Um
estranho objecto de encantamento. À partida teria tudo para me afastar
emocional e esteticamente, mas a realidade é que me conquistou quando Grizabella
(Jacinta Whyte), a gata que deixou a tribo, correu mundo,
envelheceu e agora deseja voltar, fala da experiência e do significado da
experiência dando a entender que esse significado é na realidade o preço da
memória. “Memory” é a canção padrão que vai sendo desvendada ao longo da peça
até se revelar, finalmente, como ícone apoteótico.
Claro
que ainda mais encantador é o facto de, para terminar, esvaziando o impacto
emocional do “esquecimento”, a canção dita e repete a máxima universal: “Não
pensem que um gato é um cão! Dêem-lhe primeiro caviar, só depois talvez haja alguma
hipótese do gato vos aceitar!”.
Quem
não conheça o génio de um gato…
O
facto é que musicalmente é surpreendente, deixando um lastro de alegre melancolia
numa peça que não é para crianças nem deixa de ser. Enfim, teatro para infâncias nostálgicas!
Estranho!
Andrew Lloyd Webber consegue a proeza de criar uma espécie de poema sinfónico
para bailado, digamos “clássico”, onde os números se sucedem, contando a
história dos vários gatos e das suas diversas personalidades e tropelias, como números de
cabaré ou vaudeville. Entrecruza trechos sinfónicos sintomáticos com a
aura musical muito anglo-saxónica, fazendo lembrar os clássicos «Mary Poppins»
ou «Oliver» e misturando a minha suprema reminiscência irlandesa dos Pogues ou das
canções fundamentais dos Monty Python.
A
realidade é que a memória tem um papel fundamental na estabilidade da nossa
estrutura proto-arqueológica diária. Os gatos sabem disso e reflectem permanentemente ao sol sobre o significado da experiência e a justiça do seu próprio nome.
10
de janeiro de 2026
«Cats»
de Andrew Lloyd Webber baseado na obra de T.S. Eliot “Old Possum's Book of
Practical Cats”. Com Jacinta Whyte (Grizabella), Martin Callaghan (Old
Deuteronomy, líder dos gatos Jellicle), e Russell Dickson (Munkustrap, o
narrador), Rum Tum Tugger (Harrison Wilde), Skimbleshanks (Philip Bertioli), e
Gus/Bustopher Jones (Hal Fowler). Orquestra conduzida por Daniel Griffith.





Sem comentários:
Enviar um comentário