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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Sobre o Circo do Soleil «Ovo», Meo Arena / Parque das Nações











































Recupero uma tradição que verdadeiramente nunca me pertenceu. O circo. Reparo que existe no espectáculo, agora sem animais, sem miséria, sem sofrimento humano, sem nostalgia, um lado de distracção que apenas o circo, como arte, sabe transmitir. Ali, estamos face a um universo que apenas a ele próprio pertence. E se soubermos descontrair e esquecer o resto, ou seja, o mundo, a ele também podemos pertencer. Como acontece a uma criança que descobre um brinquedo novo.

«Ovo» é sobretudo um espectáculo musical, extraordinariamente alegre, híper-colorido, caleidoscópico mesmo, onde as figuras ambulantes, quase anti-gravidade, referem o mundo dos insectos e dos outros seus companheiros, os artrópodes. Será um espectáculo mais próximo do circo convencional se considerarmos que os números se sucedem a um ritmo sem pausas, excepto aquelas de se devem às mudanças de cenários e de artefactos cénicos e técnicos, sendo essas pausas editadas ou escondidas pelo samba, pela canção brasileira, pelos ritmos sul-americanos.

Extraordinária é a iluminação sobre o guarda-roupa, e o próprio guarda-roupa: o número inicial das formigas malabaristas com os quivis e as folhas verdes; os gafanhotos que saltam e trepam a parede, as duas crisálidas que vagueiam suspensas nascidas de um véu de efeito cénico único. Ou o aparecimento da mutável figura da aranha contorcionista.

Um facto é que, ao longo do espectáculo, todos os seres de esqueleto externo se movimentam ao sabor do romance entre uma Joaninha/ Ladybug (Michelle Matlock / Neiva Nascimento) e por um estranho Estrangeiro transportador de um enorme ovo (Jan Dustler / Gerry Regitschnig), romance patrocinado por Master Flipo (Joseph Arrigo), um artrópode-palhaço de muito difícil classificação zoológica.

Uma diversão, uma fantasia, que deve ser consumida como se nos entregassem um embrulho muito colorido suspeitando nós que no interior está um brinquedo de forma deliciosamente inesperada, escolhida a preceito.

















(Ouço agora, passado um mês, o disco editado pela equipa em 2010, com a partitura e as canções compostas por Berna Ceppas. Interessante como, no início, a memória visual do espectáculo logo se associa a cada uma das faixas revelando o funcionamento do nosso sistema cognitivo. Mais tarde, o álbum torna-se independente e belo, estranhamente variado embora uniforme, a ouvir em contínuo.)
 

26 de dezembro de 2025

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Sobre o Circo do Soleil «Corteo», Meo Arena / Parque das Nações



 











































Cá em casa nunca fomos amantes de circo. Não gostávamos de ver os animais cheios medo e mal tratados, não gostávamos de ter medo dos palhaços. Coisa que sempre acontecia quando, em miúdos, se aproximavam – Palhaço Pobre, Palhaço Rico – voz espalholada, a embirrarem um com o outro e os carros a estoirarem com estrondos imbecis. Ficávamos a chorar. A minha mãe não entendia por que é que a pobreza e a riqueza davam vontade de rir. Por outro lado, permanecia sobre tudo a tristeza de «A Morte do Palhaço» de Raul Brandão (1926), a eterna bendita melancolia de Federico Fellini «A Estrada» (1954) ou «Oito e Meio» de Federico Fellini (1963) e a música de Nino Rota. Enfim, o circo.

Ora nem de propósito… O Circo do Soleil apresenta Corteo, dirigida por Daniele Finzi Pasca e estreada em Montreal em 2005. Corteo é simplesmente o cortejo fúnebre de um palhaço, Mauro (interpretado pelo brasileiro Marcelo Perna) que vai imaginando a própriamorte festejada com alegria e ao som de uma banda sonora que mistura samba, passodoble, balcãs, Nino Rota e Goran Bregovic. Teria tudo para me dar a melancolia.

Porém… Esqueço-me de mim e entro no modo cénico como apresentam os números de acrobacia, funambulismo, trapezismo ou malabarismo, levando-nos através da vida de Mauro, desde a infância. Uma sucessão de peças musicais entretecidas numa história teatral onde as personagens mudam constantemente o sentido ao drama. Sim, esquecemos que é circo (apesar de o ser) e embalamo-nos nessa comédia em miniatura (qual sessão de robertos) entre a mini Julieta e o mini Romeu, enquanto o cavalo de pano vai buscar a gaivota morta, como um cão excitado pelo dono, mas que se desconjunta, ficando pelo meio, deixando o focinho em cena... De seguida, surgir um amoroso e comovente número de acrobacia elaborado por um casal de bailarinos espaciais, num ambiente de azul profundo.

E claro, Corteo é acompanhado pelo melhor assobiador do mundo, o Mr. Whistle (o finlandês Geert Chatrou), sem esquecer a série de sapatinhos que correm pelo palco fora sem nenhum pé lá dentro, ou Anita vogando leve sobre o público como bolas de sabão, e as tutelares figuras angelicais que aparecem no céu vestidas como anjos vindos do século passado, daqueles que se penduravam na árvore de Natal.

Reconheço, fui levado. Levaram-me! Não fiquei triste. Não tive medo dos palhaços, não me assustei nem chorei e fartei-me de divertir. Ah, e os cavalos eram de pano e tinham palhaços lá dentro! Não sofreram!

Todos os artistas são definitivamente extraordinários. Os cenários encantadores. O palco-arena, que se esconde por véus translúcidos e pintados em modo parisiense, está ladeado pelas duas plateias que se opõem, frente a frente. 

(de 10 a 20 de Abril de 2025)


30 de abril de 2025