Investigo por Inteligência Artificial e na Wikipedia,
confirmo depois. Em 1930, é publicado num periódico, por episódios. No ano
seguinte, em nome próprio Georges Simenon, é editado em livro. Surge pela primeira vez a
imponente figura, quase monolítica, friorenta e comilona, do Comissásio Maigret. Assim se inicia a imensa biblioteca onde Simenon estrutura o seu “alfabeto
maigret”, a sua capacidade de definir personagens e lugares, misturando o
suspense na narração, o humor na descrição e essa tão particular mestria de
definir as personagens pelos gestos, os quartos pelos odores, as atmosferas
pelos sentimentos que lhes são impostos. Maigret é gigantesco e imperturbável, contudo
o seu coração desfaz-se quando entra no quarto do Magestic e procura o seu
camarada Torrence.
Nada neste primeiro “Maigret” está definido, porém tem tudo o
que ditará a estrutura analítica, para não dizer psicanalítica, do Comissário.
Tudo é condensado num humor, para não falar em sarcasmo, muito peculiar. Ferido
e cansado por uma investigação que dura há horas consecutivas, dias mesmo, sem
o deixar descansar, quase no final, Maigret deve dirigir-se ao porto e
percorrer por baixo de uma ponte entre as estacas inundadas pela maré:
«Por fim suspendeu-se nos
arcobotantes das estacas. Executou um desses movimentos em que é preferível não
se ser visto. Fazem-se gestos para os quais se não está preparado. Falha-se a
todo o instante, como mau acrobata, mas avança-se, por assim dizer, pela força
da vontade. Cai-se e levanta-se. Patinha-se sem prestígio, sem beleza.»
Dali a pouco, polícia e meliante vão encontrar-se, frente a frente, num quarto de hotel de província, vestindo os dois mal medidos roupões tomados de empréstimo.
Depois, como a concluir esse lado interior de narrador
que não se permite julgar, de comentador que não se exprime mas tudo observa, de
explorador infinito do espaço social:
«Seria talvez exagerado pretender
que, em muitos inquéritos, nascem relações cordiais entre a polícia e aqueles
que, por dever, terá de entregar à justiça.
Quase sempre, a não ser que se trate
de um antagonismo especial, estabelece-se uma espécie de intimidade. Isso deve-se,
sem dúvida, a que, durante semanas, por vezes durante meses, polícia e
malfeitor não pensam senão um no outro.
O inquiridor encarniça-se em penetrar
cada vez mais na vida passada do culpado, tenta reconstruir os seus
pensamentos, prever-lhe os mínimos reflexos.
Ambos arriscam a pele nesta partida.
E, quando se encontram, é em circunstâncias suficientemente dramáticas para
fazer fundir a indiferença polida que, na vida quotidiana, preside às relações
entre os homens.»
Temendo a repetição, diria que este livro é como fundador da geografia
etimológica e emocional de Georges Simenon, onde se inclui igualmente a minuciosa
etimologia da cidade de Paris, senão mesmo a definição quase burlesca da circulação
humana no Grande Hotel Magestic.
Georges Simenon é um enormíssimo escritor e este livro uma grande
obra literária.
jef, agosto 2026





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