terça-feira, 28 de julho de 2026

Sobre a peça «Variedades (…Como uma Ópera Bufa Erótica e Satírica)» de Fernando Heitor, Flávio Gil e João Paulo Soares. Teatro Variedades, 2026.

 





 





















Como resolver 100 anos do Teatro Variedades, do Parque Mayer, de Lisboa, de Portugal e da Europa? Evocar 100 anos de teatro, essa coisa estranha que termina definitivamente quando os actores se calam, quando o pano desce sobre a ribalta e os espectadores saem para a rua. Um Tempo tão diferente do do cinema, que fixa o acto dramático para sempre, agora então com o maravilhoso restauro das cópias digitais, sempre eternas. Mas no teatro não, tudo desaparece para ficar retido na memória da teia, dos bastidores, da plateia, do pó do palco. Apenas memória!

Como então, repito, refazer a memória perdida? Terá sido a grande questão colocada a Fernando Heitor, Flávio Gil e João Paulo Soares aquando da proposta para o empreendimento. No fundo, como representar a Nostalgia sem tocar no miserabilismo da saudade, principalmente agora que o Teatro Variedades (e o Parque Mayer) volta a encher casas diariamente para gáudio do novo-velho teatro? Afinal, como tocar na Nostalgia sem ser nostálgico?

 A resposta, ou o resultado final, parece ser o ovo de colombo: Recriar um teatro dentro do teatro, sem chamar os velhos actores ou o velho público, convocando, isso sim, as figuras que sempre cirandaram, por espírito, ofício ou ócio, aquele lugar: magalas, varinas, marujos, ardinas, cauteleiros, prostitutas, diletantes pobres ou ricos, saloios, imigrantes… Mas o mais curioso é que, por etário rigor cronológico, quem ali vemos no palco são as suas almas e os seus fantasmas que, esses sim, permanecerão sempre vivos mesmos quando actores e músicos regressam, cada noite, a casa.

Contudo, «Variedades» não será uma ópera bufa, nem erótica nem satírica, pois os autores da peça, no seu modo ternurento de trazer ao colo as personagens, aproximam-se, talvez sem crer, muito mais da revista à portuguesa tomando por “compères” duas decanas actizes para representarem duas personagens que passam o tempo em contraponto mútuo dramático tragicómico, dando a deixa para muitos dos quadros musicais: Catarina, ‘a costureinha de Caneças’ (Wanda Stuart) e a Zé, ‘a transmontana que trocou as saias pelas calças’ (Maria João Luís) – a primeira revivalista, com saudades do passado e sem perceber a ‘história’ do presente e a outra, poderosa, agregadora, protectora, biógrafa, aquela que entende a ‘história’ do futuro. As outras oito personagens-entidades que lhes são devotas sucessoras ou amigas inspiradoras vão dando corpo dramático e musical a uma longa lista de fados, marchas e até zarzuelas, memórias de peças e imagens de actores– João Villaret, José Viana, Raul Solnado... Serão essas personagens, cada uma a seu tempo, os próximos fantasmas guardiões do futuro do Variedades – O Tremidinho, ‘o tocador de gaita de beiços que veio do Minho, (Bernardo Souto), a Zé, e finalmente António, o miúdo ‘que foi amamentado por uma gata amarela’ (Flávio Gil).

Simples é o cenário que os actores vão deslocando entre cadeiras e mesas reinventado para cada uma das datas festivas, para cada momento histórico de 100 anos de repúblicas várias e diversas democracias.

Um facto é que me comovi por os ver partir e exultei por os saber ressuscitados. Fiquei também descansado com a explicação para a nossa questão maior, e dita por quem nos regressou: “por momentos perde-se um pouco a noção e a memória, mas depois volta tudo quase ao normal!”, Agradeço sinceramente esta perspetiva da ‘imortalidade’ e do teatro.

Viva o teatro!

As fotografias de cena são de meu amigo Fernando Santos, a quem agradeço.

(Nota: nunca fui frequentador do Parque Mayer, nunca lá vi uma Revista sequer, mas tenho a mais grata memória de ter ido ao Capitólio, em 1974 ver «A Ilha dos Escravos e A Herança» de Pierre Marivaux pela Cornucópia… da qual fiquei para sempre apaixonado. No Capitólio, subíamos por uma escada rolante que tremia assustadiça… 

Mas agora,  Ah, bom é o presente! O Variedades é o teatro que mais tenho frequentado!)


jef, 26 de Julho de 2026

«Variedades (…Como uma Ópera Bufa Erótica e Satírica)» de Fernando Heitor, Flávio Gil e João Paulo Soares. Com Bernardo Souto (Tremidinho), Bruno Madeira (Jacinto), Carlos Malvarez (Cigano), Cátia Garcia (Palmira), Flávio Gil (António), Maria João Luís (Zé), Miguel Raposo (Camarão), Sandra Rosado (Carmen), Teresa Zenaida (Marquinhas) e Wanda Stuart (Catarina). Músicos: João Paulo Soares (piano e direcção musical); Nuno Allan (baixo); Miguel Majer (bateria); Maria João Cunha (acordeão); Henrique Fialho (clarinete); Eurico Cardoso (viola de arco). Encenação: Fernando Heitor e Flávio Gil. Coreografia: Guilherme Leal. Figurinos: Rafaela Mapril. Telão: Tomaz Colaço. Desenho de luz: Paulo Graça. Desenho de som: Sérgio Milhano. Assistência de encenação

e pesquisa histórica: André Camilo. Produção: Teatro Variedades

Lisboa Cultura. Fotografias: Fernando Santos. 120 minutos.

 

Teatro Variedades

8 julho 2026 – 16 agosto 2026

quarta a sábado, 21h

domingo, 16h

 

sábado, 25 de julho de 2026

Sobre o livro «Noite no Caminho de Ferro da Via Láctea» de Kenji Miyazawa, E-Primatur, 2026. Tradução e notas de António Barrento.



 







Um livro especial. Não apenas por incluir duas fábulas únicas e intrigantes do escritor e humanista Kenji Miyazawa (1896-1933) sobre como viver a espiritualidade activa entre a comunhão com os demais viventes humanos, a tecnologia em prol da melhoria de vida dos que mais necessitam e a conservação da natureza. «Noite no Caminho de Ferro da Via Láctea» e «A Biografia de Gusuko Budori» são, acima de tudo, excepcionais actos poéticos sobre a sobrevivência, a devoção literária e a abnegação à causa social.

Esqueçam as comparações aleatórias com «O Principezinho» de Antoine de Saint-Exupéry. São mundos paralelos, mas que dificilmente se tocam. São poesias diversas, a de Saint-Exupéry, um abstraccionismo intelectualmente adulto e disseminado; o mundo de Miyazawa é concreto, tecnológico, astronómico, paleontológico, agronómico e silvícola lembrando-me ainda trechos das aventuras de Stevenson, de Júlio Verne, dos Irmãos Grimm ou Selma Lagerlöf. Só que é tudo diferente! Intelectualmente puro, emocionalmente profundo e toldado pela ventura da dádiva e pelo altruísmo definitivo sem moeda de troca. Apenas entrega seguindo o despojamento budista de que Miyazawa era seguidor ou perseguindo o mundo dos Kami, essa xintoísta profusão de seres mitológicos que nos rodeiam e acompanham.

A par da leitura dos dois textos traduzidos directamente por António Barrento, somos auxiliados pelas circunstanciais notas pé-de-página, a introdução “Sobre o Autor” e o posfácio “Notas finais”, onde o tradutor enquadra temporalmente e politicamente a publicação das novelas. Para além da extensa bibliografia e um glossário onde pontuam, identificando-as, as muitas plantas mencionadas ao longo das narrativas, ou não tivesse Miyazawa estudado Agronomia.

Um livro que também é muito prático, emocionante e emocional que resulta de uma proposta editorial directa de António Barrento (e Hugo Xavier) para financiamento colectivo, através do qual os leitores podem ir construindo a própria editora E-Primatur.

Um livro rigorosíssimo a ser acarinhado e ‘estudado’ por todos os leitores (e editores).


jef, julho 2026

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Sobre o filme «Beijos Roubados» de François Truffaut, 1968



 























Maio 68. Paris. Tráfego urbano intenso, algumas manifestações, encontros fortuitos, Sacré-Cœur Montmartre, prostitutas ao virar da esquina, pleno emprego. A Cinemateca fechada. Apenas o cinema corre atrás de uma explosiva, diria imparável, talvez alegre, nouvelle vague. Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), uma espécie de faltoso desertor recorrente também não pára, é expulso do exército, tem uma provável namorada, Christine (Claude Jade), mas nela não se fixa. Antoine não será propriamente volúvel, tem sentimentos profundos, mas não terá tempo. Talvez antes queira tudo ao mesmo tempo. Afinal, estamos em Paris, 1968, numa sequência corrida e benévola de episódios, de cenas que parece juntarem-se como por acaso, mas unidas num impressionante jogo de câmara que corre atrás do prejuízo, do benefício, do azar, dos beijos roubados, do amor transitório, dos sucessivos agentes de vigilância da firma Agência Blady. Há que repetir com insistência, ao espelho, os nomes próprios mais importantes, A câmara corre atrás de um diálogo satírico ainda mais veloz, mais absurdo, mais irónico, onde a violência faz parte de uma sociedade em crise de seriedade: o marido encornado parte a mobília do quarto de hotel, o homossexual abandonado desvaira ao constatar que o namorado já não o quer. Antoine é despreocupado com tudo, deseja apenas o minuto que está a viver, ali. Lê muito mas evita o cinema. Lê “Le Lya dans la Vallée” de Balzac, enquanto nós ouvimos Charles Trenet a cantar “Que reste-t-il de nos Amours”.

Por fim, num ápice de melancólica ironia, o desconhecido, eterno vigilante da casa de Christine, aproxima-se deles, ignorando Antoine, e declara-se a Christina advertindo-a, antes de se afastar, de que ela tem de “romper laços provisórios com pessoas provisórias. Quanto a mim, eu

Serei o definitivo”. Antoine e Christine chamam-lhe louco e continuam o passeio no jardim. Logo mais tarde verão o que poderá acontecer!

Uma fábula, quase uma hipérbole satírica, sobre o dia que acabou de passar e apenas pudemos vislumbrar.

 

jef, julho 2026

«Beijos Roubados» (Baisers Volés) de François Truffaut. Com Jean-Pierre Léaud (Antoine Doinel), Claude Jade (Christine), Delphine Seyrig (Fabianne Tabard), Michel Lonsdale (M. Tabard), Daniel Ceccaldi (o pai de Christine), Claire Duhamel (a mãe de Christine), André Falcon (M. Blady), Harry Max (Henri), Serge Rousseau (o desconhecido), Marie-France Pisier (Colette), Simono (Albani), Jacques Delord (o restidigitador), Martine Ferrière (a vendedora de sapatos), Jacques Rispal (Mr Colin). Argumento e diálogos: François Truffaut, Claude de Givray e Bernard Revon. Produção: Marcel Berbert para Les Films du Carrosse e Les Artistes Associés. Fotografia: Denys Clerva. Música: Antoine Duhamel e a canção de Charles Trenet “Que reste-t-il de nos Amours”. França, 1968, Cores, 92 min.


domingo, 12 de julho de 2026

Sobre o disco «Get Sunk» de Matt Berninger, Concord Records 2025

 




 








Se a capa do álbum «Serpentine Prison» (2020) tinha um vago Freud-Bacon Touch, a de «Get Sunk» pisca o olho a Lourdes Castro.A mesma penumbra de prisão, de cerco, de transparência vigiada, de refúgio cercado.

Inland Ocean

No Love

Bonnet Of Pins

Frozen Oranges

Breaking Into Acting

Nowhere Special

Little By Little

Junk

Silver Jeep

Times Of Difficulty

 A voz grave, velada, densa parece mais definida, talvez ainda mais política, nesse texto sem fim, paranóico-diabólico, feito de restos prestáveis: «Nowhere Special». Por vezes acarinhada pela voz feminina.

“God loves the inland ocean. Lost cause, I have no emotion. Wrap me up and bury me.» canta-se no interior desse oceano sitiado. Mas “We say sorry then We laugh it off With careful hugs And kisses off the cheek”. Apesar de todo o amor a solidão existe. Apesar de todo o abandono existirá uma centelha de carinho.

Mesmo no centro do absurdo, mesmo se as laranjas suspendem-se congeladas na árvore em Indiana, mesmo se aos poucos termines em poeira e sonhos, ainda poderemos encontrar a semente redentora da comunhão.

“Get drunk! Get sunk! Forget! Get wet!”

No entanto, “I’ll think of you if you think of me The way the sky thinks of the sea In times of dfficulty”.

'A energia pode ser estranha', porém a música de Matt Berninger revela novamente o modo abstracto e belo de como sobreviver à intempérie de um mundo cruel mas, ainda assim, belo.

“I only love you baby, I’m only love Without you baby I’m only junk I’m only love I’m only junk.”

jef, julho 2026

Sobre o filme «L’Aventura» de Sophie Letourneur, 2025



 


























Podemos, por momentos, esquecer o hiper-realismo, esquecer também a velha nouvelle vague. O filme integra uma outra classe estranha de filmes, talvez uma ‘nouvelle vague hiper-realista’. Mas é sempre redutor classificar. E todos sabemos como, em férias, nessa concentração absoluta do afecto familiar, sem possibilidade de fuga ou redenção, tudo poderá vir à tona.

Se se sentir confuso, inicialmente, com a sequência narrativa, não se importe, as férias em família são sempre um pouco assim. Atente mais na evolução do chapéu de palha que vai passando de cabeça em cabeça, cada vez mais desgraçado. Atente, depois, no longo percurso a pé de Jean-Philippe (Philippe Katerine), sozinho, por uma rua da vila da Sardenha, ou na mão pousada sobre a perna de Sophie (Sophie Letourneur) e na expressão de espanto (ou repulsa) desta. Atente na sistemática prisão de ventre feminina durante as viagens ou na frequência das birras e do cocó do pequeno Raoul (Esteban Melero). Temos ainda gelados e praias è escolha. Tome atenção na beleza da cara de Claudine (Bérénice Vernet) que se vê afastada da sua infância pela omnipresença birrenta do meio-irmão, enquanto ela vai gravando as vozes de umas férias conquistadas com suor, sangue e picadas de vespa. Essas vozes são para memória futura de um provável futuro filme. Também pode recordar as versões de alguns temas Bach em versão electro-pop. Atente, finalmente, nessas ininterruptas, quase negligentes, ternas e invasoras, aproximações da câmara às faces, às expressões, aos corpos daquelas quatro personagens-criatura, daqueles quatro maravilhosos actores.

Depois, tudo é arquitectado (ou tricotado) com minúcia de metrónomo, entre o passado e o presente filmado, anacrónico, num vaivém que deixa o espectador à mercê irreflectida mas hípersensorial de umas férias que seriam para esquecer, no interior de uma família onde tudo de bom pode acontecer, mas onde reside a génese de todo o tédio, todo o cansaço de uma existência, de uma escolha que, agora, talvez não fosse escolhida.

Assim, dita Sophie Letourneur, a realizadora: “Ama a vida mais do que a sua lógica. Dessa forma compreenderás o seu sentido”.


jef, março 2026

«L’Aventura» de Sophie Letourneur. Com Bérénice Vernet (Claudine), Esteban Melero (Raoul), Philippe Katerine (Jean-Fi), Sophie Letourneur (Sophie), Carmen Letourneur (Carmen), Francesco Arcuri (Francesco). Argumento: Sophie Letourneur, Laetitia Goffi. Produção: Mathieu Verhaeghe, Sophie Letourneur, Thomas Verhaeghe, Tristan Vaslot. Montagem: Sophie Letourneur. Fotografia: Jonathan Ricquebourg. Música: Laure Arto, Carole Verner. França, 2025, Cores, 100 min.

sábado, 11 de julho de 2026

NOS Alive 2026 - menu do dia

Passeio Marítimo de Algés, Oeiras

Quinta-feira, 9 de Julho de 2026

















Sonya – Palco Heineken (16h30)






























Dogstar – Palco Heineken (18h45)

Dogstar: Keanu Reeves (baixo), Bret Domrose (voz e guitarra) e Robert Mailhouse (bateria).


















Alabama Shakes –
Palco Heineken (20h00)

Duração: 1h15

1. Rise to the Sun

2. Hang Loose

3. I Ain't the Same

4. New Song

5. Future People

6. Guess Who

7. This Feeling

8. Feel Hope Coming

9. I Found You

10. Hold On

11. Another Life

12. Dunes

13. Sound & Color

14. American Dream

15. Gimme All Your Love

16. Don't Wanna Fight

17. Always Alright

Alabama Shakes: Brittany Howard (voz e guitarra), Heath Fogg (guitarra), Zac Cockrell (baixo), Ben Tanner (teclas), Steve Johnson (bateria).

 













Nick Cave & the Bad Seeds – Palco NOS (21h15)

Duração: 2h00

1.       Get Ready for Love

2.       From Her to Eternity

3.       Train Long-Suffering

4.       Wild God

5.       O Children

6.       Tupelo

7.       Carnage (Cover de Nick Cave & Warren Ellis)

8.       Joy

9.       Rings of Saturn

10.     Henry Lee

11.     The Mercy Seat

12.     Papa Won't Leave You, Henry

13.     The Weeping Song

14.     Red Right Hand

15.     Jubilee Street

16.     Hollywood

17.      City of Refuge (bis)

18.      Wide Lovely Eyes (bis)

19.      Into My Arms (bis)

 

Nick Cave and the Bad Seeds (Wild God Tour): Nick Cave (Voz e piano). Warren Ellis (violino, guitarra tenor, sintetizadores e loops). Colin Greenwood (baixo). Jim Sclavunos (percussão, bateria e coros). George Vjestica (guitarras e coros). Larry Mullins (Toby Dammit): bateria e percussão. Carly Paradis (teclados e coros) Coro: Janet Ramus, Wendi Rose e T-Jai McCalla.





















Matt Berninger – Palco Heineken (23h45)

Duração: 1h10

1. No Love

2. Frozen Oranges

3. Distant Axis

4. Type It Up (tema original)

5. Martini Me Fatso

6. Walking on a String

7. One More Second

8. Nowhere Special

9. Little by Little

10. Gospel (The National)

11. Slow Show (The National)

12. Terrible Love (The National)

13. Bonnet of Pins

14. Inland Ocean


nota: as fotografias são de Renan Nascimento

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Sobre o filme «Ladrão de Alcova» de Ernst Lubitsch, 1932























Tão bom ser-se rico, entre Veneza e Paris!

Uma das mais puras, finas, aristocráticas comédias de Lubitsch.

Aqui nada se pode perder, nem uma imagem, nem uma palavra. Tudo conta. Tudo tem um sentido delirante. Nada é a sério. Ninguém pode ver que se está a molhar o croissant no café com leite. Todo o roubo é admissível pois todos roubam e todos desejam ser roubados. Há uma extrema volúpia no engano e ninguém deseja sair desse engano e o maior problema com as mães é que ‘primeiro nós gostamos delas depois elas morrem’.

O segundo problema, para além do roubo da carteira na fabulosa sequência da ópera de Paris, é que todos se amam e todos querem ser amados. Inclusive, a dupla frustrada de pretendentes da extraordinária Mariette Colet (Kay Francis), o Major (Charles Ruggles) e François Filiba (Edward Everett Horton), entre a rivalidade, estão a um passo de se tornarem verdadeiros amigos.

Depois, no início, há a gôndola que se passeia nocturna ao som do O Sole Mio enquanto vai recolhendo lixo pelos canais seguindo-se uma intensa cena sobre os quartos do Hotel Venezia na qual é percorrida toda a cena que anuncia o mote do filme e que termina num melancólico Barão Gaston Monescu (Herbert Marshall) declarando ao mordomo como ‘os começos são todos difíceis’, enquanto aguarda a Condessa Lily (Miriam Hopkins). Afinal, o Barão não é barão e a Condessa não é condessa, são ladrões e amam-se.

Já no final, Lily e Gaston trocam os mesmos argumentos furtados tal como fizeram durante a refeição inicial.

Sem esquecer a estupefação cantarolada do mordomo, Jacques (Robert Greig), na inacreditável sequência das portas dos dois quartos com um relógio pelo meio.

E ainda os vestidos de Lily e Mariette Colet!

Não existe filme mais delicadamente delirante, mais extravagante, mais absurdamente teatral. Mais artdeco! 

Uma obra prima!


jef, julho 2026

«Ladrão de Alcova» (Trouble in Paradise) de Ernst Lubitsch. Com Miriam Hopkins (Lily), Kay Francis (Mariette Colet), Herbert Marshall (Gaston Monescu), Charles Ruggles (Major), Edward Everett Horton (François Filiba), C. Aubrey Smith (Adolph J. Giron), Robert Greig (Jacques, o mordomo), Leonid Kinkey (o comunista), George Humbert (o criado de Gaston). Argumento: Samson Raphaelson baseado na peça de teatro de Aladár László adaptada por Grover Jones. Produção: Ernst Lubitsch. Fotografia: Victor Milner. Música: W. Franke Harling. Canção do genérico: Leo Ribun. EUA, 1932, P/B, 83 min.