quarta-feira, 2 de abril de 2025

Sobre o disco «People Who Aren’t There Anymore» de Future Islands, 4AD 2024.












Dou-me conta dos Future Islands ao sétimo álbum. Algures em Baltimore, Maryland, Estados Unidos da América. Gerrit Welmers (programação e teclados), William Cashion (baixo e guitarras), Samuel T. Herring (voz e poemas), Michael Lowry (percussão). Deixando lá para trás, em 2008, «Wave Like Home», o primeiro álbum.

Um disco, pelo que se diz na net, criado sob o véu do isolamento da pandemia, do afastamento, do abandono, da procura de algo do outro lado da parede, da linha telefónica, da margem oposta do oceano. Uma tristeza vigorosa, uma toada pontuada pela batida electrónica ou pelo grito lançado do punk do centro da capital para a pista de dança perdida num qualquer lugarejo, num final de noite. Tudo parecendo simples e directo. Tudo quase antigo, quase romântico, quase sinfónico. Quase provocando saudades do que ainda não conhecíamos.

Uma produção principesca editada pela 4AD, acompanhando uma discreta mas não menos principesca arte gráfica, assente na muito recomendável arte plástica.

O algoritmo biológico da minha velha memória leva-me até aos The National ou aos Despeche Mode.


jef, abril 2025

 

Sobre o filme «Misericórdia» de Alain Guiraudie, 2024



 


























Ora aqui está uma rara e inteligente comédia. Uma comédia imoral de contornos sexuais ou, então, uma forte mas ao mesmo tempo delicada comédia sobre a libido irreprimida e com laivos amorais.

Não sei bem por que razão, vieram-me à memória duas altas comédias: «O Terceiro Tiro» de Alfred Hitchcock (1955) e «O Veneno» de Sacha Guitry (1951).

Em «Misericórdia» o espectador é colocado sem rede frente ao julgamento público e social da acção criminosa, ao dever de protecção a que o amor obriga e, acima de tudo, à vocação privada que o irreprimível desejo sexual impõe a todo o custo.

Um dos aspectos cénicos mais relevantes é a presença fundamental da floresta montanhosa de Ardèche / Auvergne, no sudeste de França. Ali, entre a misteriosa penumbra, como nos fatídicos contos dos irmãos Grimm, todos parecem encontrar-se por acaso, mas de modo sistemático, para passear e colher cogumelos. Ali reside o centro da intriga. Ali, tudo será resolvido.

Jérémie (Félix Kysyl) chega de carro a Saint-Martial numa viagem longa enquanto o genérico inicial vai correndo, vai descendo. Visita a região onde passou a adolescência a trabalhar na padaria-pastelaria de Jean-Pierre (Serge Richard). Ele regressa para assistir ao funeral do antigo patrão e instala-se em casa da viúva, Martine (Catherine Frot), no antigo quarto do filho desta, Vincent (Jean-Baptiste Durand). Jérémie também visita a miúde Walter (David Ayala) no outro lado da aldeia, um amigo comum dos velhos tempos. Vai ficando e os desejos e os ciúmes vão eclodindo. Tudo sempre vigiado pelo olhar silencioso do padre da aldeia Philippe Griseul (Jacques Develay), que tudo parece entender. Principalmente de cogumelos.

Aliás, o filme assenta em duas sequências fundamentais, revelando o padre Phllippe como contraponto e coro grego para todo o desenlace da intriga. A sequência do confessionário, onde os papéis se invertem entre Jérémie e Philippe, e tudo parece ficar claro moralmente e, mais tarde, quando os dois se voltam a encontrar à beira da ravina, e de novo os papéis são trocados, discutindo-se a menor pena sofrida com a morte em detrimento do longo sofrimento que a culpa entrega à vida longa. (Dois pedaços de literatura dignos de apontamento.)

Afinal, tudo se resolve sem grandes dramas e os polícias (Sébastien Faglain, Salomé Lopes), que possuem chaves que lhes permitem entrar a qualquer hora em qualquer casa, tudo vasculham, tudo suspeitam, mas nada conseguem ver. O “mau-da-fita” desaparece sem deixar rasto ou lágrimas no encalço, e o “bem-amado” volta a deitar-se para dormir um bom sono tranquilo.

Ora aqui está uma belíssima comédia negra para corações amorais.


jef, abril 2025

«Misericórdia» (Miséricorde) de Alain Guiraudie. Com Félix Kysyl, Catherine Frot, Jacques Develay, Jean-Baptiste Durand, Serge Richard, Jacques Develay, David Ayala, Tatiana Spivakova, Elio Lunetta, Sébastien Faglain, Salomé Lopes, Luis Serrat, Sandra Marinho de Oliveira. Argumento: Alain Guiraudie. Produção: Charles Gillibert, Olivier Père, Joaquim Sapinho, Albert Serra, Montse Triola. Fotografia: Claire Mathon. Música: Marc Verdaguer. Guarda-roupa: Khadija Zeggaï. França / Portugal / Espanha, 2024, Cores, 102 min.




terça-feira, 1 de abril de 2025

Sobre a peça «Uma Barragem Contra o Pacífico» de Marguerite Duras / Geneviève Serreau, Teatro de Almada, 2025.


 

 





































Esta é a visão teatral que Geneviève Serreau dá ao texto de autoficção escrito por Marguerite Duras. É também a perspectiva cénica oferecida pelo encenador Álvaro Correia ao mundo em transição que então se vivia no Sul da esquecida Indochina francófona. Um bungalow perdido entre o calor, as monções e as sucessivas invasões das águas salgadas do Pacífico sobre a fraudulenta venda de parcelas aos colonos que eram, portanto, desesperadamente inférteis.

Contudo, a imensa construção em madeira no centro do palco prevalece ali, de pé, rodeada de árvores, de uma iluminação caleidoscópica, do torpor ou do tédio. Toda aquela exaustão crepuscular está no campo da cinematografia. Não o cinema interiorista “nouvelle vague” de Marguerite Duras («India Song», 1975) mas sobretudo aquele pequeno e perdido episódio francófono que Francis Ford Coppola adicionou à versão final de «Apocalypse Now Redux» (1979 / 2001) – alguma família dissipada entre o seu próprio interior comum e um futuro inóspito, violento, hostil, que ainda não mostrara as garras em definitivo. Essa duplicidade cinematográfica ‘reflexo/refracção’ é-nos dada sem paliativo por aquela casa de banho onde quase todos se refrescam, todos na transparência se desejam mas, por fora, vemos encriptada pelas imagens da floresta que um dia os expulsará.

A Mãe apenas deseja comprar mais cinco hectares férteis e ressarcir o montante em dívida da área alagadiça contra a qual montou uma frágil barragem consumida por caranguejos. O calor aperta, o cavalo está doente e o Citroën está a cair aos bocados. Por mais que se esforce, as inglórias tarefas não têm fim e as cartas enviadas não chegam ao destino. A filha, Suzanne, é pretendida por alguns mas apenas deseja partir com um caçador de tigres. O filho Joseph é quase imprestável. Apenas lhe resta o desalento irritado, a sesta para evitar o calor e o submisso capataz – um cerimonioso nativo, amável e amigo.

Todo a história afinal é a eterna condição feminina, condição de mãe, condição de filha.

A condição final de sitiado, de expatriado. 

A irrefutável condição do exílio.


30 de março de 2025

«Uma Barragem Contra o Pacífico». Uma adaptação de Geneviève Serreau a partir do texto de Marguerite Duras. Tradução: Lúcia Liba Mucznik. Encenação: Álvaro Correia. Com Bruno Soares Nogueira (o vizinho), David Pereira Bastos (Senhor Jo), Erica Rodrigues (Carmen / Lina), Íris Cañamero (Suzanne), João Cabral (o caixeiro viajante), João Jesus (Joseph), Qiming Liu (o capataz), Teresa Gafeira (a Mãe). Cenografia e figurinos: Sérgio Loureiro. Música: Sofia Vitória / Margarida Campelo (piano), Kristina Van de Sand. Desenho de luz: Guilherme Frazão. Produção: Teatro Municipal Joaquim Benite / Companhia de Teatro de Almada. 110 minutos, aproximadamente. Teatro Municipal Joaquim Benite.

14 de março a 6 de abril.

Quinta-feira a Sábado – 21h00. Quarta-feira e Domingo – 16h00.

 

quarta-feira, 26 de março de 2025

Sobre o filme «Sol nos Últimos Dias do Shogunato» de Yuzo Kawashima, 1957



 

























Uma inusitada comédia imparável vinda de uma das épocas de ouro do cinema japonês. Uma espécie de clássica "comédia de portas” (os Irmãos Marx nunca desdenharam tais enredos) onde se abrem e fecham espaços e enganos, onde se misturam histórias e intrigas. Onde as personagens surgem zangadas mas terminam conciliadas e amorosas.

O filme começa pela visão contemporânea, entre linhas de caminho-de-ferro, túneis e viadutos, onde antes, por meados do século XIX, se encontrava um dos bairros de divertimento e prostituição de Tóquio – Shinagawa.

Naquela época de transição política, Bakumatsu, com grupos de intervenção violenta contra a presença estrangeira e pelo nacionalismo e contra os pro-imperialistas, contudo, todos se cruzavam num dos bordéis de sucesso de Shinagawa. Entre eles, um fura-vidas, cheio de inteligência e artimanhas, Saheiji (Furanki Sakai) que após ter lubribriado os donos do estabelecimento dizendo que iria ter dinheiro para pagar toda a despesa, dele e dos seus comparsas, declara ser tudo mentira. Não tinha algum dinheiro e dispôs-se a pagar a dívida em género, ou seja, em serviços prestados à família dos donos e também às gueixas que ali trabalhavam como aos respectivos clientes.

Saheiji é uma espécie de faz-tudo encantador (a tradução em português chama-o "encarregado") que possui um monte de cartas impressas que vende às gueixas para que declarassem em simultâneo o amor aos mesmos clientes, e um futuro e estável casamento. Claro que as gueixas (Sachiko Hidari e Yoko Minamida) se digladiam pelo sedutor enquanto este vai atando e desatando os diversos nós entre os proprietários, os clientes vindos dos diversos sectores da sociedade e as gueixas que sempre aspiravam a uma vida melhor. Saheiji é amável e muito ágil em desintrigar intrigas e até ressuscitar suicidas, Kinzo (Shoichi Ozawa).     

É inverno, Saheiji também é divertido e muito trabalhador mas está disposto a ir-se embora sem darem por isso, mas tem ainda de mostrar no cemitério a campa inexistente de uma amante a um choroso apaixonado. Saheiji tosse por estar tuberculoso e sai de cena, paisagem fora. Nunca saberemos o seu destino.

Uma raríssima e divertida comédia japonesa de contornos sociais e políticos que nos deixa apaixonados pelas suas personagens.


jef, março 2025

«Sol nos Últimos Dias do Shogunato» (Bakumatsu taiyoden) de Yuzo Kawashima. Com Furanki Sakai, Sachiko Hidari, Yoko Minamida, Yujiro Ishihara, Izumi Ashikawa, Toshiyuki Ichimura, Nobuo Kaneko, Hisano Yamaoka, Yasukiyo Umeno, Masao Oda, Masumi Okada, Toshio Takahara, Tomio Aoki, Sanpei Mine, Kin Sugai, Shoichi Ozawa, Kenjiro Uemura. Argumento: Yuzo Kawashima, Hisashi Yamanouchi e Shohei Imamura Produção: Takeshi Yamamoto. Fotografia: Kurataro Takamura. Música: Toshiro Mayuzumi. Japão, 1957, P/B, 110 min.

 

terça-feira, 25 de março de 2025

Sobre o filme «Siga a Banda!» de Emmanuel Courcol, 2024























Temo dizer que desconfio bastante (e espero que não seja presunção) quando vejo pela rua publicidade a dizer-me que o filme “comoveu dois milhões de franceses”. O cinema francês tem no currículo as melhores comédias do mundo mas, depois, especializou-se a realizar as piores comédias do mundo. Por isso, entrei no cinema com um ou dois pés atrás.

Contudo, o filme derrotou-me e também me comoveu. E a música faz sempre milagres!

A história vem dos tempos mais ou menos clássicos ou românticos, da Grécia antiga até Shakespeare ou Eça de Queiroz. Dois irmãos que se desconhecem Thibaut Desormeaux (Benjamin Lavernhe) e Jimmy Lecocq (Pierre Lottin), vindos de ambientes sociais opostos, por razões clínicas acabam por se encontrar, desconfiar, apoiar e, depois, amar. Talvez por cumplicidade genética (ou esforço de argumento) estão ambos ligados à musica. O primeiro, maestro numa grande orquestra sinfónica, pianista, professor e compositor, o segundo, a trabalhar na cozinha de uma empresa mineira que está em regime de insolvência, é trombonista na banda filarmónica dos mineiros. O primeiro encontra-se doente, o segundo podê-lo-á ajudar.

No fim, Mozart, Beethoven, Mahler, Ravel ou Michel Petrossian, irão unir o coração de todos como só a música parece fazê-lo de modo tão abstracto e emocional.

É muito difícil realizar uma boa comédia dramática como esta. Os diálogos são sinceros e muito convincentes os actores Benjamin Lavernhe e Pierre Lottin, a que se junta a imprescindível presença da actriz Sarah Suco (Sabrina), fazendo de contraponto ou contra-regra ao cozinheiro trombonista Jimmy.

Talvez a forma um tanto forçada de conciliar dois cenários musicais distintos e a necessidade de contar tanta história em tão poucos minutos e cenas tão curtas, me tenham feito distrair (ou abstrair) do motivo central. Enfim, não há bela sem senão!


jef, março 2025

«Siga a Banda!» (En fanfare) de Emmanuel Courcol. Com Benjamin Lavernhe, Pierre Lottin, Sarah Suco, Jacques Bonnaffé, Clémence Massart-Weit, Anne Loiret, Mathilde Courcol-Rozès, Yvon Martin, Isabelle Zanotti, Nicolas Ducron, Charlie Nelson, Marie-José Billet, Antonin Lartaud, Rémi Fransot, Johnny Montreuil, Johnny Rasse, Gabrielle Claeys, Annette Lowcay, Jean-Luc Lebacq, Joël Lebacq, Stéphanie Cliquennois, Lulu Lomendie, Rui-Mickaël Dias, Nathalie Desrumaux. Argumento: Oriane Bonduel, Emmanuel Courcol, Irène Muscari segundo o texto de Marianne Tomersy. Produção: Marc Bordure, Robert Guédiguian. Fotografia: Maxence Lemonnier. Música: Michel Petrossian. Guarda-roupa: Laura Vallot. França, 2024, Cores, 103 min.

 

segunda-feira, 24 de março de 2025

Sobre o livro «Mitologia Nórdica» de Neil Gaiman, Presença, 2017. Tradução de Maria de Almeida.



 







A minha mãe sempre dizia que o bicho-homem é um bicho que sempre viveu com medos. Muitos. Medo da trovoada, do oceano sem fim, do céu escuro da noite, da floresta, do inverno, do sol, das feras, e por aí fora... E para aplacá-los foi imaginando seres mais ou menos superiores que comandavam tanto os fenómenos naturais como a sua relação com os homens e, claro, também o respectivo catálogo dos medos. A filosofia foi evoluindo e também os conhecimentos científicos no espaço e no tempo. E os medos foram-se reduzindo, assim como o número de deuses. Mas como é evidente, foi ficando o grande medo, único e tenebroso – a Morte. E como era um medo insolúvel, o homem imaginou para o acompanhar um deus apenas. Mesmo assim, multiplicaram-se as congregações para adorar o tal único ser (ou ente ou entidade). Nascia o monoteísmo, para nem bem nem mal dos nossos pecados. Origem de muitas guerras. Assim, rezava a minha mãe que obviamente era ateia.

Mas antes de nascer esse monobloco, essa mono-obsessão, cada cultura foi-se entretendo a criar um altar de divindades à sua imagem e semelhança. Umas mais animistas para o lado africano, outras mais imaginativas e dolorosas para o lado da América meridional, outras pelo convívio com sucessivas e eternas reencarnações para o lado mais oriental. Estas foram migrando até ao Egipto, misturando-se, depois até ao mediterrâneo passando pela Grécia, por terra de Etruscos, pelo império romano e mais além, como diria o nosso Buzz Lightyear.

Mas no imenso Norte gelado de noites sem fim, iam estacionando criaturas gigantes, mal dispostas e muito difíceis de entender, que comandavam as frotas dos Vikings dando o mote a parte da grande literatura nórdica. (Vá lá a gente conceber à luz da tradição cultural católica, por exemplo, o mundo de certos e belos romances de Selma Lagerlöf – «A Saga de Gösta Berling», 1891, ou «Os Milagres do Anticristo», 1897).

Pois, um grande amigo emprestou-me o presente livro com as loucas histórias das divindades e proto-divindades nascidas junto do Círculo Polar Norte entre universos de muitos mundos, luz e trevas, gelo e fogo, serpentes gigantes, lobos péssimos, anões habilidosos, ogres manhosos, árvores do mundo, bodes como cavalos que sobrevivem mesmo depois de guisados, cavalos de oito pernas, deuses que se mascaram de deusas ou se metamorfoseiam em éguas para serem fecundadas, gigantes que vão à pesca, deusas carecas, ou deuses belos que têm medo de pesadelos.

Claro que todos prestam relativa vassalagem ao maior, Odin, que trocou um olho pela sabedoria. Todos têm um certo medo de Thor, o célebre Thor, filho de Odin, grande e hirsuto, que recebeu um cinto ampliador da força e um martelo infalível, cobiçado por todos, oferecido por anões. Mas Thor não deve grande coisa à deusa da inteligência.

Todavia, como toda a história politeísta ou monoteísta tem de ter um diabo ou diabrete ou mafarrico para a intriga possuir sal, pimenta, sangue, suor e lágrimas, aparece o lindo, maléfico, o ardiloso, o sedutor, Loki, irmão de Odin. Loki, o traidor mas também por vezes salvador, tem sapatos que o deixam voar e não há história onde ele não meta o bedelho.

Não restam dúvidas. As mitologias religiosas, politeístas ou monoteístas, são um poço de imaginação, encantamento, horror, bondade e fantasia. Talvez sejam mesmo a maior obra de ficção criada pelo homem.


jef, março 2025

 

sábado, 22 de março de 2025

Sobre o disco «Maçã d’Adão» de Jonas, SPA / Valentim de Carvalho 2024


 








Jonas dá largas ao curso da sua voz magnífica. Também da irreverente criatividade artística. Afasta-se da coerência do disco «São Jorge» (2020) mas, sem dúvida, fadista ele é (“Pai de Santo”, “Sol Solidão”, “Fado Bipolar”, “Ira”)!

Mas não fica quieto, não desdenha outros ritmos, harmonias ou acordes (maiores ou menores), venham elas do grande Andaluz (“Bato à Porta”, “Severa y la Virgen”, “Ira”), do grande Brasil (“Pai de Santo”, “Vaidade – Lundu Marajoara”, “Preguiça”), talvez do grande Cabo Verde (“Mouraria Moirama”), da grande Argentina tanguista (“Luxúria”), do grande Alentejo sofrido (“Gula”), da velha e grande Idanha-a-Nova / Monsanto (“Soberba”). Também das ruas da grande Lisboa (“Papagaio Verde”, “Vaidade – Lundu Marajoara”). E da grande Líbido, do infinito Amor (“Maçã d’Adão”, “Bato à Porta”, “Luxúria”, “Sol Solidão, “Soberba”).

Um disco que abre com “Maçã d’Adão” em ritmo de contrabaixo swingado, uma canção que acelera depois quase desesperadamente, e termina com “Mouraria Moirama” em compasso crioulo ainda mais dançável.

Disco que só nos compreende à quinta audição seguida, obrigando depois a outras tantas audições sem parar. Os poemas e as músicas são quase todas de Jonas (confirmando que o disco anterior será integralmente da sua autoria). Assim como toda a produção musical. Os coros masculinos transformam-no em definitivo, assim como as cordas (Tiago Valentim – viola de fado, Yami Aloelela – baixo, Bernardo Romão e Acácio Barbosa – guitarra portuguesa).

Enfim, ouvindo bem, em «Maçã d’Adão» talvez o pecado da incoerência seja mesmo o seu maior privilégio.


jef, março 2025