Meu Caro Chico
Há
discos que o tempo e o intrínseco valor musical fazem saltar das prateleiras carimbadas por épocas, estilos e rótulos fáceis, entrando nos dignos
escaparates da minha música clássica. Há também canções que se ouvem numa época, numa
certa idade, que as torna geneticamente nossas, transformando os seus direitos
em património cultural sem região ou relógio. Verdi, Gershwin, Mozart, José
Afonso, Monteverdi, Cole Porter, Jacques Brel, Bach, Tom Waits… A esta lista,
felizmente, poderão juntar-se muitos outros nomes mas ficará sempre incompleta
enquanto não incluir o do inventor de canções Chico Buarque de Holanda. Entre
obras inesquecíveis, encontramos um disco único que consegue a proeza de
juntar dez dessas canções, unidas pela poética abstractamente concreta, os
arranjos sinfónicos, o fundamento dos coros e, porque não, o acaso dos meus
ouvidos. Afinal, «Meus Caros Amigos» é um disco absolutamente meu! Lá dentro,
temos a profundidade de “O Que Será (À Flor da Terra)”, o hino anti-machista “Mulheres
de Atenas”, o acto de regeneração afectiva de “Olhos nos Olhos” e “Você Vai Me
Seguir», a urgência social e ecológica de “Vai Trabalhar Vagabundo” e “Passaredo”,
a ternura quase de embalar “A Noiva da Cidade”, o eterno retorno e a saudade de
“Basta um Dia” e “Meu Caro Amigo”. Escutar de novo, agora, este disco é reencontrar
lá dentro a melhor memória de mim mesmo e, ao mesmo tempo, reviver o prazer de
ouvir cantar (e com que paixão!) em português. «Meus Caros Amigos» é um dos
poucos discos a levar para uma certa Berlenga, se deserta, minúscula e
longínqua.
«Meus Caros Amigos» de Chico Buarque, Philips, 1978
13
de Dezembro de 1993
jef