terça-feira, 1 de setembro de 2026

Sobre o livro «Pietr, o Letão» de Georges Simenon, Livros do Brasil, Colecção Vampiro n.º 145. Tradução de Mascarenhas Barreto. Capa de Lima de Freitas, 1959 (1931).



 








Investigo por Inteligência Artificial e na Wikipedia, confirmo depois. Em 1930, é publicado num periódico, por episódios. No ano seguinte, em nome próprio Georges Simenon, é editado em livro. Surge pela primeira vez a imponente figura, quase monolítica, friorenta e comilona, do Comissásio Maigret. Assim se inicia a imensa biblioteca onde Simenon estrutura o seu “alfabeto maigret”, a sua capacidade de definir personagens e lugares, misturando o suspense na narração, o humor na descrição e essa tão particular mestria de definir as personagens pelos gestos, os quartos pelos odores, as atmosferas pelos sentimentos que lhes são impostos. Maigret é gigantesco e imperturbável, contudo o seu coração desfaz-se quando entra no quarto do Magestic e procura o seu camarada Torrence.

Nada neste primeiro “Maigret” está definido, porém tem tudo o que ditará a estrutura analítica, para não dizer psicanalítica, do Comissário. Tudo é condensado num humor, para não falar em sarcasmo, muito peculiar. Ferido e cansado por uma investigação que dura há horas consecutivas, dias mesmo, sem o deixar descansar, quase no final, Maigret deve dirigir-se ao porto e percorrer por baixo de uma ponte entre as estacas inundadas pela maré:

«Por fim suspendeu-se nos arcobotantes das estacas. Executou um desses movimentos em que é preferível não se ser visto. Fazem-se gestos para os quais se não está preparado. Falha-se a todo o instante, como mau acrobata, mas avança-se, por assim dizer, pela força da vontade. Cai-se e levanta-se. Patinha-se sem prestígio, sem beleza.»

Dali a pouco, polícia e meliante vão encontrar-se, frente a frente, num quarto de hotel de província, vestindo os dois mal medidos roupões tomados de empréstimo.

Depois, como a concluir esse lado interior de narrador que não se permite julgar, de comentador que não se exprime mas tudo observa, de explorador infinito do espaço social:

«Seria talvez exagerado pretender que, em muitos inquéritos, nascem relações cordiais entre a polícia e aqueles que, por dever, terá de entregar à justiça.

Quase sempre, a não ser que se trate de um antagonismo especial, estabelece-se uma espécie de intimidade. Isso deve-se, sem dúvida, a que, durante semanas, por vezes durante meses, polícia e malfeitor não pensam senão um no outro.

O inquiridor encarniça-se em penetrar cada vez mais na vida passada do culpado, tenta reconstruir os seus pensamentos, prever-lhe os mínimos reflexos.

Ambos arriscam a pele nesta partida. E, quando se encontram, é em circunstâncias suficientemente dramáticas para fazer fundir a indiferença polida que, na vida quotidiana, preside às relações entre os homens.»

Temendo a repetição, diria que este livro é como fundador da geografia etimológica e emocional de Georges Simenon, onde se inclui igualmente a minuciosa etimologia da cidade de Paris, senão mesmo a definição quase burlesca da circulação humana no Grande Hotel Magestic.

Georges Simenon é um enormíssimo escritor e este livro uma grande obra literária.


jef, agosto 2026

domingo, 30 de agosto de 2026

Sobre o livro «Salvo o Meu Coração, Tudo Está Bem» de Héctor Abad Faciolince, Alfaguara, 2024. Tradução de Margarida Amado Acosta.



 







Héctor Abad Faciolince é um verdadeiro cronista, alguém que nos devolve a realidade sob a chama da maior percepção emocional, demonstrando que a literatura ficcionada é uma das principais armas que garante a aceitação da verdade pela razão do leitor. Mas, principalmente, pelo coração do leitor crítico. Pois, é exacto, «Salvo o Meu Coração, Tudo Está Bem» é sobre o coração maior de um padre devoto, Luis Córdoba, 50 anos, gigante em estatura, a viver em Medellín, amante e divulgador reconhecido das artes da música clássica e do cinema, amante também da boa mesa. Porém, um coração periclitante pela própria hipertrofia. Vivendo primeiro na própria casa, na esquina da Villa com a San Juan, em celibato conjugal com o padre Aurelio Sánchez (o narrador), mais tarde, saído da clínica, na casa verde e amarela de Teresa e de Darlis, sem escadas aliás, no bairro Laureles.

Não fiz spoiler nenhum, pois tudo isto está escrito nas primeiras duas páginas do romance-crónica, que se lê sem parar, por capítulos de A a Z (incluindo o Ñ), com direito a Abertura e Coda como uma peça antiga de música barroca. A ordem anacrónica faz-se a favor de uma leitura ágil e emotiva, interceptando as histórias dos dois amigos inseparáveis e também a de Joaquín Restrepo que, afinal, juntará as pontas dos apontamentos memoráveis que Aurelio Sánchez (ou Lelo) foi redigindo e colecionando episódios comuns ou não com o Gordo, ou seja, Luis Córdoba. Joaquín apresentará no final o presente livro que, confessa, gostaria de ter sido ele a escrever.

Um livro importante sobre a vida, a doença, a morte e o luto. Também sobre a dualidade da sublimação do espírito sobre a vocação biológica de um corpo que deseja e precisa de ser fisicamente consumado. Também sobre os abjectos meandros da hierarquia da igreja católica. Também sobre a esperança e a fé, como se um ateu explicasse a fé em Deus a um crente ou um devoto exprimisse a inexplicável vocação em confiar o amor a um ser impalpável e irresolúvel.

Um livro que ensina a ser-se efectivamente alegre, ou feliz, apesar da continua infelicidade que sempre vela, ou ameaça, a existência mais pacífica, e que me deixou lavado em lágrima quando o terminei de ler.

Eu, ateu convicto, confesso, vou sentir falta da bondade, jovialidade, honestidade e clarividência dos padres Aurelio Sánchez e Luis Córdoba, e da Teresa, da Darlis, do Joaquín e de todos os outros.

Nota: o autor nas linhas finais confessa que o leitor deve suspeitar de que o livro se baseia livremente na vida de Luis Alberto Álvarez, “um sacerdote extraordinário, um bom padre do qual fui amigo.”


jef, agosto 2026

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Sobre o livro «Morrer na Primavera» de Ralf Rothmann, Sextante, 2019. Tradução de Gabriela Fragoso.


 









«Quando a cultivares, não voltará a dar-te os seus frutos. Serás vagabundo e fugitivo sobre a Terra.». Frase vincada com a unha sobre a página de uma antiga Bíblia, encadernação a couro, letras góticas, rebordo dourado, recheada de folhas secas de Outono e notas de marcos da inflação de 1923, mais tarde, talões do Supermercado Schätzlein.

A enigmática frase do Génesis (4:12) surge como a mais violenta epígrafe e a  grave conclusão do livro. Um arco de tempo sobre uma Alemanha que teve de superar a derrota de uma geração de, quase crianças, foi forçada a seguir para a frente húngara na Primavera de 1945, já americanos e russos avançavam e cercavam por todos os lados, por todos os meios. Walter e Friedrich-Fiete, amigos inseparáveis, ordenhadores competentes na vacaria propriedade da casa de Thamling. Dezassete anos, despojados da vida, de tudo viram, tudo sofreram sob a desesperada derrota breve dos nazis.

Um livro contado por fragmentos sincopados, fragmentos narrativos suportados por descrições tão visuais como paradigmáticas de uma exegese comprometida com a paz.

Um livro difícil mas que nos transmite a ternura infinita pelo sofrimento dos inocentes, nasçam eles onde nascerem. A vã procura de uma sepultura ou a necessidade urgente de um esquecimento impossível.

É fundamental conhecermos todas as belas ou terríveis histórias do mundo, venham elas de onde vierem.


jef, agosto 2026

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Sobre o livro «Mendigos e Altivos» de Albert Cossery, Antígona, 2025 (1955). Tradução de Júlio Henriques.



 







Eis um livro que nos coloca de modo revolucionário perante o desconchavo que a sociedade contemporânea nos revela. Albert Cossery num extraordinário romance policial obriga-nos a olhar de frente para a estrutura social e económica em que vivemos. Albert Cossery ri-se dela, porventura afirmando: “aos costumes disse nada” como, em tempos idos, terminavam alguns documentos escritos de índole castrense.

Aqui, tudo é colocado em causa perante a suprema busca da felicidade e da alegria, pois esse objectivo passa pela destruição dos cânones socio-políticos com que essa sociedade opressiva mantém cativos e infelizes os seres viventes que a alimenta. E a procura da felicidade (e a sua assunção) passa neste romance pelo literal, absoluto e radical despojamento e ascetismo. Sem nada de nosso, essa sociedade e os algozes que nela se protegem, nada poderão fazer contra nós, pois nada nos pode tirar porque nada temos. A partir daí podemos gozar a própria alegria, a absoluta liberdade e afirmar, então:  "aos costumes disse nada”. Pratique-se, finalmente, a mendicidade, sim mas de modo orgulhoso e aristocrático e o almoço será oferecido alegremente gratuito.

De um modo intenso, literariamente perfeito e através de uma intriga narrativa filosoficamente ininterrupta, Gohar, o ex-professor universitário de Literatura e Filosofia, contabilista do prostíbulo de Set Amina e mendigo por convicção; El Kordi, funcionário indolente do Ministério das Obras Públicas, revolucionário por teoria; e Ieguene, poeta, vendedor de haxixe e presidiário reincidente, irão desvendar uma nova perspectiva justa, livre e igualitária da sociedade a Nur El Dine, o chefe da polícia no Cairo.

«Mendigos e Altivos» é um tesouro libertário, o romance refractário por excelência, como diria o malogrado Luís Oliveira, ideólogo prático da editora Antígona.

Esta edição tem prefácio de Roger Grenier (2013), um glossário de termos árabes egípcios, um conjunto de fotografias do autor, alguns textos evocativos e as páginas iniciais de «Uma Época de Filhos de Cães», romance inacabado de Albert Cossery.

Livro fundamental para acabar com o neo-liberalismo desenfreado (mas também com o velho marxismo-leninismo!)


jef, agosto 2026

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Sobre o livro «Pastoralia» de George Saunders, Antígona, 2017. Tradução de Rogério Casanova



 







Rogério Casanova, o tradutor, no prefácio, evoca a popularidade do substantivo próprio adjectivante “Kafka” para enquadrar estas histórias sobre uma América que desconhece o destino ou o sonho que à boca cheia propala desde que se conhece. Contudo, Kafka tem um sentido oniricamente psicanalítico, esteticamente surrealista, quase romântico, para narrar as complexas situações em que os personagens se vêem enleados. A começar por Gregor Samsa.

Em «Pastoralia» de George Saunders não existe nada desse romantismo psicanalítico, desse diletante modo de cada um estar por si, dentro de si, mas à margem da sociedade. As histórias de Saunders usa o humor desabrido para colocar o leitor como juiz e credor de gente cujo sonho americano os levou até a um barraco num subúrbio dos subúrbios e ainda os manda ser felizes e sorrir, pois a coisa ainda pode vir a piorar… Se algum dia, bastante improvável, Trump ainda vier a ser eleito para presidente dos grandes Estados Unidos da América!

A começar pela novela que abre o livro “Pastoralia” onde escravos da sociedade do bem-estar se vêem empregados e vigiados num parque de diversão sobre os diversos estágios evolutivos da humanidade. A terminar com “Cataratas” com Morse de regresso a casa pela margem do Taganac, rio que se dirige para umas certas cataratas. Ele teme pelo futuro do filho Robert, teme também por desconhecer se Aldo Cummings, vizinho estranho ainda a viver com a mãe, poderá não gostar dele. Então, o que fazer quando uma canoa com duas miúdas pequenas se apresenta prestes a afundar?

Os contos não desdenham esse lado quase burlesco de uma certa literatura americana que se ri dela própria para não chorar por todos, e são muitos milhões, de americanos que, apesar de se poderem chamar Elon Musk, nunca conseguiram juntar um chavo e amargam no interior de um país que os toma por bastardos.

Contudo, George Saunders eleva essa literatura a uma narrativa de discurso directo sintomático, com descrições quase sem adjectivos, em diálogo cinematográfico, peremptória mas discreta, buscando imagens e situações de uma fantasia inusitada que oferece ao leitor a justa perplexidade para que ele possa completar um cenário, por vezes apenas delineado.

Afinal, Saunders reveste as personagens de uma ternura comovente, de um humor ácido e sarcástico, personagens que se aquietam perante um destino que lhes foi imposto e do qual não têm modo de fugir. 

John Steinbeck chamar-lhes-ia “ratos e homens”.


jef, julho 2026

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Sobre o livro «O Caso do Gato do Porteiro» de Erle Stanley Gardner, Livros do Brasil, Colecção Vampiro n.º 40. Tradução de Carlos Vidal de Oliveira. Revista e adaptada para Portugal por Baptista de Carvalho. Capa de Cândido Costa Pinto, 1950 (1935).



 







Quinze anos após a publicação original, a editora Livros do Brasil achou que o romance devia ser “adaptado para Portugal”. Curioso, porventura também pelo termo “filhoses”, ligado à actividade comercial de uma das personagens principais, Winifred Laxter, por quem desde logo Perry Mason se sente atraído, confiando-lhe o instinto detectivesco.

Se o inveterado solteirão se sente atraído por Winifred? Talvez, contudo ele não hesita em aceitar o caso proposto pelo porteiro (ou governante da casa Laxter), Charles Ashton, cujo seu gato de estimação, o “Escória”, vê a vida ameaçada pelos herdeiros de Peter (ou Pedro) Laxter. Perry Mason é contratado para defender um gato e aceita dez dólares de remuneração. Isto não estraga a intriga pois está dito logo nas duas primeiras páginas. Tudo o resto é uma diabólica trama, entre feridos, mortos e corpos reclamados e exumados, com uma perseguição desvairada de carros a eléctricos e uma suposta lua de mel (interrompida, hélas!) entre Perry Mason e a peça central definitiva do romance – a esplendorosa Della Street, secretária, motorista, jurista, mãe, irmã, confidente, coadjuvante, quase amante, quase noiva, cujo batom deixa marcas nos lábios do patrão. (Atenção às declarações que Della faz sob juramento em tribunal sobre a identificação de um gato. Um portento.)

Um romance em que Perry Mason esclarece desde logo o leitor em quem deve confiar, porque ele confia, e em quem desconfia, não se deixando enganar, apesar de muitas vezes apenas intuir a sequência de certos factos por desconhecimento próprio, deixando juízes, procuradores e investigadores da polícia de cara à banda na barra do tribunal.

Sem dúvida, um óptimo livro de férias!


jef, julho 2026

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Sobre o livro «A Neve Estava Suja» de Georges Simenon, Cavalo de Ferro, 2025 (1948). Tradução de Diogo Paiva.



 







Talvez seja um dos romances que marcam, ou sublinham o século XX, talvez justifiquem, agora, este século XXI. Um dos romances do existencialismo modernista, aquela ideia da liberdade mais pura, mais severa, mais atroz. Celine, Sartre ou Jean Genet aplaudiriam ou aplaudiram. Não poderá falar-se propriamente de Hans Castorp, esse jovem doente, perdido pelo pulmão de Davos, entre a dialéctica de Settembrini e de Naphta. Como neste último, a guerra não se aproxima, ela já está lá. Em «A Neve Estava Suja», não há salões aquecidos e chá servido, a ocupação estrangeira não aplaca o frio, a fome, a pobreza, opressão a morte e a vigilância de cada esquina, apenas acelera a miséria e o sofrimento. Porém, Frank Friedmaier está de pedra e cal e não se digna ceder, vergar, contestar ou colaborar. Nada mais lhe interessa do que resistir até ao fim, como ele próprio é, ou julga ser, como princípio, como meio, sem olhar à página última.

(Num outro sentido e talvez como escreveria Enrique Vila-Matas, Frank pertenceria a «Bartleby & Companhia» (2000).)

Talvez eu pudesse recordar as personagens de Albert Cossery, mas essas estão sobranceiras, talvez mesmo imponentes. Frank Friedmaier tem outro modo de circular, talvez outro passado, seguramente movimentos diversos. Poderemos lembrar-nos, então, de Meursault de «O Estrangeiro» de Camus (1949) ou de Rodion Raskólnikov do «Crime e Castigo» de Dostoiévski (1867). Contudo, fica-nos essa teia única que Simenon sabe urdir, página a página, diálogo a diálogo, corredor por corredor, janela frente a cada janela, deixando por último a ânsia pelo epílogo, nesse fraseado cromático que esconde a intriga e lança a cada linha o novo isco para que o leitor jamais possa descobrir o que a derradeira linha trará.

«A Neve Estava Suja» é um romance moderníssimo, diria fundamental, que ensina a ler, que obriga a parar para observar cada parede ou rua escondidas de uma sociedade que será sempre funesta frente ao pragmatismo individualista, frente ao crer existencialista onde a escolha do indivíduo será sempre apenas a sombra de uma personalidade interrompida.

Georges Simenon é genial, sem temer estar a extrapolar o adjectivo!


jef, julho 2026