sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Sobre o livro «Confissão de um Assassino, relato de uma noite» de Joseph Roth, Cavalo de Ferro, 2018 (1936). Tradução de Paulo Tavares.



 







Como encontramos um dos “nossos” livros, um dos “nossos” autores? Como vamos construindo a “nossa” biblioteca?

Não sei por que algoritmo mental, mnemónica, silogismo ou apenas memória de leitura, ao ler o livro, esta grande novela ou este grande pequeno romance, pois os livros não se medem aos palmos ou às páginas, em número de 141, foi ele recordando-me alguns dos meus livros de eleição que aqui menciono sem olhar a cronologias ou preferências– «O Jogador» de Fiódor Dostoiévski (1866), «A Prisão» de Georges Simenon (1961), «O Primo Basílio» de Eça de Queirós (1877), «Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher» de Stefan Zweig (1927) ou «Mendigos e Altivos» de Albert Cossery (1955). Todos eles, de certo modo, sobre patifes que a literatura outorga, desvendado o véu que os assombra ou colocando uma pedra sobre o assunto. Afinal até gostamos dos patifes da literatura.

E se menciono aqueles livros por memória, este não lhes fica atrás em intriga, na minuciosa descrição de quartos, salas, guarda-roupa, atmosfera, penumbras e iluminações, melhor definidoras das personagens que suportam do que parágrafos com simples listas de objectos 'em leilão'. Por entre a descrição do lugar, encontra-se a atenta e quase comovente dissecação psicológica das personagens que o cativa. Aqui se define um verdadeiro espião a soldo da inteligência repressiva russa entre a sangrenta revolução russa e aquela mais tardia madrugada sangrenta da Segunda Grande Guerra – Semion Golubchik, aliás agente Krapotkin, por impostura e também por genética verdadeira.

Este é um autêntico livro policial cujo subtítulo “relato de uma noite” não significa que a acção descrita decorra num período temporal curto, relembrando Bloom ou Dalloway, mas sim o tempo em que o narrador conta a sua história perante uma audiência silência frente a copos meio vazios de aguardente russa, como quantas vezes faz Stefan Zweig.

Este é um romance que vai costurando a intriga linha a linha, página a página, até à última, modelando as personagens de modo profundo, diria inesquecível – Golubchik, o falso verdadeiro Krapotkin, Krapotkin, afinal o falso, a bela modelo Lutécia, o imponente director da espionagem em Paris Solowejczyk, o efeminado estilista Monsieur Charron, principalmente, o misterioso e sempiterno, Jenö Lakatos.

É verdade, «Confissão» de um Assassino» tornou-se um dos “meus” livros e Joseph Roth, um dos “meus” autores.

jef, setembro 2026

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Sobre o livro «Pietr, o Letão» de Georges Simenon, Livros do Brasil, Colecção Vampiro n.º 145. Tradução de Mascarenhas Barreto. Capa de Lima de Freitas, 1959 (1931).



 








Investigo por Inteligência Artificial e na Wikipedia, confirmo depois. Em 1930, é publicado num periódico, por episódios. No ano seguinte, em nome próprio Georges Simenon, é editado em livro. Surge pela primeira vez a imponente figura, quase monolítica, friorenta e comilona, do Comissásio Maigret. Assim se inicia a imensa biblioteca onde Simenon estrutura o seu “alfabeto maigret”, a sua capacidade de definir personagens e lugares, misturando o suspense na narração, o humor na descrição e essa tão particular mestria de definir as personagens pelos gestos, os quartos pelos odores, as atmosferas pelos sentimentos que lhes são impostos. Maigret é gigantesco e imperturbável, contudo o seu coração desfaz-se quando entra no quarto do Magestic e procura o seu camarada Torrence.

Nada neste primeiro “Maigret” está definido, porém tem tudo o que ditará a estrutura analítica, para não dizer psicanalítica, do Comissário. Tudo é condensado num humor, para não falar em sarcasmo, muito peculiar. Ferido e cansado por uma investigação que dura há horas consecutivas, dias mesmo, sem o deixar descansar, quase no final, Maigret deve dirigir-se ao porto e percorrer por baixo de uma ponte entre as estacas inundadas pela maré:

«Por fim suspendeu-se nos arcobotantes das estacas. Executou um desses movimentos em que é preferível não se ser visto. Fazem-se gestos para os quais se não está preparado. Falha-se a todo o instante, como mau acrobata, mas avança-se, por assim dizer, pela força da vontade. Cai-se e levanta-se. Patinha-se sem prestígio, sem beleza.»

Dali a pouco, polícia e meliante vão encontrar-se, frente a frente, num quarto de hotel de província, vestindo os dois mal medidos roupões tomados de empréstimo.

Depois, como a concluir esse lado interior de narrador que não se permite julgar, de comentador que não se exprime mas tudo observa, de explorador infinito do espaço social:

«Seria talvez exagerado pretender que, em muitos inquéritos, nascem relações cordiais entre a polícia e aqueles que, por dever, terá de entregar à justiça.

Quase sempre, a não ser que se trate de um antagonismo especial, estabelece-se uma espécie de intimidade. Isso deve-se, sem dúvida, a que, durante semanas, por vezes durante meses, polícia e malfeitor não pensam senão um no outro.

O inquiridor encarniça-se em penetrar cada vez mais na vida passada do culpado, tenta reconstruir os seus pensamentos, prever-lhe os mínimos reflexos.

Ambos arriscam a pele nesta partida. E, quando se encontram, é em circunstâncias suficientemente dramáticas para fazer fundir a indiferença polida que, na vida quotidiana, preside às relações entre os homens.»

Temendo a repetição, diria que este livro é como fundador da geografia etimológica e emocional de Georges Simenon, onde se inclui igualmente a minuciosa etimologia da cidade de Paris, senão mesmo a definição quase burlesca da circulação humana no Grande Hotel Magestic.

Georges Simenon é um enormíssimo escritor e este livro uma grande obra literária.


jef, agosto 2026

domingo, 30 de agosto de 2026

Sobre o livro «Salvo o Meu Coração, Tudo Está Bem» de Héctor Abad Faciolince, Alfaguara, 2024. Tradução de Margarida Amado Acosta.



 







Héctor Abad Faciolince é um verdadeiro cronista, alguém que nos devolve a realidade sob a chama da maior percepção emocional, demonstrando que a literatura ficcionada é uma das principais armas que garante a aceitação da verdade pela razão do leitor. Mas, principalmente, pelo coração do leitor crítico. Pois, é exacto, «Salvo o Meu Coração, Tudo Está Bem» é sobre o coração maior de um padre devoto, Luis Córdoba, 50 anos, gigante em estatura, a viver em Medellín, amante e divulgador reconhecido das artes da música clássica e do cinema, amante também da boa mesa. Porém, um coração periclitante pela própria hipertrofia. Vivendo primeiro na própria casa, na esquina da Villa com a San Juan, em celibato conjugal com o padre Aurelio Sánchez (o narrador), mais tarde, saído da clínica, na casa verde e amarela de Teresa e de Darlis, sem escadas aliás, no bairro Laureles.

Não fiz spoiler nenhum, pois tudo isto está escrito nas primeiras duas páginas do romance-crónica, que se lê sem parar, por capítulos de A a Z (incluindo o Ñ), com direito a Abertura e Coda como uma peça antiga de música barroca. A ordem anacrónica faz-se a favor de uma leitura ágil e emotiva, interceptando as histórias dos dois amigos inseparáveis e também a de Joaquín Restrepo que, afinal, juntará as pontas dos apontamentos memoráveis que Aurelio Sánchez (ou Lelo) foi redigindo e colecionando episódios comuns ou não com o Gordo, ou seja, Luis Córdoba. Joaquín apresentará no final o presente livro que, confessa, gostaria de ter sido ele a escrever.

Um livro importante sobre a vida, a doença, a morte e o luto. Também sobre a dualidade da sublimação do espírito sobre a vocação biológica de um corpo que deseja e precisa de ser fisicamente consumado. Também sobre os abjectos meandros da hierarquia da igreja católica. Também sobre a esperança e a fé, como se um ateu explicasse a fé em Deus a um crente ou um devoto exprimisse a inexplicável vocação em confiar o amor a um ser impalpável e irresolúvel.

Um livro que ensina a ser-se efectivamente alegre, ou feliz, apesar da continua infelicidade que sempre vela, ou ameaça, a existência mais pacífica, e que me deixou lavado em lágrima quando o terminei de ler.

Eu, ateu convicto, confesso, vou sentir falta da bondade, jovialidade, honestidade e clarividência dos padres Aurelio Sánchez e Luis Córdoba, e da Teresa, da Darlis, do Joaquín e de todos os outros.

Nota: o autor nas linhas finais confessa que o leitor deve suspeitar de que o livro se baseia livremente na vida de Luis Alberto Álvarez, “um sacerdote extraordinário, um bom padre do qual fui amigo.”


jef, agosto 2026

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Sobre o livro «Morrer na Primavera» de Ralf Rothmann, Sextante, 2019. Tradução de Gabriela Fragoso.


 









«Quando a cultivares, não voltará a dar-te os seus frutos. Serás vagabundo e fugitivo sobre a Terra.». Frase vincada com a unha sobre a página de uma antiga Bíblia, encadernação a couro, letras góticas, rebordo dourado, recheada de folhas secas de Outono e notas de marcos da inflação de 1923, mais tarde, talões do Supermercado Schätzlein.

A enigmática frase do Génesis (4:12) surge como a mais violenta epígrafe e a  grave conclusão do livro. Um arco de tempo sobre uma Alemanha que teve de superar a derrota de uma geração de, quase crianças, foi forçada a seguir para a frente húngara na Primavera de 1945, já americanos e russos avançavam e cercavam por todos os lados, por todos os meios. Walter e Friedrich-Fiete, amigos inseparáveis, ordenhadores competentes na vacaria propriedade da casa de Thamling. Dezassete anos, despojados da vida, de tudo viram, tudo sofreram sob a desesperada derrota breve dos nazis.

Um livro contado por fragmentos sincopados, fragmentos narrativos suportados por descrições tão visuais como paradigmáticas de uma exegese comprometida com a paz.

Um livro difícil mas que nos transmite a ternura infinita pelo sofrimento dos inocentes, nasçam eles onde nascerem. A vã procura de uma sepultura ou a necessidade urgente de um esquecimento impossível.

É fundamental conhecermos todas as belas ou terríveis histórias do mundo, venham elas de onde vierem.


jef, agosto 2026

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Sobre o livro «Mendigos e Altivos» de Albert Cossery, Antígona, 2025 (1955). Tradução de Júlio Henriques.



 







Eis um livro que nos coloca de modo revolucionário perante o desconchavo que a sociedade contemporânea nos revela. Albert Cossery num extraordinário romance policial obriga-nos a olhar de frente para a estrutura social e económica em que vivemos. Albert Cossery ri-se dela, porventura afirmando: “aos costumes disse nada” como, em tempos idos, terminavam alguns documentos escritos de índole castrense.

Aqui, tudo é colocado em causa perante a suprema busca da felicidade e da alegria, pois esse objectivo passa pela destruição dos cânones socio-políticos com que essa sociedade opressiva mantém cativos e infelizes os seres viventes que a alimenta. E a procura da felicidade (e a sua assunção) passa neste romance pelo literal, absoluto e radical despojamento e ascetismo. Sem nada de nosso, essa sociedade e os algozes que nela se protegem, nada poderão fazer contra nós, pois nada nos pode tirar porque nada temos. A partir daí podemos gozar a própria alegria, a absoluta liberdade e afirmar, então:  "aos costumes disse nada”. Pratique-se, finalmente, a mendicidade, sim mas de modo orgulhoso e aristocrático e o almoço será oferecido alegremente gratuito.

De um modo intenso, literariamente perfeito e através de uma intriga narrativa filosoficamente ininterrupta, Gohar, o ex-professor universitário de Literatura e Filosofia, contabilista do prostíbulo de Set Amina e mendigo por convicção; El Kordi, funcionário indolente do Ministério das Obras Públicas, revolucionário por teoria; e Ieguene, poeta, vendedor de haxixe e presidiário reincidente, irão desvendar uma nova perspectiva justa, livre e igualitária da sociedade a Nur El Dine, o chefe da polícia no Cairo.

«Mendigos e Altivos» é um tesouro libertário, o romance refractário por excelência, como diria o malogrado Luís Oliveira, ideólogo prático da editora Antígona.

Esta edição tem prefácio de Roger Grenier (2013), um glossário de termos árabes egípcios, um conjunto de fotografias do autor, alguns textos evocativos e as páginas iniciais de «Uma Época de Filhos de Cães», romance inacabado de Albert Cossery.

Livro fundamental para acabar com o neo-liberalismo desenfreado (mas também com o velho marxismo-leninismo!)


jef, agosto 2026

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Sobre o livro «Pastoralia» de George Saunders, Antígona, 2017. Tradução de Rogério Casanova



 







Rogério Casanova, o tradutor, no prefácio, evoca a popularidade do substantivo próprio adjectivante “Kafka” para enquadrar estas histórias sobre uma América que desconhece o destino ou o sonho que à boca cheia propala desde que se conhece. Contudo, Kafka tem um sentido oniricamente psicanalítico, esteticamente surrealista, quase romântico, para narrar as complexas situações em que os personagens se vêem enleados. A começar por Gregor Samsa.

Em «Pastoralia» de George Saunders não existe nada desse romantismo psicanalítico, desse diletante modo de cada um estar por si, dentro de si, mas à margem da sociedade. As histórias de Saunders usa o humor desabrido para colocar o leitor como juiz e credor de gente cujo sonho americano os levou até a um barraco num subúrbio dos subúrbios e ainda os manda ser felizes e sorrir, pois a coisa ainda pode vir a piorar… Se algum dia, bastante improvável, Trump ainda vier a ser eleito para presidente dos grandes Estados Unidos da América!

A começar pela novela que abre o livro “Pastoralia” onde escravos da sociedade do bem-estar se vêem empregados e vigiados num parque de diversão sobre os diversos estágios evolutivos da humanidade. A terminar com “Cataratas” com Morse de regresso a casa pela margem do Taganac, rio que se dirige para umas certas cataratas. Ele teme pelo futuro do filho Robert, teme também por desconhecer se Aldo Cummings, vizinho estranho ainda a viver com a mãe, poderá não gostar dele. Então, o que fazer quando uma canoa com duas miúdas pequenas se apresenta prestes a afundar?

Os contos não desdenham esse lado quase burlesco de uma certa literatura americana que se ri dela própria para não chorar por todos, e são muitos milhões, de americanos que, apesar de se poderem chamar Elon Musk, nunca conseguiram juntar um chavo e amargam no interior de um país que os toma por bastardos.

Contudo, George Saunders eleva essa literatura a uma narrativa de discurso directo sintomático, com descrições quase sem adjectivos, em diálogo cinematográfico, peremptória mas discreta, buscando imagens e situações de uma fantasia inusitada que oferece ao leitor a justa perplexidade para que ele possa completar um cenário, por vezes apenas delineado.

Afinal, Saunders reveste as personagens de uma ternura comovente, de um humor ácido e sarcástico, personagens que se aquietam perante um destino que lhes foi imposto e do qual não têm modo de fugir. 

John Steinbeck chamar-lhes-ia “ratos e homens”.


jef, julho 2026

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Sobre o livro «O Caso do Gato do Porteiro» de Erle Stanley Gardner, Livros do Brasil, Colecção Vampiro n.º 40. Tradução de Carlos Vidal de Oliveira. Revista e adaptada para Portugal por Baptista de Carvalho. Capa de Cândido Costa Pinto, 1950 (1935).



 







Quinze anos após a publicação original, a editora Livros do Brasil achou que o romance devia ser “adaptado para Portugal”. Curioso, porventura também pelo termo “filhoses”, ligado à actividade comercial de uma das personagens principais, Winifred Laxter, por quem desde logo Perry Mason se sente atraído, confiando-lhe o instinto detectivesco.

Se o inveterado solteirão se sente atraído por Winifred? Talvez, contudo ele não hesita em aceitar o caso proposto pelo porteiro (ou governante da casa Laxter), Charles Ashton, cujo seu gato de estimação, o “Escória”, vê a vida ameaçada pelos herdeiros de Peter (ou Pedro) Laxter. Perry Mason é contratado para defender um gato e aceita dez dólares de remuneração. Isto não estraga a intriga pois está dito logo nas duas primeiras páginas. Tudo o resto é uma diabólica trama, entre feridos, mortos e corpos reclamados e exumados, com uma perseguição desvairada de carros a eléctricos e uma suposta lua de mel (interrompida, hélas!) entre Perry Mason e a peça central definitiva do romance – a esplendorosa Della Street, secretária, motorista, jurista, mãe, irmã, confidente, coadjuvante, quase amante, quase noiva, cujo batom deixa marcas nos lábios do patrão. (Atenção às declarações que Della faz sob juramento em tribunal sobre a identificação de um gato. Um portento.)

Um romance em que Perry Mason esclarece desde logo o leitor em quem deve confiar, porque ele confia, e em quem desconfia, não se deixando enganar, apesar de muitas vezes apenas intuir a sequência de certos factos por desconhecimento próprio, deixando juízes, procuradores e investigadores da polícia de cara à banda na barra do tribunal.

Sem dúvida, um óptimo livro de férias!


jef, julho 2026

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Sobre o livro «A Neve Estava Suja» de Georges Simenon, Cavalo de Ferro, 2025 (1948). Tradução de Diogo Paiva.



 







Talvez seja um dos romances que marcam, ou sublinham o século XX, talvez justifiquem, agora, este século XXI. Um dos romances do existencialismo modernista, aquela ideia da liberdade mais pura, mais severa, mais atroz. Celine, Sartre ou Jean Genet aplaudiriam ou aplaudiram. Não poderá falar-se propriamente de Hans Castorp, esse jovem doente, perdido pelo pulmão de Davos, entre a dialéctica de Settembrini e de Naphta. Como neste último, a guerra não se aproxima, ela já está lá. Em «A Neve Estava Suja», não há salões aquecidos e chá servido, a ocupação estrangeira não aplaca o frio, a fome, a pobreza, opressão a morte e a vigilância de cada esquina, apenas acelera a miséria e o sofrimento. Porém, Frank Friedmaier está de pedra e cal e não se digna ceder, vergar, contestar ou colaborar. Nada mais lhe interessa do que resistir até ao fim, como ele próprio é, ou julga ser, como princípio, como meio, sem olhar à página última.

(Num outro sentido e talvez como escreveria Enrique Vila-Matas, Frank pertenceria a «Bartleby & Companhia» (2000).)

Talvez eu pudesse recordar as personagens de Albert Cossery, mas essas estão sobranceiras, talvez mesmo imponentes. Frank Friedmaier tem outro modo de circular, talvez outro passado, seguramente movimentos diversos. Poderemos lembrar-nos, então, de Meursault de «O Estrangeiro» de Camus (1949) ou de Rodion Raskólnikov do «Crime e Castigo» de Dostoiévski (1867). Contudo, fica-nos essa teia única que Simenon sabe urdir, página a página, diálogo a diálogo, corredor por corredor, janela frente a cada janela, deixando por último a ânsia pelo epílogo, nesse fraseado cromático que esconde a intriga e lança a cada linha o novo isco para que o leitor jamais possa descobrir o que a derradeira linha trará.

«A Neve Estava Suja» é um romance moderníssimo, diria fundamental, que ensina a ler, que obriga a parar para observar cada parede ou rua escondidas de uma sociedade que será sempre funesta frente ao pragmatismo individualista, frente ao crer existencialista onde a escolha do indivíduo será sempre apenas a sombra de uma personalidade interrompida.

Georges Simenon é genial, sem temer estar a extrapolar o adjectivo!


jef, julho 2026

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

Sobre a peça «Variedades (…Como uma Ópera Bufa Erótica e Satírica)» de Fernando Heitor, Flávio Gil e João Paulo Soares. Teatro Variedades, 2026.

 





 





















Como resolver 100 anos do Teatro Variedades, do Parque Mayer, de Lisboa, de Portugal e da Europa? Evocar 100 anos de teatro, essa coisa estranha que termina definitivamente quando os actores se calam, quando o pano desce sobre a ribalta e os espectadores saem para a rua. Um Tempo tão diferente do do cinema, que fixa o acto dramático para sempre, agora então com o maravilhoso restauro das cópias digitais, sempre eternas. Mas no teatro não, tudo desaparece para ficar retido na memória da teia, dos bastidores, da plateia, do pó do palco. Apenas memória!

Como então, repito, refazer a memória perdida? Terá sido a grande questão colocada a Fernando Heitor, Flávio Gil e João Paulo Soares aquando da proposta para o empreendimento. No fundo, como representar a Nostalgia sem tocar no miserabilismo da saudade, principalmente agora que o Teatro Variedades (e o Parque Mayer) volta a encher casas diariamente para gáudio do novo-velho teatro? Afinal, como tocar na Nostalgia sem ser nostálgico?

 A resposta, ou o resultado final, parece ser o ovo de colombo: Recriar um teatro dentro do teatro, sem chamar os velhos actores ou o velho público, convocando, isso sim, as figuras que sempre cirandaram, por espírito, ofício ou ócio, aquele lugar: magalas, varinas, marujos, ardinas, cauteleiros, prostitutas, diletantes pobres ou ricos, saloios, imigrantes… Mas o mais curioso é que, por etário rigor cronológico, quem ali vemos no palco são as suas almas e os seus fantasmas que, esses sim, permanecerão sempre vivos mesmos quando actores e músicos regressam, cada noite, a casa.

Contudo, «Variedades» não será uma ópera bufa, nem erótica nem satírica, pois os autores da peça, no seu modo ternurento de trazer ao colo as personagens, aproximam-se, talvez sem crer, muito mais da revista à portuguesa tomando por “compères” duas decanas actizes para representarem duas personagens que passam o tempo em contraponto mútuo dramático tragicómico, dando a deixa para muitos dos quadros musicais: Catarina, ‘a costureinha de Caneças’ (Wanda Stuart) e a Zé, ‘a transmontana que trocou as saias pelas calças’ (Maria João Luís) – a primeira revivalista, com saudades do passado e sem perceber a ‘história’ do presente e a outra, poderosa, agregadora, protectora, biógrafa, aquela que entende a ‘história’ do futuro. As outras oito personagens-entidades que lhes são devotas sucessoras ou amigas inspiradoras vão dando corpo dramático e musical a uma longa lista de fados, marchas e até zarzuelas, memórias de peças e imagens de actores– João Villaret, José Viana, Raul Solnado... Serão essas personagens, cada uma a seu tempo, os próximos fantasmas guardiões do futuro do Variedades – O Tremidinho, ‘o tocador de gaita de beiços que veio do Minho, (Bernardo Souto), a Zé, e finalmente António, o miúdo ‘que foi amamentado por uma gata amarela’ (Flávio Gil).

Simples é o cenário que os actores vão deslocando entre cadeiras e mesas reinventado para cada uma das datas festivas, para cada momento histórico de 100 anos de repúblicas várias e diversas democracias.

Um facto é que me comovi por os ver partir e exultei por os saber ressuscitados. Fiquei também descansado com a explicação para a nossa questão maior, e dita por quem nos regressou: “por momentos perde-se um pouco a noção e a memória, mas depois volta tudo quase ao normal!”, Agradeço sinceramente esta perspetiva da ‘imortalidade’ e do teatro.

Viva o teatro!

As fotografias de cena são de meu amigo Fernando Santos, a quem agradeço.

(Nota: nunca fui frequentador do Parque Mayer, nunca lá vi uma Revista sequer, mas tenho a mais grata memória de ter ido ao Capitólio, em 1974 ver «A Ilha dos Escravos e A Herança» de Pierre Marivaux pela Cornucópia… da qual fiquei para sempre apaixonado. No Capitólio, subíamos por uma escada rolante que tremia assustadiça… 

Mas agora,  Ah, bom é o presente! O Variedades é o teatro que mais tenho frequentado!)


jef, 26 de Julho de 2026

«Variedades (…Como uma Ópera Bufa Erótica e Satírica)» de Fernando Heitor, Flávio Gil e João Paulo Soares. Com Bernardo Souto (Tremidinho), Bruno Madeira (Jacinto), Carlos Malvarez (Cigano), Cátia Garcia (Palmira), Flávio Gil (António), Maria João Luís (Zé), Miguel Raposo (Camarão), Sandra Rosado (Carmen), Teresa Zenaida (Marquinhas) e Wanda Stuart (Catarina). Músicos: João Paulo Soares (piano e direcção musical); Nuno Allan (baixo); Miguel Majer (bateria); Maria João Cunha (acordeão); Henrique Fialho (clarinete); Eurico Cardoso (viola de arco). Encenação: Fernando Heitor e Flávio Gil. Coreografia: Guilherme Leal. Figurinos: Rafaela Mapril. Telão: Tomaz Colaço. Desenho de luz: Paulo Graça. Desenho de som: Sérgio Milhano. Assistência de encenação

e pesquisa histórica: André Camilo. Produção: Teatro Variedades

Lisboa Cultura. Fotografias: Fernando Santos. 120 minutos.

 

Teatro Variedades

8 julho 2026 – 16 agosto 2026

quarta a sábado, 21h

domingo, 16h

 

sábado, 25 de julho de 2026

Sobre o livro «Noite no Caminho de Ferro da Via Láctea» de Kenji Miyazawa, E-Primatur, 2026. Tradução e notas de António Barrento.



 







Um livro especial. Não apenas por incluir duas fábulas únicas e intrigantes do escritor e humanista Kenji Miyazawa (1896-1933) sobre como viver a espiritualidade activa entre a comunhão com os demais viventes humanos, a tecnologia em prol da melhoria de vida dos que mais necessitam e a conservação da natureza. «Noite no Caminho de Ferro da Via Láctea» e «A Biografia de Gusuko Budori» são, acima de tudo, excepcionais actos poéticos sobre a sobrevivência, a devoção literária e a abnegação à causa social.

Esqueçam as comparações aleatórias com «O Principezinho» de Antoine de Saint-Exupéry. São mundos paralelos, mas que dificilmente se tocam. São poesias diversas, a de Saint-Exupéry, um abstraccionismo intelectualmente adulto e disseminado; o mundo de Miyazawa é concreto, tecnológico, astronómico, paleontológico, agronómico e silvícola lembrando-me ainda trechos das aventuras de Stevenson, de Júlio Verne, dos Irmãos Grimm ou Selma Lagerlöf. Só que é tudo diferente! Intelectualmente puro, emocionalmente profundo e toldado pela ventura da dádiva e pelo altruísmo definitivo sem moeda de troca. Apenas entrega seguindo o despojamento budista de que Miyazawa era seguidor ou perseguindo o mundo dos Kami, essa xintoísta profusão de seres mitológicos que nos rodeiam e acompanham.

A par da leitura dos dois textos traduzidos directamente por António Barrento, somos auxiliados pelas circunstanciais notas pé-de-página, a introdução “Sobre o Autor” e o posfácio “Notas finais”, onde o tradutor enquadra temporalmente e politicamente a publicação das novelas. Para além da extensa bibliografia e um glossário onde pontuam, identificando-as, as muitas plantas mencionadas ao longo das narrativas, ou não tivesse Miyazawa estudado Agronomia.

Um livro que também é muito prático, emocionante e emocional que resulta de uma proposta editorial directa de António Barrento (e Hugo Xavier) para financiamento colectivo, através do qual os leitores podem ir construindo a própria editora E-Primatur.

Um livro rigorosíssimo a ser acarinhado e ‘estudado’ por todos os leitores (e editores).


jef, julho 2026

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Sobre o filme «Beijos Roubados» de François Truffaut, 1968



 























Maio 68. Paris. Tráfego urbano intenso, algumas manifestações, encontros fortuitos, Sacré-Cœur Montmartre, prostitutas ao virar da esquina, pleno emprego. A Cinemateca fechada. Apenas o cinema corre atrás de uma explosiva, diria imparável, talvez alegre, nouvelle vague. Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), uma espécie de faltoso desertor recorrente também não pára, é expulso do exército, tem uma provável namorada, Christine (Claude Jade), mas nela não se fixa. Antoine não será propriamente volúvel, tem sentimentos profundos, mas não terá tempo. Talvez antes queira tudo ao mesmo tempo. Afinal, estamos em Paris, 1968, numa sequência corrida e benévola de episódios, de cenas que parece juntarem-se como por acaso, mas unidas num impressionante jogo de câmara que corre atrás do prejuízo, do benefício, do azar, dos beijos roubados, do amor transitório, dos sucessivos agentes de vigilância da firma Agência Blady. Há que repetir com insistência, ao espelho, os nomes próprios mais importantes, A câmara corre atrás de um diálogo satírico ainda mais veloz, mais absurdo, mais irónico, onde a violência faz parte de uma sociedade em crise de seriedade: o marido encornado parte a mobília do quarto de hotel, o homossexual abandonado desvaira ao constatar que o namorado já não o quer. Antoine é despreocupado com tudo, deseja apenas o minuto que está a viver, ali. Lê muito mas evita o cinema. Lê “Le Lya dans la Vallée” de Balzac, enquanto nós ouvimos Charles Trenet a cantar “Que reste-t-il de nos Amours”.

Por fim, num ápice de melancólica ironia, o desconhecido, eterno vigilante da casa de Christine, aproxima-se deles, ignorando Antoine, e declara-se a Christina advertindo-a, antes de se afastar, de que ela tem de “romper laços provisórios com pessoas provisórias. Quanto a mim, eu

Serei o definitivo”. Antoine e Christine chamam-lhe louco e continuam o passeio no jardim. Logo mais tarde verão o que poderá acontecer!

Uma fábula, quase uma hipérbole satírica, sobre o dia que acabou de passar e apenas pudemos vislumbrar.

 

jef, julho 2026

«Beijos Roubados» (Baisers Volés) de François Truffaut. Com Jean-Pierre Léaud (Antoine Doinel), Claude Jade (Christine), Delphine Seyrig (Fabianne Tabard), Michel Lonsdale (M. Tabard), Daniel Ceccaldi (o pai de Christine), Claire Duhamel (a mãe de Christine), André Falcon (M. Blady), Harry Max (Henri), Serge Rousseau (o desconhecido), Marie-France Pisier (Colette), Simono (Albani), Jacques Delord (o restidigitador), Martine Ferrière (a vendedora de sapatos), Jacques Rispal (Mr Colin). Argumento e diálogos: François Truffaut, Claude de Givray e Bernard Revon. Produção: Marcel Berbert para Les Films du Carrosse e Les Artistes Associés. Fotografia: Denys Clerva. Música: Antoine Duhamel e a canção de Charles Trenet “Que reste-t-il de nos Amours”. França, 1968, Cores, 92 min.


domingo, 12 de julho de 2026

Sobre o disco «Get Sunk» de Matt Berninger, Concord Records 2025

 




 








Se a capa do álbum «Serpentine Prison» (2020) tinha um vago Freud-Bacon Touch, a de «Get Sunk» pisca o olho a Lourdes Castro.A mesma penumbra de prisão, de cerco, de transparência vigiada, de refúgio cercado.

Inland Ocean

No Love

Bonnet Of Pins

Frozen Oranges

Breaking Into Acting

Nowhere Special

Little By Little

Junk

Silver Jeep

Times Of Difficulty

 A voz grave, velada, densa parece mais definida, talvez ainda mais política, nesse texto sem fim, paranóico-diabólico, feito de restos prestáveis: «Nowhere Special». Por vezes acarinhada pela voz feminina.

“God loves the inland ocean. Lost cause, I have no emotion. Wrap me up and bury me.» canta-se no interior desse oceano sitiado. Mas “We say sorry then We laugh it off With careful hugs And kisses off the cheek”. Apesar de todo o amor a solidão existe. Apesar de todo o abandono existirá uma centelha de carinho.

Mesmo no centro do absurdo, mesmo se as laranjas suspendem-se congeladas na árvore em Indiana, mesmo se aos poucos termines em poeira e sonhos, ainda poderemos encontrar a semente redentora da comunhão.

“Get drunk! Get sunk! Forget! Get wet!”

No entanto, “I’ll think of you if you think of me The way the sky thinks of the sea In times of dfficulty”.

'A energia pode ser estranha', porém a música de Matt Berninger revela novamente o modo abstracto e belo de como sobreviver à intempérie de um mundo cruel mas, ainda assim, belo.

“I only love you baby, I’m only love Without you baby I’m only junk I’m only love I’m only junk.”

jef, julho 2026

Sobre o filme «L’Aventura» de Sophie Letourneur, 2025



 


























Podemos, por momentos, esquecer o hiper-realismo, esquecer também a velha nouvelle vague. O filme integra uma outra classe estranha de filmes, talvez uma ‘nouvelle vague hiper-realista’. Mas é sempre redutor classificar. E todos sabemos como, em férias, nessa concentração absoluta do afecto familiar, sem possibilidade de fuga ou redenção, tudo poderá vir à tona.

Se se sentir confuso, inicialmente, com a sequência narrativa, não se importe, as férias em família são sempre um pouco assim. Atente mais na evolução do chapéu de palha que vai passando de cabeça em cabeça, cada vez mais desgraçado. Atente, depois, no longo percurso a pé de Jean-Philippe (Philippe Katerine), sozinho, por uma rua da vila da Sardenha, ou na mão pousada sobre a perna de Sophie (Sophie Letourneur) e na expressão de espanto (ou repulsa) desta. Atente na sistemática prisão de ventre feminina durante as viagens ou na frequência das birras e do cocó do pequeno Raoul (Esteban Melero). Temos ainda gelados e praias è escolha. Tome atenção na beleza da cara de Claudine (Bérénice Vernet) que se vê afastada da sua infância pela omnipresença birrenta do meio-irmão, enquanto ela vai gravando as vozes de umas férias conquistadas com suor, sangue e picadas de vespa. Essas vozes são para memória futura de um provável futuro filme. Também pode recordar as versões de alguns temas Bach em versão electro-pop. Atente, finalmente, nessas ininterruptas, quase negligentes, ternas e invasoras, aproximações da câmara às faces, às expressões, aos corpos daquelas quatro personagens-criatura, daqueles quatro maravilhosos actores.

Depois, tudo é arquitectado (ou tricotado) com minúcia de metrónomo, entre o passado e o presente filmado, anacrónico, num vaivém que deixa o espectador à mercê irreflectida mas hípersensorial de umas férias que seriam para esquecer, no interior de uma família onde tudo de bom pode acontecer, mas onde reside a génese de todo o tédio, todo o cansaço de uma existência, de uma escolha que, agora, talvez não fosse escolhida.

Assim, dita Sophie Letourneur, a realizadora: “Ama a vida mais do que a sua lógica. Dessa forma compreenderás o seu sentido”.


jef, março 2026

«L’Aventura» de Sophie Letourneur. Com Bérénice Vernet (Claudine), Esteban Melero (Raoul), Philippe Katerine (Jean-Fi), Sophie Letourneur (Sophie), Carmen Letourneur (Carmen), Francesco Arcuri (Francesco). Argumento: Sophie Letourneur, Laetitia Goffi. Produção: Mathieu Verhaeghe, Sophie Letourneur, Thomas Verhaeghe, Tristan Vaslot. Montagem: Sophie Letourneur. Fotografia: Jonathan Ricquebourg. Música: Laure Arto, Carole Verner. França, 2025, Cores, 100 min.

sábado, 11 de julho de 2026

NOS Alive 2026 - menu do dia

Passeio Marítimo de Algés, Oeiras

Quinta-feira, 9 de Julho de 2026

















Sonya – Palco Heineken (16h30)






























Dogstar – Palco Heineken (18h45)

Dogstar: Keanu Reeves (baixo), Bret Domrose (voz e guitarra) e Robert Mailhouse (bateria).


















Alabama Shakes –
Palco Heineken (20h00)

Duração: 1h15

1. Rise to the Sun

2. Hang Loose

3. I Ain't the Same

4. New Song

5. Future People

6. Guess Who

7. This Feeling

8. Feel Hope Coming

9. I Found You

10. Hold On

11. Another Life

12. Dunes

13. Sound & Color

14. American Dream

15. Gimme All Your Love

16. Don't Wanna Fight

17. Always Alright

Alabama Shakes: Brittany Howard (voz e guitarra), Heath Fogg (guitarra), Zac Cockrell (baixo), Ben Tanner (teclas), Steve Johnson (bateria).

 













Nick Cave & the Bad Seeds – Palco NOS (21h15)

Duração: 2h00

1.       Get Ready for Love

2.       From Her to Eternity

3.       Train Long-Suffering

4.       Wild God

5.       O Children

6.       Tupelo

7.       Carnage (Cover de Nick Cave & Warren Ellis)

8.       Joy

9.       Rings of Saturn

10.     Henry Lee

11.     The Mercy Seat

12.     Papa Won't Leave You, Henry

13.     The Weeping Song

14.     Red Right Hand

15.     Jubilee Street

16.     Hollywood

17.      City of Refuge (bis)

18.      Wide Lovely Eyes (bis)

19.      Into My Arms (bis)

 

Nick Cave and the Bad Seeds (Wild God Tour): Nick Cave (Voz e piano). Warren Ellis (violino, guitarra tenor, sintetizadores e loops). Colin Greenwood (baixo). Jim Sclavunos (percussão, bateria e coros). George Vjestica (guitarras e coros). Larry Mullins (Toby Dammit): bateria e percussão. Carly Paradis (teclados e coros) Coro: Janet Ramus, Wendi Rose e T-Jai McCalla.





















Matt Berninger – Palco Heineken (23h45)

Duração: 1h10

1. No Love

2. Frozen Oranges

3. Distant Axis

4. Type It Up (tema original)

5. Martini Me Fatso

6. Walking on a String

7. One More Second

8. Nowhere Special

9. Little by Little

10. Gospel (The National)

11. Slow Show (The National)

12. Terrible Love (The National)

13. Bonnet of Pins

14. Inland Ocean


nota: as fotografias são de Renan Nascimento