“Esta é a história de Deolinda.”
Isto não é fazer
‘spoiler’, como agora se diz… Não estrago a expectativa do leitor pela intriga,
pois Deolinda é a palavra primeira do romance.
Também nada desvendarei se disser que o leitor tem de
escolher o seu próprio caminho através das diversas veredas que Margarida
Fonseca Santos lhe dá a escolher. E mais digo, o melhor mesmo é o leitor
não se preocupar muito se, no inicio, se sentir confundido entre as vozes em
discursos directo e indirecto, aquelas narradas no masculino ou no feminino,
as casas em que a autora o posiciona. Avance, descobrindo as personagens que se
misturam num arco temporal de três gerações onde não surgem telemóveis ou
computadores, os telefones são pesados, pretos e com um disco a girar sobre os
algarismos. Onde o fascismo e o autoritarismo faziam regra, e os gorilas
apareciam à porta das associações de estudantes da cidade universitária para
reprimirem e sacarem as velhas máquinas “offset”. Avance e não tema, as coisas
vão-se compor pois 1973 não é infinito e 1974, está já aí e as portas de Caxias
abrir-se-ão. O 25 de Abril chega, apesar da morte que sempre, por norma
fatídica, molda em definitivo a visão curta que temos da vida e da respectiva estrutura. A
morte por símbolo.
Como por símbolo podemos tomar os três manuscritos que se vão
espalhando em folhas soltas, ou as três chaves que encerram definitivamente um
romance por estrear.
O leitor não tema, avance, deve recuar para compreender o modo como a autora escreve sem adjectivos, advérbios ou demais partículas a que aqui se chama “palha”, mas depois avance. Os diálogos são o modo preferido para narrar, o modo fragmentado uma espécie de poética sincopada.
Uma poética que acima de tudo narra a história de um país enraizado
na ruralidade e na dicotomia entre castas, numa estrutura social que roubava a
infância de um campo paupérrimo e interior para dar conforto a uma burguesia impante do seu litoral urbano que ia ocupando os novos bairros das cidades velhas. Um romance
construído por todas as vozes femininas que ressoam e se reflectem no
presente-passado de um escritor que as aguarda.
Concluindo: sim, esta é a verdadeira história de Deolinda.*
jef, abril 2026
*Sobre o tema propõe-se a leitura de «Na Terra dos Outros» de
Manuel Abrantes (Companhia das Letras, 2024).
https://deromaalondres01.blogspot.com/2025/04/sobre-o-livro-na-terra-dos-outros-de.html

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