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domingo, 18 de outubro de 2026

Sobre o livro «Maigret e o Homem do Banco» de Georges Simenon, Livros do Brasil, Colecção Vampiro n.º 132. Tradução de Mascarenhas Barreto. Capa de Lima de Freitas, 1958 (1953).



 







«No automóvel em que regressava a Paris, lembrou-se de que quando, aos vinte anos, chegara à capital o que mais o impressionara fora a fermentação constante da enorme cidade, essa agitação contínua de centenas de milhar de seres humanos à procura de alguma coisa. (…)

O que outrora o impressionara, o que lhe comunicava uma febre romântica, no meio dessa multidão em perpétuo movimento, era o bando de desencorajados, dos vencidos, dos resignados que não tinham ânimo para se firmar à corda e se deixavam ir por água a baixo.

Depois aprendera a conhecê-los e esses já não o impressionavam, mas sim os do escalão superior, decentes e limpos, sem pitoresco, que lutavam, dia após dia, para se aguentarem ao de cima da corrente ou para se oferecerem a ilusão de que existiam e de que a vida merece ser vivida.»

Georges Simenon, ao escrever estas linhas, rever-se-ia nessa activa contemplação do Comissário Maigret perante uma cidade em movimento? Pois ao longo de todo o romance, o Comissário Maigret não deixa de se rever com afecto reflexivo no resignado caixeiro M. Louis Thouret e respectivos os sapatos amarelos.

Sobre este pormenor, o único que devemos ou podemos referir sem fazer spoiler, pois é o título do primeiro capítulo, não é apenas a marca, o signo, o triunfo de uma personalidade, mas antes o expoente máximo da resistência humana perante essa mole citadina em permanente fermentação.

Simenon tem, como é seu dever de exímio mestre, um cuidado para com os desvalidos que rodeiam o centro da intriga – M. Louis –, mesmo aqueles que o “acusavam” de complacência perante o triste remedeio com que a vida o brindara.

Contudo, Maigret (Simenon) envolve M. Louis de gente afável e carinhosa, reflexo da própria afabilidade e carinho que ele emanava perante a micro sociedade familiar. Inclusive, ou principalmente, a relação deste com o circense Jef Schrameck. Os diálogos saídos dos interrogatórios sucessivos de Monique, Schrameck e Albert Jorisse são a absoluta prova desse coração maior com que Maigret distingue o trigo do joio social.

Mais não se poderá escrever sobre esta grande peça narrativa (e descritiva) sem estragar o enredo que é no fundo a vocação de todo o livro policial.

E este é um enorme livro carregando uma excelente tradução de Mascarenhas Barreto e apresentando na capa uma das obras maiores de Lima de Freitas.

p.s. Infelizmente, ao velhinho exemplar encontrado no fundo da prateleira da casa de férias faltava a folha com as páginas 127-128, logo aquelas entre os capítulos VI e VII onde se descrevem as tropelias de Schrameck. Tentarei encontrar no alfarrabista um exemplar completo…


jef, outubro 2026

 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Sobre o livro «O Alienista» de Machado de Assis, Guerra e Paz, Colecção Clássicos n.º 44, 2026 (1882)



 







Como podemos, hoje, interpretar «O Alienista»?

Como uma sintomática charla, quase burlesca, executada em 13 episódios / capítulos, sobre a equidade científica do julgamento perante o próprio acto de julgar a sanidade mental e o afastamento de cada indivíduo face à norma estatística do comportamento humano?

Exemplo 1. «– Trata-se de coisa coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. (…) A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.»

Exemplo 2. Fala o vereador Sebastião Freitas: «– Nada tenho que ver com a ciência; mas, se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?»

Como uma paródia triste sobre o acto político e a volatilidade da ideia colectiva e das convicções sociais?

Exemplo. «Entretanto a arruaça crescia. Já não eram trinta, mas trezentas pessoas que acompanhavam o barbeiro. (…) A ação podia ser restrita – visto que muita gente, ou por medo, ou por hábitos de educação, não descia à rua, mas o sentimento era unânime, e os trezentos que caminhavam para a Casa Verde – dada a diferença de Paris e Itaguaí – podiam ser comparados aos que tomaram a Bastilha.»

Como um romance rápido, em forma de novela (já que foi inicialmente publicada como folhetim num periódico). Sagaz, mordaz, divertido, sarcástico até à medula, imparável de ler.

Exemplo no início. «Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte cinco anos, viúva de um juiz-de-fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes.

(…) D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos»

Acima de tudo, «O Alienista» é um texto muito ágil, um humorístico scherzo quase musical, um tratado nostálgico sobre a eterna impraticabilidade da inteligência humana.


jef, outubro 2026

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Sobre o livro «A Cura» de Pedro Eiras, Assírio & Alvim, 2017



 







Talvez seja altura de revermos «A Interpretação dos Sonhos» de Sigmund Freud (Relógio D’Água, 2009), o «Rei Édipo» de Sófocles (Edições 70, 2006) ou o Eclesiastes na edição da Bíblia dos Capuchinhos, por ser a mais católica. Ou, então, observemos apenas o ovoide rezingão Humpty Dumpty, sentado no alto do muro, n’«O Outro Lado do Espelho».

Em «A Cura» ficamos com a ideia de que o Inferno até nem será um local assim não hostil se não permanecermos a autoflagelar-nos com esse vaivém obsessivo de martírio-culpa-impulso recalcado-pecado-perdão. Tudo está condensado, contido, reflectido dentro de nós. A solução permanece connosco. Esqueçamos, afinal, que do outro lado do espelho, reflexo do reflexo, está um super-gigante Eu pronto a apontar o dedo a quem se penteia deste lado.

Nada é possível revelar deste livro composto por um Prólogo e um Epílogo tendo por miolo o conteúdo de treze consultas de análise cujo registo, afinal, o leitor está antecipadamente proibido de ler. Ora, desta forma, ao terminar a leitura ele, o leitor, fica cúmplice de uma afronta ou de um crime, para sermos dramáticos, pois o recalcamento de que vamos sendo coniventes vai desaguar, sem apelo nem agravo, no assassinato de Laio, o pai de Édipo, esquecendo Jucasta e sem Antígona que nos salve, nem Creonte que nos ofenda.

Uma espécie de confronto de lógicas que devemos seguir como entradas antagónicas de uma enciclopédia universal – a fé absoluta e dogmática em algo superior que nos conduz, protege e condena, contra a consciência e auto-conhecimento do que nasce connosco ou que nos é inculcado por convivência ou educação parental.

Eis um livro que em formato de novela, escrito com a clássica mestria de Pedro Eiras, torna-se numa leitura imparável, revelando-se uma verdadeira, séria e comovedora comédia sobre os contrários que movimentam permanentemente a sociedade ocidental.

Um romance que, se atentarmos na permanente e sucessiva dicotomia de pensamentos, nos oferece o paraíso e o inferno em simultâneo e um óptimo modo de auto-reflexão e divertido exercício neurológico.


jef, junho 2026

domingo, 13 de setembro de 2026

Sobre o livro «Arkansas» de David Leavitt, Asa, 1999. Tradução de Paula Teixeira.



 







Quando a homossexualidade vivia aprisionada pelo vírus VIH e pela doença, numa espécie de toca e foge, entre o remorso da liberdade promíscua e, depois, o terror do sofrimento sem tréguas que arrastava atrás a inelutável sentença de morte. Finais dos anos 80, início dos anos 90. Califórnia, Los Angeles. Também a eterna Florença e os seus arredores aromaticamente sedutores como paraíso libertário e romântico. Um livro triplo: “Trabalhos de Artista”, “Bodas de Madeira” e “Saturn Street”, três contos sob a epígrafe atribuída a Oscar Wilde que terá escrito no final da vida “Gostava de fugir, como um veado ferido, para o Arkansas”.

Sim, são contos de medo e de fuga, digamos, histórias do profundo sentido de exílio e abandono que a comunidade homossexual sentiu numa época de pandemia e abandono.

Se, pelo meio, o conto “Bodas de Madeira” narra o desespero de um grupo de amigos que se encontram ao fim de muitos anos em casa de Lizzie, onde ministra cursos de culinária italiana, algures na Tuscânia. Celia é a narradora e Nathan um homem cujo passado todos liga mas de modo silenciado e muito pouco esclarecido. Nathan, porém, sofre de visões alucinadas e de uma incessante busca por um futuro pouco conciliador. Até que chega o cozinheiro encartado italiano, Mauro, de certo modo comparado a Apolo. Aí o conto descamba numa verdadeira circunstância novelesca entre pessoas instáveis, no entanto, sem problemas de maior na vida.

O livro inicia-se com a história em nome próprio, na qual um “Dave Leavitt”, já com créditos na edição e na publicação literária americanas sofre um bloqueio criativo e, numa espécie de ilícita “transacção comercial” resolve vender os créditos em composições para universitários sem escrúpulos, motivação ou talento, escrevendo os seus melhores textos abordando os livros de Henry James ou E.M. Foster ou, ainda, as suspeitas de mossexualidade que recaíam sobre príncipes e lordes britânicos ou sobre Jack, o Estripador.

Contudo, emocionalmente, o livro conclui-se com o encontro de Phil com Jerry que trabalha para uma organização de voluntários que faz a distribuição ao domicílio de refeição para doentes de Sida. Jerry vive obcecado pelo que o futuro próximo lhe trará levando na memória um trágico abandono, temendo realizar os necessários testes e análises. Phil vive sob ameaça constante e lembra quando certos bairros de Los Angeles ainda traziam o futuro no nome. Phil sempre viveu sem medo e não teme o futuro que será breve ensinando a Jerry como o presente não deve ser toldado pela provável renuncia que o dia de amanhã trará.

Um conto que revela com subtileza o peso da solidão, a certeza fulcral da amizade e da generosidade e que, pela sua profundidade emocional e substância histórica, salva o livro.

 

jef, setembro 2026

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Sobre o livro «Confissão de um Assassino, relato de uma noite» de Joseph Roth, Cavalo de Ferro, 2018 (1936). Tradução de Paulo Tavares.



 







Como encontramos um dos “nossos” livros, um dos “nossos” autores? Como vamos construindo a “nossa” biblioteca?

Não sei por que algoritmo mental, mnemónica, silogismo ou apenas memória de leitura, ao ler o livro, esta grande novela ou este grande pequeno romance, pois os livros não se medem aos palmos ou às páginas, em número de 141, foi ele recordando-me alguns dos meus livros de eleição que aqui menciono sem olhar a cronologias ou preferências– «O Jogador» de Fiódor Dostoiévski (1866), «A Prisão» de Georges Simenon (1961), «O Primo Basílio» de Eça de Queirós (1877), «Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher» de Stefan Zweig (1927) ou «Mendigos e Altivos» de Albert Cossery (1955). Todos eles, de certo modo, sobre patifes que a literatura outorga, desvendado o véu que os assombra ou colocando uma pedra sobre o assunto. Afinal até gostamos dos patifes da literatura.

E se menciono aqueles livros por memória, este não lhes fica atrás em intriga, na minuciosa descrição de quartos, salas, guarda-roupa, atmosfera, penumbras e iluminações, melhor definidoras das personagens que suportam do que parágrafos com simples listas de objectos 'em leilão'. Por entre a descrição do lugar, encontra-se a atenta e quase comovente dissecação psicológica das personagens que o cativa. Aqui se define um verdadeiro espião a soldo da inteligência repressiva russa entre a sangrenta revolução russa e aquela mais tardia madrugada sangrenta da Segunda Grande Guerra – Semion Golubchik, aliás agente Krapotkin, por impostura e também por genética verdadeira.

Este é um autêntico livro policial cujo subtítulo “relato de uma noite” não significa que a acção descrita decorra num período temporal curto, relembrando Bloom ou Dalloway, mas sim o tempo em que o narrador conta a sua história perante uma audiência silência frente a copos meio vazios de aguardente russa, como quantas vezes faz Stefan Zweig.

Este é um romance que vai costurando a intriga linha a linha, página a página, até à última, modelando as personagens de modo profundo, diria inesquecível – Golubchik, o falso verdadeiro Krapotkin, Krapotkin, afinal o falso, a bela modelo Lutécia, o imponente director da espionagem em Paris Solowejczyk, o efeminado estilista Monsieur Charron, principalmente, o misterioso e sempiterno, Jenö Lakatos.

É verdade, «Confissão» de um Assassino» tornou-se um dos “meus” livros e Joseph Roth, um dos “meus” autores.

jef, setembro 2026

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Sobre o livro «Pietr, o Letão» de Georges Simenon, Livros do Brasil, Colecção Vampiro n.º 145. Tradução de Mascarenhas Barreto. Capa de Lima de Freitas, 1959 (1931).



 








Investigo por Inteligência Artificial e na Wikipedia, confirmo depois. Em 1930, é publicado num periódico, por episódios. No ano seguinte, em nome próprio Georges Simenon, é editado em livro. Surge pela primeira vez a imponente figura, quase monolítica, friorenta e comilona, do Comissásio Maigret. Assim se inicia a imensa biblioteca onde Simenon estrutura o seu “alfabeto maigret”, a sua capacidade de definir personagens e lugares, misturando o suspense na narração, o humor na descrição e essa tão particular mestria de definir as personagens pelos gestos, os quartos pelos odores, as atmosferas pelos sentimentos que lhes são impostos. Maigret é gigantesco e imperturbável, contudo o seu coração desfaz-se quando entra no quarto do Magestic e procura o seu camarada Torrence.

Nada neste primeiro “Maigret” está definido, porém tem tudo o que ditará a estrutura analítica, para não dizer psicanalítica, do Comissário. Tudo é condensado num humor, para não falar em sarcasmo, muito peculiar. Ferido e cansado por uma investigação que dura há horas consecutivas, dias mesmo, sem o deixar descansar, quase no final, Maigret deve dirigir-se ao porto e percorrer por baixo de uma ponte entre as estacas inundadas pela maré:

«Por fim suspendeu-se nos arcobotantes das estacas. Executou um desses movimentos em que é preferível não se ser visto. Fazem-se gestos para os quais se não está preparado. Falha-se a todo o instante, como mau acrobata, mas avança-se, por assim dizer, pela força da vontade. Cai-se e levanta-se. Patinha-se sem prestígio, sem beleza.»

Dali a pouco, polícia e meliante vão encontrar-se, frente a frente, num quarto de hotel de província, vestindo os dois mal medidos roupões tomados de empréstimo.

Depois, como a concluir esse lado interior de narrador que não se permite julgar, de comentador que não se exprime mas tudo observa, de explorador infinito do espaço social:

«Seria talvez exagerado pretender que, em muitos inquéritos, nascem relações cordiais entre a polícia e aqueles que, por dever, terá de entregar à justiça.

Quase sempre, a não ser que se trate de um antagonismo especial, estabelece-se uma espécie de intimidade. Isso deve-se, sem dúvida, a que, durante semanas, por vezes durante meses, polícia e malfeitor não pensam senão um no outro.

O inquiridor encarniça-se em penetrar cada vez mais na vida passada do culpado, tenta reconstruir os seus pensamentos, prever-lhe os mínimos reflexos.

Ambos arriscam a pele nesta partida. E, quando se encontram, é em circunstâncias suficientemente dramáticas para fazer fundir a indiferença polida que, na vida quotidiana, preside às relações entre os homens.»

Temendo a repetição, diria que este livro é como fundador da geografia etimológica e emocional de Georges Simenon, onde se inclui igualmente a minuciosa etimologia da cidade de Paris, senão mesmo a definição quase burlesca da circulação humana no Grande Hotel Magestic.

Georges Simenon é um enormíssimo escritor e este livro uma grande obra literária.


jef, agosto 2026

domingo, 30 de agosto de 2026

Sobre o livro «Salvo o Meu Coração, Tudo Está Bem» de Héctor Abad Faciolince, Alfaguara, 2024. Tradução de Margarida Amado Acosta.



 







Héctor Abad Faciolince é um verdadeiro cronista, alguém que nos devolve a realidade sob a chama da maior percepção emocional, demonstrando que a literatura ficcionada é uma das principais armas que garante a aceitação da verdade pela razão do leitor. Mas, principalmente, pelo coração do leitor crítico. Pois, é exacto, «Salvo o Meu Coração, Tudo Está Bem» é sobre o coração maior de um padre devoto, Luis Córdoba, 50 anos, gigante em estatura, a viver em Medellín, amante e divulgador reconhecido das artes da música clássica e do cinema, amante também da boa mesa. Porém, um coração periclitante pela própria hipertrofia. Vivendo primeiro na própria casa, na esquina da Villa com a San Juan, em celibato conjugal com o padre Aurelio Sánchez (o narrador), mais tarde, saído da clínica, na casa verde e amarela de Teresa e de Darlis, sem escadas aliás, no bairro Laureles.

Não fiz spoiler nenhum, pois tudo isto está escrito nas primeiras duas páginas do romance-crónica, que se lê sem parar, por capítulos de A a Z (incluindo o Ñ), com direito a Abertura e Coda como uma peça antiga de música barroca. A ordem anacrónica faz-se a favor de uma leitura ágil e emotiva, interceptando as histórias dos dois amigos inseparáveis e também a de Joaquín Restrepo que, afinal, juntará as pontas dos apontamentos memoráveis que Aurelio Sánchez (ou Lelo) foi redigindo e colecionando episódios comuns ou não com o Gordo, ou seja, Luis Córdoba. Joaquín apresentará no final o presente livro que, confessa, gostaria de ter sido ele a escrever.

Um livro importante sobre a vida, a doença, a morte e o luto. Também sobre a dualidade da sublimação do espírito sobre a vocação biológica de um corpo que deseja e precisa de ser fisicamente consumado. Também sobre os abjectos meandros da hierarquia da igreja católica. Também sobre a esperança e a fé, como se um ateu explicasse a fé em Deus a um crente ou um devoto exprimisse a inexplicável vocação em confiar o amor a um ser impalpável e irresolúvel.

Um livro que ensina a ser-se efectivamente alegre, ou feliz, apesar da continua infelicidade que sempre vela, ou ameaça, a existência mais pacífica, e que me deixou lavado em lágrima quando o terminei de ler.

Eu, ateu convicto, confesso, vou sentir falta da bondade, jovialidade, honestidade e clarividência dos padres Aurelio Sánchez e Luis Córdoba, e da Teresa, da Darlis, do Joaquín e de todos os outros.

Nota: o autor nas linhas finais confessa que o leitor deve suspeitar de que o livro se baseia livremente na vida de Luis Alberto Álvarez, “um sacerdote extraordinário, um bom padre do qual fui amigo.”


jef, agosto 2026

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Sobre o livro «Morrer na Primavera» de Ralf Rothmann, Sextante, 2019. Tradução de Gabriela Fragoso.


 









«Quando a cultivares, não voltará a dar-te os seus frutos. Serás vagabundo e fugitivo sobre a Terra.». Frase vincada com a unha sobre a página de uma antiga Bíblia, encadernação a couro, letras góticas, rebordo dourado, recheada de folhas secas de Outono e notas de marcos da inflação de 1923, mais tarde, talões do Supermercado Schätzlein.

A enigmática frase do Génesis (4:12) surge como a mais violenta epígrafe e a  grave conclusão do livro. Um arco de tempo sobre uma Alemanha que teve de superar a derrota de uma geração de, quase crianças, foi forçada a seguir para a frente húngara na Primavera de 1945, já americanos e russos avançavam e cercavam por todos os lados, por todos os meios. Walter e Friedrich-Fiete, amigos inseparáveis, ordenhadores competentes na vacaria propriedade da casa de Thamling. Dezassete anos, despojados da vida, de tudo viram, tudo sofreram sob a desesperada derrota breve dos nazis.

Um livro contado por fragmentos sincopados, fragmentos narrativos suportados por descrições tão visuais como paradigmáticas de uma exegese comprometida com a paz.

Um livro difícil mas que nos transmite a ternura infinita pelo sofrimento dos inocentes, nasçam eles onde nascerem. A vã procura de uma sepultura ou a necessidade urgente de um esquecimento impossível.

É fundamental conhecermos todas as belas ou terríveis histórias do mundo, venham elas de onde vierem.


jef, agosto 2026

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Sobre o livro «Mendigos e Altivos» de Albert Cossery, Antígona, 2025 (1955). Tradução de Júlio Henriques.



 







Eis um livro que nos coloca de modo revolucionário perante o desconchavo que a sociedade contemporânea nos revela. Albert Cossery num extraordinário romance policial obriga-nos a olhar de frente para a estrutura social e económica em que vivemos. Albert Cossery ri-se dela, porventura afirmando: “aos costumes disse nada” como, em tempos idos, terminavam alguns documentos escritos de índole castrense.

Aqui, tudo é colocado em causa perante a suprema busca da felicidade e da alegria, pois esse objectivo passa pela destruição dos cânones socio-políticos com que essa sociedade opressiva mantém cativos e infelizes os seres viventes que a alimenta. E a procura da felicidade (e a sua assunção) passa neste romance pelo literal, absoluto e radical despojamento e ascetismo. Sem nada de nosso, essa sociedade e os algozes que nela se protegem, nada poderão fazer contra nós, pois nada nos pode tirar porque nada temos. A partir daí podemos gozar a própria alegria, a absoluta liberdade e afirmar, então:  "aos costumes disse nada”. Pratique-se, finalmente, a mendicidade, sim mas de modo orgulhoso e aristocrático e o almoço será oferecido alegremente gratuito.

De um modo intenso, literariamente perfeito e através de uma intriga narrativa filosoficamente ininterrupta, Gohar, o ex-professor universitário de Literatura e Filosofia, contabilista do prostíbulo de Set Amina e mendigo por convicção; El Kordi, funcionário indolente do Ministério das Obras Públicas, revolucionário por teoria; e Ieguene, poeta, vendedor de haxixe e presidiário reincidente, irão desvendar uma nova perspectiva justa, livre e igualitária da sociedade a Nur El Dine, o chefe da polícia no Cairo.

«Mendigos e Altivos» é um tesouro libertário, o romance refractário por excelência, como diria o malogrado Luís Oliveira, ideólogo prático da editora Antígona.

Esta edição tem prefácio de Roger Grenier (2013), um glossário de termos árabes egípcios, um conjunto de fotografias do autor, alguns textos evocativos e as páginas iniciais de «Uma Época de Filhos de Cães», romance inacabado de Albert Cossery.

Livro fundamental para acabar com o neo-liberalismo desenfreado (mas também com o velho marxismo-leninismo!)


jef, agosto 2026

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Sobre o livro «Pastoralia» de George Saunders, Antígona, 2017. Tradução de Rogério Casanova



 







Rogério Casanova, o tradutor, no prefácio, evoca a popularidade do substantivo próprio adjectivante “Kafka” para enquadrar estas histórias sobre uma América que desconhece o destino ou o sonho que à boca cheia propala desde que se conhece. Contudo, Kafka tem um sentido oniricamente psicanalítico, esteticamente surrealista, quase romântico, para narrar as complexas situações em que os personagens se vêem enleados. A começar por Gregor Samsa.

Em «Pastoralia» de George Saunders não existe nada desse romantismo psicanalítico, desse diletante modo de cada um estar por si, dentro de si, mas à margem da sociedade. As histórias de Saunders usa o humor desabrido para colocar o leitor como juiz e credor de gente cujo sonho americano os levou até a um barraco num subúrbio dos subúrbios e ainda os manda ser felizes e sorrir, pois a coisa ainda pode vir a piorar… Se algum dia, bastante improvável, Trump ainda vier a ser eleito para presidente dos grandes Estados Unidos da América!

A começar pela novela que abre o livro “Pastoralia” onde escravos da sociedade do bem-estar se vêem empregados e vigiados num parque de diversão sobre os diversos estágios evolutivos da humanidade. A terminar com “Cataratas” com Morse de regresso a casa pela margem do Taganac, rio que se dirige para umas certas cataratas. Ele teme pelo futuro do filho Robert, teme também por desconhecer se Aldo Cummings, vizinho estranho ainda a viver com a mãe, poderá não gostar dele. Então, o que fazer quando uma canoa com duas miúdas pequenas se apresenta prestes a afundar?

Os contos não desdenham esse lado quase burlesco de uma certa literatura americana que se ri dela própria para não chorar por todos, e são muitos milhões, de americanos que, apesar de se poderem chamar Elon Musk, nunca conseguiram juntar um chavo e amargam no interior de um país que os toma por bastardos.

Contudo, George Saunders eleva essa literatura a uma narrativa de discurso directo sintomático, com descrições quase sem adjectivos, em diálogo cinematográfico, peremptória mas discreta, buscando imagens e situações de uma fantasia inusitada que oferece ao leitor a justa perplexidade para que ele possa completar um cenário, por vezes apenas delineado.

Afinal, Saunders reveste as personagens de uma ternura comovente, de um humor ácido e sarcástico, personagens que se aquietam perante um destino que lhes foi imposto e do qual não têm modo de fugir. 

John Steinbeck chamar-lhes-ia “ratos e homens”.


jef, julho 2026

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Sobre o livro «O Caso do Gato do Porteiro» de Erle Stanley Gardner, Livros do Brasil, Colecção Vampiro n.º 40. Tradução de Carlos Vidal de Oliveira. Revista e adaptada para Portugal por Baptista de Carvalho. Capa de Cândido Costa Pinto, 1950 (1935).



 







Quinze anos após a publicação original, a editora Livros do Brasil achou que o romance devia ser “adaptado para Portugal”. Curioso, porventura também pelo termo “filhoses”, ligado à actividade comercial de uma das personagens principais, Winifred Laxter, por quem desde logo Perry Mason se sente atraído, confiando-lhe o instinto detectivesco.

Se o inveterado solteirão se sente atraído por Winifred? Talvez, contudo ele não hesita em aceitar o caso proposto pelo porteiro (ou governante da casa Laxter), Charles Ashton, cujo seu gato de estimação, o “Escória”, vê a vida ameaçada pelos herdeiros de Peter (ou Pedro) Laxter. Perry Mason é contratado para defender um gato e aceita dez dólares de remuneração. Isto não estraga a intriga pois está dito logo nas duas primeiras páginas. Tudo o resto é uma diabólica trama, entre feridos, mortos e corpos reclamados e exumados, com uma perseguição desvairada de carros a eléctricos e uma suposta lua de mel (interrompida, hélas!) entre Perry Mason e a peça central definitiva do romance – a esplendorosa Della Street, secretária, motorista, jurista, mãe, irmã, confidente, coadjuvante, quase amante, quase noiva, cujo batom deixa marcas nos lábios do patrão. (Atenção às declarações que Della faz sob juramento em tribunal sobre a identificação de um gato. Um portento.)

Um romance em que Perry Mason esclarece desde logo o leitor em quem deve confiar, porque ele confia, e em quem desconfia, não se deixando enganar, apesar de muitas vezes apenas intuir a sequência de certos factos por desconhecimento próprio, deixando juízes, procuradores e investigadores da polícia de cara à banda na barra do tribunal.

Sem dúvida, um óptimo livro de férias!


jef, julho 2026

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Sobre o livro «A Neve Estava Suja» de Georges Simenon, Cavalo de Ferro, 2025 (1948). Tradução de Diogo Paiva.



 







Talvez seja um dos romances que marcam, ou sublinham o século XX, talvez justifiquem, agora, este século XXI. Um dos romances do existencialismo modernista, aquela ideia da liberdade mais pura, mais severa, mais atroz. Celine, Sartre ou Jean Genet aplaudiriam ou aplaudiram. Não poderá falar-se propriamente de Hans Castorp, esse jovem doente, perdido pelo pulmão de Davos, entre a dialéctica de Settembrini e de Naphta. Como neste último, a guerra não se aproxima, ela já está lá. Em «A Neve Estava Suja», não há salões aquecidos e chá servido, a ocupação estrangeira não aplaca o frio, a fome, a pobreza, opressão a morte e a vigilância de cada esquina, apenas acelera a miséria e o sofrimento. Porém, Frank Friedmaier está de pedra e cal e não se digna ceder, vergar, contestar ou colaborar. Nada mais lhe interessa do que resistir até ao fim, como ele próprio é, ou julga ser, como princípio, como meio, sem olhar à página última.

(Num outro sentido e talvez como escreveria Enrique Vila-Matas, Frank pertenceria a «Bartleby & Companhia» (2000).)

Talvez eu pudesse recordar as personagens de Albert Cossery, mas essas estão sobranceiras, talvez mesmo imponentes. Frank Friedmaier tem outro modo de circular, talvez outro passado, seguramente movimentos diversos. Poderemos lembrar-nos, então, de Meursault de «O Estrangeiro» de Camus (1949) ou de Rodion Raskólnikov do «Crime e Castigo» de Dostoiévski (1867). Contudo, fica-nos essa teia única que Simenon sabe urdir, página a página, diálogo a diálogo, corredor por corredor, janela frente a cada janela, deixando por último a ânsia pelo epílogo, nesse fraseado cromático que esconde a intriga e lança a cada linha o novo isco para que o leitor jamais possa descobrir o que a derradeira linha trará.

«A Neve Estava Suja» é um romance moderníssimo, diria fundamental, que ensina a ler, que obriga a parar para observar cada parede ou rua escondidas de uma sociedade que será sempre funesta frente ao pragmatismo individualista, frente ao crer existencialista onde a escolha do indivíduo será sempre apenas a sombra de uma personalidade interrompida.

Georges Simenon é genial, sem temer estar a extrapolar o adjectivo!


jef, julho 2026

 

sábado, 25 de julho de 2026

Sobre o livro «Noite no Caminho de Ferro da Via Láctea» de Kenji Miyazawa, E-Primatur, 2026. Tradução e notas de António Barrento.



 







Um livro especial. Não apenas por incluir duas fábulas únicas e intrigantes do escritor e humanista Kenji Miyazawa (1896-1933) sobre como viver a espiritualidade activa entre a comunhão com os demais viventes humanos, a tecnologia em prol da melhoria de vida dos que mais necessitam e a conservação da natureza. «Noite no Caminho de Ferro da Via Láctea» e «A Biografia de Gusuko Budori» são, acima de tudo, excepcionais actos poéticos sobre a sobrevivência, a devoção literária e a abnegação à causa social.

Esqueçam as comparações aleatórias com «O Principezinho» de Antoine de Saint-Exupéry. São mundos paralelos, mas que dificilmente se tocam. São poesias diversas, a de Saint-Exupéry, um abstraccionismo intelectualmente adulto e disseminado; o mundo de Miyazawa é concreto, tecnológico, astronómico, paleontológico, agronómico e silvícola lembrando-me ainda trechos das aventuras de Stevenson, de Júlio Verne, dos Irmãos Grimm ou Selma Lagerlöf. Só que é tudo diferente! Intelectualmente puro, emocionalmente profundo e toldado pela ventura da dádiva e pelo altruísmo definitivo sem moeda de troca. Apenas entrega seguindo o despojamento budista de que Miyazawa era seguidor ou perseguindo o mundo dos Kami, essa xintoísta profusão de seres mitológicos que nos rodeiam e acompanham.

A par da leitura dos dois textos traduzidos directamente por António Barrento, somos auxiliados pelas circunstanciais notas pé-de-página, a introdução “Sobre o Autor” e o posfácio “Notas finais”, onde o tradutor enquadra temporalmente e politicamente a publicação das novelas. Para além da extensa bibliografia e um glossário onde pontuam, identificando-as, as muitas plantas mencionadas ao longo das narrativas, ou não tivesse Miyazawa estudado Agronomia.

Um livro que também é muito prático, emocionante e emocional que resulta de uma proposta editorial directa de António Barrento (e Hugo Xavier) para financiamento colectivo, através do qual os leitores podem ir construindo a própria editora E-Primatur.

Um livro rigorosíssimo a ser acarinhado e ‘estudado’ por todos os leitores (e editores).


jef, julho 2026

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Sobre o livro «A Flor e o Peixe» de Afonso Cruz, Companhia das Letras, 2022


 









Esta novela gráfica de Afonso Cruz é um acto poético escrito a partir de duas histórias de José Saramago para ser interpretado num espectáculo de teatro e dança (Play False) de Catarina Câmara. Os desenhos constantes de Afonso Cruz, a preto, vermelho e branco, abrem uma perspectiva fundamental para que se entenda como funciona o livro para o leitor – uma espécie de permanente fuga e retiro filosóficos em cada um dos capítulos constituídos por frases curtas numeradas como se se tratasse de versos antigos e orientais de uma estrofe a ser cantada ou linhas quíntuplas de uma pauta musical.

Um diálogo entre a aranha, que prende a mosca na sua teia feita de nós mas deixa escapar o céu, e a serpente, que defende a visão do rio que nada retém na sua corrente. Existe um rio Yangzi, com um único peixe que fugiu com o anzol lançado por uma cana partida e deixa, na margem, o menino pescador desolado. Existe uma montanha Lu onde a flor sequiosa é ajudada gota a gota pelo menino pescador, tornando-se a maior flor do mundo. Há uma menina dançarina que salva o peixe do anzol e colhe flores, encanta-se com a maior flor do mundo no topo da montanha, porém nunca se encontra com o menino. Sobem ou descem a montanha por caminhos sempre diversos. Afinal, o peixe mais desejado e a flor da montanha são as maiores dádivas – assuntos da generosidade, coisa que libertam mas, no final, acaba por prender.

Afonso Cruz escreve poesia como desenha, as linhas que unem o céu, o horizonte, o rio e as encostas da montanha são como cones de revolução ou pontos de fuga ou planos que se interceptam criando linhas imaginárias.

Afonso Cruz cria com a sua escrita gráfica a mais bela e poética geometria descritiva dos universos paralelos.


jef, junho 2026

terça-feira, 30 de junho de 2026

Sobre o livro «Nevoeiro – Uma Investigação» de Pedro Eiras, Assírio & Alvim, 2026

 



 







Sem dúvida, este romance é uma investigação que o autor cede ao leitor. Um curto período de tempo, de Outubro de 1933 a Novembro de 1935. Três personagens (mais uma) percorrem um dos lados mais sombrios de Portugal: Salazar, o Presidente do Conselho; António Ferro, o Director do Secretariado da Propaganda Nacional; e Fernando Pessoa, o do Orpheu e da Mensagem, (mais um autor, professor, investigador que tenta não se angustiar, não naufragar no mar amplo de informações, documentos, artigos, fotografias, cartas e letras minúsculas quase ilegíveis. Esse autor que nos comoveu com os múltiplos reflexos emocionais (audíveis) do compositor maior, com o livro «Bach» (Assírio & Alvim, 2014), publica agora um nevoeiro sem sombras sobre o Portugal cinzento do Estado Novo que nunca soube lidar com as diversas personagens de Fernando Pessoa. Um Portugal que acumulou História e tragédia, repressão, censura e morte ao longo dos séculos mas que tentou dar um prémio a um poeta tão imaginado como imaginário, tão solitário quanto boémio, tão reverente quanto iconoclasta, um poeta incompreendido que era a essência da sua própria poesia.

Se «Bach» já ensinava a ler e, no meu caso que tenho a pretensão da escrita, a escrever, ler «Nevoeiro – Uma Investigação» ensina a ler um País e uma época, e todas as que lhe antecederam, através de uma aparente simplicidade que é, afinal, tão fácil de ler. Aparentemente, pois o autor, professor, investigador suou as estopinhas, digamos, sofreu as estopinhas para nos dar tal simplicidade. Quase um livro policial (daqueles “duros” como os de Georges Simenon) a ser lido avidamente, mas sem pressa. Na essência, também um livro político porque vai impor a minha consciência sobre a ignorância de factos trágicos, sem dúvida factos reais, que foram sendo dourados a bem de uma Pátria que louvava Deus e a Família sobre toda a ignomínia e tanto sacrifício.

Neste livro, Pedro Eiras usa a própria estratégia literária (e ele tem um modo literário de que é único proprietário) de nos dar o interior emotivo de cada um dos quatro personagens quando confrontados com o isolamento. Ou seja, dá-nos a ler uma belíssima prosa sobre a solidão: Salazar entra na igreja, quase se esconde e se comove. António Ferro é confrontado com Fernando Pessoa que escreve Liberdade e se aproxima da Maçonaria, quando o Estado Novo impõe a sua extinção, António Ferro aflige-se e sua da testa. Fernando António Nogueira Pessoa, um homem nu na casa de banho faz a barba frente ao espelho, apara o bigode, fuma também, então “decide que chegou o momento de atapetar a vida contra o mundo e contra si próprio”. O autor investigador professor sente-se quase traído pela dimensão hercúlea do trabalho a que se propôs, lê muito e precisa de dar a sua opinião sobre a História, ele confessa que a literatura histórica é sempre uma leitura contemporânea dos factos passados, a que ele, Pedro Eiras, tem direito, não enjeita, pelo contrário, deseja afirmar, não deixando de esclarecer na Nota Final todas as fontes consultadas, a bem da verdade da investigação. Essa é a grande liberdade, a maior responsabilidade e também vantagem de ler este romance, porque, repito, este livro é um romance que se divide entre a “Paz” adiada e a “Guerra” declarada.

Mas a par com o prazer consciente de leitura que «Nevoeiro – Uma Investigação» nos entrega, vem essa poesia, quase carinho descritivo, com que Pedro Eiras cobre as personagens, os espaços e a cidade, fazendo deste um romance obrigatório.


jef, junho 2026

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Sobre o livro «O Desfufador – Vol.1 Contágio» de Valério Romão, Tinta da China, 2025



 







Não se pode dizer que Valério Romão, aqui, seja um “agent provocateur”. Ele não pretenderá ser alguém infiltrado nas hostes contrárias para provocar a denúncia e prender o refractário. Também não estamos naquelas épocas violentas produto das terras gaulesas.

O que o autor consegue é um enorme romance novelesco, entre o picaresco e a crónica de costumes onde ninguém sai ileso. E estamos apenas no primeiro volume, onde a narrativa, para desespero do leitor, fica em suspenso ao longo dos derradeiros capítulos, sem título. Enfim, pobre leitor, nada a fazer, deve esperar pela continuação. Entre a Bica, o Cais do Sodré e a Rua de São Paulo, em Lisboa, todos se juntam num momento muito particular para a Humanidade.

Alex, de fraca figura e encantador de golfinhos; Hélder, franzino e dado à intelectualidade; e Alejandro, filho de Bárbara, nascido ao contrário numa família ao contrário, deseja ser faroleiro mas foge de barco.

Mais de meio século após o 25 de Abril e da queda da censura, o mundo contemporâneo da híper-política ou da híper-ventilação opinatva, via tiquetoques, tornou o humor e a crítica acorrentados novamente a novas correntes estruturantes da híper-moral. Pode dizer-se que agora é preciso pensar-se duas vezes antes de dizer uma anedota qualquer, em público ou em privado.

Ora, Valério Romão, afinal agente provocador da moral vigente, arrasa com tudo. Não deixa ninguém de fora do sistema e coloca-os a todos dentro do sistema do absurdo numa narrativa que vais acelerando para o fim e, que, até lá, disserta sobre quantos assuntos aprouver – a etnia, a escolha política, a sexualidade, os usos, os costumes, a barbárie e a fala do povo, não sem, aqui e ali, se perder a semântica narrativa nalguma urgência de composição das frases. (Talvez, também, a urgência na publicação tenha deixado as gralhas de revisão a provocar a interrupção da leitura).

Contudo, «O Desfufador Vol.1 Contágio» tem aquela vocação da sátiraa crítica sem olhar ao sujeito visado que faculta a liberdade da escrita e desperta a consciência activa no leitor.

Uma escrita que me sugeriu uma série de livros que muito deram que falar e de ler a muitos: «Crónica dos Bons Malandros» de Mário Zambujal (1980), «O Que Diz Molero» de Dinis Machado (1977), «Coca-Cola Killer» de António Victorino D'Almeida (1981) ou «Cá Vai Lisboa» de Alface (2004).

Nem provocador, nem refractário, este volume 1 de «O Desfufador» é um belo presente ao direito independente de pensar a escrita e a leitura.

Aguardemos o próximo episódio.

 

jef, junho 2026

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Sobre o livro «À Beira Rio – Flor do Tejo / 75 Anos» de João Vieira e Paulo Andrade, Viva a Preguiça, 2025



 
































«À Beira Rio» levou 75 anos a ser escrito, ou arquitectado, ou fotografado, ou paginado, ou editado. Os autores, João Vieira e Paulo Andrade, preferem assim dar tempo ao tempo, dar tempo ao Tejo e ficar por ali a dar-nos conversa. O tempo ali não se compara, é lento.

«À Beira Rio» tem no centro ou na margem Vila Franca de Xira e o Tejo.

«À Beira Rio» tem 25 x 18 centímetros, 136 páginas, 6 capítulos, folha branca nada menos do que 100 gramas. Encadernação ao estilo oriental. Tudo feito com recurso à inteligência natural, cada página é construída como um diverso desenho original.

«À Beira Rio», desde a capa, às guardas, aos separadores, tem um motivo, dito “leitmotiv” pelos bárbaros germânicos. Circunferências que se cruzam como aquelas coloridas que aparecem, em número de cinco, de quatro em quatro anos, nos olímpicos jogos. Só que neste caso são em filete negro e o padrão é infinito. É muito interessante, digamos emocionalmente estratégico, essa escolha, já que resulta da cópia da guarda que protege a montra da Flor do Tejo, atafulhada de motivos e bonequinhos náuticos. Uma montra que, quando o Bar-Taberna se apresenta aberto, ninguém repara mas que todos olham com saudade, talvez algum rancor, quando passam, durante a semana, frente ao pequeno centro cultural com povo, patos, arte, livros, moscatel e caracóis, e constatam a desfaçatez de as suas portas e esplanada se manterem orgulhosamente trancadas. Exactamente, como a pedra da calçada que só lhe sentimos a importância quando falta.

Sim, este livro conta a história política de labor, resistência, literatura, patuscada e convívio que se foi transformando em Portugal e na beira Tejo durante 75 anos, recordando 25 anos em ditadura e 50+2 em democracia. Eu também por lá estou com sentido e alegria: num texto, numa fotografia e na memória grata que foi por ali perto que comecei a alinhavar o meu último livro.

E quanto é bom sentirmos a inspiração, uma certa alegre profissão, digamos Amor, que se estabelece quando nos aproximamos do intenso ritmo familiar que passa pela Flor do Tejo. Uma alegria afectuosa que devemos, acima de tudo e de todos, ao esforço e energia do João Vieira e do Paulo Andrade.

Assim continuem eles, assim continuo eu, assim continuaremos nós a visitá-los!


jef, junho 2026

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Sobre o livro «Plantas da Bíblia, nos jardins de Belém - Lisboa», Afrontamento 2023. Edição de Maria Cristina Duarte, César Augusto Garcia, Arnaldo do Espírito Santo, Ana Luísa Soares.


 















«Mais do que um livro, é uma biblioteca: pode ser lida como cancioneiro, livro de viagens, memórias de corte, antologia de preces, cântico de amor, panfleto político, oráculo profético, correspondência epistolar, livro de imagens, texto messiânico. E colada a esta palavra humana… a revelação de Deus.»

Assim, escreveu José Tolentino de Mendonça em «A Leitura Infinita, Bíblia e Interpretação» (Assírio & Alvim, 2008). Na realidade, a Bíblia não tem um fim, pois não está estabelecido, para este livro, um modo de usar. Usemo-lo agora, pois, como compêndio botânico.

«A visita do Papa Francisco a Portugal, no âmbito da Jornada Mundial da Juventude 2023 (JMJ2023), e o cerne do pensamento do Seu pontificado – A fraternidade entre os povos e o pedido ecológico para que cuidemos da nossa casa comum – foram o motivo para este livro.»

Justifica assim José Sá Fernandes, no início, este livro.

Composto essencialmente por três capítulos fortes: (1) a geografia dos jardins em torno de Belém – Lisboa; (2) a simbologia histórica das plantas na diversidade de povos, culturas e crenças e (3) o conjunto de fichas sobre as diversas plantas bíblicas. Contém ainda um mapa de localização, para além dos necessários anexos finais com as “espécies referidas por jardim” e os índices de nomes comuns e latinos.

No final, dando ao símbolo uma semiologia ecuménica diz-se:

«As árvores são, em si mesmo, símbolos de vida, encerrando força e vigor, perenidade e regeneração, a ligação, para muitas crenças e religiões, entre o espírito e o material. (…) Assim, no âmbito da JMJ2023, pretendeu-se homenagear a árvore, e tudo o que representa, com a plantação no Jardim Botânico Tropical de diversas árvores-símbolo: a oliveira (Olea europaea), para o cristianismo e judaísmo, a tamareira (Phoenix dactylifera), para o islamismo, o pessegueiro (Prunus persica), para o taoismo, e a figueira-dos-pagodes (Ficus religiosa) e a figueira-de-bengala (Ficus benghalensis) para o budismo e o hinduísmo.»

Deste modo, confirma-se como, acima de tudo, o homem é o ser dos símbolos e sinais – a casa comum, a árvore da vida, os jardins do Paraíso e o Livro.

                    

jef, maio 2026

*botânica