Uma muito sincera e emocional homenagem a Anton Tchekhov, à
«Gaivota», à anti-heroína Nina, mas também ao saudoso e emotivo Teatro da Graça
e a algumas das apresentações desse clássico feitas em Portugal. Contudo, o amplo universo familiar,
tenso e terno, do dramaturgo, aqui fica dissecado a bisturi, despido,
escalpelizado. A família aparece como em gomos separados.
As gerações cruzam-se e apartam-se pela incompreensão e pelo
silêncio, reencontram-se na memória, no remorso, no amor desperdiçado e
revivido.
No palco, em três ou quatro cenas (ou planos, onde a
projecção vídeo narra o que imaginamos e não assistimos) vão sendo tecidos os ressaltos
e as fracturas, mas também a renovação que as mudanças políticas e sociais emitem
sobre o correr do tempo dessas três gerações. Também o medo, a exigência, o
sacrifício, a acusação e, no final, o perdão. E o amor inexoravelmente perdido.
O teatro como acto eternamente contemporâneo, talvez o
primordial meio da consciencialização dos ditames e impulsos da humanidade.
Certamente, a sua salvação.
Lídia Franco, belamente, é o cerne em torno do qual circula tal
salvação, essa renovação, essa consciencialização. Uma peça de teatro para ela. Apenas me pareceu que tudo corria depressa demais, fazendo-me saltar
emocionalmente entre estados sem apreender a tempo a génese de cada uma das acções.
Mas talvez, por outro lado, seja essa a própria vantagem de «Imitação dos Pássaros».
jef, 22 de Outubro de 2026
«Imitação dos Pássaros» de Tiago Torres da Silva. Com Baltasar
Marçal (Filipe), Lídia Franco (Avó/Mãe), Tiago Fernandes (Alberto). Encenação: Tiago
Torres da Silva. Assistência de encenação: Baltasar Marçal. Cenário e figurinos:
Hugo F. Matos. Vídeo e desenho de luz: Aurélio Vasques. Dramaturgia: Maria
Helena Melim. Produção: Teatro Variedades Lisboa Cultura. Fotografias: José
Quintela. 80 minutos.
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