Como
um grande piscar de olho às viagens de Júlio Verne, Miguel Gomes entrega o
passaporte à imagem que corre lesta sob os nossos olhos enquanto vamos
perseguindo a perseguição que Molly (Crista Alfaiate) faz ao seu noivo Edward
(Gonçalo Waddington) que foge a sete pés de Rangum, na Birmânia, mal sabe da sua
chegada, para depois passar por todas as latitudes orientais. A voz off conta a
história na língua do país que vamos olhando. A narração e a leitura dos
telegramas pertencem a 1918, porém as imagens são de uma época muito para cá,
talvez contemporâneas, não sabemos. Pouco sabemos, aliás. O cenário é real mas
a ficção assenta-lhe bem. Quase não precisamos de lhe dar atenção, porque a
fotografia é rainha e o som é rei. A música descentra a narrativa.
Também
em «As Aventuras de um Chinês na China» de Júlio Verne ou «Tokyo-Ga» de Wim
Wenders (1985) o exotismo e a estranheza que provoca o ambiente oriental a um
ocidental são temas maiores. A discrepância temporal e a perturbação
cenográfica e sonora fez-me lembrar muito vagamente a linha operática de um dos filmes do
meu coração: «O Navio» de Federico Fellini (1983).
jef, agosto 2024
«Grand
Tour» de Miguel Gomes. Com Gonçalo Waddington, Crista Alfaiate, Cláudio da
Silva, Lang Khê Tran, Jorge Andrade, João Pedro Vaz, João Pedro Bénard, Teresa
Madruga, Joana Bárcia, Diogo Dória, Jani Zhao, Manuela Couto e Américo Silva. Argumento:
Mariana Ricardo, Telmo Churro, Maureen Fazendeiro, Miguel Gomes. Produção: Allan Ekelund. Fotografia: Rui Poças
AIP ABC, Sayombhu Mukdeeprom, Gui Liang. Som: Som: Vasco Pimentel, Li Kelan. Portugal
/ França / Itália / Alemanha / Japão / China, 2024, P /B e Cores, 128 min.