Como resolver 100 anos do Teatro Variedades, do Parque Mayer,
de Lisboa, de Portugal e da Europa? Evocar 100 anos de teatro, essa coisa
estranha que termina definitivamente quando os actores se calam, quando o pano
desce sobre a ribalta e os espectadores saem para a rua. Um Tempo tão diferente
do do cinema, que fixa o acto dramático para sempre, agora então com o
maravilhoso restauro das cópias digitais, sempre eternas. Mas no teatro não,
tudo desaparece para ficar retido na memória da teia, dos bastidores, da
plateia, do pó do palco. Apenas memória!
Como então, repito, refazer a memória perdida? Terá sido a
grande questão colocada a Fernando Heitor, Flávio Gil e João Paulo Soares
aquando da proposta para o empreendimento. No fundo, como representar a
Nostalgia sem tocar no miserabilismo da saudade, principalmente agora que o
Teatro Variedades (e o Parque Mayer) volta a encher casas diariamente para gáudio
do novo-velho teatro? Afinal, como tocar na Nostalgia sem ser nostálgico?
A resposta, ou o
resultado final, parece ser o ovo de colombo: Recriar um teatro dentro do
teatro, sem chamar os velhos actores ou o velho público, convocando, isso sim,
as figuras que sempre cirandaram, por espírito, ofício ou ócio, aquele lugar:
magalas, varinas, marujos, ardinas, cauteleiros, prostitutas, diletantes pobres ou ricos, saloios,
imigrantes… Mas o mais curioso é que, por etário rigor cronológico, quem ali vemos no palco são as suas almas e os seus fantasmas que, esses sim,
permanecerão sempre vivos mesmos quando actores e músicos regressam, cada
noite, a casa.
Contudo, «Variedades» não será uma ópera bufa, nem erótica
nem satírica, pois os autores da peça, no seu modo ternurento de trazer ao colo
as personagens, aproximam-se, talvez sem crer, muito mais da revista à
portuguesa tomando por “compères” duas decanas actizes para representarem duas
personagens que passam o tempo em contraponto mútuo dramático tragicómico,
dando a deixa para muitos dos quadros musicais: Catarina, ‘a costureinha de
Caneças’ (Wanda Stuart) e a Zé, ‘a transmontana que trocou as saias pelas
calças’ (Maria João Luís) – a primeira revivalista, com saudades do passado e
sem perceber a ‘história’ do presente e a outra, poderosa, agregadora, protectora, biógrafa, aquela que entende a ‘história’ do futuro. As outras oito
personagens-entidades que lhes são devotas sucessoras ou amigas inspiradoras
vão dando corpo dramático e musical a uma longa lista de fados, marchas e até
zarzuelas, memórias de peças e imagens de actores– João Villaret, José Viana,
Raul Solnado... Serão essas personagens, cada uma a seu tempo, os próximos
fantasmas guardiões do futuro do Variedades – O Tremidinho, ‘o tocador de gaita
de beiços que veio do Minho, (Bernardo Souto), a Zé, e finalmente António, o
miúdo ‘que foi amamentado por uma gata amarela’ (Flávio Gil).
Simples é o cenário que os actores vão deslocando entre
cadeiras e mesas reinventado para cada uma das datas festivas, para cada
momento histórico de 100 anos de repúblicas várias e diversas democracias.
Um facto é que me comovi por os ver partir e exultei por os saber
ressuscitados. Fiquei também descansado com a explicação para a nossa questão maior, e dita por quem nos regressou: “por momentos perde-se um pouco a noção e a
memória, mas depois volta tudo quase ao normal!”, Agradeço sinceramente esta
perspetiva da ‘imortalidade’ e do teatro.
Viva o teatro!
As fotografias de cena são de meu amigo Fernando Santos, a quem agradeço.
(Nota: nunca fui frequentador do Parque Mayer, nunca lá vi uma Revista sequer, mas tenho a mais grata memória de ter ido ao Capitólio, em 1974 ver «A Ilha dos Escravos e A Herança» de Pierre Marivaux pela Cornucópia… da qual fiquei para sempre apaixonado. No Capitólio, subíamos por uma escada rolante que tremia assustadiça…
Mas agora, Ah, bom é o presente! O Variedades é o teatro que mais tenho frequentado!)
jef, 26 de Julho de 2026
«Variedades (…Como uma Ópera Bufa Erótica e Satírica)» de Fernando
Heitor, Flávio Gil e João Paulo Soares. Com Bernardo Souto (Tremidinho), Bruno
Madeira (Jacinto), Carlos Malvarez (Cigano), Cátia Garcia (Palmira), Flávio Gil
(António), Maria João Luís (Zé), Miguel Raposo (Camarão), Sandra Rosado (Carmen),
Teresa Zenaida (Marquinhas) e Wanda Stuart (Catarina). Músicos: João Paulo
Soares (piano e direcção musical); Nuno Allan (baixo); Miguel Majer (bateria); Maria
João Cunha (acordeão); Henrique Fialho (clarinete); Eurico Cardoso (viola de
arco). Encenação: Fernando Heitor e Flávio Gil. Coreografia: Guilherme Leal. Figurinos:
Rafaela Mapril. Telão: Tomaz Colaço. Desenho de luz: Paulo Graça. Desenho de
som: Sérgio Milhano. Assistência de encenação
e pesquisa histórica: André Camilo. Produção: Teatro
Variedades
Lisboa Cultura. Fotografias: Fernando Santos. 120 minutos.
Teatro Variedades
8 julho 2026 – 16 agosto 2026
quarta a sábado, 21h
domingo, 16h








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