segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Sobre o livro «Animalescos» de Gonçalo M. Tavares, Relógio D’Água 2013














Ser vivo, ser animal, ser humano.
Imagine-se que as palavras sonham, melhor, que as palavras têm pesadelos, desses que associam sujeito, verbo, complementos directo e indirecto, num sistema lógico mas que nos conduzem a uma porta fechada, até à queda livre sem saída, ou ilógica.

Segundo o Dicionário / Catálogo do autor, “Animalescos” é o caderno n.º 32 e situa-se no sector intitulado «Canções». Os pontos finais praticamente não são utilizados, as maiúsculas diluem-se à extinção, a leitura surge corrida ligando imagens e acções, consequências e sintomas. Ideias. A palavra «Cristo» em destaque. Um código gramatical onde o espírito nasce do corpo e a máquina do animal, na intimidade de uma série de monólogos oníricos indexados a palavras-chave ou índices remissivos.

«raspo a madeira para perceber se este é um material sujeito a neuroses, como os humanos, se a madeira fica louca aos poucos, se apodrecer é isso ou apenas uma mudança fisiológica; a perda de força do material, interessa-me isto, perceber na madeira o que é a neurose e no homem o que é esse apodrecimento que é visível na madeira cheia de humidade e tempo;» pp. 33.

A Natureza como ponto de fuga ou estratégia de sobrevivência. O leitor que é, ao mesmo tempo, ser vivo, ser animal e ser humano, que decida.

jef, agosto 2014

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