quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Sobre o filme «Jovem e Inocente» de Alfred Hitchcock, 1937



 























Logo após os primeiros minutos sabemos quem é o algoz, quem é a vítima, quem é o réu inocente, por quem este se apaixonará. E o filme será a busca pela inocência, juvenil e ameaçada. O espectador é, na realidade, ‘o homem que sabia demais’.

Logo depois saberemos também que o filme é uma altíssima comédia onde os diálogos torrenciais são literários e entendemos que, acima de tudo, são estes que constroem cada uma das personagens. Figuras sempre à beira do absurdo, do desconcerto ou do incrédulo que nos fazer seguir entusiasmados atrás das pistas inverosímeis até à soberba cena final do jantar-concerto de gala (sob planos longuíssimos e superiores) onde devem ser os espectadores, mais uma vez, a tentar descobrir ‘onde estará o wally’, ou seja o assassino. Uma cena quase a lembrar os Irmãos Marx ou a movimentação de multidões de Jean Renoir. Contudo, todas as anteriores cenas de grupo são teatralmente extraordinárias – no interior da esquadra da polícia e no tribunal, os almoços em família, a delirante festa infantil em casa da tia, a cena de pancadaria na taberna Tom’s Hat, ...

Hitchcock filma com um rigor e uma minúcia impressionantes e deixa a intriga nas mãos de pormenores incríveis, de olhares expressionistas à cinema mudo, de um humor delirante! Fica ainda para o espectador a tarefa de descobrir onde se encontra o realizador no meio de uma certa e movimentada cena inicial.

Um filme que é uma sequência exaustiva de mestria cinematográfica e um verdadeiro e divertido festim para quem gosta de ir ao cinema.


jef, janeiro 2026

«Jovem e Inocente» (Young and Innocent) de Alfred Hitchcock. Com Nova Pilbeam, Derrick De Marney, Percy Marmont, Edward Rigby, Mary Clare, John Longden, George Curzon, Basil Radford, Pamela Carme, George Merritt, J.H. Roberts, Jerry Verno, H.F. Maltby, John Miller, Gerry Fitzgerald. Argumento: Charles Bennett, Edwin Greenwood, Anthony Armstrong baseado no romance “A Shilling for Candles” de Josephine Tey. Diálogos: Gerald Savory. Produção: Edward Black / Gainsborough. Fotografia: Bernard Knowles. Música: Louis Levy. Guarda-roupa: Marianne. Grã-Bretanha, 1937, P/B, 82 min.

 

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