quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Sobre o filme «Silêncio» de Martin Scorsese, 2016


















Sobre o filme «Silêncio» de Martin Scorsese, 2016

Martin Scorsese coloca o dedo na ferida.
A maior incoerência do ente humano é a sua espiritualidade. Tudo se condensa num diálogo refractário, silencioso mas amplificado.
Lembro-me dos monólogos de Robert Bresson «Diário de Um Pároco de Aldeia» (1950), de Ingmar Bergman «A Fonte da Virgem» (1960), de Andrei Tarkovsky «Stalker» (1979), de João Mário Grilo «Os Olhos da Ásia» (1996), de Hany Abu-Assad «O Paraíso, Agora!» (2005):
O que fazer com o nosso ‘querer’? Onde nos leva o nosso ‘crer’? Acreditaremos mesmo na nossa vontade? E se ao perigoso caldo sobrepusermos Deus e a sua Vontade? Qual o limite dessa crença, até onde nos poderá levar?
Contudo, «Silêncio» toca em muitas outras palavras inevitáveis:
Apostatar, renunciar, abjudicar. Pisar a imagem Cristo para salvar os cristãos japoneses que estão a ser, para isso, frontalmente torturados até à morte. Será este um acto igual a renunciar à substância de Cristo, aos fundamentos divinos, à própria Fé? Os recentes cristãos morrem pela imagem de Deus na Terra, os padres jesuítas hesitam. Onde paira a verdade? Quem detém a fé mais inabalável? Uma questão séria que a semiologia deve explicar para a História das Civilizações compreender.

O símbolo pode alienar a ideia, diria o Islão.

«Faça favor de a pisar, salvá-los-á da morte. Uma mera formalidade» diz o inquisidor japonês pelo meio de um monólogo incisivo, racional e lógico, onde devolve o tema do fundamentalismo e da intolerância para o lado dos jesuítas portugueses que não compreendem a estrutura social do Japão. Deste lado está a perseguição oficial e ilimitada aos cristãos mas também o Budismo, o contrato comercial exclusivo com os Holandeses, a disputa feroz dos mares do rico Oriente pelas potências ocidentais, a miséria de um povo perdido no meio de um arquipélago medieval, um povo a quem, secretamente, é prometido o Paraíso se jurar abnegação a um «formal» crucifixo.

Aqui, Martin Scorsese não abandona o dicionário violento, visual e sonoro, com que costuma abominar Hollywood e os Óscares da Academia, mas vai colocar essa violência explícita a favor da total abstracção que é a salvação pelo martírio, o abandono ao suplício, a resistência à dor física, ao limite da condição vital, à entrega voluntária para a morte. O realizador consegue, de modo claro, sublinhar a dúvida sistemática embora diversa que atinge os três missionários da Companhia de Jesus: Cristóvão Ferreira (Liam Neeson), Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Drive). Três modos de dialogar com o inquisidor. Três modos de encarar o conflito entre a verdade e a incerteza no desencontro das civilizações.

Martin Scorsese anuncia esteticamente a Dúvida que, quer se queira ou não, é um dos princípios filosóficos da incoerência espiritual do ente humano. Do próprio cristianismo. A mesma dúvida que o silêncio fez ecoar, as mesmas palavras gritadas por Cristo na última hora:
«Pai, por que me abandonaste?».

jef, janeiro 2017

«Silêncio» (Silence) de Martin Scorsese. Com Andrew Garfield, Liam Neeson, Adam Driver, Tadanobu Asano, Ciarán Hinds, Nana Komatsu, Ryo Kase , Yoshi Oida Yosuke Kubozuka, Shinya Tsukamoto, Issei Ogata. Baseado no livro «Silêncio» de Shusaku Endo (1966). México /EUA / Taiwan, 2016, Cores, 161 min.

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