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domingo, 12 de julho de 2026

Sobre o disco «Get Sunk» de Matt Berninger, Concord Records 2025

 




 








Se a capa do álbum «Serpentine Prison» (2020) tinha um vago Freud-Bacon Touch, a de «Get Sunk» pisca o olho a Lourdes Castro.A mesma penumbra de prisão, de cerco, de transparência vigiada, de refúgio cercado.

Inland Ocean

No Love

Bonnet Of Pins

Frozen Oranges

Breaking Into Acting

Nowhere Special

Little By Little

Junk

Silver Jeep

Times Of Difficulty

 A voz grave, velada, densa parece mais definida, talvez ainda mais política, nesse texto sem fim, paranóico-diabólico, feito de restos prestáveis: «Nowhere Special». Por vezes acarinhada pela voz feminina.

“God loves the inland ocean. Lost cause, I have no emotion. Wrap me up and bury me.» canta-se no interior desse oceano sitiado. Mas “We say sorry then We laugh it off With careful hugs And kisses off the cheek”. Apesar de todo o amor a solidão existe. Apesar de todo o abandono existirá uma centelha de carinho.

Mesmo no centro do absurdo, mesmo se as laranjas suspendem-se congeladas na árvore em Indiana, mesmo se aos poucos termines em poeira e sonhos, ainda poderemos encontrar a semente redentora da comunhão.

“Get drunk! Get sunk! Forget! Get wet!”

No entanto, “I’ll think of you if you think of me The way the sky thinks of the sea In times of dfficulty”.

'A energia pode ser estranha', porém a música de Matt Berninger revela novamente o modo abstracto e belo de como sobreviver à intempérie de um mundo cruel mas, ainda assim, belo.

“I only love you baby, I’m only love Without you baby I’m only junk I’m only love I’m only junk.”

jef, julho 2026

domingo, 9 de novembro de 2025

Sobre o disco «Who Is The Sky?» de David Byrne, Matador Records 2025

 




 







Depois da distopia americana («American Utopia», 2018 e «American Utopia on Broadway», 2019), David Byrne regressa às pequenas criaturas, a uma visão do que nos une no mundo exterior caleidoscópico, no que nos afasta do nosso casulo interior.

A música de David Byrne deve ler-se!

Afinal. o apartamento é o nosso amigo mais íntimo, aquele que, à parte porta e janelas, nos liquida ânsias, esperanças e desesperos.

Afinal, existe uma porta que nos nega permanentemente a entrada até que o género muda e radicalmente a premissa altera-se.

Voltemos à origem de tudo:

“Love is here, love is gone

Love will prove that anyone

Can change their mind.

Love is time, love is space

Love will have you find a place

To come inside.

What is the reason for it? Why is it there?

Is it my body or my brain?

Nobody understands it, they all believe

That it will all make sense someday

Love is war, love is peace

Love is such a tasty treat

What is the reason for it?”

Claro que não existe  propriamente uma razão para tal. Quem o toca é aquela orquestra de câmara que sempre acompanha o músico em permanente movimento – a Ghost Train Orchestra. Sigamos pois a banda!

“Everybody laughs and everybody cries

Everybody lives and everybody dies

Everybody eats and everybody loves

Everybody knows what everybody does”.

Porque na verdade estaremos sós, apesar de todos saberem o que comemos no restaurante através do nosso próprio telemóvel. Pois mais vale observar do que ir até lá! Oh, quem me dera lá estar, Avant garde!

“Should I be more like the avant garde?

Would it be easy, or would it be hard?

For a life that's exciting, if one wants to go far

There's only one place that's the avant garde

I wanna go there

I wanna go there

I'll take you with me

The things that we'll see.”

Sem respostas para dar, apenas com uma mão cheia de fast food gourmet.

“I met the Buddha at a downtown party

He was hanging by the pastries and the canapés

I said, "Dude, should you really be eating

All of that unhealthy stuff?

He said, "I had to retire from that enlightenment biz

I don't have the answers, and I never did

They think I can help them, but I'm not that smart

So here, have a piece of this blue blueberry tart"”

David Byrne tem sempre uma resposta sem resposta para nos oferecer. Uma dúvida por uma dúvida. E de dúvida em surpresa, podemos ir agitando o esqueleto dentro do seu amplo dicionário melódico, da sua parafernália de ritmos sintéticos, sinfónicos, de dança tribal, de sonoridades mais ou menos africanizadas, mais ou menos caribenhas. Afinal, sempre música nova-iorquina.

Psycho Killer!

Se, concretamente, nunca iremos obter uma resposta concreta e definitiva, o melhor é continuar a agitar o corpo e a justiça para tal. Talvez um dia lá chegaremos.

Abramos então o espírito, alguém está a pedir permissão para entrar.

“You know who I am

You know where I've been

Now I’m outside your mind

And I'm trying to get in

I'm standing out here

By your red velvet rope

Your bouncers all say

"Dude, you haven’t a hope"”

 

jef, novembro 2025

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Sobre o disco «Nebraska» de Bruce Springsteen, CBS 1982




















Abraham Lincoln


Nebraska. Um dos estados do Centro da América do Norte – 200.000 quilómetros quadrados de pastos a perder de vista. A capital, Lincoln, lembra a todos o nome do grande estadista e as opções das suas gentes após a guerra civil do passado. «Nebraska», a partir de 1982, passou também a representar um dos discos mais importantes da carreira de Bruce Springsteen e, porque não, uma das obras de culto da música norte-americana. A capa mostra uma estrada sem fim, um céu nublado, fotografados a preto e branco do interior de um carro. Dentro, encontro dez inesquecíveis canções acústicas, dez histórias amargas e nostálgicas sobre uma América que apenas conheço através da minha memória cinematográfica. «Nebraska» é um disco brilhante e triste, que tem o poder de devolver à nossa alma, sempre que o ouvimos, aquela desassossegada vontade de metermos pés a um caminho de que desconhecemos a direcção e o fim.


«Nebraska» de Bruce Springsteen, CBS, 1982

15 de Novembro de 1993

jef


(Vá lá saber-se a razão por que hoje, no dia 5 de novembro de 2025, me voltei a lembrar desta América do Norte, eterna, bela, omnipresente e, tantas vezes velhaca.)

domingo, 31 de agosto de 2025

 









Os Superviventes

 

«Pré-Histórias» é um caso muito sério da música popular portuguesa. E não será apenas por conter um conjunto inesquecível de canções. O álbum que Sérgio Godinho editou em 1972 encerra um fascínio peculiar, emite uma felicidade vindoura, transborda de juventude, solidária e contagiante. Apela à Democracia e à Liberdade.

Mas também não será apenas por isso… «Pré-Histórias» sucede sorridente a um álbum de estreia muito particular «Os Sobreviventes» (1971), que nunca temeu o brilho das duas obras-primas editadas antes, «Cantigas do Maio» de José Afonso e «Mudam-se os Tempos de José Mário Branco.

Mais, Sérgio Godinho afasta-se da circunspecta tradição da balada de Coimbra ou do fado de Lisboa e leva-nos até à jovialidade do rock ou do samba, embrulhando tudo numa teia musical complexa, de aparência simples e popular.

Ou seja, em vez de cantar o fim de uma ditadura, ele prefere anunciar o canto de uma nova ordem, alegre e democrática. Assim é o começo com o estranho “Barnabé”, que é diferente de todos os demais, e o final feliz com a chegada de “O Homem dos 7 Instrumentos”. Mas não se fica por aí, rejeita a poesia erudita e distante, cita um dos grandes poetas da palavra insólita – Alexandre O’Neill – e canta “o medo de ter medo” e o Porto surrealista. Mais, aqui o amor revela-se destemido, lúdico e sensual, “A Noite Passada”, mas também ferido, desesperado e lutador, “Aprendi a Amar”.

Um disco clarividente, onde a juventude, a velhice e o amor à liberdade de viver misturam-se num caos cheio de luminosidade e esperança. Se estas canções resultaram em «Pré-Histórias» foi, sem dúvida, por serem tão verídicas e fundamentais quanto a alegria e a razão que levaram à sua criação.

Um álbum para uma colecção muito restricta.

p.s. lembro-me quando os meus tios me deram o álbum acabado de sair, pelos meus anos, 14 diga-se, e que o ouvi ininterruptamente, como um disco alegríssimo para crianças que suspeitavam que iriam crescer em liberdade!


«Pré-Histórias» de Sérgio Godinho, Guilda da Música / Sasseti, 1972

Março de 1998

jef

 

sábado, 30 de agosto de 2025

Sobre o disco «Meus Caros Amigos» de Chico Buarque, Philips, 1978








Meu Caro Chico

Há discos que o tempo e o intrínseco valor musical fazem saltar das prateleiras carimbadas por épocas, estilos e rótulos fáceis, entrando nos dignos escaparates da  minha música clássica. Há também canções que se ouvem numa época, numa certa idade, que as torna geneticamente nossas, transformando os seus direitos em património cultural sem região ou relógio. Verdi, Gershwin, Mozart, José Afonso, Monteverdi, Cole Porter, Jacques Brel, Bach, Tom Waits… A esta lista, felizmente, poderão juntar-se muitos outros nomes mas ficará sempre incompleta enquanto não incluir o do inventor de canções Chico Buarque de Holanda. Entre obras inesquecíveis, encontramos um disco único que consegue a proeza de juntar dez dessas canções, unidas pela poética abstractamente concreta, os arranjos sinfónicos, o fundamento dos coros e, porque não, o acaso dos meus ouvidos. Afinal, «Meus Caros Amigos» é um disco absolutamente meu! Lá dentro, temos a profundidade de “O Que Será (À Flor da Terra)”, o hino anti-machista “Mulheres de Atenas”, o acto de regeneração afectiva de “Olhos nos Olhos” e “Você Vai Me Seguir», a urgência social e ecológica de “Vai Trabalhar Vagabundo” e “Passaredo”, a ternura quase de embalar “A Noiva da Cidade”, o eterno retorno e a saudade de “Basta um Dia” e “Meu Caro Amigo”. Escutar de novo, agora, este disco é reencontrar lá dentro a melhor memória de mim mesmo e, ao mesmo tempo, reviver o prazer de ouvir cantar (e com que paixão!) em português. «Meus Caros Amigos» é um dos poucos discos a levar para uma certa Berlenga, se deserta, minúscula e longínqua.

«Meus Caros Amigos» de Chico Buarque, Philips, 1978

13 de Dezembro de 1993

jef

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

O Túlipa Negra. «Black Rider» de Tom Waits. Island, 1993



 






O mês de Dezembro tem destas coisas, vem sempre no final do ano, traz invariavelmente o Pai Natal à perna, mas também oferece-nos quase sempre as melhores surpresas musicais. E para que este ano não fugisse à regra, o Menino Jesus lá acabou por nos pôr no sapatinho o disco mais fabuloso de 1993: «The Black Rider» - o álbum de capa branca de Tom Waits. Depois de nos ter presenteado, no ano passado, com um dos discos mais negros da sua carreira, «Bone Machine», mergulha ele de cabeça no seu bem amado teatro. Junta-se a Robert Wilson (o encenador) e a William Burroughs (o escritor) e estreiam em Hamburgo, em Abril de 1990, «The Black Rider», uma peça baseada numa antiga lenda da Alemanha, atafulhada de amores contrariados, pactos com o diabo, caçadores, belas encantadas e morte. E é pelo meio de tudo isto que Tom Waits consegue fazer o impossível: reestrutura as peças musicais, altera-lhes a sequência, introduz os sons mais irrequietos provenientes de um grande número de instrumentos musicais, impõe a força da sua voz destroçada, grava de forma íntima e expressionista para parecer que tudo se passa entre o palco do cabaré e a arena do circo e, por fim, envolve a sua obra perversa, futurista, num dos mais bizarros e interessantes grafismos (Robert Wilson), numa dos mais conceptuais direcção e arranjos musicais (Greg Cohen). Tom Waits põe à nossa disposição um enorme álbum onde apenas falta o suor dos actores, o calor dos holofotes e o pó dos bastidores. A seguir de «The Black Rider» só resta mesmo perguntar: o que é que o futuro de Tom Waits nos andará agora a preparar?

«The Black Rider» de Tom Waits, Island, 1993


13 de Dezembro de 1993

jef

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Sobre o disco «Sounds of the Satellites» de Laika, 1997, Too Pure



 















O título do segundo álbum da banda inglesa remete-nos para uma espécie de confissão escondida no fundo cósmico da décima segunda e última faixa. Aguardemos em silêncio por ela. Entre electricidade estática e os sinais orgânicos de um animal encarcerado e sobreaquecido, a voz feminina vai expondo como a comunicação foi sendo feita com a pobre cadela enviada para testes siderais dentro do satélite soviético Sputnik 2, em finais de 1957. Não terá sido o único e primeiro cão a ser sacrificado, nem o último animal a ser lançado para a morte no éter astronómico.

Isto será apenas o fim condoído (ou o início inóspito) deste disco composto por Margaret Fiedler e Guy Fixsen (voz, sampler, guitarra, baixo, Minimoog sintetizador, percussão, trompete, programação e mistura). Depois vem Louise Elliott (flauta), Lou Ciccotelli (percussão), Rob Ellis (tambores, piano preparado, percussão, coro) e Alonso Mendoza (vibrafone).

Aliás como todo o cosmos real também este disco tem uma audível propensão onírica. Os sonhos são coisas etéreas que, caso não as agarremos com unhas e dentes, vão cair sistematicamente em saco roto. É como se a electrónica apresentasse uma dimensão romântica já com saudades de «Blue Lines» (Massive Attack, 1991) ou «Maxinquaye» (Tricky, 1995). Apenas, aqui, a poética integra uma suave linha circular quase a tocar o poema sinfónico, tal a finíssima minúcia da engenharia aplicada. Até à faixa número seis – “Bedbugs”.

A partir daí, o trip-hop vai abraçando o drum’n’bass, o ritmo acelera e parece querer assumir um duplo amor sentido também pelo groove do funk ou, depois, por aquele muito mais antigo jazz rítmico de fusão (de Hermeto Pascoal ou Weather Report). O ritmo acelera, a voz de Margaret Fiedler oferece-se à palavra quase dita, delirantemente poética. A flauta e o vibrafone vai trazendo os arcos melódicos ao meio mais terreno. “Shut Off / Curl Up”, faixa dez. Desliguemo-nos do mundo, voltemos à posição fetal.

Enfim, preparemo-nos para regressar à Terra, “Spooky Rhodes”. Há coisas que apesar de tão simples permanecem sem explicação. "Dirty Feet".

Melhor assim. Apaguemos a luz e que a alma de Laika nos proteja a partir do Paraíso dos Cães.


jef

agosto 2025

sábado, 23 de agosto de 2025

Sobre o disco «Return to the Moon» de EL VY, 2015, 4AD










Por que razão que gosto particularmente da música que já ouvi?

EL VY é um grupo que lançou apenas um disco mas ainda, eventualmente, poderá editar mais música. Não se encontra fechado nesse futuro necessariamente inverto. É constituído por Brent Knopf, o engenheiro e produtor do álbum. Também assina as onze canções com Matt Berninger. Contudo, tudo anda longe dos nervosos refrões repetidos e suados dos The National ou das canções interiores e sub-reptícias de Matt Berninger, ao expor-se sozinho. 

Aqui, no profundo, resiste uma memória histórica do mais sedimentado pop-rock.

A percussão impõe uma velha batida dançável nas canções simultaneamente políticas e amorosamente etéreas: «Return to the Moon (Political Song for Didi Bloome to Sing, with Crescendo)» ou «I’m the Man to Be». Lembro-me dos R.E.M. ou dos The B-52’s. Livre e sincero. Fantasioso, divertido e quase infantil.

Baladas em ritmo de marcha, «Paul is Alive», «Need a Friend», «Sleepin’ Light». Anos 90, século passado. Ainda mais antigo, o swing, «Silent Ivy Hotel». A folk sem artifícios mas com arcos sinfónicos e corais onde a guitarra aparece para electrificar a cadência, à antiga, «No Time to Crank the Sun», «It’s a Game». Até a guitarra ficar a marcar definitivamente o ritmo, «Sad Case», «Happiness, Missouri».

Finalmente, «Careless» lembra como a pop pode oferecer ‘um Cadillac a ser conduzido numa noite através de um possível amor em agonia, de um improvável reencontro com o lugar do morto’.

Tudo tão simples, tão livre do tempo, tão melancolicamente alegre.


jef, julho 2025

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Sobre o disco «Serpentine Prison» de Matt Berninger, 2020, Concord / Caroline Int. / Book Records


















Esqueçam os The National.

Em «Serpentine Prison», Matt Berninger afasta-se temperamental e emocionalmente da sua banda e junta-se a um mundo, talvez perdido, do melhor “american (canadian) folk song book”. De Neil Young («Harvest» 1972, «Harvest Moon»1992), Bruce Springteen («Nebraska» 1982) ou Cowboy Junkies («The Trinity Session» 1988) a Lamchop («How I Quit Smoking» 1996), Feist («Let It Die» 2004) ou Willi Carlisle («Critterland» 2024)… Isto é a minha memória, claro, a falhar.

My eyes are t-shirts, they’re so easy to read

I wear 'em for you but they're all about me

They always say “I want you to take me home”

They always say “I want you to leave me alone”

Canta Matt Berninger na primeira faixa e logo me surge a magnífica sequela que Peter Bogdanovich realizou dezasseis anos depois de «A Última Sessão» (1971) – «Texasville» (1987).  Neste, um pouco enervado, Jeff Bridges (Duane Jackson) questiona Cybill Shepherd (Jacy Farrow) por que razão ela há décadas não usa uma t-shirt que não se leia.

Todo o disco parece vir de um mundo poético, puro, clarividente, triste, aguerrido e suave ao mesmo tempo, que tinha a balada por princípio fraterno e político. Um mundo que nos faz cada vez mais falta. Por isso, Matt Berninger (e os The National) continua a existir e a resistir para nós e por nós.

Na última faixa, ele coloca uma espécie de ladainha-refrão que bem representa o disco. Essa sociedade-esgoto que nos aprisiona numa falsa liberdade-democracia, esse labirinto sem saída fácil que é a tristeza depressiva que nos arrasta por um túnel de luz difícil de descortinar no final.

Total submission

I’ve seen a vision

Everyone’s screamin’

I’ve been daydreamin’

Sorry I’m fishin’

Without permission

Tell her I miss her

In a serpentine prison

Total frustration

Deterioration

Nationalism

Another moon mission

Total submission

I've seen a vision

Call electrician

Serpentine prison

Whatever it is

I try not to listen

Cold cynicism

And blind nihilism

I need a vacation

From intoxication

Tell her I miss her

In a serpentine prison

 

As melodias e as letras são do próprio. Os arranjos são de Booker T Jones (teclas) e Sean O’Brien (guitarra acústica e lapsteel). A capa é desenhada sobre a arte de Michael Carson.


jef, julho 2025


domingo, 6 de julho de 2025

Sobre o disco «More.» de Pulp, 2025, Rough Trade


 

Devo dizer que na segunda metade dos anos 90 do século que passou, os meus ouvidos foram educados de modo sistemático pela hard-pop de «Different Class» dos Pulp (Island, 1995) e pela pop-sinfónica dos The Divine Comedy «Casanova» (Setanta, 1996). Quase um vício.

Trinta anos depois, Jarvis Cocker e a sua trupe de pop-rock circense aparece para negar tudo o que dizia em “Common People”, “Underwear” ou “Disco 2000”. Nega-o mas afirma tudo de novo. Afinal, podemos agora ouvi-lo cantar em “Got to Have Love”:

“Without love you’re just making a fool of yourself

 Without love  you’re just jerking off inside someone else”

Afinal, ainda podemos ter esperança. Podemos voltar a ser crianças em busca de sermos adultos e adultos a exigir ‘demência infantil’, esquecer as fábricas que fecham, esquecer essa coisa de crescermos em torno da puberdade e acender as velas de todos os aniversários ao mesmo tempo. Jarvis Cocker canta que ainda vamos a tempo de esquecer tudo, relembrar tudo e seguir em frente e ainda por cima, sorrir.

30 anos depois «More.» parece não se esquecer de que sou fã (incondicional) do veneziano «Casanova» dos Divine Comedy, regressando para minha memória com uma ópera ultra-pop orquestral, sinfónica, coral. Dançável e reflectida, entre Burt Bacharach e Angelo Badalamenti, a lembrar a canção falada de Leonard Cohen, a infalível dança coral de David Byrne, a história sem fim de Ziggy Stardust…

Enfim, será que gostamos porque algum dia já gostámos. Talvez seja o crédito ou o defeito da memória de longo termo… Pouco me importa, ouço «More.» com o entusiasmo de hoje sem beliscar o papel de parede da pop britânica de há três décadas atrás. E é óptimo.


jef, julho 2025

sábado, 7 de junho de 2025

Sobre o disco «Gloom» de Decline and Fall. Bleak Recordinds, 2024.



 







Será necessário regressar a «Gloom», o primeiro EP do trio Decline and Fall, para compreender o mundo que os envolve (nos envolve). Talvez mesmo esperar pela quarta e última faixa, “Europa” para entender como a música (a arte) pode estar, agora mesmo, a fazer ainda mais sentido.

                                   «Villains as leaders

                                      Banks are now the white bull

                                      People are weaker, nothing left to lose

                                      Land soaked in blood, in mud we crawl

                                      Bang the war drum, as we decline and fall»

Assim fala o poema de Ricardo S. Amorim. Premonitório? Talvez sim.

Contudo, as quatro faixas (“Belief”, “Undone”, “Gloom” e a referida “Europa”) têm um lado muito mais espiritual, mesmo psicanalítico, do que político. Tudo gira no interior de uma Europa que nós construímos dentro de nós do que a Europa politicamente histriónica, também a das redes digitais, que nos inunda e irrompe na nossa intimidade espiritual.

Digamos, que aqui encontro um lado cinematográfico. Como se um certo David Lynch viesse convocar os Portishead ou Joy Division para construir um mundo visual forte e peremptório, onde Beth Gibbons, Ian Curtis ou Julie Cruise fossem apenas peças soltas que a minha própria memória, ostensivamente parcial, insiste em sobrepor e baralhar.

Porque é evidente que o vigor obscuro, entre a pena e o remorso, a perda e a eterna busca, é a obstinada independência e a força resistente e original de Decline and Fall (Armando Teixeira, Hugo Santos, Ricardo S. Amorim, e o baixo convidado de Miguel L. Pereira em “Undone”).

Música que devemos continuar a ouvir no nosso futuro.            

 

jef, junho de 2025

https://banddeclineandfall.bandcamp.com/album/gloom

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Sobre o disco «Critterland» de Willi Carlisle, Signature Sounds 2024

 



 







Não pensei que a country desapareceu ou que a América profunda e combativa se finou no escape de um Tesla ou pendurada na gravata encarnada do outro. A mais profunda e combativa música de Willi Carlisle vem do extremo da sua terra, chamada Arkansas, trazida na bolsa marsupial dessa criatura de nome “critter”. Dentes aguçados e língua viperina, numa pata a pistola, na outra, a Bíblia, pelo meio, um bando de dólares esvoaçando.

“They think I’m a queer or a communist

But I’ll go along to get along, ‘cause it feels so right.”

Canta Willi Carlisle na canção de abertura, um hino ao amor e à liberdade de escolha. Mas não se pense que as restantes nove canções são mais hinos à capacidade de amar numa fuga directa para o interior harmonioso da natureza humana.

                           “Father forgive me for what I have done

Drove 200 miles for six inches of love

And what I called love affair

They say was a death of despair”

Canta em “When the Pills wear off”, uma prece pelo perdão ou pela redenção. Ou nessa ode à diferença “Two Headed Lamb”. Quando descobrirem a aberração do cordeiro será morto pelo fazendeiro. Por enquanto, na noite, ele está vivo, protegido pelo amor da mãe, vendo o dobro das estrelas! Ou o lamento profundo “The Arrangments”:

                              “He was dead inside my head long before he died

    It’s allright, I’m my own father now”

Terminando nessa longa expiação, um monólogo meio falado meio cantado, “The Money Grows on Trees” sobre as vicissitudes sofridas por um passador de droga.

Afinal a minha América ainda é grande. Essa minha América que confunde os acordes, a luta e a fina e amorosa linha melódica das velhas canções folk ou country (Bob Dylan, Pete Seeger, Woody Guthrie, Willie Nelson, Johnny Cash ou mesmo Gonzalez ou Don McLean).

Afinal, ainda podemos respirar de alívio. A América Vive!

(Mas não chamem a Willi Carlisle queer ou communist. Ele apenas vive, compõe e canta como bem entende!)

jef, maio de 2025

domingo, 11 de maio de 2025

Sobre o disco «Scars and Ashes» de Decline and Fall. Bleak Recordinds, 2025.


 











Podemos tomar este disco como a afirmação de um percurso desejado, amado e coeso através do princípio libertário dos Decline and Fall. Pesquisar nos arquivos do passado a eterna sustentação da criação no presente. Simples e complexo ao mesmo tempo, porque vão directamente vasculhar aos meus próprios arquivos (Ah, Joy Division! Ah The Durutti Column!) 

O futuro é simplesmente uma consequência e este LP é o futuro lógico e consequente dos dois EP, «Gloom» e «Pulse», editados pela banda em 2024. Digamos que a partir do negro que toda da luz absorve expande-se esta ópera electro-pop-punk sobre a viagem ao interior emocional de um coração que busca e se perde, mas também em torno do nosso quarto fechado – como se estivéssemos a revisitar a «Viagem à Volta do Meu Quarto» (Xavier de Maistre, 1795).

Dois actos, nove faixas, que terminam, um, com a expressa vontade do regresso a casa mesmo que todos os caminhos sejam enviesados e se dirijam a uma outra cidade, no final do lado A (“Rome”); o outro, com o belo e talvez possível reconforto no seio de um amor, no final do lado B (“Whenever Your Eyes Glow”).

Um álbum tão íntimo e obscuro quanto luminosamente sinfónico.

Ao mesmo tempo, um álbum muito fácil de entender, quase viciante.

A capa reproduz duas peças do artista plástico Paulo Romão Brás.

 jef, maio de 2025


quarta-feira, 2 de abril de 2025

Sobre o disco «People Who Aren’t There Anymore» de Future Islands, 4AD 2024.












Dou-me conta dos Future Islands ao sétimo álbum. Algures em Baltimore, Maryland, Estados Unidos da América. Gerrit Welmers (programação e teclados), William Cashion (baixo e guitarras), Samuel T. Herring (voz e poemas), Michael Lowry (percussão). Deixando lá para trás, em 2008, «Wave Like Home», o primeiro álbum.

Um disco, pelo que se diz na net, criado sob o véu do isolamento da pandemia, do afastamento, do abandono, da procura de algo do outro lado da parede, da linha telefónica, da margem oposta do oceano. Uma tristeza vigorosa, uma toada pontuada pela batida electrónica ou pelo grito lançado do punk do centro da capital para a pista de dança perdida num qualquer lugarejo, num final de noite. Tudo parecendo simples e directo. Tudo quase antigo, quase romântico, quase sinfónico. Quase provocando saudades do que ainda não conhecíamos.

Uma produção principesca editada pela 4AD, acompanhando uma discreta mas não menos principesca arte gráfica, assente na muito recomendável arte plástica.

O algoritmo biológico da minha velha memória leva-me até aos The National ou aos Despeche Mode.


jef, abril 2025