sábado, 25 de julho de 2026

Sobre o livro «Noite no Caminho de Ferro da Via Láctea» de Kenji Miyazawa, E-Primatur, 2026. Tradução e notas de António Barrento.



 







Um livro especial. Não apenas por incluir duas fábulas únicas e intrigantes do escritor e humanista Kenji Miyazawa (1896-1933) sobre como viver a espiritualidade activa entre a comunhão com os demais viventes humanos, a tecnologia em prol da melhoria de vida dos que mais necessitam e a conservação da natureza. «Noite no Caminho de Ferro da Via Láctea» e «A Biografia de Gusuko Budori» são, acima de tudo, excepcionais actos poéticos sobre a sobrevivência, a devoção literária e a abnegação à causa social.

Esqueçam as comparações aleatórias com «O Principezinho» de Antoine de Saint-Exupéry. São mundos paralelos, mas que dificilmente se tocam. São poesias diversas, a de Saint-Exupéry, um abstraccionismo intelectualmente adulto e disseminado; o mundo de Miyazawa é concreto, tecnológico, astronómico, paleontológico, agronómico e silvícola lembrando-me ainda trechos das aventuras de Stevenson, de Júlio Verne, dos Irmãos Grimm ou Selma Lagerlöf. Só que é tudo diferente! Intelectualmente puro, emocionalmente profundo e toldado pela ventura da dádiva e pelo altruísmo definitivo sem moeda de troca. Apenas entrega seguindo o despojamento budista de que Miyazawa era seguidor ou perseguindo o mundo dos Kami, essa xintoísta profusão de seres mitológicos que nos rodeiam e acompanham.

A par da leitura dos dois textos traduzidos directamente por António Barrento, somos auxiliados pelas circunstanciais notas pé-de-página, a introdução “Sobre o Autor” e o posfácio “Notas finais”, onde o tradutor enquadra temporalmente e politicamente a publicação das novelas. Para além da extensa bibliografia e um glossário onde pontuam, identificando-as, as muitas plantas mencionadas ao longo das narrativas, ou não tivesse Miyazawa estudado Agronomia.

Um livro que também é muito prático, emocionante e emocional que resulta de uma proposta editorial directa de António Barrento (e Hugo Xavier) para financiamento colectivo, através do qual os leitores podem ir construindo a própria editora E-Primatur.

Um livro rigorosíssimo a ser acarinhado e ‘estudado’ por todos os leitores (e editores).


jef, julho 2026

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