Existe uma ironia trágica no facto de assistir ao espectáculo
um ano após a morte da poetiza do absurdo concreto, Adília Lopes. Será também
um doloroso e emocional passo dramático para Ricardo Neves-Neves, que assina a
dramaturgia e a encenação, e que trabalhou a peça desde 2021, segundo a folha
de sala.
(Onde Adília estiver escondida, sorrirá e aplaudirá!)
E o que impressiona nos 70 minutos da sintomática, quase
milimétrica, actriz Sílvia Filipe, acompanhada no som de palco por Simão Bárcia,
é a capacidade de nunca desvirtuar essa misteriosa chama que Adília Lopes nos
deixa através da poesia sincrética, feita de matemática pura, inteligência
aguda, contos Grimm dissecados a bisturi, lengas-lengas infantis, onomatopeias
trava-línguas, modernidade antiquada, compêndios zoológicos ilustrados,
brinquedos esquecidos, árvores encontradas, pardais, gatos, baratas, poeira,
sexo, Deus, corpo, lágrimas e espírito provocador. Deixem-na ser como ela quer,
deixem-na ser triste e alegre ao mesmo tempo, velha e criança em simultâneo.
Ricardo Neves-Neves, talvez provocadoramente reverente,
coloca Adília-Sílvia-Palhaço no centro do palco, imita-lhe a forma, a roupa, o
cabelo, o trejeito, e fá-la acompanhar de animação, insectos projectados,
musas-medusas suspensas, casas e quartos difusos, modos concretos, para nos abrir um livro e ler-nos os contos infantis para velhos atentos de Adília, um após o outro.
E, assim, alegremente nos entristecemos, sabendo que a nossa casa, afinal, é todo o universo e este, mais tarde, terminará. Reconhecemo-lo com um riso
lacrimoso, tendo a certeza que sempre as flores voarão, os pássaros espreitarão
e a jarrinha partida será, algum dia, encontrada.
Viva Adília Lopes!
Viva Ricardo Neves-Neves e Sílvia Filipe!
jef, Teatro Variedades, 2 de Janeiro de 2026
«Estar em Casa» a partir de Adília Lopes. Dramaturgia e
encenação: Ricardo Neves-Neves. Com Sílvia Filipe. Cenografia: Eric da Costa. Artes finais e
cenografia: Rita Vieira. Desenho de luz e coordenação técnica: Cristina Piedade.
Desenho de som e sonoplastia: Sérgio Delgado. Figurinos: Rafaela Mapril. Cabelos:
Carlos Feio. Música: Simão Bárcia. Canções: Maia Balduz e Simão Bárcia. Ilustração e vídeo: Inês
Silva. Video mapping: Eduardo Cunha. Produção e direcção de cena: Teatro do
Eléctrico, Sílvia Moura / Culturproject: Nuno Pratas / Teatro do Elétrico,
Cineteatro Louletano. Duração: 70 minutos.























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