domingo, 18 de outubro de 2026

Sobre o livro «Maigret e o Homem do Banco» de Georges Simenon, Livros do Brasil, Colecção Vampiro n.º 132. Tradução de Mascarenhas Barreto. Capa de Lima de Freitas, 1958 (1953).



 







«No automóvel em que regressava a Paris, lembrou-se de que quando, aos vinte anos, chegara à capital o que mais o impressionara fora a fermentação constante da enorme cidade, essa agitação contínua de centenas de milhar de seres humanos à procura de alguma coisa. (…)

O que outrora o impressionara, o que lhe comunicava uma febre romântica, no meio dessa multidão em perpétuo movimento, era o bando de desencorajados, dos vencidos, dos resignados que não tinham ânimo para se firmar à corda e se deixavam ir por água a baixo.

Depois aprendera a conhecê-los e esses já não o impressionavam, mas sim os do escalão superior, decentes e limpos, sem pitoresco, que lutavam, dia após dia, para se aguentarem ao de cima da corrente ou para se oferecerem a ilusão de que existiam e de que a vida merece ser vivida.»

Georges Simenon, ao escrever estas linhas, rever-se-ia nessa activa contemplação do Comissário Maigret perante uma cidade em movimento? Pois ao longo de todo o romance, o Comissário Maigret não deixa de se rever com afecto reflexivo no resignado caixeiro M. Louis Thouret e respectivos os sapatos amarelos.

Sobre este pormenor, o único que devemos ou podemos referir sem fazer spoiler, pois é o título do primeiro capítulo, não é apenas a marca, o signo, o triunfo de uma personalidade, mas antes o expoente máximo da resistência humana perante essa mole citadina em permanente fermentação.

Simenon tem, como é seu dever de exímio mestre, um cuidado para com os desvalidos que rodeiam o centro da intriga – M. Louis –, mesmo aqueles que o “acusavam” de complacência perante o triste remedeio com que a vida o brindara.

Contudo, Maigret (Simenon) envolve M. Louis de gente afável e carinhosa, reflexo da própria afabilidade e carinho que ele emanava perante a micro sociedade familiar. Inclusive, ou principalmente, a relação deste com o circense Jef Schrameck. Os diálogos saídos dos interrogatórios sucessivos de Monique, Schrameck e Albert Jorisse são a absoluta prova desse coração maior com que Maigret distingue o trigo do joio social.

Mais não se poderá escrever sobre esta grande peça narrativa (e descritiva) sem estragar o enredo que é no fundo a vocação de todo o livro policial.

E este é um enorme livro carregando uma excelente tradução de Mascarenhas Barreto e apresentando na capa uma das obras maiores de Lima de Freitas.

p.s. Infelizmente, ao velhinho exemplar encontrado no fundo da prateleira da casa de férias faltava a folha com as páginas 127-128, logo aquelas entre os capítulos VI e VII onde se descrevem as tropelias de Schrameck. Tentarei encontrar no alfarrabista um exemplar completo…


jef, outubro 2026

 

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