sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Sobre o livro «A Neve Estava Suja» de Georges Simenon, Cavalo de Ferro, 2025 (1948). Tradução de Diogo Paiva.



 







Talvez seja um dos romances que marcam, ou sublinham o século XX, talvez justifiquem, agora, este século XXI. Um dos romances do existencialismo modernista, aquela ideia da liberdade mais pura, mais severa, mais atroz. Celine, Sartre ou Jean Genet aplaudiriam ou aplaudiram. Não poderá falar-se propriamente de Hans Castorp, esse jovem doente, perdido pelo pulmão de Davos, entre a dialéctica de Settembrini e de Naphta. Como neste último, a guerra não se aproxima, ela já está lá. Em «A Neve Estava Suja», não há salões aquecidos e chá servido, a ocupação estrangeira não aplaca o frio, a fome, a pobreza, opressão a morte e a vigilância de cada esquina, apenas acelera a miséria e o sofrimento. Porém, Frank Friedmaier está de pedra e cal e não se digna ceder, vergar, contestar ou colaborar. Nada mais lhe interessa do que resistir até ao fim, como ele próprio é, ou julga ser, como princípio, como meio, sem olhar à página última.

(Num outro sentido e talvez como escreveria Enrique Vila-Matas, Frank pertenceria a «Bartleby & Companhia» (2000).)

Talvez eu pudesse recordar as personagens de Albert Cossery, mas essas estão sobranceiras, talvez mesmo imponentes. Frank Friedmaier tem outro modo de circular, talvez outro passado, seguramente movimentos diversos. Poderemos lembrar-nos, então, de Meursault de «O Estrangeiro» de Camus (1949) ou de Rodion Raskólnikov do «Crime e Castigo» de Dostoiévski (1867). Contudo, fica-nos essa teia única que Simenon sabe urdir, página a página, diálogo a diálogo, corredor por corredor, janela frente a cada janela, deixando por último a ânsia pelo epílogo, nesse fraseado cromático que esconde a intriga e lança a cada linha o novo isco para que o leitor jamais possa descobrir o que a derradeira linha trará.

«A Neve Estava Suja» é um romance moderníssimo, diria fundamental, que ensina a ler, que obriga a parar para observar cada parede ou rua escondidas de uma sociedade que será sempre funesta frente ao pragmatismo individualista, frente ao crer existencialista onde a escolha do indivíduo será sempre apenas a sombra de uma personalidade interrompida.

Georges Simenon é genial, sem temer estar a extrapolar o adjectivo!


jef, julho 2026