Este
filme coloca-nos uma dúvida muito interessante, talvez mesmo intrigante, ao ser
observado na perspectiva de uma sociedade de cultura cristã. A chegada com um
breve aviso da jovem endiabrada, libidinosa, sempre cheia de apetite e curiosidade,
Chiyomi (Machiko Kyo), a casa de sua irmã Hanae (Chikage Awashima), casada com Yamano
(Eiji Funakoshi) – ela bailarina, ele violinista numa casa de espectáculo de
variedades –, vem perturbar toda a rotina melancólica do circunspecto casal.
Não só do casal mas dos bastidores e de todo o teatro. A presença de Chiyomi também
não passa despercebida ao encenador e coreógrafo dos espectáculos.
Parece
que Chiyomi transporta toda a série de tentações e pecados que o mundo do
teatro de variedades, em jeito Ziegfeld Follies, parece sugerir – ela aprende
depressa os números e actua como a irmã nunca conseguiu, ela vive mais, vive alegre e transgride. O mundo teatral, jovial
e luminoso, contrasta ostensivamente com o apartamento sombrio e invernoso onde
o trio agora vive.
Contudo,
o que mais surpreende no filme é a capacidade (cristã!) do perdão se sobrepor
ao pecado e de, numa constante dicotomia de claro e escuro, campo contracampo, sorrisos e apreensão, amor e desconfiança, silêncio e ofensa, sobrevivência e regeneração, até de crime e desculpa, o
filme oferecer-nos a possibilidade de redenção e de uma possível triste
felicidade, cristalizada no futuro.
«A
Dançarina» toca de modo abstracto, sem verdadeiramente tocar, relembra
talvez, a obra-prima do autor «Imagem de Uma Mãe» (1959), e não será apenas
pela presença inesquecível da actriz Chikage Awashima.
O
perdão será sempre uma das principais estratégias para a sobrevivência.
jef,
abril 2026
«A
Dançarina» (Odoriko) de Hiroshi Shimizu. Com Chikage Awashima, Machiko Kyo, Eiji
Funakoshi, Haruo Tanaka, Keiko Fujita, Noriko Hodaka, Hiroko Machida. Argumento: Sumie Tanaka segundo o romance de Kafu
Nagai. Produção: Ikuo Kubodera, Masaichi Nagata / Estúdio Daiei. Director de
arte: Atsuji Shibata. Fotografia: Tomohiro Akino. Música: Ichiro Saito. Japão, 1957,
P/B. 96 min.




































