domingo, 18 de janeiro de 2026

Sobre o filme «Pai Mãe Irmã Irmão» de Jim Jarmusch, 2025





























Algures em New Jersey. Dublin. Paris.

Três episódios sobre irmandade. Em cada um deles dois irmãos confrontam-se e unem-se. E o último é o único dos episódios onde a ausência de silêncio entre irmãos é aquele em que a ausência dos pais está presente. Nos dois primeiros, se não existe propriamente cumplicidade está presente a urgência da respectiva fuga! Claro que o pai (Tom Waits) faz tudo para que os filhos, Jeff (Adam Driver) e Emily (Mayim Bialik) cumpram a função e desapareçam, pois a sua vida não é aquela; e a mãe (Charlotte Rampling) não é propriamente a mais carinhosa para as filhas, Timothea (Vicky Krieps) e Lilith (Sarah Greene), que olham constantemente para o relógio para poderem desamparar a loja do anual encontro com a progenitora.

No último, a caricatura sarcástica, quase burlesca, das personagens desaparece e Jim Jarmusch regressa carinhoso com os dois irmãos, Jeanette (Indya Moore) e Skye (Philippe Azoury) em busca das suas memórias enquanto desfazem a casa onde viveram com aos pais.

As cores são tão importantes quanto os silêncios quanto as canções que lhes dão o mote (Jim Jarmusch e Annika Henderson) quanto esse lado complacentemente onírico que sempre o realizador coloca sobre os personagens e as suas histórias. Tão importantes quanto os skaters a centrarem-se no mundo onde a solidão faz o seu inexorável percurso e o rolex, que é verdadeiro ou de contrafacção.

Pode não ser o melhor filme do terno realizador, mas sempre é uma obra maravilhosa de Jim Jarmusch.


jef, janeiro 2026

«Pai Mãe Irmã Irmão» (Father Mother Sister Brother) de Jim Jarmusch. Com Tom Waits, Adam Driver, Mayim Bialik, Charlotte Rampling, Cate Blanchett, Vicky Krieps, Sarah Greene, Indya Moore, Philippe Azoury, Luka Sabbat, Françoise Lebrun, Beatrice Domond, Stephen Ostrowski, Eduardo Hoffman, Daire Mcgorman, Dave Murphy, Tom O'Reilly. Sébastien Rolando-Lapierre, Sarah Ribeiro. Argumento: Jim Jarmusch. Produção: Joshua Astrachan, Charles Gillibert, Carter Logan, Atilla Salih Yücer. Fotografia: Frederick Elmes e Yorick Le Saux. Música: Annika Henderson, Jim Jarmusch. Guarda-roupa: Catherine George. EUA / Irlanda / França, 2025, Cores, 110 min.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Sobre a peça «Cats» de Andrew Lloyd Webber, Campo Pequeno, 2026


























Um estranho objecto de encantamento. À partida teria tudo para me afastar emocional e esteticamente, mas a realidade é que me conquistou quando Grizabella (Jacinta Whyte), a gata que deixou a tribo, correu mundo, envelheceu e agora deseja voltar, fala da experiência e do significado da experiência dando a entender que esse significado é na realidade o preço da memória. “Memory” é a canção padrão que vai sendo desvendada ao longo da peça até se revelar, finalmente, como ícone apoteótico.

Claro que ainda mais encantador é o facto de, para terminar, esvaziando o impacto emocional do “esquecimento”, a canção dita e repete a máxima universal: “Não pensem que um gato é um cão! Dêem-lhe primeiro caviar, só depois talvez haja alguma hipótese do gato vos aceitar!”.

Quem não conheça o génio de um gato…

O facto é que musicalmente é surpreendente, deixando um lastro de alegre melancolia numa peça que não é para crianças nem deixa de ser. Enfim, teatro para infâncias nostálgicas!

Estranho! Andrew Lloyd Webber consegue a proeza de criar uma espécie de poema sinfónico para bailado, digamos “clássico”, onde os números se sucedem, contando a história dos vários gatos e das suas diversas personalidades e tropelias, como números de cabaré ou vaudeville. Entrecruza trechos sinfónicos sintomáticos com a aura musical muito anglo-saxónica, fazendo lembrar os clássicos «Mary Poppins» ou «Oliver» e misturando a minha suprema reminiscência irlandesa dos Pogues ou das canções fundamentais dos Monty Python.

A realidade é que a memória tem um papel fundamental na estabilidade da nossa estrutura proto-arqueológica diária. Os gatos sabem disso e reflectem permanentemente ao sol sobre o significado da experiência e a justiça do seu próprio nome.


10 de janeiro de 2026

«Cats» de Andrew Lloyd Webber baseado na obra de T.S. Eliot “Old Possum's Book of Practical Cats”. Com Jacinta Whyte (Grizabella), Martin Callaghan (Old Deuteronomy, líder dos gatos Jellicle), e Russell Dickson (Munkustrap, o narrador), Rum Tum Tugger (Harrison Wilde), Skimbleshanks (Philip Bertioli), e Gus/Bustopher Jones (Hal Fowler). Orquestra conduzida por Daniel Griffith.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Sobre o livro «As Janelas Defronte» de Georges Simenon, Cavalo de Ferro, 2025 (1933). Tradução de Diogo Paiva.



 







Georges Simenon é um escritor infinito. Sempre que iniciamos a leitura de um romance seu, também deste apelidado “roman dur”,  não sabemos onde iremos parar. O escritor vira as personagens do avesso, dá-lhes a consistência de um fortíssimo abraço. Ou seja, permite que as vejamos por dentro numa espécie de radiografia programática, demonstrando que uma intriga é válida desde que seja assumido o poder da literatura como definidor de um paradigma global da humanidade. A escrita é rápida, digamos sinteticamente objectiva, a intensidade dos diálogos faz muito mais do que a descrição pormenorizada da paisagem ou do quarto onde se inscrevem. Os cenários são invariavelmente inusitados, cheios de esquinas sombrias, gentes receosas ou poças de água engordurada à beira do porto de Batúmi, na Geórgia, a espreitar o Mar Negro. Cidade densamente afundada na União Soviética. O cônsul da Turquia, bei Adil, chega e aterra numa recepção no consulado da Pérsia, conversa com o casal Pendelli, italianos, porém desentendem-se. O turco sente-se ofendido e sai desalvorado. Pior, sente-se perdido, completamente sozinho. Depois, espiado. O edifício do seu consulado é frio, ainda não tem quem o ajude a limpá-lo. Aguarda a chegada de Sonia, a secretaria russa que também assegurou o trabalho ao seu precedente que morreu, sem nunca lhe terem dado qualquer explicação.

Contudo, para a polifónica verve narrativa de Georges Simenon também não existe qualquer esclarecimento possível. Basta lê-lo e fica tudo dito.


jef, janeiro 2026

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Sobre o filme «Na Terra dos Nossos Irmãos» de Raha Amirfazli e Alireza Ghasemi, 2024



 





























Toda a ironia da tragédia começa e termina do título. A dupla de realizadores iranianos concebe o filme como um tríptico que representa a saga de uma família de afegãos imigrados no Irão durante duas décadas, de 2001 a 2021. Claro que a exploração e a xenofobia não escolhem país, povo ou estatuto social. Aqui, os três episódios reflectem a escravidão, a exclusão e o abuso que os trabalhadores estrangeiros sofrem na pele. Contudo, habituados que estamos à superioridade da cinematografia de Abbas Kiarostami, Jafar Panahi ou mesmo de Asghar Farhadi, o filme surge como uma denúncia real e sincera mas um tanto simplificada, melodramática, ou mesmo entorpecida pelo excesso de dramatismo emocional. Aos poucos, o espectador afasta-se da justa comoção e do teatro mais forte que os filmes dos mestres iranianos já nos deram.

Existe, todavia, no primeiro episódio, talvez o mais cénico, mais objectivo, por isso mais contundente, dois actores de uma fotogenia arrebatadora. São extraordinárias as cenas de olhares silenciosos ou aquelas passadas à noite, na estufa de tomateiros, onde Mohammad (Mohammad Hosseini) ensina inglês a Leila (Hamideh Jafari). Actores e cenas que valem todo o filme.


jef, janeiro 2026

«Na Terra dos Nossos Irmãos» (Dar sarzamin-e baradar) de Raha Amirfazli e Alireza Ghasemi. Com Hamideh Jafari, Bashir Nikzad, Mohammad Hosseini, Marjan Khaleghi, Hajeer Moradi, Marjan Ettefaghian, Mehran Vosoughi, Reza Akbari. Argumento: Raha Amirfazli e Alireza Ghasemi. Produção: Raha Amirfazli e Alireza Ghasemi. Fotografia: Farshad Mohammadi. Música: Frederic Alvarez. Guarda-roupa: Raha Dadkhah. Irão / França / Holanda, 2024, cores, 95 min.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Sobre a peça «Estar em Casa», a partir de Adília Lopes. Teatro Variedades, 2026.



 
















Existe uma ironia trágica no facto de assistir ao espectáculo um ano após a morte da poetiza do absurdo concreto, Adília Lopes. Será também um doloroso e emocional passo dramático para Ricardo Neves-Neves, que assina a dramaturgia e a encenação, e que trabalhou a peça desde 2021, segundo a folha de sala.

(Onde Adília estiver escondida, sorrirá e aplaudirá!)

E o que impressiona nos 70 minutos da sintomática, quase milimétrica, actriz Sílvia Filipe, acompanhada no som de palco por Simão Bárcia, é a capacidade de nunca desvirtuar essa misteriosa chama que Adília Lopes nos deixa através da poesia sincrética, feita de matemática pura, inteligência aguda, contos Grimm dissecados a bisturi, lengas-lengas infantis, onomatopeias trava-línguas, modernidade antiquada, compêndios zoológicos ilustrados, brinquedos esquecidos, árvores encontradas, pardais, gatos, baratas, poeira, sexo, Deus, corpo, lágrimas e espírito provocador. Deixem-na ser como ela quer, deixem-na ser triste e alegre ao mesmo tempo, velha e criança em simultâneo.

Ricardo Neves-Neves, talvez provocadoramente reverente, coloca Adília-Sílvia-Palhaço no centro do palco, imita-lhe a forma, a roupa, o cabelo, o trejeito, e fá-la acompanhar de animação, insectos projectados, musas-medusas suspensas, casas e quartos difusos, modos concretos, para nos abrir um livro e ler-nos os contos infantis para velhos atentos de Adília, um após o outro.

E, assim, alegremente nos entristecemos, sabendo que a nossa casa, afinal, é todo o universo e este, mais tarde, terminará. Reconhecemo-lo com um riso lacrimoso, tendo a certeza que sempre as flores voarão, os pássaros espreitarão e a jarrinha partida será, algum dia, encontrada.

Viva Adília Lopes!

Viva Ricardo Neves-Neves e Sílvia Filipe!


jef, Teatro Variedades, 2 de Janeiro de 2026

«Estar em Casa» a partir de Adília Lopes. Dramaturgia e encenação: Ricardo Neves-Neves. Com Sílvia Filipe. Cenografia: Eric da Costa. Artes finais e cenografia: Rita Vieira. Desenho de luz e coordenação técnica: Cristina Piedade. Desenho de som e sonoplastia: Sérgio Delgado. Figurinos: Rafaela Mapril. Cabelos: Carlos Feio. Música: Simão Bárcia. Canções: Maia Balduz e Simão Bárcia. Ilustração e vídeo: Inês Silva. Video mapping: Eduardo Cunha. Produção e direcção de cena: Teatro do Eléctrico, Sílvia Moura / Culturproject: Nuno Pratas / Teatro do Elétrico, Cineteatro Louletano. Duração: 70 minutos.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Sobre o filme «Desaparecida!» de Alfred Hitchcock, 1938




 




















Na verdade, o filme centra-se em Iris Hendersen (Margaret Lockwood), a jovem, bela e diletante inglesa que regressa a Inglaterra para se casar, pois já teria realizado tudo de interessante na vida, só lhe restava isso. Ela afirma-o às duas amigas que permanecem na pousada de montanha, vendo-a partir de comboio. O facto é que o comboio fora impedido de cumprir a partida por causa de um forte nevão, e todos ficam retidos na pensão para gáudio comercial do gerente (Emile Boreo). A recepção está cheia de gente ansiosa por uma explicação e um quarto vago enquanto a câmara circula rapidamente entre as personagens sem que o espectador tenha tempo para as vigiar, lembrando a rapidez cénica de Jean Renoir. Entretanto, vemos uma velha senhora bem pronta e delicada, quase Miss Marple, a abrir a porta e a enfrentar a intempérie – saberemos mais tarde que é Miss Froy (May Whitty), a principal protagonista, apesar de desaparecida.

Dois factos importantes. Iris, mesmo antes de entrar no comboio, recebe uma forte pancada na cabeça, desmaia, acorda e volta adormecer quando se senta no compartimento, depois de olhar todos os outros ocupantes com atenção (nós é que os observamos). O outro facto, é ser Miss Froy uma delicada professora de música que escuta com a tenção a melodia que um músico a tocar na rua, em jeito de serenata… Esse músico acaba estrangulado pela sombra de umas mãos nosferáticas.

Depois, tudo se passa entre o sonho e a ausência de memória brutal de todos os ocupantes do comboio, incluindo o herói (ou “contra-herói”) Gilbert Redman (Michael Redgrave), aquele que tudo contraria a Iris até descobrir um rótulo de caixa de chá colado no vidro do comboio.

A partir dali, é uma comédia de espionagem intriga internacional, imparável, quase burlesca, apalhaçada e inteligentíssima, que tem de ser vista por duas vezes dado a quantidade e a velocidade dos gags e do diálogo…

Sem Hitchcock não haveria cinema!


jef, dezembro 2025

«Desaparecida!» (The Lady Vanishes) de Alfred Hitchcock. Com Margaret Lockwood, Michael Redgrave, Paul Lukas, May Whitty, Cecil Parker, Linden Travers, Naunton Wayne, Basil Radford, Mary Clare, Emile Boreo, Googie Withers, Sally Stewart, Philip Leaver, Selma Vaz Dias, Catherine Lacey, Josephine Wilson, Charles Oliver, Kathleen Tremaine. Argumento: Sidney Gilliat, Frank Launder baseado no romance “The Wheel Spins” de Ethel Lina White. Produção: Edward Black. Fotografia: Jack E. Cox. Música: Louis Levy, Charles Williams. Guarda-roupa: Eugene Joseff. Grã-Bretanha, 1938, P/B, 96 min.

 


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Sobre o Circo do Soleil «Ovo», Meo Arena / Parque das Nações











































Recupero uma tradição que verdadeiramente nunca me pertenceu. O circo. Reparo que existe no espectáculo, agora sem animais, sem miséria, sem sofrimento humano, sem nostalgia, um lado de distracção que apenas o circo, como arte, sabe transmitir. Ali, estamos face a um universo que apenas a ele próprio pertence. E se soubermos descontrair e esquecer o resto, ou seja, o mundo, a ele também podemos pertencer. Como acontece a uma criança que descobre um brinquedo novo.

«Ovo» é sobretudo um espectáculo musical, extraordinariamente alegre, híper-colorido, caleidoscópico mesmo, onde as figuras ambulantes, quase anti-gravidade, referem o mundo dos insectos e dos outros seus companheiros, os artrópodes. Será um espectáculo mais próximo do circo convencional se considerarmos que os números se sucedem a um ritmo sem pausas, excepto aquelas de se devem às mudanças de cenários e de artefactos cénicos e técnicos, sendo essas pausas editadas ou escondidas pelo samba, pela canção brasileira, pelos ritmos sul-americanos.

Extraordinária é a iluminação sobre o guarda-roupa, e o próprio guarda-roupa: o número inicial das formigas malabaristas com os quivis e as folhas verdes; os gafanhotos que saltam e trepam a parede, as duas crisálidas que vagueiam suspensas nascidas de um véu de efeito cénico único. Ou o aparecimento da mutável figura da aranha contorcionista.

Um facto é que, ao longo do espectáculo, todos os seres de esqueleto externo se movimentam ao sabor do romance entre uma Joaninha/ Ladybug (Michelle Matlock / Neiva Nascimento) e por um estranho Estrangeiro transportador de um enorme ovo (Jan Dustler / Gerry Regitschnig), romance patrocinado por Master Flipo (Joseph Arrigo), um artrópode-palhaço de muito difícil classificação zoológica.

Uma diversão, uma fantasia, que deve ser consumida como se nos entregassem um embrulho muito colorido suspeitando nós que no interior está um brinquedo de forma deliciosamente inesperada, escolhida a preceito.


26 de dezembro de 2025