terça-feira, 28 de abril de 2026

Sobre o livro «A Chave» de Margarida Fonseca Santos, Oficina do Livro 2026.



 







“Esta é a história de Deolinda.” 

Isto não é fazer ‘spoiler’, como agora se diz… Não estrago a expectativa do leitor pela intriga, pois Deolinda é a palavra primeira do romance.

Também nada desvendarei se disser que o leitor tem de escolher o seu próprio caminho através das diversas veredas que Margarida Fonseca Santos lhe dá a escolher. E mais digo, o melhor mesmo é o leitor não se preocupar muito se, no inicio, se sentir confundido entre as vozes em discursos directo e indirecto, aquelas narradas no masculino ou no feminino, as casas em que a autora o posiciona. Avance, descobrindo as personagens que se misturam num arco temporal de três gerações onde não surgem telemóveis ou computadores, os telefones são pesados, pretos e com um disco a girar sobre os algarismos. Onde o fascismo e o autoritarismo faziam regra, e os gorilas apareciam à porta das associações de estudantes da cidade universitária para reprimirem e sacarem as velhas máquinas “offset”. Avance e não tema, as coisas vão-se compor pois 1973 não é infinito e 1974, está já aí e as portas de Caxias abrir-se-ão. O 25 de Abril chega, apesar da morte que sempre, por norma fatídica, molda em definitivo a visão curta que temos da vida e da respectiva estrutura. A morte por símbolo.

Como por símbolo podemos tomar os três manuscritos que se vão espalhando em folhas soltas, ou as três chaves que encerram definitivamente um romance por estrear.

O leitor não tema, avance, deve recuar para compreender o modo como a autora escreve sem adjectivos, advérbios ou demais partículas a que aqui se chama “palha”, mas depois avance. Os diálogos são o modo preferido para narrar, o modo fragmentado uma espécie de poética sincopada.

Uma poética que acima de tudo narra a história de um país enraizado na ruralidade e na dicotomia entre castas, numa estrutura social que roubava a infância de um campo paupérrimo e interior para dar conforto a uma burguesia impante do seu litoral urbano que ia ocupando os novos bairros das cidades velhas. Um romance construído por todas as vozes femininas que ressoam e se reflectem no presente-passado de um escritor que as aguarda.

Concluindo: sim, esta é a verdadeira história de Deolinda.*


jef, abril 2026

*Sobre o tema propõe-se a leitura de «Na Terra dos Outros» de Manuel Abrantes (Companhia das Letras, 2024).

https://deromaalondres01.blogspot.com/2025/04/sobre-o-livro-na-terra-dos-outros-de.html

 

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