sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Sobre o filme «Os Pássaros» de Alfred Hitchcock, 1963








Após três anos de «Psico» (1960), surge outro dos ícones da cinematografia de Hitchcock, um ícone também do cinema do medo. Numa espécie de universo fechado, Bodega Bay (São Francisco, Califórnia), todas as aves (e não apenas da ordem passeriformes, dentro da classe aves, como erradamente a nomenclatura cinematográfica portuguesa fixou) se unem para atacar de modo abstracto o género humano. Tão abstracto que poderíamos até usar o adjectivo absurdo, pois os aninais serão sempre inocentes, porque involuntários e defensivos, quando se propõem atacar o bicho homem.

Logo Hitchcock usa a sua mestria para impor a definição cinematográfica de Medo, de Pânico, de Histeria. Nada mais terrível que a ausência de explicação lógica para um fenómeno que nos atormenta. – Não me esqueço do assustado modo em que saí do cinema Caleidoscópio, no Campo Grande, em Lisboa, após ver pela primeira vez o filme, a conselho dos meus pais, devotos a Hitchcock. Teria eu uns dezasseis ou desassete anos. E tinha eu entrado de peito feito dizendo que já nada me amedrontaria no cimema... – Medo absurdo, medo abstracto.

Contudo, por que acontecerá este fenómeno se tudo, absolutamente tudo, está filmado de modo artificial, cenicamente teatral. A desenvolta Melanie Daniels (Tippi Hedren) move-se em todo o cenário sem nunca se despentear ou desfigurar, mesmo quando conduz o pequeno barco em segredo até a casa de Mitch Brenner (Rod Taylor) por quem ficara atraída na loja de animais. Deseja entregar a Mitch o desejado casal de love-birds que será a prenda de aniversário da jovem irmã daquele, Cathy Brenner (Veronica Cartwright). Contudo, quase no final, como ponto climax do filme, Melanie resolve subir sozinha ao sótão da casa silenciosa para descobrir de onde virá um piar indefinido. Aí, toda a estrutura feminina mantida até ali é contrariada e o corpo de Tippi Hedren surge violentamente atacado, desfigurado, quase sexualmente exposto.

O filme não esconde preferir uma soberba iluminação vinda de um bastidor cénico e artificial que faz de todas as expressões um modo plástico de nos contar a história pelas palavras que as personagens nunca dirão.

Por um lado, as aves prestes a atacarem, por outro esse expressionismo do feminino contrariado, ao colocar Mitch entre as quatro mulheres: a mãe possessiva e ciumenta, Lidia Brenner (Jessica Tandy), a inocente irmã Cathy, a antiga hipotética namorada Annie Hayworth (Suzanne Pleshette) e a perturbadoramente revolucionária Melanie, causa e consequência desse pavor sem rosto, ornitológico, como diz a assustada mãe das crianças no restaurante (Doreen Lang).

Tudo Hitchcock faz condessar neste filme. No medo da perda, do abandono e do luto, como se o fim do mundo se anunciasse pela boca de um bêbado encartado (Karl Swenson) e não houvesse qualquer solução. Assim dita o final sem conclusão, assustadoramente calmo no interior dos gritos de corvos e gaivotas que apenas aguardam o novo sinal do instinto para desmembrar a humanidade.


jef, fevereiro 2026

«Os Pássaros» (The Birds) de Alfred Hitchcock. Com Rod Taylor, Jessica Tandy, Suzanne Pleshette, Tippi Hedren, Veronica Cartwright, Ethel Griffies, Charles McGraw, Ruth McDevitt, Lonny Chapman, Joe Mantell, Doodles Weaver, Malcolm Atterbury, John McGovern, Karl Swenson, Richard Deacon, Elizabeth Wilson, Bill Quinn, Doreen Lang. Argumento: Evan Hunter segundo o romance de Daphne Du Maurie. Produção: Alfred Hitchcock. Fotografia: Robert Burks. Som: Waldon Watson e William Russell. Efeitos especiais: Larry H. Hampton Guarda-roupa: Edith Head e Rita Higgs. EUA, 1963, Cores, 119 min.

 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Sobre o livro «O Fantasma da Ópera» de Gaston Leroux, DarkSide, 2025 (1910). Tradução de Fernando Paz.



 
















Numa cuidadíssima e recente edição da DarkSide (Rio de Janeiro, 2025), incluída na colecção “Medo Clássico”, ilustrada, capítulo a capítulo, com imagens extraídas do filme realizado um século antes por Rupert Julian (Lon Chaney, Ernst Laemmle, Edward Sedgwick), os mil rostos de Lon Chaney encantam, ensombram e caracterizam esta história romanticamente gótica.

Mais famosas que o texto original são todas as posteriores adaptações cénicas que parecem surgir como actos tentados de adaptação do romance de Gaston Leroux. Actos posteriores talvez frustrados pois esta história, girando a dois tempos, duas partes, surge inapropriável dado a versatilidade com que o autor preenche cada uma das duas séries de acontecimentos, começando por um astuto prefácio em que descreve as fontes de investigação, hipoteticamente reais, em que se baseou para reconstruir os acontecimentos descritos. Uma narrativa que sempre conta com alguns factos históricos baseados na construção da Ópera de Paris e no envolvimento daquele monumento nos episódios passados durante a Comuna de Paris e a invasão prussiana da cidade. Sobre tudo isso, surge o humor de Gaston Leroux ao descrever os acontecimentos e as personagens que, sendo acessórios à narrativa, tornam-se ao fim ao cabo parte essencial da atracção que ela exerce sobre o leitor. Nem a história da aparecida, desaparecida e reaparecida Christine Daaé, nem as vicissitudes aventurosas do atarantado visconde Raoul Chagny, nem as supostas visitações do fantasmagórico pré-esqueleto Erik fazem esquecer esse modo muito hábil com que Leroux sustenta a primeira parte de uma escrita próximo do policial, incluindo a transcrição oficial de diálogos, cartas, artigos de jornais e notas de pé de página sublinhando a respectiva verossimilhança. Tudo misterioso e pontuado pela comicidade quase “vaudeville” da atitude de certos personagens. Para chegar à segunda parte, num acto inventivo à guisa de Júlio Verne, fazendo descer o visconde de Chagny, através de sucessivos alçapões, até aos profundos e aquáticos subsolos da Ópera atrás do omnisciente (talvez a personagem mais forte, e também a mais esquecida nas sequentes adaptações dramáticas) o fantástico Persa que irá salvar o heróico casal e resgatará finalmente do tenebroso passado o pesaroso fantasma.

Um mundo trágico e cómico em simultâneo, um policial romanticamente operático, ou não ocorresse no grande edifício-emblema, a Ópera de Paris, onde o camarote 5, ainda hoje, assinala a eterna presença ficcional, quase posse abstractamente geográfica do omni-ausente Senhor da Máscara, o Anjo da Música!

Tão encantador quanto esta narrativa de uma versatilidade ora geograficamente truncada ora revestida pelos inúmeros modos diegéticos, surge o posfácio de Ana Paula Cabrera aglutinador de factos e ideias ficcionais que sempre girarão em torno desta eterna fantasia gótica.


jef, fevereiro 2026

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Sobre o filme «Valor Sentimental» de Joachim Trier, 2025

























Este é um filme sobre uma casa, outrora vermelha, e as gerações que por ela vão passando. As cenas iniciais são soberbas, as perspectivas da cenografia implacáveis. É um filme que tem por centro uma mulher Nora Borg (Renate Reinsve) que tal como para Myrtle Gordon (Gena Rowlands) em «Noite de Estreia» (John Cassavetes, 1977), o palco amedronta, persegue e reprime. É a causa disso que vamos acompanhando através da representação monumental da actriz Renate Reinsve. Nora tem uma irmã mais nova Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) que a protege como uma filha. A fantástica actriz Inga Ibsdotter Lilleaas é como o espelho no qual as duas se revêem no difícil afastamento de um pai, cineasta famoso tendo na mão um argumento para um novo filme – Gustav Borg (Stellan Skarsgård). Tal como Woody Allen já o representara em «Intimidade / Interiors» (1978). 

As duas mulheres seguirão o impulso de aproximação-afastamento de um pai que regressa finalmente e requer atenção. Uma terceira mulher funcionará como desbloqueio do relacionamento entre pai e filhas. É a famosa actriz Rachel Kemp (Elle Fanning) chamada pelo realizador para ocupar o papel principal no seu filme. Esta será o terceiro lado daquele reflexo.

Se o filme tem por centro, afinal, uma casa e três actrizes que giram em torno do ego de Gustav Borg, e os reflexos psicológicos e emocionais que este nelas faz descarregar, no seu decorrer a carga estética e emocional vai amortecendo ou amolecendo em direcção a uma obra que se vai esquecendo aos poucos de Ingmar Bergman, John Cassavetes ou Woody Allen para terminar numa sequència de cenas tão diminuta e lisa, certamente previsível, que faz desbaratar o papel fundamental daqueles actores e o papel de uma casa agora branca que há décadas parece estar a afundar-se nos seus alicerces.


jef, fevereiro 2026

«Valor Sentimental» (Affeksjonsverdi / Sentimental Value) de Joachim Trier. Com Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Inga Ibsdotter Lilleaas, Elle Fanning, Anders Danielsen Lie, Jesper Christensen, Lena Endre, Cory Michael Smith, Catherine Cohen, Andreas Stoltenberg Granerud, Øyvind Hesjedal Loven, Lars Väringer, Ida Marianne Vassbotn Klasson, Vilde Søyland. Argumento: Eskil Vogt, Joachim Trier. Produção: Maria Ekerhovd, Andrea Berentsen Ottmar. Fotografia: Kasper Tuxen. Música: Hania Rani. Noruega / Dinamarca / Suécia / França / Alemanha / Grã-Bretanha / Turquia, 2025, Cores, 133 min.

 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Sobre a apresentação do livro «Cópia Falsa» de João Eduardo Ferreira, A Morte do Artista, 2026
























Ana Costa Franco, José Sá Fernandes e Pedro Castro Henriques estarão connosco do dia 7 de Fevereiro, sábado, pelas 18h30, Na Biblioteca Municipal Camões, no Chiado, em Lisboa, para a apresentação do livro «Cópia Falsa» de João Eduardo Ferreira com fotografias de Paulo Romão Brás.

«Imagine-se um país solarengo à beira-mar plantado. Praças, praias, miradouros, pelourinhos. Cenários exteriores e interiores. Paisagens de fazer crescer água na boca. Um lugar alegre construído apenas por poetas tristes.»

Onde acompanhamos o percurso de alguém que não sabe bem a quantas anda ou em que casa mora. Por isso, acaba a percorrer uma rua circular dentro do bairro e da sua memória. Assim, a Praça de Londres assume o papel de protagonista por entre as deixas de um narrador que defende as múltiplas vidas da narrativa no interior da sua cidade.

O lugar geográfico onde vivemos é também o lugar que já ocupámos e a nossa memória transformou. Afinal, o lugar que, um dia, pensamos ainda vir a habitar. Contudo, a cidade que julgamos ser nossa é, na realidade, aquela construída por operários, engenheiros civis, arquitectos, designers, topógrafos, reis ou presidentes de uma república, poetas. A cidade de terramotos, terraplanagens, andaimes, colinas, miradouros e jardins. A cidade que sonhamos sempre vir a pertencer.

jef, fevereiro 2026

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Sobre o filme «Jovem e Inocente» de Alfred Hitchcock, 1937



 























Logo após os primeiros minutos sabemos quem é o algoz, quem é a vítima, quem é o réu inocente, por quem este se apaixonará. E o filme será a busca pela inocência, juvenil e ameaçada. O espectador é, na realidade, ‘o homem que sabia demais’.

Logo depois saberemos também que o filme é uma altíssima comédia onde os diálogos torrenciais são literários e entendemos que, acima de tudo, são estes que constroem cada uma das personagens. Figuras sempre à beira do absurdo, do desconcerto ou do incrédulo que nos fazer seguir entusiasmados atrás das pistas inverosímeis até à soberba cena final do jantar-concerto de gala (sob planos longuíssimos e superiores) onde devem ser os espectadores, mais uma vez, a tentar descobrir ‘onde estará o wally’, ou seja o assassino. Uma cena quase a lembrar os Irmãos Marx ou a movimentação de multidões de Jean Renoir. Contudo, todas as anteriores cenas de grupo são teatralmente extraordinárias – no interior da esquadra da polícia e no tribunal, os almoços em família, a delirante festa infantil em casa da tia, a cena de pancadaria na taberna Tom’s Hat, ...

Hitchcock filma com um rigor e uma minúcia impressionantes e deixa a intriga nas mãos de pormenores incríveis, de olhares expressionistas à cinema mudo, de um humor delirante! Fica ainda para o espectador a tarefa de descobrir onde se encontra o realizador no meio de uma certa e movimentada cena inicial.

Um filme que é uma sequência exaustiva de mestria cinematográfica e um verdadeiro e divertido festim para quem gosta de ir ao cinema.


jef, janeiro 2026

«Jovem e Inocente» (Young and Innocent) de Alfred Hitchcock. Com Nova Pilbeam, Derrick De Marney, Percy Marmont, Edward Rigby, Mary Clare, John Longden, George Curzon, Basil Radford, Pamela Carme, George Merritt, J.H. Roberts, Jerry Verno, H.F. Maltby, John Miller, Gerry Fitzgerald. Argumento: Charles Bennett, Edwin Greenwood, Anthony Armstrong baseado no romance “A Shilling for Candles” de Josephine Tey. Diálogos: Gerald Savory. Produção: Edward Black / Gainsborough. Fotografia: Bernard Knowles. Música: Louis Levy. Guarda-roupa: Marianne. Grã-Bretanha, 1937, P/B, 82 min.

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Sobre o filme «Kontinental ‘25» de Radu Jude, 2025

 

 
































Estamos em Cluj, importante cidade histórica romena, a oeste, na Transilvânia. Orsolya (Eszter Tompa) é casada, mãe de três filhos, já foi professora universitária, agora é oficial de justiça. Vive numa urbanização de certo requinte, já a caminho da montanha, numa zona que tem sido invadida pela construção desenfreada. A especulação imobiliária impõe um novo hotel ‘de estilo’ num bairro histórico – Kontinental Boutique. Orsolya deve cumprir a ordem judicial e fazer desocupar um sem-abrigo que continua a viver na cave de um velho edifício, apesar de todas as prerrogativas e adiamentos que ela lhe tem concedido. Orsolya chega condoída mas leva a polícia e o serralheiro para abrir a porta. Eles aguardam mais algum tempo para que os haveres sejam arrumados. Entretanto, a tragédia acontece.

Orsolya não suporta o peso e a angústia pela culpa que carrega e não consegue partir de férias com a família.

O filme faz-se em grandes e longos planos parados da cidade antiga e da cidade nova, das velhas paredes e das paredes em construção. Entrecruzados por outros planos, câmara fixa, em diálogo, onde todos, absolutamente todos, negam a assunção da culpa que ela carrega – o marido, o chefe da polícia, a amiga, a mãe, o ex-aluno ciclista da glovo e amante de axiomas budistas, o padre ortodoxo… – cada um à sua maneira demonstra como a sua culpa é, de certo modo, um acto falhado. Como a culpa é um axioma da própria moral mas sem possibilidade de demonstração. Por ali, também passa a eterna rivalidade territorial entre húngaros e romenos, as línguas, o extremismo de Orban, a xenofobia, a segregação, a arquitectura, a desigualdade social, a especulação, a própria religião como proposta lixiviadora. 

Sintomática é a cena onde a extraordinária actriz Eszter Tompa reza o Pai Nosso no parque temático junto aos dinossauros do Jurássico.

Uma fábula moral para ver com o tempo lento da moral, da razão e da arquitectura.


jef, janeiro 2026

«Kontinental ‘25» de Radu Jude. Com Eszter Tompa, Gabriel Spahiu, Adonis Tanta, Oana Mardare, Serban Pavlu, Annamária Biluska, Marius Damian, Theodor Graur, Petro Ionescu, Matei Jude, Ilinca Manolache, Oana Mardare, Iulia Muresan, Daniel Paleacu, Marius Panduru, Endre Rácz, Vlad Semenescu, Adrian Sitaru, Gabriel Spahiu, Tamara Szucs. Argumento: Radu Jude. Produção: Rodrigo Teixeira, Alexandru Teodorescu. Fotografia: Marius Panduru. Guarda-roupa: Ciresica Cuciuc. Roménia, 2025, cores, 109 min.

 


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Sobre o filme «Miroirs Nº. 3» de Christian Petzold, 2025




 











O realizador regressa aos seus melhores e mais originais argumentos, numa espécie de sequela do suspense hitchcockiano onde a ausência de explicação se transforma para o espectador no dilema supremo que ele próprio tem de resolver até chegar ao fim. Por que razão Laura (Paula Beer) se suspende sobre o rio, depois na sua margem, olhando distante os reflexos na superfície da água? Por que perde a mala, entretanto? Por que não dá qualquer explicação ao namorado, Jakob (Philip Froissant), quando entra em casa mais tarde? Todas, absolutamente todas as perguntas, parecem estar encerradas no limbo psicanalítico do silêncio. As imagens sucedem-se simples e perfeitas, dramáticas, artificiais, exteriores à realidade e ao próprio cinema, como num palco (com a sintomática fotografia de Hans Fromm). Contudo, toda a intriga se constrói sobre a expressão das personagens, na perturbação silenciosa e solitária de Betty (Barbara Auer), quando esta recebe carinhosamente Laura em sua casa, após esta sofrer o acidente e permanecer, também ela, num mutismo próximo da ausência. Mas se em Hitchcock todos os mistérios e inseguranças cénicas estratégicos, devendo ser explicados e conclusivos moralmente, aqui o sorriso de Laura, no final, ao regressar a casa (cruzando dois negros separadores), num plano cópia daquele com que o filme se inicia, parece dar-nos o cabal desfecho, entrega-nos a razão que tentámos descortinar desde o início. Ora, desvanece-se a dimensão categórica de Hitchcock e entra uma troca de olhares densos, ora incautos ora ameaçadores, ora inseguros ora poderosos, muito teatrais muito bergmanianos. Aliás, nessa insatisfação moral, digamos amoral, inexplicada, concentra-se a enorme dádiva cinematográfica de Ingmar Bergman. Por que razão Laura interioriza e surge indiferente à morte do namorado? Por que se distancia da própria casa mas regressa para o exame de piano sobre uma partitura de Ravel (Miroirs No. 3, Une Barque sur l'Ocean)?

Tudo fica no ar aquaticamente inesquecível.

Um belo e misterioso filme que merece uma segunda visita, hithcocks ou bergmans à parte.


jef, janeiro 2026

«Miroirs Nº. 3» de Christian Petzold. Com Paula Beer, Barbara Auer, Matthias Brandt, Enno Trebs, Philip Froissant, Hendrik Heutmann, Christian Koerner, Victoire Laly. Argumento: Christian Petzold. Produção: Anton Kaiser, Florian Koerner von Gustorf, Julius Windhorst, Michael Weber. Fotografia: Hans Fromm. Guarda-roupa: Katharina Ost. Alemanha, 2025, cores, 85 min.

 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Sobre o filme «Assim é o Amor» de Mike Mills, 2010
























É extremamente inteligente e ao mesmo tempo muito ternurento colocar Arthur (Cosmo) no verdadeiro centro desta serena comédia dramática. Tudo muito simples ao começar por descrever Arthur, um ‘jack russell terrier’ que informa conseguir entender cerca de 150 palavras humanas, apesar de não falar. No filme, o cãozinho não emite qualquer som mas fala em ‘legendas off’ e diz compreender a dor do novo dono, Oliver (Ewan McGregor) quando este o traz para sua casa pois o seu anterior dono já não o pode ter por se encontrar na fase terminal de uma doença. O seu antigo dono é Hal (Christopher Plummer), pai de Oliver, um conservador de museu que resolveu assumir a sua homossexualidade após a morte da mulher com quem esteve casado 44 anos.

Tudo se desenrola, afectuosamente, numa sucessão de flashbacks e flashforwards onde vamos conhecendo a relação próxima de Oliver em criança com a sua mãe (Mary Page Keller) e o permanente mas cerimonioso desconcerto dos seus pais; também a posterior liberdade afectiva de Hal, que namora com Andy (Goran Visnjic), e acompanhando a progressiva democratização da homossexualidade nos Estados Unidos. Oliver é designer e ilustrador e, numa festa, aproxima-se de Anna (Mélanie Laurent), uma actriz francesa que vive num hotel. Contudo, amor surge mas apresenta-se mais como dificuldade psicanalítica do que solução progressiva, talvez mais como sintoma do que terapêutica. Mas ele, o amor, permanece indelével e afirma-se.

É impressionante como um cão traz a reboque toda a estratégia de um filme, construído frontalmente sobre o amor nas suas diversas faces e sem uma única centelha de ódio ou recriminação. Um filme sobre o claro modo de aceitar o afecto como veículo primordial da generosidade, lealdade, humanas (e caninas), também da homossexualidade paterna tardia e, acima de tudo, da fase terminal e da morte de quem mais se ama.

Um filme que devia ser um caso de estudo cinematográfico. De uma beleza plástica fotográfica irrepreensível, de extrema sobriedade narrativa, com actores cuja minúcia dramática consegue transformar um drama atroz numa quase comédia de final feliz.


jef, janeiro 2026


«Assim é o Amor» (Beginners) de Mike Mills. Com Cosmo (Arthur) Ewan McGregor (Oliver), Christopher Plummer (Hal), Mélanie Laurent (Anna), Goran Visnjic (Andy), Kai Lennox, Mary Page Keller, Keegan Boos, China Shavers, Melissa Tang, Amanda Payton, Reynaldo Pacheco, Jodi Long. Argumento: Mike Mills. Produção: Miranda de Pencier, Lars Knudsen, Mark Levinson, Leslie Urdang, Jay Van Hoy, Dean Vanech. Fotografia: Kasper Tuxen. Música: Roger Neill, Dave Palmer, Brian Reitzell. Guarda-roupa: Jennifer Johnson. EUA, 2010, cores, 105 min.

 





domingo, 18 de janeiro de 2026

Sobre o filme «Pai Mãe Irmã Irmão» de Jim Jarmusch, 2025





























Algures em New Jersey. Dublin. Paris.

Três episódios sobre irmandade. Em cada um deles dois irmãos confrontam-se e unem-se. E o último é o único dos episódios onde a ausência de silêncio entre irmãos é aquele em que a ausência dos pais está presente. Nos dois primeiros, se não existe propriamente cumplicidade está presente a urgência da respectiva fuga! Claro que o pai (Tom Waits) faz tudo para que os filhos, Jeff (Adam Driver) e Emily (Mayim Bialik) cumpram a função e desapareçam, pois a sua vida não é aquela; e a mãe (Charlotte Rampling) não é propriamente a mais carinhosa para as filhas, Timothea (Vicky Krieps) e Lilith (Sarah Greene), que olham constantemente para o relógio para poderem desamparar a loja do anual encontro com a progenitora.

No último, a caricatura sarcástica, quase burlesca, das personagens desaparece e Jim Jarmusch regressa carinhoso com os dois irmãos, Jeanette (Indya Moore) e Skye (Philippe Azoury) em busca das suas memórias enquanto desfazem a casa onde viveram com aos pais.

As cores são tão importantes quanto os silêncios quanto as canções que lhes dão o mote (Jim Jarmusch e Annika Henderson) quanto esse lado complacentemente onírico que sempre o realizador coloca sobre os personagens e as suas histórias. Tão importantes quanto os skaters a centrarem-se no mundo onde a solidão faz o seu inexorável percurso e o rolex, que é verdadeiro ou de contrafacção.

Pode não ser o melhor filme do terno realizador, mas sempre é uma obra maravilhosa de Jim Jarmusch.


jef, janeiro 2026

«Pai Mãe Irmã Irmão» (Father Mother Sister Brother) de Jim Jarmusch. Com Tom Waits, Adam Driver, Mayim Bialik, Charlotte Rampling, Cate Blanchett, Vicky Krieps, Sarah Greene, Indya Moore, Philippe Azoury, Luka Sabbat, Françoise Lebrun, Beatrice Domond, Stephen Ostrowski, Eduardo Hoffman, Daire Mcgorman, Dave Murphy, Tom O'Reilly. Sébastien Rolando-Lapierre, Sarah Ribeiro. Argumento: Jim Jarmusch. Produção: Joshua Astrachan, Charles Gillibert, Carter Logan, Atilla Salih Yücer. Fotografia: Frederick Elmes e Yorick Le Saux. Música: Annika Henderson, Jim Jarmusch. Guarda-roupa: Catherine George. EUA / Irlanda / França, 2025, Cores, 110 min.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Sobre a peça «Cats» de Andrew Lloyd Webber, Campo Pequeno, 2026


























Um estranho objecto de encantamento. À partida teria tudo para me afastar emocional e esteticamente, mas a realidade é que me conquistou quando Grizabella (Jacinta Whyte), a gata que deixou a tribo, correu mundo, envelheceu e agora deseja voltar, fala da experiência e do significado da experiência dando a entender que esse significado é na realidade o preço da memória. “Memory” é a canção padrão que vai sendo desvendada ao longo da peça até se revelar, finalmente, como ícone apoteótico.

Claro que ainda mais encantador é o facto de, para terminar, esvaziando o impacto emocional do “esquecimento”, a canção dita e repete a máxima universal: “Não pensem que um gato é um cão! Dêem-lhe primeiro caviar, só depois talvez haja alguma hipótese do gato vos aceitar!”.

Quem não conheça o génio de um gato…

O facto é que musicalmente é surpreendente, deixando um lastro de alegre melancolia numa peça que não é para crianças nem deixa de ser. Enfim, teatro para infâncias nostálgicas!

Estranho! Andrew Lloyd Webber consegue a proeza de criar uma espécie de poema sinfónico para bailado, digamos “clássico”, onde os números se sucedem, contando a história dos vários gatos e das suas diversas personalidades e tropelias, como números de cabaré ou vaudeville. Entrecruza trechos sinfónicos sintomáticos com a aura musical muito anglo-saxónica, fazendo lembrar os clássicos «Mary Poppins» ou «Oliver» e misturando a minha suprema reminiscência irlandesa dos Pogues ou das canções fundamentais dos Monty Python.

A realidade é que a memória tem um papel fundamental na estabilidade da nossa estrutura proto-arqueológica diária. Os gatos sabem disso e reflectem permanentemente ao sol sobre o significado da experiência e a justiça do seu próprio nome.


10 de janeiro de 2026

«Cats» de Andrew Lloyd Webber baseado na obra de T.S. Eliot “Old Possum's Book of Practical Cats”. Com Jacinta Whyte (Grizabella), Martin Callaghan (Old Deuteronomy, líder dos gatos Jellicle), e Russell Dickson (Munkustrap, o narrador), Rum Tum Tugger (Harrison Wilde), Skimbleshanks (Philip Bertioli), e Gus/Bustopher Jones (Hal Fowler). Orquestra conduzida por Daniel Griffith.