«No automóvel em que regressava a
Paris, lembrou-se de que quando, aos vinte anos, chegara à capital o que mais o
impressionara fora a fermentação constante da enorme cidade, essa agitação contínua
de centenas de milhar de seres humanos à procura de alguma coisa. (…)
O que outrora o impressionara, o que
lhe comunicava uma febre romântica, no meio dessa multidão em perpétuo
movimento, era o bando de desencorajados, dos vencidos, dos resignados que não
tinham ânimo para se firmar à corda e se deixavam ir por água a baixo.
Depois aprendera a conhecê-los e
esses já não o impressionavam, mas sim os do escalão superior, decentes e
limpos, sem pitoresco, que lutavam, dia após dia, para se aguentarem ao de cima
da corrente ou para se oferecerem a ilusão de que existiam e de que a vida
merece ser vivida.»
Georges Simenon, ao escrever estas linhas, rever-se-ia nessa activa
contemplação do Comissário Maigret perante uma cidade em movimento? Pois ao
longo de todo o romance, o Comissário Maigret não deixa de se rever com afecto
reflexivo no resignado caixeiro M. Louis Thouret e respectivos os sapatos amarelos.
Sobre este pormenor, o único que devemos ou podemos referir
sem fazer spoiler, pois é o título do
primeiro capítulo, não é apenas a marca, o signo, o triunfo de uma personalidade,
mas antes o expoente máximo da resistência humana perante essa mole
citadina em permanente fermentação.
Simenon tem, como é seu dever de exímio mestre, um cuidado para
com os desvalidos que rodeiam o centro da intriga – M. Louis –, mesmo aqueles
que o “acusavam” de complacência perante o triste remedeio com que a vida o brindara.
Contudo, Maigret (Simenon) envolve M. Louis de gente afável e
carinhosa, reflexo da própria afabilidade e carinho que ele emanava perante a micro sociedade familiar. Inclusive, ou principalmente, a
relação deste com o circense Jef Schrameck. Os diálogos saídos dos interrogatórios
sucessivos de Monique, Schrameck e Albert Jorisse são a absoluta prova desse
coração maior com que Maigret distingue o trigo do joio social.
Mais não se poderá escrever sobre esta grande peça narrativa (e descritiva) sem estragar o enredo que é no fundo a vocação de todo o livro
policial.
E este é um enorme livro carregando uma excelente
tradução de Mascarenhas Barreto e apresentando na capa uma das obras maiores de
Lima de Freitas.
p.s. Infelizmente, ao velhinho exemplar encontrado no fundo da
prateleira da casa de férias faltava a folha com as páginas 127-128, logo aquelas
entre os capítulos VI e VII onde se descrevem as tropelias de Schrameck. Tentarei
encontrar no alfarrabista um exemplar completo…
jef, outubro 2026

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