segunda-feira, 27 de abril de 2026

Sobre o filme «Mektoub, Meu Amor: Canto Segundo» de Abdellatif Kechiche, 2025



 


























Parece que a palavra “mektoub”, de origem árabe, significa “já está escrito”, como “destino”.

O filme conclui a trilogia filmada entre 2016 e 2018 começada com «Mektoub, Meu Amor: canto Primeiro» (2018) e prossegue com «Mektoub, My Love: Intermezzo» (2019), que não foi estreado.

«Mektoub, Meu Amor: Canto Segundo», a terceira parte, conclui-se com uma corrida nocturna (ou uma fuga, ou até uma possível chegada) de Amin (Shaïn Boumedine), tal como sucede no final nevrótico de «O Segredo de um Cuscuz» (2008). (Outro filme maravilhoso!) Amin corre, Amin foge, porque tudo vê, tudo reflecte com a sua máquina fotográfica, Amin tudo sabe mas tudo deve silenciar, a consciência calada do ecrã, numa espécie de reserva moral da verdade e da sobrevivência. Contudo, nesta terceira parte da trilogia, neste final festivo que celebra o futuro casamento entre Ophélie (Ophélie Bau) e o soldado destacado no exterior Clément (Robin Brodu), uma celebração condimentada pelo regresso do casal sucesso, vindo de Hollywood, Jodi Taylor (Jessica Patterson) e Andre Jacobs (Jack Patterson). Tudo é festa numa espécie de comédia exuberante e familiar pontuada por parêntesis de silêncios e omissões, quase segredos, como acontece em todas as famílias. Pelo meio, um guião para um filme de ficção científica e um primo, Tony (Salim Kechiouche), exibicionista, fala-barato, conquistador de meia tijela, que em tudo mete o bedelho. Tudo sob a discrição do silencioso primo Amin. Tony que vai desencadear o final de acção, um final quase burlesco onde a fuga sem termo de Amin representa toda a não conclusão que sempre sustém a vida.

Se existe um realizador “hiper-realista” ele é Abdellatif Kechiche. Ele tem a ciência estética de colocar a câmara sobre os actores de tal modo que sugere neles desaparecer para extrair apenas a mais sincera fotogenia de cada um, de cada um dos personagens. Abdellatif Kechiche consegue que nos apaixonemos por todos eles, mulheres e homens, um por um, e em simultâneo, que abracemos as respectivas dores, sintamos as suas angústias e nos irmanemos desse lado festivo (mas calado) de cada uma das sequências, com a sensação verídica de que os seus filmes são sobre tudo mas, afinal, são sobre nada. Mais uma vez, como na vida. No fundo, o realizador faz-nos sentar à mesa das personagens e desaparecer dentro do seu apetite. Principalmente, do voraz apetite de Jessica Patterson que, pela sua exigência tardia por um bom cuscuz, nos introduz numa família em ansiedade colectiva, dentro de um restaurante de portas fechadas.

Não há como Abdellatif Kechiche para nos demonstrar como é à mesa que tudo começa (e que tudo pode terminar) – Não esqueço as cenas sublimes em torno de um almoço em «O Segredo de um Cuscuz».

Afinal, Abdellatif Kechiche (tal como Abbas Kiastomi) faz-me desaparecer no interior dos seus filmes, desaparecer no interior da sua realidade, sofrer e amar a existência sem história das suas personagens.

Ou seja, Abdellatif Kechiche faz da realidade um belíssimo cerimonial! Da fotogenia, uma paixão pela verdade!


jef, março 2026

«Mektoub, Meu Amor: Canto Segundo» (Mektoub, My Love: Canto Due) de Abdellatif Kechiche. Com Shaïn Boumedine, Ophélie Bau, Jodi Taylor, Salim Kechiouche, Andre Jacobs, Dany Martial, Delinda Kechiche, Alexia Chardard, Hafsia Herzi, Lou Luttiau, Marie Bernard, Meleinda Elasfour, Roméo De Lacour, Kamel Saadi, Hatika Karaoui, Athénaïs Sifaoui-Blanc, Christophe Brodu, Jeanne Corporon, Henri Cohen, Robin Brodu, Morgane Sallet-Doucey, Pauline Dumas, Emilia Suau, Magali Boudou, Laurent Garcia, Alexandre Ribot, Kader Bouallaga, Justine Garcia, Rabah Benjadou, Hélène Geier, Christian Prat. Argumento: Abdellatif Kechiche, Ghalya Lacroix. Produção: Abdellatif Kechiche, Riccardo Marchegiani. Fotografia: Marco Graziaplena. Música: Leo Caresio, Hugo Rossi. França, 2025, Cores, 134 min.

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