Como um homem sem qualidades. Melhor, alguém que rejeita o mundo que
o envolve (e o devolve) e se concentra na ideia de permanecer só ou no interior do próprio estado solitário.
Qualquer coisa de Meursault de Albert Camus («O Estrangeiro» 1942), qualquer
coisa de Gohar de Albert Cossery («Mendigos e Altivos» 1955), ou de «Bartleby» de
Herman Melville (1853), de Zeno de Italo Svevo («A Consciência de Zeno» 1923), de Frank Friedmaier de
Georges Simenon («A Neve Estava Suja» 1948).
Uma espécie de absurdo libertário, muito mais essencialista que
existencialista. Alguém com 25 anos, afasta-se dos amigos, da universidade, da
família, vive também perto ou longe do seu estreito quarto na Rue de Saint-Honoré, das horas
contadas pelo campanário da igreja de Saint-Roch, da Place Clichy. O mundo
corre lá fora, sem sucesso, sem pressa, demora ou entusiasmo. A mesma refeição
diária, o mesmo jornal relido, o cigarro, a eterna paciência de cartas sobre a
cama. O vizinho tosse e abre e fecha gavetas. Uma bacia de plástico
cor-de-rosa com seis peúgas de molho. Por dentro, o sono invade a cabeça tomada
pela almofada, os membros soltam-se, o corpo eleva-se imponderável. O mundo
externo ou interno sobrevive na abstracção. Refúgio e desagregação na liberdade
mais pura, mais simples.
«Que maravilhosa invenção é o homem!
Pode soprar as mãos para as aquecer e soprar a sopa para a arrefecer. Se não
ficar demasiado enojado, pode pegar delicadamente em qualquer besouro entre o
polegar e o indicador. É capaz de cultivar plantas e extrair delas o seu
alimento, a sua roupa, alguns medicamentos, e mesmo perfumes que ajudarão a disfarçar
o seu odor desagradável. É capaz de bater os metais e fazer panelas (coisa que
um macaco não conseguiria fazer). (…)
Só os idiotas continuam a falar, sem
se rirem, do Homem, do Animal, do Caos.»
Ler o modernismo descritivo ou a narrativa naturalista de George
Perec faz-nos conhecer a exacta consistência do solo que se comprime por baixo
das solas dos nossos sapatos. Um apuro de escrita filosófica.
E que bela é a tradução de Luís Leitão.
jef, outubro 2026

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