É
extremamente inteligente e ao mesmo tempo muito ternurento colocar Arthur (Cosmo) no
verdadeiro centro desta serena comédia dramática. Tudo muito simples ao começar por descrever Arthur, um ‘jack russell terrier’ que informa conseguir entender cerca de 150 palavras humanas, apesar de não falar. No filme, o cãozinho
não emite qualquer som mas fala em ‘legendas off’ e diz compreender a dor do
novo dono, Oliver (Ewan McGregor) quando este o traz para sua casa pois o seu
anterior dono já não o pode ter por se encontrar na fase terminal de uma doença. O
seu antigo dono é Hal (Christopher Plummer), pai de Oliver, um conservador de
museu que resolveu assumir a sua homossexualidade após a morte da mulher com
quem esteve casado 44 anos.
Tudo
se desenrola, afectuosamente, numa sucessão de flashbacks e flashforwards onde
vamos conhecendo a relação próxima de Oliver em criança com a sua mãe (Mary
Page Keller) e o permanente mas cerimonioso desconcerto dos seus pais; também
a posterior liberdade afectiva de Hal, que namora com Andy (Goran Visnjic), e acompanhando
a progressiva democratização da homossexualidade nos Estados Unidos. Oliver é designer
e ilustrador e, numa festa, aproxima-se de Anna (Mélanie Laurent), uma actriz
francesa que vive num hotel. Contudo, amor surge mas apresenta-se mais como dificuldade psicanalítica do que
solução progressiva, talvez mais como sintoma do que terapêutica. Mas ele, o amor, permanece indelével e afirma-se.
É
impressionante como um cão traz a reboque toda a estratégia de um filme,
construído frontalmente sobre o amor nas suas diversas faces e sem uma única centelha
de ódio ou recriminação. Um filme sobre o claro modo de aceitar o afecto como
veículo primordial da generosidade, lealdade, humanas (e caninas), também da
homossexualidade paterna tardia e, acima de tudo, da fase terminal e da morte de quem
mais se ama.
Um
filme que devia ser um caso de estudo cinematográfico. De uma beleza plástica fotográfica irrepreensível,
de extrema sobriedade narrativa, com actores cuja minúcia dramática consegue transformar um drama atroz numa quase comédia de final feliz.
jef,
janeiro 2026
«Assim
é o Amor» (Beginners) de Mike Mills. Com Cosmo (Arthur) Ewan McGregor (Oliver),
Christopher Plummer (Hal), Mélanie Laurent (Anna), Goran Visnjic (Andy), Kai
Lennox, Mary Page Keller, Keegan Boos, China Shavers, Melissa Tang, Amanda
Payton, Reynaldo Pacheco, Jodi Long. Argumento: Mike Mills. Produção: Miranda de Pencier, Lars Knudsen, Mark
Levinson, Leslie Urdang, Jay Van Hoy, Dean Vanech. Fotografia: Kasper
Tuxen. Música: Roger Neill, Dave Palmer, Brian Reitzell. Guarda-roupa: Jennifer
Johnson. EUA, 2010, cores, 105 min.







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