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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Sobre o livro «Animalário, um bestiário lusitano» de Pedro Castro Henriques, edição Margarida Oliveira, 2026

 
























«Os animais, que não humanos, sugerem não se interrogar sobre a sua condição. Um lagarto não se lamenta de ser lagarto e nem sequer lhe passa pela cabeça vir a ser borboleta ou elefante, é apenas lagarto e julga desempenhar bem o seu papel.

«Nós, pelo contrário, protestamos sem cessar sobre o nosso destino, invejamos o triunfo dos demais, sentimo-nos culpados de muitos actos que praticamos e, não raro, temos consciência da mediocridade do nosso desempenho. Este sentimento de culpa é agravado pelo facto de modernas ortodoxias nos responsabilizarem face ao estado da Terra e demais ocupantes. Por enquanto, ainda não pedimos desculpa pelo facto de termos nascido, mas nisso imitamos qualquer mosquito, emérito e despreocupado transmissor de vírus e de morte.»

 

Assim, o autor inicia o prólogo deste dicionário, ou bestiário, com centenas de entradas, desde “abandono” a “zurro”. Quando faço este pesquisa, o autor adianta-se pois exactamente na última página coloca a palavra “fim”, instigando o leitor a preencher os espaços em falta, infinitos diga-se, pois ele não voltará ao caso, pois o Bobi chama para o levar à rua!

Por isso, confirmo que a escrita curta de Pedro Castro Henriques é tão motivadora e inteligente, divertida e consciente, quanto ilógica e irreverente. Temos de encontrar para a sua escrita um novo código de leitura. Um novo abecedário que nos oriente entre as suas farpas políticas, éticas, morais ou ambientais. No fundo, o alfabeto PCH apenas nos indica novos caminhos para a leitura do nosso comportamento na sociedade.

Ou seja, «Animalário – um bestiário lusitano» não é mais que um espelho onde nos podemos rever e compor socialmente. A gravata não fica bem, o colarinho está desajustado, o chupão vê-se ainda no pescoço… Não podemos sair assim para a rua! Temos de nos saber comportar como um homenzinho. Neste caso, como um humanozinho!

Diderot enciclopendiou, Lineu ou Gothe quiseram pôr em ordem alfabética o reino vegetal que Deus tão desorganizadamente criou em tão poucos dias…

Esopo, La Fontaine, ou mesmo os irmãos Grimm, usaram toda a casta de animais para justificar os piores comportamentos humanos. Aquilino Ribeiro catalogou e encafuou a zoologia, com saber e parcimónia infantil e subtil vocabulário na «Arca de Noé – 3.ª Classe»…

…não! Não pensem encontrar no Dicionário ou Enciclopédia animal de PCH a moralidade factual, o pressuposto religioso, a admoestação política e social do nosso comportamento.

Uma vez mais. Não! Pedro Castro Henriques é cerimoniosamente irreverente, repito, literariamente belo, polidamente iconoclasta, psicanaliticamente clínico, até cínico. (Por favor, ler com atenção a entrada para “leitão”!)

Eu só agora comecei a ler. Uma entrada por noite, em jeito de compensação bíblica pelos pesadelos ou belos sonhos que encontrarei de olhos fechados no subconsciente da almofada.


jef, maio 2026

* zoologia

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Águia-imperial-ibérica Aquila adalberti (CL Brehm, 1861)


É uma espécie endémica do Oeste do Mediterrâneo, encontrando-se circunscrita à Península Ibérica. Os seus ninhos são estruturas volumosas colocadas em grandes árvores capazes de os suportar, eucaliptos, pinheiros-bravos, azinheiras, e que estão perto de áreas abertas onde possam perseguir as presas, predominantemente coelhos-bravos mas também pombos-torcazes, perdizes ou répteis.

Após um decréscimo drástico no final do século passado, na década de 90 foi considerada extinta como reprodutora em Portugal, principalmente devido ao abate direto e envenenamento, à destruição de ninhos e perturbação do habitat, ao decréscimo do coelho-bravo. A partir de 2003, os casais começaram a reocupar progressivamente as regiões fronteiriças do Tejo Internacional, Moura-Barrancos, o vale do Guadiana e até Castro Verde, coincidindo, de modo não aleatório, com as Zonas de Protecção Especial estabelecidas comunitariamente pela Rede Natura 2000. Também se verifica que a maioria dos casais têm os ninhos em zonas ordenadas de caça, sobretudo turísticas.

Tal como o lince-ibérico Lynx pardinus ou o saramugo Anaecypris hispanica, espécies ameaçadas com um habitat tão especializado e transfronteiriço, também a conservação desta águia exigiu um Plano de Acção comunitário (LIFE Imperial 2003-2017) que promove o diálogo entre países, decisores, cientistas e usufrutuários, e estabelece medidas concretas para a sua sobrevivência.


jef, agosto 2020

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Roaz Tursiops truncatus (Montagu, 1821)











É um cetáceo comum na costa portuguesa, com cerca de três metros de comprimento, identificado pelo focinho curto e maxilar inferior ligeiramente mais prolongado. O dorso tem uma coloração mais escura. Pertence ao subgrupo dos Odontocetes (cetáceos com dentes). É um dos mamíferos marinhos que crianças e adultos mais reconhecem como um «golfinho» Em certos pontos da costa podem formar grupos sedentários, fixando-se como famílias mais ou menos numerosas.

Assim sucede no estuário do Sado onde o grupo actualmente apresenta cerca de 30 indivíduos, tendo uma área de alimentação que se estende ainda desde o Cabo Espichel a Sines. Todos eles são conhecidos individualmente pela forma da barbatana dorsal ou por certas marcas e cicatrizes ou matizes diferentes de coloração.

Apesar de ser o símbolo da Reserva Natural do Estuário do Sado, esta comunidade sofreu um declínio forte, recuperando depois ligeiramente pela sobrevivência das crias nascidas a partir de 2010. Contudo, os animais na sua maioria têm uma idade superior a 30 anos.

A carga de poluentes transmitida pelo leite materno poderá ter sido uma das causas dessa redução. A elevada pressão causada pelo aumento do número de embarcações de recreio que actualmente circulam no estuário do Sado tem contribuído para alguns dos comportamentos de stress detectados na população de roazes.

Contemplar os golfinhos do rio Sado é muito bom mas deve implicar o cumprimento rigoroso do código de conduta da observação de cetáceos que concilia a procura turística e a conservação de tão importante recurso natural.


jef, agosto 2020


* zoologia


terça-feira, 23 de junho de 2020

Vespa-asiática, vespa-de-patas-amarelas Vespa velutina Lepeletier, 1836









A história da vespa-asiática é comum a tantas outras espécies exóticas que se tornaram invasoras ao serem transportadas, voluntária ou involuntariamente, do seu ecossistema, escapando-se e desenvolvendo as suas populações, depois, de modo exponencial, no novo meio, favorável e, ainda, na ausência do controlo dos seus predadores naturais. O facto de ser um animal não solitário torna ainda mais preocupante a sua presença.

Das várias subespécies deste himenóptero da família Vespidae, a Vespa velutina nigrithorax foi assinalada oficialmente pela primeira vez em França em 2004. Provavelmente, importada acidentalmente numa mercadoria de bens alimentares vinda da Ásia. A sua distribuição asiática estende-se pelas regiões tropicais e subtropicais do Norte da Índia e do Leste da China, Indochina e Indonésia, por zonas montanhosas de clima ameno, adaptando-se assim, com facilidade, ao clima temperado do Sul da Europa.

A partir da região de Lot-et-Garonne, entre Bordéus e Toulouse, ocupou rapidamente o Sudoeste de França. Em 2010 surgiu no Nordeste de Espanha. Em 2011 chegou à catalã Girona e, no ano seguinte, à Galiza.

A vespa-asiática é bem distinta da vespa-europeia Vespa crabro Lineu, 1758. É um insecto bastante escuro e um pouco maior do que a congénere autóctone. As obreiras medem entre 17 e 32 mm conforme as características do alimento disponível, enquanto a rainha chegará aos 35 mm de comprimento. O corpo é aveludado e sombrio, assim como os dois pares de asas e as patas castanhas cujas extremidades são amarelo vivo, facto que a nomeia e distingue. Cor que também apresenta em alguns segmentos gástricos e numa banda dorsal do quarto segmento do abdómen. A cabeça é preta com faces amarelo-alaranjado.

Em Setembro de 2011, na região de Viana do Castelo, a espécie invasora foi confirmada pela primeira vez em Portugal por entomólogos e apicultores. O investigador José Manuel Grosso-Silva e o apicultor Miguel Maia (Associação Apícola Entre Minho e Lima) confirmaram que dali os núcleos se expandiram pelo Noroeste e Centro de Portugal. Actualmente, apenas o Baixo Alentejo e o Algarve ainda não foram atingidos mas a sua ocupação será, muito provavelmente, inevitável. Pretende evitar-se que os arquipélagos dos Açores e da Madeira sejam atingidos.

Como as outras vespas, o seu ciclo de vida é anual e inicia-se na Primavera, quando a rainha jovem acorda da hibernação, escondida ao abrigo do mau tempo mas fora do ninho, em árvores, no solo ou em fissuras de rochas. Em Fevereiro-Março, a rainha fundadora e fecundada irá em busca de alimento nutritivo à base de açúcares com que se alimenta, procurando abrigo numa árvore oca ou numa construção onde iniciará a postura, fundando a colónia, alimentando as larvas, entretanto nascidas, com alimento proteico vindo das incursões de caça a colmeias de abelhas domésticas Apis mellifera Lineu, 1758, mas também de outras vespas, moscas e demais artrópodes (em meio urbano, é frequente o relato das suas visitas a talhos.) É, deste modo, iniciado o ninho primário à base de fibras de celulose mastigadas, esférico e de tamanho maior do que uma bola de ténis.

A partir de Abril-Maio com o nascimento das fêmeas obreiras a colónia recrudesce e mover-se-á para um ninho definitivo, geralmente suspenso de ramos de uma árvore alta, podendo superar os 80 cm. Estes ninhos são claros e têm uma forma arredondada, como uma gota, possuindo uma abertura lateral como saída.

Em Setembro-Outubro, a colónia atinge o número máximo de indivíduos que pode ir até 13.000 onde se incluem as potenciais rainhas fundadoras, que poderão chegar a algumas centenas. Em média, cada colónia pode gerar seis novos núcleos. Nascem os machos (um pouco maiores que as obreiras) e as fêmeas sexuadas. Realiza-se a fecundação. Outono avançado, as futuras rainhas deixam o ninho que será abandonado, no Inverno, por morte da rainha fundadora, dos zangãos e das obreiras. Nessa altura, as novas rainhas hibernarão. Em Portugal, constatou-se que o vespeiro, se a temperatura assim o permitir, poderá continuar activo até à Primavera seguinte. Degradando-se com as intempéries, o ninho não volta a ser ocupado.

A vespa-asiática não será mais agressiva quando isolada, nem será possuidora de um veneno mais activo do que o da vespa-europeia; mas será mais agressiva na defesa do ninho, o que obriga a cuidado redobrado. A subespécie que ocorre em Portugal parece ser menos agressiva do que as outras 14 subespécies. Contudo, ainda sem predadores naturais como certas aves insectívoras, as suas características vorazes de predação de abelhas domésticas e de outros polinizadores essenciais, principalmente durante o Verão, colocam em risco, para além da apicultura, de pomares e das culturas agrícolas, a diversidade biológica dos invertebrados nos diversos ecossistemas. Como nota, pode-se dizer que já existem referências de algum controlo por bútio-abelheiro Pernis apivorus, na Galiza.

Foi criada oficialmente em Portugal uma estrutura bastante alargada, denominada “Comissão de Acompanhamento para a Vigilância, Prevenção e Controlo da Vespa velutina” onde participam o ICNF, o INIAV e a DGAV (veterinária), a GNR-SEPNA, a Proteção Civil, a Direcção-Geral de Saúde, também as autarquias e os apicultores. Esta Comissão acompanha a implementação do "Plano de Ação para a Vigilância e Controlo da Vespa velutina em Portugal", que estabelece as acções a executar para alertar e minimizar os danos da invasão, das quais se destaca a recolha de avistamentos de vespas e ninhos em todo o território. As ocorrências devem ser reportadas a qualquer entidade de segurança ou autarquia, podendo também ser directamente registadas em STOPvespa (stopvespa.icnf.pt). Acima de tudo, a sequente destruição dos ninhos não deve ser feita de modo autónomo por quem os avista pois a sua perturbação ineficaz pode gerar um ataque por parte das vespas e a posterior disseminação. Assim, estas acções, em princípio nocturnas já que esta vespa é diurna e recolhe ao ninho pela noite, devem ser sempre executadas por profissionais (bombeiros, GNR-SEPNA, Protecção Civil).

É importante proteger as abelhas domésticas até que surjam predadores naturais para a vespa-asiática ou até aquelas aprenderem a proteger-se em redor da colmeia. Foi referido que familiares asiáticas envolvem o predador com diversos indivíduos batendo as asas energicamente provocando-lhe a morte pelo aumento radical de temperatura.

 

jef, junho 2020


* zoologia

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Lobo-ibérico Canis lupus signatus Cabrera, 1907





(a fotografia vem do Grupo Lobo)


Lobo-ibérico Canis lupus signatus Cabrera, 1907


Este é um dos carnívoros com maior dimensão cultural. Temido, amado e, por isso, mítico. Esopo falava de um pastor que gritava falsamente por ajuda. La Fontaine colocava políticos a falar pelo animal, retóricos e matreiros. Os irmãos Grimm adoçaram a assustadora ira popular por um animal que representava a predação de rebanhos e a fantasia medrosa de uma floresta europeia e inóspita. Jack London admirava a sua obstinada capacidade de resistência.

Figura possante, membros altos, cabeça larga, focinho comprido, orelhas atentas, longa cauda, vivendo em alcateia, tem, de facto, um cariz literário e uma presença gregária de aristocrata. É um resistente porque se adaptou às condições mais agrestes da montanha para onde foi empurrado pela perseguição humana; também por ser um oportunista quanto à dieta alimentar.

Em Portugal, as alcateias foram recenseadas pela última vez em 2002/2003, localizando-se essencialmente a norte do rio Douro. A sul do Douro, sobreviviam menos de 10 alcateias.

Para a conservação das suas populações é premente atualizar o conhecimento do número e da situação das alcateias, pelo que está a realizar-se de um novo Censo Nacional que decorrerá até 2021 sob coordenação do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. Seis equipas foram selecionadas para fazer o levantamento da espécie nas possíveis áreas de ocupação: duas a sul do rio Douro, quatro a norte (Noroeste, Centro Norte, Nordeste e Terra Quente). Esta ação será financiada comunitariamente pelo Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos (POSEUR).

O conhecimento atualizado é fundamental para assegurar a conservação deste grande carnívoro e do seu importante valor ecológico e cultural.

 

jef, maio 2020

*  zoologia


quarta-feira, 3 de junho de 2020

cavalos-marinhos Hippocampus sp.










Cavalo-marinho-de-focinho-comprido Hippocampus guttulatus Cuvier 1829

Cavalo-marinho-de-focinho-curto H. hippocampus Linnaeus, 1758


Cerca de cinquenta espécies de cavalos-marinhos da família Syngnathidae habitam os oceanos do planeta. Seres de aspeto pouco comum que a mitologia clássica logo associou aos imponentes Hipocampos, corpo de cavalo e cauda de peixe, transportando o deus dos mares, Posídon.

Não existe história infantil passada no mar que não coloque estes animais reais como figuras de fantasia. Realmente, são peixes sem escamas, de movimentos lentos e verticais, monogâmicos em cada ciclo reprodutor, olhar e mimetismo de camaleão, bolsa «marsupial» nos machos onde a fêmea deposita os ovos para que sejam fertilizados, expulsando-os depois, como juvenis (ou alevins). São muito fáceis de capturar e, por vezes, acabam envernizados, como amuleto ou bibelô.

Na Ria Formosa, segundo contagens de 2000, existia uma considerável comunidade das duas espécies fazendo invejar cientistas de outras paragens. Entre marés, canais de baixa profundidade e sapais, estes animais encontravam tranquilidade, refúgio e alimento, que muito comilões são de pequenos crustáceos. Mas em poucos anos as condições alteraram-se e as duas espécies viram as populações severamente reduzidas. A captura em massa para fins medicinais nos mercados asiáticos, a poluição sonora subaquática, o excesso da atividade turística, a sobre-exploração dos recursos, alterando os fundos marinhos dinâmicos e degradando as comunidades de plantas aquáticas, são fatores que contribuem para uma situação que exige fortes medidas de conservação.

Apesar da pesca dos cavalos-marinhos estar há muito proibida na área do Parque Natural da Ria Formosa, os seus técnicos e cientistas de outras instituições propuseram recentemente reservas específicas, entre outras medidas para a sua conservação. Acima de tudo, os cavalos-marinhos da Ria Formosa necessitam da consciência ambiental de todos os que desejam preservar um ecossistema tão rico mas tão vulnerável.


jef, 2020

*  zoologia


terça-feira, 2 de junho de 2020

Salamandra-lusitânica Chioglossa lusitanica Bocage, 1864







Salamandra-lusitânica, quioglossa Chioglossa lusitanica Bocage, 1864


Mais um caso da fauna autóctone e endémica que se tornou emblemática por ter características ímpares, por representar um ambiente ou um habitat restrito, por ser frágil e ameaçada tanto quanto o meio onde habita.

Dos anfíbios urodelos (com cauda), este surge sempre na primeira página dos compêndios da herpetofauna portuguesa. Com apenas uma espécie para o seu género, há muito que se distanciou da sua parente mais próxima que vive no Cáucaso e Ásia Menor, Mertensiella caucasica.

A longa cauda, que corresponde sensivelmente a dois terços dos seus 12 a 15 cm de comprimento, quando adulta, tem múltiplas funções: armazena nutrientes para a época de carência, variando a sua fisionomia ao longo do ano; ajuda na locomoção aquática e chama a atenção para os predadores, cobras-de-água, lontras ou sapos grandes, desprendendo-se para depois lentamente se regenerar (autotomia), como sucede em muitos lagartos.

Habitante do Noroeste da Península Ibérica, Astúrias, Galiza, Noroeste de Portugal, também do vale do rio Mondego com as serras do Buçaco, Lousã, Estrela e Açor, é nesses frágeis ambientes, pluviosos, oxigenados e frescos, até 1500 metros de altitude, perto de cursos de água ou minas musgosas, rodeados de vegetação ripícola e floresta autóctone, que encontra refúgio e local para a reprodução.


jef, junho 2020

* zoologia


terça-feira, 26 de maio de 2020

Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa.












Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa.
Da família Laridae ou a sombra do homem.


«Uma gaivota pousou na praia, duma espiral de asas que rondavam em pairo vagaroso e calado, e começou a marchar, perto de nós, marcando na superfície húmida silhuetas cuneiformes. Duas, três, mais gaivotas, saltaram, parecia que a espiral se ia desenrolando, de cima, vertendo-se para o solo. Asas enclavinhadas, toque em terra, asas recolhidas, passeio grave e peitudo, observação suspeitosa.»
Apuros de um Pessimista em Fuga de Mário de Carvalho


Não será necessário recordar o caso cinematográfico, pré-psicótico, de «Os Pássaros» (Alfred Hitchcock, 1963), ou a delicodoce espiritualidade de «Fernão Capelo Gaivota» (Richard Bach, 1970), nem a data da canção «Somos Livres» de Ermelinda Duarte (1974). Basta debruçarmo-nos sobre o círculo perfeito que Alexandre O’Neill compôs para a voz de Amália sob o som de Alain Oulman (1969), para avaliarmos a projecção psicológica que a gaivota tem, em termos semióticos, no bicho-homem e no povo português em particular. Falamos dessa ave de porte médio a grande, patas amarelas, pinta encarnada na mandíbula inferior, peito claro, dorso e asas de um cinzento mais ou menos escuro, as últimas primárias negras pintalgadas de branco. Gritam aos céus enevoados de Lisboa de modo enigmático, sempre angustiado. Talvez urgente, sim, por nos lembrar que, afinal, existe vida além da rotina urbana. A conspícua, gregária, destemida, mesmo aguerrida ave tão presente aos olhos do homem por a ele se dirigir, até perseguir, junto aos portos, cais de embarque dos cacilheiros, rumo ao soturno das traineiras, ao apetite de lixeiras e aterros sanitários.

Falar de gaivotas é falar de um certo romantismo comportamental, ora do onírico, ora da viva saudade, essa dor terna com que a beira-mar impede o homem de ir além-mar, além-o-outro, talvez além-ele-próprio. A saudade que do enlevo na observação circunvagante da gaivota se afigura em inveja pelo seu voo libertário.

Penso até que os ornitólogos se toldam por essa sinantropia, quase simbiose lírica, lágrima no canto do olho pela baixa luz do sol invernante, ao perscrutar o horizonte, tentando descobrir se a migradora gaivota-d’asa-escura Larus fuscus já mais se habituou a criar no lar português. Muito discutem tais olheiros científicos, vendo para lá do gesto da ave e do cinzento difuso das asas, em simultâneo, fenótipos e etologias, sem decidirem se o genoma vem mais ou menos cruzado pelo da gaivota-argêntea Larus michahellis, outrora gaivota-de-patas-amarelas, que o animal sempre assim as teve, ou pelo Larus argentatus, a gaivota-prateada, ou pela velha nomenclatura da do Cáspio, a Larus chachinnans… Pobres observadores, confundidos que andam pelos bancos da academia, queimando pestanas na cega voragem do curricular. Gaivotas… todas diferentes, todas iguais, de Lineu.

Melhor fora se lessem Mário de Carvalho, que tão bem observa o voar gregário pelos ares ou sobre as areias de Tróia, envolvendo a memória tristonha do “Pessimista em Fuga”. As recordações resvalam, no exacto momento narrativo, para o lado pungente de uma notícia que traz próxima a morte de Marília, adensando a tragédia do sofrimento e da solidão do auto-desconfiante personagem da novela. Refere o escritor uma espécie de vórtice descendo e poisando, para ali ficarem depois, agoirentas, «olhos parados, bicos curvos, penas pontiagudas», em torno do casal que em breve deixará de o ser, como se circulassem em multidão ansiosa, temente, faminta, à volta do cubo negro e proibido de Meca.

Sinceramente, eu vos digo. Se desejam a mais cabal e científica descrição de um caso, ou de uma aurora, ou de uma nuvem, ou de uma gaivota, passem a palavra ao ficcionista poeta.

João Eduardo Ferreira

Nota importante.
Este texto foi carinhosamente solicitado pelo projecto Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental
e publicado em Abril de 2020 na revista ambiental on line Wilder

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Saramugo Anaecypris hispanica (Steindachner,1866)









Saramugo Anaecypris hispanica  (Steindachner, 1866)
Família Cyprinidae

A questão é simples de equacionar – conservar uma espécie significa conservar também o seu habitat (conservação in situ). Contudo, quando se trata de um endemismo que apenas ocorre, a nível mundial, na bacia do rio Guadiana e, nesta, somente em cinco sub-bacias de entre os seus inúmeros afluentes: Ardila, Chança, Vascão, Foupana e Odeleite, o controlo dos fatores que limitam a sua sobrevivência no meio natural, revela-se, afinal, bem complexo e urgente.

Da família dos Ciprinídeos, é o peixe mais pequeno da nossa fauna autóctone dulciaquícola, não ultrapassando, em adulto e em média, os 7 cm de comprimento. Sendo uma espécie que tem uma baixa taxa de reprodução, dependente e, por isso, indicadora da qualidade da água, deslocando-se na época reprodutiva (reofílica), é fácil entender como é sensível às alterações do curso e do leito das ribeiras, também às suas descontinuidades – construção de açudes, captação de água, descargas de poluentes ou extracção de inertes. Também a introdução de espécies exóticas como o achigã, o acesso de gado aos locais adjacentes aos pegos onde se refugiam durante os períodos de menor torrente ou a alteração de vegetação nas margens, constituem outros fatores fortemente perturbadores.

Se afirmamos que o pequeno peixe é tão vulnerável quanto o meio onde habita, verificamos igualmente que a maior parte das ameaças resultam da atividade humana. Daí a nossa maior responsabilidade. Por isso, a obrigação de colocar em prática o «Plano de Acção do Saramugo» (projecto financiado pela união europeia LIFE 13/NAT/PT786) onde se encontram definidos os termos para o licenciamento e para a fiscalização do usufruto dos cursos de água, a integrar urgentemente no Plano da Região Hidrográfica da Bacia do Guadiana, e o envolvimento consciente de todos os que devem zelar pela manutenção da biodiversidade de uma bacia hidrográfica tão singular como a deste rio.

jef, maio 2020

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Perdiz-vermelha (Alectoris rufa)
















Perdiz-vermelha; Perdiz-comum (Alectoris rufa)
Ordem Galliformes, Família Phasianidae

Quem não conhece a perdiz, exímia caminhante, trilhando em bando veredas entre searas, pomares ou bosques? Ave robusta mas fina que se mostra aos nossos olhos e nos olha, logo se esquivando, colina abaixo, todo o grupo, em voo planado, de envergadura arqueada. Avistamo-la antes de a perdermos entre urzes ou carrascos, tendo ouvido antes o seu canto de chamamento, um certo gargarejo rouco e cacarejado.

Patas, bico e olhos pintados de vermelho, as faces e a gola branca estão debruadas a negro, assim mosqueada a zona superior do peito que se colora de cinzento e de bronze. Os machos são mais volumosos, tarsos mais altos e esporões mais visíveis. As fêmeas mais discretas trazem a prol ligeira e atenta ao alimento, pequenas sementes, artrópodes e larvas, que esgaravatam no chão. Mais tarde, adultos, passarão quase exclusivamente a alimentar-se da mais variada dieta de vegetais, grãos, rebentos e pequenas bagas.

Mas se nos habituamos a vê-las a atravessarem-nos o caminho, nesses bandos gregários e familiares, é pela simples razão de que mais nós passeamos no Verão ou Outono, a época em que as aves se reúnem, pois lá para Dezembro isolam-se, tornam-se ainda mais discretas e começam a formar casais. Em Março começam as primeiras posturas em ninhos térreos entre restolho e arbustos e em Julho, pelo Sul de Portugal, ainda poderão estar no seu ninho a incumbar um número considerável de ovos que a média perfaz 12 ou 13.

É, certamente pela sua fertilidade, facilidade de perseguição, ou pelos seus 500g de carne suculenta, que esta ave de porte gracioso é a ave cinegética mais procurada em Portugal, tendo sido alvo de antiquíssimas campanhas de protecção, como por exemplo em decreto de D.João I, em 1396, que proibia a sua caça em coutadas de determinadas regiões do País. Muito mais recentemente e com o desenvolvimento das zonas de caça a perdiz-vermelha tem sofrido repovoamentos sistemáticos, por vezes adulterando a estrutura e a genética das populações autóctones.

jef, fevereiro 2019