
escrita é rápida, digamos sinteticamente objectiva, a intensidade dos diálogos
faz muito mais do que a descrição pormenorizada da paisagem ou do quarto onde
se inscrevem. Os cenários são invariavelmente inusitados, cheios de esquinas
sombrias, gentes receosas ou poças de água engordurada à beira do porto de
Batúmi, na Geórgia, a espreitar o Mar Negro. Cidade densamente afundada na União
Soviética. O cônsul da Turquia, bei Adil, chega e aterra numa
recepção no consulado da Pérsia, conversa com o casal Pendelli, italianos, porém
desentendem-se. O turco sente-se ofendido e sai desalvorado. Pior, sente-se
perdido, completamente sozinho. Depois, espiado. O edifício do seu consulado é
frio, ainda não tem quem o ajude a limpá-lo. Aguarda a chegada de Sonia, a
secretaria russa que também assegurou o trabalho ao seu precedente que morreu, sem
nunca lhe terem dado qualquer explicação.
Contudo, para a polifónica verve narrativa de Georges Simenon
também não existe qualquer esclarecimento possível. Basta lê-lo e fica tudo
dito.
jef, janeiro 2026
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