Parece
que a palavra “mektoub”, de origem árabe, significa “já está escrito”, como
“destino”.
O
filme conclui a trilogia filmada entre 2016 e 2018 começada com «Mektoub, Meu
Amor: canto Primeiro» (2018) e prossegue com «Mektoub, My Love: Intermezzo»
(2019), que não foi estreado.
«Mektoub,
Meu Amor: Canto Segundo», a terceira parte, conclui-se com uma corrida nocturna
(ou uma fuga, ou até uma possível chegada) de Amin (Shaïn Boumedine), tal como
sucede no final nevrótico de «O Segredo de um Cuscuz» (2008). (Outro filme
maravilhoso!) Amin corre, Amin foge, porque tudo vê, tudo reflecte com a sua
máquina fotográfica, Amin tudo sabe mas tudo deve silenciar, a consciência calada
do ecrã, numa espécie de reserva moral da verdade e da sobrevivência. Contudo,
nesta terceira parte da trilogia, neste final festivo que celebra o futuro
casamento entre Ophélie (Ophélie Bau) e o soldado destacado no exterior Clément
(Robin Brodu), uma celebração condimentada pelo regresso do casal sucesso,
vindo de Hollywood, Jodi Taylor (Jessica Patterson) e Andre Jacobs (Jack
Patterson). Tudo é festa numa espécie de comédia exuberante e familiar pontuada
por parêntesis de silêncios e omissões, quase segredos, como acontece em todas
as famílias. Pelo meio, um guião para um filme de ficção científica e um primo, Tony
(Salim Kechiouche), exibicionista, fala-barato, conquistador de meia tijela, que
em tudo mete o bedelho. Tudo sob a discrição do silencioso primo Amin. Tony que
vai desencadear o final de acção, um final quase burlesco onde a fuga sem termo
de Amin representa toda a não conclusão que sempre sustém a vida.
Se
existe um realizador “hiper-realista” ele é Abdellatif Kechiche. Ele tem a ciência
estética de colocar a câmara sobre os actores de tal modo que sugere neles desaparecer
para extrair apenas a mais sincera fotogenia de cada um, de cada
um dos personagens. Abdellatif Kechiche consegue que nos apaixonemos por todos
eles, mulheres e homens, um por um, e em simultâneo, que abracemos as respectivas
dores, sintamos as suas angústias e nos irmanemos desse lado festivo (mas
calado) de cada uma das sequências, com a sensação verídica de que os seus
filmes são sobre tudo mas, afinal, são sobre nada. Mais uma vez, como na vida.
No fundo, o realizador faz-nos sentar à mesa das personagens e desaparecer dentro
do seu apetite. Principalmente, do voraz apetite de Jessica Patterson que, pela
sua exigência tardia por um bom cuscuz, nos introduz numa família em ansiedade
colectiva, dentro de um restaurante de portas fechadas.
Não
há como Abdellatif Kechiche para nos demonstrar como é à mesa que tudo começa
(e que tudo pode terminar) – Não esqueço as cenas sublimes em torno de um
almoço em «O Segredo de um Cuscuz».
Afinal,
Abdellatif Kechiche (tal como Abbas Kiastomi) faz-me desaparecer no interior
dos seus filmes, desaparecer no interior da sua realidade, sofrer e amar a
existência sem história das suas personagens.
Ou
seja, Abdellatif Kechiche faz da realidade um belíssimo cerimonial! Da fotogenia,
uma paixão pela verdade!
jef,
março 2026
«Mektoub,
Meu Amor: Canto Segundo» (Mektoub, My Love: Canto Due) de Abdellatif Kechiche. Com
Shaïn Boumedine, Ophélie Bau, Jodi Taylor, Salim Kechiouche, Andre Jacobs, Dany
Martial, Delinda Kechiche, Alexia Chardard, Hafsia Herzi, Lou Luttiau, Marie Bernard,
Meleinda Elasfour, Roméo De Lacour, Kamel Saadi, Hatika Karaoui, Athénaïs
Sifaoui-Blanc, Christophe Brodu, Jeanne Corporon, Henri Cohen, Robin Brodu, Morgane
Sallet-Doucey, Pauline Dumas, Emilia Suau, Magali Boudou, Laurent Garcia, Alexandre
Ribot, Kader Bouallaga, Justine Garcia, Rabah Benjadou, Hélène Geier, Christian
Prat. Argumento: Abdellatif
Kechiche, Ghalya Lacroix. Produção: Abdellatif Kechiche, Riccardo Marchegiani. Fotografia:
Marco Graziaplena. Música: Leo Caresio, Hugo Rossi. França, 2025, Cores, 134 min.






Sem comentários:
Enviar um comentário