terça-feira, 2 de junho de 2026

Sobre o filme «My Blueberry Nights – O Sabor do Amor» de Wong Kar Wai, 2007

 


 






















Longe do Oriente luminoso dos anteriores filmes, Wong Kar Wai chega a uma América feita de estrada e também, de certo modo, da melancolia da tradicional “crónica americana”. Por um lado, o filme deve deixar os críticos desesperados pelo baixar de braços do realizador perante a norma de um certo cinema de Hollywood; por outro, coloca o espectador desse cinema num certo plano de tédio face ao vagar com que o realizador vai tecendo as diversas histórias protagonizadas por Elizabeth (Norah Jones) por entre as luzes em reflexo, o brilho refractado pelos vidros das montras dos diners, pelas cores saturadas sobre carros, balcões e fichas ou cartas de poker, pelo derreter do gelado sobre a tarte de mirtilho. Também pela longa espera de um final anunciado.

Mas é, exactamente, esse amor de Wong Kar Wai pela cartilha do cinema americano, transformando-o no seu modo próprio de raras vezes nos dar o panorama ou o grande plano, privilegiando o plano tão próximo, desfocado ou abstracto, sobre objectos e rostos, que encanta. Encanta os belíssimos rostos de Norah Jones, Jude Law, Rachel Weisz, Natalie Portman ou David Strathairn, numa série de retratos quantas vezes ilustrados pelas canções de Norah Jones, Cat Power, Otis Redding, Julie London ou a fabulosa versão de “Harvest Moon” de Neil Young pela não menos fabulosa Cassandra Wilson, ou o Yumeji's Theme de Chikara Tsuzuki. Ou, então, os temas compostos pelo super mago Ry Cooder. (Muita atenção também ao guarda-roupa.)

Sim. O cinema também é feito desse encantamento que não se define, nem se limita por regras ou normas, nem pelo estranho poder de rever algo que já vimos muitas de vezes, entre o road movie, a nostalgia do deserto, a protecção de um diner aberto pela noite fora ou o vídeo-clip com um happy-end, terno e nostálgico.

Um Mundo hoje não presta para nada e eu estava mesmo a precisar de um filme assim.


jef, junho 2026

«My Blueberry Nights – O Sabor do Amor» de Wong Kar Wai. Com Norah Jones, Jude Law, Rachel Weisz, Natalie Portman, Chad R. Davis, Katya Blumenberg, John Malloy, Demetrius Butler. Frankie Faison, David Strathairn, Adriane Lenox, Benjamin Kanes, Cat Power, Michael Hartnett, Michael May, Jesse Garon, Sam Hill, Tracy Elizabeth Blackwell, Michael DeLano, Audrei Kairen, Bill Hollis. Argumento: Wong Kar-Wai e Lawrence Block. Produção: Wong Kar-Wai, Jacky Yee Wah Pang. Fotografia: Darius Khondji e Pun Leung Kwan. Música: Ry Cooder. Guarda-roupa: William Chang, Sharon Globerson. China / França / Hong Kong / EUA, 2007, Cores, 95 min.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Sobre o livro «Plantas da Bíblia, nos jardins de Belém - Lisboa», Afrontamento 2023. Edição de Maria Cristina Duarte, César Augusto Garcia, Arnaldo do Espírito Santo, Ana Luísa Soares.


 















«Mais do que um livro, é uma biblioteca: pode ser lida como cancioneiro, livro de viagens, memórias de corte, antologia de preces, cântico de amor, panfleto político, oráculo profético, correspondência epistolar, livro de imagens, texto messiânico. E colada a esta palavra humana… a revelação de Deus.»

Assim, escreveu José Tolentino de Mendonça em «A Leitura Infinita, Bíblia e Interpretação» (Assírio & Alvim, 2008). Na realidade, a Bíblia não tem um fim, pois não está estabelecido, para este livro, um modo de usar. Usemo-lo agora, pois, como compêndio botânico.

«A visita do Papa Francisco a Portugal, no âmbito da Jornada Mundial da Juventude 2023 (JMJ2023), e o cerne do pensamento do Seu pontificado – A fraternidade entre os povos e o pedido ecológico para que cuidemos da nossa casa comum – foram o motivo para este livro.»

Justifica assim José Sá Fernandes, no início, este livro.

Composto essencialmente por três capítulos fortes: (1) a geografia dos jardins em torno de Belém – Lisboa; (2) a simbologia histórica das plantas na diversidade de povos, culturas e crenças e (3) o conjunto de fichas sobre as diversas plantas bíblicas. Contém ainda um mapa de localização, para além dos necessários anexos finais com as “espécies referidas por jardim” e os índices de nomes comuns e latinos.

No final, dando ao símbolo uma semiologia ecuménica diz-se:

«As árvores são, em si mesmo, símbolos de vida, encerrando força e vigor, perenidade e regeneração, a ligação, para muitas crenças e religiões, entre o espírito e o material. (…) Assim, no âmbito da JMJ2023, pretendeu-se homenagear a árvore, e tudo o que representa, com a plantação no Jardim Botânico Tropical de diversas árvores-símbolo: a oliveira (Olea europaea), para o cristianismo e judaísmo, a tamareira (Phoenix dactylifera), para o islamismo, o pessegueiro (Prunus persica), para o taoismo, e a figueira-dos-pagodes (Ficus religiosa) e a figueira-de-bengala (Ficus benghalensis) para o budismo e o hinduísmo.»

Deste modo, confirma-se como, acima de tudo, o homem é o ser dos símbolos e sinais – a casa comum, a árvore da vida, os jardins do Paraíso e o Livro.

                    

jef, maio 2026

*botânica


quinta-feira, 28 de maio de 2026

Sobre o filme «A Palavra» de Carl Theodor Dreyer, 1955



 


















Uma questão de espiritualidade, mais do que de fé.

A complexa beleza do filme condensa-se no sorriso final de uma criança. Reconfortante. O epílogo na ingenuidade, cúmplice e puro, na crença absoluta. Certamente é esse o epílogo de todo o filme, é essa a marca que deixa silenciado o espectador. Ela é Maren (Ann Elisabeth Groth), a única que entende o verdadeiro significado da palavra, ou da ‘loucura’ religiosa do tio Johannes Borgen (Preben Lerdorff Rye) – devocão ou alienação, blasfémia ou amor incondicional.

Para deixar qualquer um em silêncio emocionado ou com um sorriso crítico, Dreyer entrega toda a história a cada um dos rostos das personagens. É ali mesmo que reside cada uma das verdades. Cada rosto tem a expressão indelével de uma alegoria, quase de uma fábula bíblica. Cada personagem contém a simbologia das várias ideias de espírito.

Dreyer filma praticamente tudo num palco apenas – a casa luminosa do velho Morten Borgen (Henrik Malberg), o proprietário rural rico, assim o acusa o humilde alfaiate Peter (Ejnar Federspiel), cuja casa lúgubre recebe a oração semanal da triste comunidade, mas também uma certa chamada telefónica que desencadeará o drama. Mesmo as cenas no exterior são tidas como palco ansioso e de procura constante entre as dunas, por onde desaparece Johannes deixando uma nota escrita (e perpassa um gato preto, ao longe, numa extraordinária e permanente minúcia descritiva!).

O som da quinta (Knud Kristensen) e a música (Poul Schierbeck) permanece como um pano de fundo, como a fazer lembrar que a vida dos homens, afinal é tão terrena quanto a daqueles animais, como daquela paisagem tolhida pelo vento e pelo desaparecimento.

Um filme de uma argúcia narrativa tal, de uma beleza cinematográfica tão sublime, que obriga ao silêncio reverente qualquer um, mesmo a um convicto ateu como eu (pois, claro, também tenho direito à minha própria espiritualidade, racional e emocional.)

‘Ordet’, jamais esquecerei a palavra.

 

jef, maio 2026

«A Palavra» (Ordet) de Carl Theodor Dreyer. Com Henrik Malberg (Morten Borgen), Emil Hass Christensen (Mikkel Borgen), Preben Lerdorff Rye (Johannes Borgen), Carl Kristianseh (Andre Borgen), Birgitte Federspiel (Inger Borgen), Ann Elisabeth Groth (Maren Borgen), Susanne (a pequena Inger Borgen), Ove Rud (o padre), Ejnar Federspiel (Peter, o alfaiate), Sylvia Eckhausen (Kirstine, a mulher do alfaiate), Gerda Nielsen (Anne, a filha do alfaiate), Henry Skjaer (o médico), Hanne Agesen (Karen), Edith Thrane (Mette Maren). Argumento: Carl Theodor Dreyer segundo a peça de teatro de Kaj Munk. Produção: Carl Theodor Dreyer,

Erik Nielsen, Tage Nielsen. Fotografia: Henning Bendtsen. Som: Knud Kristensen. Música: Poul Schierbeck. Direcção artística: Erik Aaes. Guarda-roupa: N. Sanat Jensen. Dinasmarca, 1955, P/B, 126 min.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Sobre o livro «Animalário, um bestiário lusitano» de Pedro Castro Henriques, edição Margarida Oliveira, 2026

 
























«Os animais, que não humanos, sugerem não se interrogar sobre a sua condição. Um lagarto não se lamenta de ser lagarto e nem sequer lhe passa pela cabeça vir a ser borboleta ou elefante, é apenas lagarto e julga desempenhar bem o seu papel.

«Nós, pelo contrário, protestamos sem cessar sobre o nosso destino, invejamos o triunfo dos demais, sentimo-nos culpados de muitos actos que praticamos e, não raro, temos consciência da mediocridade do nosso desempenho. Este sentimento de culpa é agravado pelo facto de modernas ortodoxias nos responsabilizarem face ao estado da Terra e demais ocupantes. Por enquanto, ainda não pedimos desculpa pelo facto de termos nascido, mas nisso imitamos qualquer mosquito, emérito e despreocupado transmissor de vírus e de morte.»

 

Assim, o autor inicia o prólogo deste dicionário, ou bestiário, com centenas de entradas, desde “abandono” a “zurro”. Quando faço este pesquisa, o autor adianta-se pois exactamente na última página coloca a palavra “fim”, instigando o leitor a preencher os espaços em falta, infinitos diga-se, pois ele não voltará ao caso, pois o Bobi chama para o levar à rua!

Por isso, confirmo que a escrita curta de Pedro Castro Henriques é tão motivadora e inteligente, divertida e consciente, quanto ilógica e irreverente. Temos de encontrar para a sua escrita um novo código de leitura. Um novo abecedário que nos oriente entre as suas farpas políticas, éticas, morais ou ambientais. No fundo, o alfabeto PCH apenas nos indica novos caminhos para a leitura do nosso comportamento na sociedade.

Ou seja, «Animalário – um bestiário lusitano» não é mais que um espelho onde nos podemos rever e compor socialmente. A gravata não fica bem, o colarinho está desajustado, o chupão vê-se ainda no pescoço… Não podemos sair assim para a rua! Temos de nos saber comportar como um homenzinho. Neste caso, como um humanozinho!

Diderot enciclopendiou, Lineu ou Gothe quiseram pôr em ordem alfabética o reino vegetal que Deus tão desorganizadamente criou em tão poucos dias…

Esopo, La Fontaine, ou mesmo os irmãos Grimm, usaram toda a casta de animais para justificar os piores comportamentos humanos. Aquilino Ribeiro catalogou e encafuou a zoologia, com saber e parcimónia infantil e subtil vocabulário na «Arca de Noé – 3.ª Classe»…

…não! Não pensem encontrar no Dicionário ou Enciclopédia animal de PCH a moralidade factual, o pressuposto religioso, a admoestação política e social do nosso comportamento.

Uma vez mais. Não! Pedro Castro Henriques é cerimoniosamente irreverente, repito, literariamente belo, polidamente iconoclasta, psicanaliticamente clínico, até cínico. (Por favor, ler com atenção a entrada para “leitão”!)

Eu só agora comecei a ler. Uma entrada por noite, em jeito de compensação bíblica pelos pesadelos ou belos sonhos que encontrarei de olhos fechados no subconsciente da almofada.


jef, maio 2026

* zoologia

Sobre o filme «A Culpa Foi do Macaco» de Howard Hawks, 1952


 
























Este é um dos meus filmes de infância, quando a RTP passava as loucas comédias de Howard Hawks nas tardes de cinema de domingo. Ria-me muito com tamanha macacada, apreciava a loucura infantil, praticamente sem nexo daquelas figuras, que eram tomadas por chimpanzés. quando, inadvertidamente, bebiam o elixir da “eterna” juventude criado pela macaca Esther, vertido depois dentro do depósito de água do bebedouro do laboratório. O suposto elixir "B-For"!

Delirava com todas as extravagantes peripécias cómicas mas não me apercebia de quanto machista, quase misógino, era a personagem de Dr. Barnaby Fulton (Cary Grant), pitósga, distraído e obcecado pelo trabalho de cientista químico, que nem reparava na belíssima figura da sua devota esposa Edwina (Ginger Rogers) que o instiga a ir a uma festa, desistindo depois com um sorriso, irrompendo a meio dos ovos mexidos preparados à pressa, o proto-pretendente de Edwina, Harvey Entwhistle (Hugh Marlowe). Também o bom do Barnaby não repara na super meia-de-vidro, com produto por ele criado, que cobre a perna de Lois, uma soberba Marilyn Monroe, secretária do patrão Mr. Oxley (Charles Coburn) que tanto fica encantada com a aparição metamórfica da adolescência de Barnaby, enfiado num fato de fantasia, conduzindo à desfilada um carro desportivo ou atirando-se da prancha em chapão para dentro da piscina.

Tudo neste filme não fará sentido lógico, a fantasia cénica é apenas uma diversão assumidamente teatral como é explicitada, logo no início da ficha técnica, quando a voz off do realizador surge para fazer repetir a Barnaby a cena da porta mas tratando-o directamente por “Cary”. Ou no escalpe índio do agora mal tratado Harvey Entwhistle. Ou quando Barnaby parece ter bebido tanta poção mágica que surge nos braços da chorosa esposa como um bebé. Ou quando, tomados todos pela sede bebendo daquela água mágica, um pouco amarga demais, brincam todos como crianças ou macacos endiabrados nas instalações do laboratório.

É impossível não esquecer «As Duas Feras» (Bringing Up Baby), 1938, e também não comparar Cary Grant no papel de outro cientista, agora paleontólogo, a braços com a maravilhosamente endiabrada Katharine Hepburn!

Maiores são as comédias de Howard Hawks!


jef, maio 2026

«A Culpa Foi do Macaco» (Monkey Business) de Howard Hawks. Com Cary Grant (Dr. Barnaby Fulton), Ginger Rogers (Edwina), Charles Coburn (Mr. Oxley), Marilyn Monroe (Lois Laurel), Hugh Marlowe (Harvey Entwhistle), Henri Letondal (Siegfried Kitzel), Robert Cornthwaite (Dr. Zoldeck), Larry Keating (Mr. Culverly), Douglas Spencer (Dr. Brunner), Esther Dale (Mrs. Rhinelander). Argumento: Ben Hecht, I.A.L. Diamond e Charles Lederer e (não creditado) Howard Hawks, a partir dum conto de Harry Segall. Produção: Sol C. Siegel para a 20th Century Fox. Fotografia: Milton Krasne. Música: Leigh Harline. Guarda-roupa: Charles Le Maire e Travilia. EUA, 1952, P/B, 91 min.

 





quinta-feira, 21 de maio de 2026

Sobre o livro «Greve Geral» de André Ruivo, Casa da Esquina / The Inspector Cheese Adventures, 2026



 



























105 x 78 milímetros. 36 páginas-couché envoltas numa capa de leve cartolina escarlate com badanas onde o título vem gravado em profundidade. Um extra-ordinário A7! É o microcosmo do artista plástico que, uma vez mais, assume mais o seu pendor de cronista gráfico do que de ilustrador social.

É o mais pequeno livro impresso da sua vasta obra e a concisão milimétrica da respectiva esquadria faz concentrar a atenção do leitor sobre cada um dos dias que passam pelo diário do artista (e do espectador). É como um presente filatélico que é oferecido ao nosso passado recente. Ou seja, o leitor não precisa de vasculhar na pilha de jornais dos meses transactos ou nas notas que deixou pespegadas nos ímanes do frigorífico: em «Greve Geral» está tudo descrito com a proverbial intimidade política tão característica da última fase plástica do artista – as cores amplas e em fundo monocromático no interior de contorno negro digital sublinham (até parece que ampliam) quanto a tempestade nos impediu de ver o sol; quanto o genocídio na Palestina nos angustiou os noticiários; quanto o Natal é vermelho, igual à Greve Geral, igual à raiva de não querer trabalhar para aquele patrão. Mas o Sol ainda está lá em cima, apesar da depressão dos dias entediados, apesar do Ventura, apesar da chuva persistente.

Ler cada dia André Ruivo através da sua resistência bruta, da teimosa persistência, quantas vezes, talvez, contra a sua própria vontade de desistência, é um acto de extrema eficácia.

Muitos coleccionaram o Almanaque Bertrand. Eu, com orgulho e alegria, colecciono o Almanaque Ruivo!


jef, maio 2026

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Sobre a apresentação da revista «A Morte do Artista # 9 – ‘Reviravolta’». Biblioteca do Palácio Galveias, dia 23 de maio, pelas 16h00. Lisboa, 2026



 














Quem sabe quantas voltas elípticas em torno do Sol o mundo ainda dará sobre o seu eixo ligeiramente inclinado, Verão, Inverno? Também desconhecemos quantas reviravoltas ainda teremos de fazer para nos mantermos de pé sem vacilar nesse rodopio do planeta que coloca tantos Doutores e Presidentes de cabeça tonta, indigente.

E assim chegamos ao número #9 de A Morte do Artista. E tal como diz o preâmbulo em jeito de prefácio ou editorial:

«Estávamos muito bem a andar, sem particular direção, a caminho de sítio nenhum, que é como quem diz, a caminho de todos os lugares, quando, de repente, sem aviso prévio, um vendaval, um cataclismo, um tremor de dentes, uma minudência, uma vírgula fora do lugar, uma borboleta de asas assimétricas, um sorriso comprometedor, um raio de ar, uma orla marítima, uma curva acentuada para o céu, uma periclitância, uma tempestade com nome de homem, um anticiclone com nome de mulher nos fizeram perder o norte e, claro está, também o sul, o este e o oeste — já se sabe quando se perde um, perdem-se logo os outros todos.»

 Mas nós não estamos perdidos porque estamos bem encontrados, rodeados de tão belos artistas. A saber:

 A começar por Afonso Cruz, o nosso consagrado, que nos faz seguir aquele estranho percurso que levou os heróis-anti-heróis pelos mares luminosos da velha Grécia.

No “Ponto Zero”, Fernanda Cunha deixa-nos perceber o que uma certa Inteligência Artificial poderá ter a ver com a alteração de uma cidade-modelo. Entre o Amor e a Revolução.

Pedro Eiras oferece-nos o “Quarteto”, uma renuncia ao que a rotina e o dever quantas vezes obrigam cada um de nós a ceder em detrimento do prazer ou da razão.

Ana Costa Franco mostra a transformação de uma rua, de um bairro, de um café face ao tempo que fica cristalizado sobre cada um dos minutos que faz mover o dia-a-dia. “Maria de Tânger”.

De Nilson Dourado, três poemas sobre as palavras voláteis mas desejadas em cada sopro, em cada desejo, em cada beijo.

João Eduardo Ferreira (eu mesmo, na terceira pessoa do singular) inscreve a receita sobre por que não dormir. “Insónia – Uma Teoria”.

Manuel Halpern faz o elogio do refractário subtrator apresentando a respectiva bula programática e, mais à frente, apresenta o “Tutorial” para não arriscarmos o passo em falso no Amor.

Quem vai ao teatro moderno pela mão da artista dramática Magda Fiolhais, famosa pelos seus happenings desconstructivos é Pedro Castro Henriques. O futuro do drama é com ela. O futuro é com ele.

Henrique Pires-Teixeira faz-nos compreender a importância da crónica como entusiástico registo do passado. A história do nosso presente, entre continentes.

Vindo ainda do continente África, da sua costa leste, Lino Mukurruza, relembra-nos ainda a memória esparsa do poeta Sebastião Alba.

A dupla de poetas Joana Koehler e Tiago Gomes fazem-nos seguir na viagem do Amor e do Furacão através da ferida provocada pelos estilhaços, da premência do desejo ou da impossibilidade do regresso.

Luís Natal Marques em “Não te esqueças de pedir licença” transpõe a barreira do outro, convida a senti-lo como nós. No fundo, o autor coloca-nos num certo jardim, Ali, somos, de facto, o Outro.

E, no final, João de Melo narra a impossibilidade de viver sem a poesia. Ou melhor, traduz-nos como a vida sem a palavra sentida pode ser tão enfadonha como inútil. Concretamente, faz um imenso elogio à literatura como peça fundamental da sobrevivência. "A Salvação pela Poesia".

Por último, por ser a primeira que nós, com deleite, aqui usufruímos, está toda a arte gráfica, composição e obras do artista plástico, nosso estimado associado, Paulo Romão Brás que nos oferece o objecto que temos na mão onde vemos as imagens retiradas da extraordinária série “Espuma, Ruído e Atonia” (2020-2025).

Por todos estes motivos e pelo teatro e pelos bolinhos, será impensável não estar presente na festa de lançamento do #9 de 'A Morte do Artista' que terá lugar na Biblioteca do Palácio Galveias, no dia 23 de maio, pelas 16h00, em Lisboa.


jef, maio 2026