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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Sobre a peça «Imitação dos Pássaros» de Tiago Torres da Silva, Teatro Variedades, 2026



 

































Uma muito sincera e emocional homenagem a Anton Tchekhov, à «Gaivota», à anti-heroína Nina, mas também ao saudoso e emotivo Teatro da Graça e a algumas das apresentações desse clássico feitas em Portugal. Contudo, o amplo universo familiar, tenso e terno, do dramaturgo, aqui fica dissecado a bisturi, despido, escalpelizado. A família aparece como em gomos separados.

As gerações cruzam-se e apartam-se pela incompreensão e pelo silêncio, reencontram-se na memória, no remorso, no amor desperdiçado e revivido.

No palco, em três ou quatro cenas (ou planos, onde a projecção vídeo narra o que imaginamos e não assistimos) vão sendo tecidos os ressaltos e as fracturas, mas também a renovação que as mudanças políticas e sociais emitem sobre o correr do tempo dessas três gerações. Também o medo, a exigência, o sacrifício, a acusação e, no final, o perdão. E o amor inexoravelmente perdido.

O teatro como acto eternamente contemporâneo, talvez o primordial meio da consciencialização dos ditames e impulsos da humanidade. Certamente, a sua salvação.

Lídia Franco, belamente, é o cerne em torno do qual circula tal salvação, essa renovação, essa consciencialização. Uma peça de teatro para ela. Apenas me pareceu que tudo corria depressa demais, fazendo-me saltar emocionalmente entre estados sem apreender a tempo a génese de cada uma das acções. Mas talvez, por outro lado, seja essa a própria vantagem de «Imitação dos Pássaros».


jef, 22 de Outubro de 2026

«Imitação dos Pássaros» de Tiago Torres da Silva. Com Baltasar Marçal (Filipe), Lídia Franco (Avó/Mãe), Tiago Fernandes (Alberto). Encenação: Tiago Torres da Silva. Assistência de encenação: Baltasar Marçal. Cenário e figurinos: Hugo F. Matos. Vídeo e desenho de luz: Aurélio Vasques. Dramaturgia: Maria Helena Melim. Produção: Teatro Variedades Lisboa Cultura. Fotografias: José Quintela. 80 minutos.


 

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Sobre a peça «O Casamento de Fígaro» de Pierre Caron Beaumarchais. Teatro do Bairro, 2026.



 






















Lembrando Maio de 1999, «O Casamento de Fígaro» na belíssima tradução de Luis Miguel Cintra no Teatro da Cornucópia. 

O mesmo texto agora pela encenação de António Pires, a provocação social, política e revolucionária de 1784, quando foi estreada, a guerra dos sexos e o conflito entre classes, a aristocracia que nasce para que nada lhe falta sem esforço e os pajens e as aias que têm de usar o mérito, o engenho e a arte para trabalhar e atingir os seus fins.

Assuntos que continuam na ordem do dia. Os clássicos, felizmente (ou infelizmente) permanecem como pontos de honra apontando o dedo à sistemática e eterna iniquidade humana. A luta de classes e o poderio masculino sobre a astúcia feminina.

Porém, esta “Louca e ininterrupta Jornada” é uma alta comédia, irónica e prazenteira, cheia de portas e esconderijos, troca de identidades, ardis bem urdidos, confiança quebrada, e depois reposta, numa espécie de comédia pueril onde os homens todos sem excepção são tidos por tolos, nada entendem, joguetes nas mãos das intrigas femininas. No entanto, Beaumarchis nada pretende mudar e tudo ilude com o mais luminoso e divertido happy end, em alegria e festa, após uma tortuosa “jornada" nocturna no jardim, por baixo dos castanheiros.

Envoltos num ambiente de cortinas e tule, semelhantes a suaves nuvens ou doce e branco merengue, as personagens ali se divertem. A fantástica Sofia Marques, no papel de Condessa Rosina, o eterno Fígaro nas mãos do sempre inesquecível Francisco Vistas, a sombria sempre noiva Marcelina, provocadora e defensora da causa feminina, tendo por dentro a actriz Alexandra Rosa, ou a bela e fresca Susana dando a mão à actriz Vera Moura.

O Teatro do Bairro é um dos primeiros responsáveis por manter em cena, actualmente, uma grande parte da dramaturgia clássica, peças imprescindíveis para entender a apressada volubilidade da sociedade contemporânea.


jef, 11 de outubro de 2026

 

Texto: Pierre Caron Beaumarchais. Tradução: Luis Miguel Cintra. Encenação: António Pires. Com Alexandra Rosa (Marcelina), Carolina Campanela (Fininha, prima), Dinis Gomes (Conde Almaviva), Francisco Vistas (Fígaro), João Araújo (Meirinho), João Maria (Querubim), Mário Sousa (Médico, Advogado), Sofia Marques (Rosina, Condessa), Vera Moura (Susana). Cenografia: João Mendes Ribeiro. Cenografia: Alexandre Oliveira. Figurinos originais: Susana Moura e adaptação de outros figurinos de Luís Mesquita e Luísa Pacheco. Desenho de luz: Rui Seabra. Desenho de som: Paulo Abelho. Costureira: Rosário Balbi. Construção de cenário: Fábio Paulo. Operação de luz: António Serrão e João Madeira. Operação de som: Vasco Maciel. Ilustração: Joana Villaverde. Produtor: Alexandre Oliveira. Ar de Filmes / Teatro do Bairro. Duração: 130min


9 Outubro a 6 Novembro

Quarta a Sexta. 21h00

Sábado e Domingo. 17h00

 

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Sobre a peça «Macbeth» de William Shakespeare, Teatro Nacional D. Maria II, 2026



 





























A mais recente referência que tenho de «Macbeth» é a comédia idealizada por Manuel Jerónimo a partir de Shakespeare, levada à cena em 2024 na Boutique da Cultura – «Macbeth - A Peça Escocesa». Aquela peça que não se pode nomear por maldição, dessa vez passada nos bastidores de um restaurante “haute couture” onde a floresta avançava segundo os movimentos de uns vasos com plantas sintécticas do Ikea. Um delírio.

Como um certo delírio é, afinal, a peça escrita por Shakespeare. Macbeth, um mesmo muito competente José Raposo, é mandatado pela enérgica e autoritária Lady M., interpretada pela super-actriz Bárbara Branco, que enche o palco de perfídia e alma do marido de dúvidas, remorsos e fantasmas. Os dois montam o plano maquiavélico de assalto ao trono da Escócia.

Claro que a super-bruxa, vestida de D. Maria II (o maravilhoso João Grosso, que já aparecera como malogrado rei da Escócia, Duncan) e o cenário a aparentar a fachada do teatro nacional, outrora incendiado, e o fogo e o fumo e as trovoadas demoníacas (talvez um pouco intensas demais), para além da exuberância da tragédia pautadas pelas maldições-previsões das três divertidas bruxas (Ana Tang, Ana Coimbra e Stela), torna tudo um pouco avesso à tragédia e mais à comédia de costumes… Isto sou eu a dizer ou a sentir.

Mesmo a cabeça de Macbeth, finalmente atirada sem pudor nem estilo para o caldeirão, onde as bruxas tinham atirado previamente  as asas de morcego, as pernas de sapo ou as almas de gato, tudo indica um exagero que apenas é atenuado pela mestria de um texto genial e delirantemente sangrento, que oferece finalmente um diálogo fulcral, à boca de cena, com o apaniguado do futuro rei da Escócia Malcolm (Sandro Feliciano), dito por um fantástico Macduff (June João). O diálogo da moral final que representa a salvação da peça, talvez como William Shakespeare tenha idealizado no interior de tanta sanguinária maldade.

Uma peça felizmente maldita! Uma peça eterna, quer seja na cozinha de um restaurante gourmet amaldiçoado, quer no interior de um Teatro Nacional ameaçado sempre pelas chamas e pelas lotações esgotadas, em 2026!

Os clássicos são imprescindíveis! Não têm hora nem tempo!


jef, 3 de Outubro de 2026

«Macbeth». Texto: William Shakespeare. Encenação e tradução: Pedro Penin. Com Ana Coimbra (uma bruxa), Ana Tang (uma bruxa), Bárbara Branco (Lady Macbeth), Bernardo de Lacerda, Hugo Van Der Ding (Banquo), João Grosso (Duncan, rei da Escócia, bruxa-mor / D. Maria II), José Neves, José Raposo (Macbeth), June João (Macduff), Sandro Feliciano (Malcolm), Stela (uma bruxa, Lady Macduff), Vítor Silva Costa. Cenografia: Joana Sousa. Composição e desenho de som: Filipe Baptista. Luz: Daniel Worm d’Assmpção. Figurinos BÉHEN (Joana Duarte). Produção: Teatro Nacional D. Maria II. 150 minutos.

 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Sobre a peça «Pigmalião» de Gerson de Sousa Batista e Tiago Schwäbl, Teatro Variedades, 2026



 























Não. Este Pigmalião não será aquele, antigo, que, horrorizado com as mais dissolutas mulheres de Atenas, resolve esculpir um marfim a esposa mais perfeita, cobrindo a estátua de belas roupas e das melhores joias e por ela apaixonar-se. Pedindo inclusive a Afrodite que lhe enviasse uma mulher assim idealizada. Por fim, o marfim ganhou vida, ele desposou-a, tendo-lhe dado mesmo descendência.

Não. Também não estamos em 1913 quando foi representada a peça escrita por Bernard Shaw, ironizando a aposta feita por Henry Higgins que conseguiria transformar a vendedeira de flores londrina Eliza Doolittle numa distinta senhora de sociedade, My Fair Lady.

Não. Este Pigmalião (António Lourenço Menezes) vive num mundo sub-humano pois estes já terão desaparecido e alimenta-se de manequins, como todos os outros pigmaliões que se nutrem de metal, feltro, velcro e poliéster. É um mundo distópico, desértico e sem conclusão, onde a predação e a fuga, afinal se vão encontrar num esconderijo onde a técnica apodrece. Afinal, o Manequim (Sara Afonso) desmembrado deseja reconstruir-se e o Pigmalião prefere alimentar-se de manequins completos e oferece-se para completá-la já que é perito em sucata e yoga. Aqui reside o humor que perpassa toda a ópera. Pigmalião trata a manequim por “Amor, meu Amorzinho” mas pretende simplesmente saciar a sua fome. A manequim mascara-se de marionete apresentando-lhe uma falsa mão e um falso rosto. Contudo, Pigmalião não lhe fica atrás pois, nas suas altas andas, de sinistra roupagem de outra marionete se reveste. Nada é o que parece e o final oculta-se na morte improvável e na inversão de papéis, numa certa e delicada vingança.

A partitura acompanha directa e simples, a evolução dramática desta tragicomédia em que as belas vozes de contratenor de António Lourenço Menezes e de soprano de Sara Afonso, timbradas, modeladas, fazem com eficácia a transição entre as árias e os recitativos falados. Sempre secundados pelo coro que oferece a profundidade emocionalmente fantasmagórica de um mundo que entrou em ruptura com os valores humanos. Contudo, faz falta a presença visual das figuras dos cantores do coro pois a sua imagem faria outro contraponto com as imagens gravadas em vídeo e projectadas no pano de fundo.

Uma ópera contemporânea portuguesa, como é promovida, acompanhada pelo som sintetizado e, depois, pelo timbre orgânico do sexteto de câmara. Talvez com um algo excessivo movimento de plástico por uma ventoinha cuja subtracção abrupta do palco não seria necessário termos presenciado.

É de sublinhar, e nunca será demais repetir o facto, a vitalidade da arte dramática, na sua extraordinária diversidade, em Portugal e em especial em Lisboa.

Vamos pois ao teatro!


jef, 18 de setembro de 2026

«Pigmalião» de Gerson de Sousa Batista (Composição musical e som) e Tiago Schwäbl (Libreto original - Mane-Quim / Pig-Malião). Com António Lourenço Menezes (Pigmalião – contratenor) e Sara Afonso (Manequim – soprano). Músicos: Martim Ricardo (Flauta); Sara Rocha (Clarinete); Francisco Cipriano (Percussão); Francisco Costa (Violino); Camille Estêvão (Viola d’arco); Marta Nabeiro (Violoncelo). Coro (Grupo Vocal Arsis): Alexandra Almeida, Alexandrina Leal, Ana Jacobety, Ana Sacramento, António Morgado*, António Rocha*, Dina Oliveira*, Fernando Alves, Helena Pinto Janeiro*, Isabel Almeida, Joana Proença, Jorge Afonso Paulo, Manuel João Martins, Manuel Serpa Branco, Margarida Madeira*, Maria Clara Assunção, Maria da Luz França, Maria Luísa Lima, Maria Luísa Nogueira, Mário Jorge Ervilha, Miguel Monteiro*, Osvaldo de Sá, Paula Fonseca, Pedro Laginha, Rui Gonçalves, Sofia Isidoro*, Susana Carvalho*, Teresa Amaro, Teresa Huertas Parente, Teresa Travassos*, Vanda Freitas, José Manuel Sobral, Kina Yum, Leonor Proença (*membros Incognitus Ensemble). Encenação e conceção plástica: João Vieira Fino. Direção Musical e Maestro: Gonçalo Santos. Curadoria artística e direção coral: António Lourenço Menezes. Direção técnica e desenho de luz: Paulo Santos. Produção: João Figueiredo Dias / Plataforma Cultural. Figurinos: Natália Mil-Homens Pereira. Caracterização: Eliseu Ferreira. Fotografia de cartaz: Filipe Ferreira. Design gráfico: João Castro.  Vídeos: Bárbara Medinas. Cenografia Digital: João Vieira Fino dirigiu atelier comunitário na escola Play-Brincar para Crescer com a turma de alunos dos 4/5 anos. Encomenda Original: Festival Informal de Ópera. Duração: 65 minutos.

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Sobre a peça «As Preciosas Ridículas» de Molière, Teatro do Bairro, 2026



 




























O drama das comédias clássicas é que, infelizmente, não passam de moda por mais que os séculos lhes passem por cima. Ora quero dizer, a humanidade a viver das aparências, da ambição e da estupidez, será sempiterna, ou até que se auto-destrua por completo. O que Molière expressou com a sua primeira peça estruturada como comédia em prosa e em um acto é que a humanidade, para além de se afundar na estupidez cega, também se enterrará irremediavelmente no ridículo.

Por isso, “Les Precieuses Ridicules”, posta em cena pela primeira vez em Paris nos finais do ano de 1659, criou grande celeuma por colocar em cheque o provincianismo decadente de quem pretendia, por fingimento, ascender ao estatuto da aristocracia urbana, atingindo a peça grande êxito. Acima de tudo, assegurava ainda a representação através dos tempos, como demonstra agora a encenação de Beto Coville e da Companhia Teatro Livre.

Simplicidade e eficácia como exigem os grandes textos, já que é na subtileza dos enganos falados que lhe reside a alma. Du Croisy e La Grange sentem-se rebaixados pela fraca recepção na casa de Gorgibas e orquestram uma estratégia de vingança enviando dois dos seus lacaios-cocheiros, fazendo passar-se por Marquês de Mascarille e Visconde de Jodelet, um gabarola, o outro, néscio. Estes devem cortejar as ansiosas Madalena e Catarina, a filha e afilhada de Gorgibas. No entanto, estas rejeitam esses nomes de nascimento, pois consideram de origem plebeia ou rural, intitulando-se, mais refinadamente, de Aminte e Polixene. Tudo começa e termina num verdadeiro jogo de encenação e falsidade. Até que os primeiros agastados vêm desvendar o próprio engano que encenaram. Uma espécie de teatro dentro do teatro, onde quem impõe alguma lucidez é a amarga viúva, mãe e madrinha, Gorgibas, e a divertida aia Marotte.

Claro que as personagens surgem tão visceralmente ridículas que até os amplos vestidos da época aparecem desmascarados apenas sob a apresentação das simples armações metálicas interiores. Tudo está a nu. Quer isto dizer, até os falsos marquês e visconde estão tão despidos, no final, quanto a desmedida vocação para casar das falsas Aminte e Polixene.

Tudo a verdade deixa a nu (mas também em festa!), na necessária comicidade do exagero, no colorido dos fatos e adereços, na simbologia dos defeitos humanos. Eternos, sinceros e verdadeiros como só os bobos e os palhaços conseguiam fazer valer nas distintas cortes reais, demonstrando que, como sempre refere o escritor Rui Cardoso Martins, “o humor não aligeira, pelo contrário, aprofunda”.

Que grandes actores! Que bela tarde de teatro!


p.s. já agora, sobre a estupidez, veloz, ligeira e eterna, façam o favor de ler «Allegro ma non troppo seguido das leis fundamentais da estupidez humana» de Carlo M. Cipolla (1988).

 

jef, 20 de setembro de 2026

Texto: Molière. Adaptação e encenação: Beto Coville. Com António Camelier (Marquês de Mascarille), Beto Coville (Du Croisy), Dan Martin (Carregador e Violinista), Eurico Lopes (La Grange), Gabriela Ferreira (Angelique), Guilherme Inácio (Carregador e Violinista), Joana de Verona (Madalena / Aminte), Luísa Ortigoso (Marotte), Márcia Cardoso (Catarina / Polixene) Manuela Ferreira (Lucille), Maria D’Aires (Gorgibas, a mãe e madrinha / Almanzor) e Ricardo Barbosa (Visconde de Jodelet). Cenografia: Eurico Lopes. Figurinos: Mia Lourenço. Caracterização: Magali Santana. Desenho de luz: Rui Seabra. Desenho de som: Paulo Abelho. Costureira: Rosário Balbi. Construção de cenário: Fábio Paulo. Desenho de Luz e Sonoplastia: Pedro Santos. Atelier Comédia dell’Arte: Tobias Monteiro. Fotografias de cena: Manu. Cartaz: Luciano Luz. Produção: Companhia Teatro Livre. Promotor: Ar de Filmes. Duração: 70 minutos.

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

Sobre a peça «Variedades (…Como uma Ópera Bufa Erótica e Satírica)» de Fernando Heitor, Flávio Gil e João Paulo Soares. Teatro Variedades, 2026.

 





 





















Como resolver 100 anos do Teatro Variedades, do Parque Mayer, de Lisboa, de Portugal e da Europa? Evocar 100 anos de teatro, essa coisa estranha que termina definitivamente quando os actores se calam, quando o pano desce sobre a ribalta e os espectadores saem para a rua. Um Tempo tão diferente do do cinema, que fixa o acto dramático para sempre, agora então com o maravilhoso restauro das cópias digitais, sempre eternas. Mas no teatro não, tudo desaparece para ficar retido na memória da teia, dos bastidores, da plateia, do pó do palco. Apenas memória!

Como então, repito, refazer a memória perdida? Terá sido a grande questão colocada a Fernando Heitor, Flávio Gil e João Paulo Soares aquando da proposta para o empreendimento. No fundo, como representar a Nostalgia sem tocar no miserabilismo da saudade, principalmente agora que o Teatro Variedades (e o Parque Mayer) volta a encher casas diariamente para gáudio do novo-velho teatro? Afinal, como tocar na Nostalgia sem ser nostálgico?

 A resposta, ou o resultado final, parece ser o ovo de colombo: Recriar um teatro dentro do teatro, sem chamar os velhos actores ou o velho público, convocando, isso sim, as figuras que sempre cirandaram, por espírito, ofício ou ócio, aquele lugar: magalas, varinas, marujos, ardinas, cauteleiros, prostitutas, diletantes pobres ou ricos, saloios, imigrantes… Mas o mais curioso é que, por etário rigor cronológico, quem ali vemos no palco são as suas almas e os seus fantasmas que, esses sim, permanecerão sempre vivos mesmos quando actores e músicos regressam, cada noite, a casa.

Contudo, «Variedades» não será uma ópera bufa, nem erótica nem satírica, pois os autores da peça, no seu modo ternurento de trazer ao colo as personagens, aproximam-se, talvez sem crer, muito mais da revista à portuguesa tomando por “compères” duas decanas actizes para representarem duas personagens que passam o tempo em contraponto mútuo dramático tragicómico, dando a deixa para muitos dos quadros musicais: Catarina, ‘a costureinha de Caneças’ (Wanda Stuart) e a Zé, ‘a transmontana que trocou as saias pelas calças’ (Maria João Luís) – a primeira revivalista, com saudades do passado e sem perceber a ‘história’ do presente e a outra, poderosa, agregadora, protectora, biógrafa, aquela que entende a ‘história’ do futuro. As outras oito personagens-entidades que lhes são devotas sucessoras ou amigas inspiradoras vão dando corpo dramático e musical a uma longa lista de fados, marchas e até zarzuelas, memórias de peças e imagens de actores– João Villaret, José Viana, Raul Solnado... Serão essas personagens, cada uma a seu tempo, os próximos fantasmas guardiões do futuro do Variedades – O Tremidinho, ‘o tocador de gaita de beiços que veio do Minho, (Bernardo Souto), a Zé, e finalmente António, o miúdo ‘que foi amamentado por uma gata amarela’ (Flávio Gil).

Simples é o cenário que os actores vão deslocando entre cadeiras e mesas reinventado para cada uma das datas festivas, para cada momento histórico de 100 anos de repúblicas várias e diversas democracias.

Um facto é que me comovi por os ver partir e exultei por os saber ressuscitados. Fiquei também descansado com a explicação para a nossa questão maior, e dita por quem nos regressou: “por momentos perde-se um pouco a noção e a memória, mas depois volta tudo quase ao normal!”, Agradeço sinceramente esta perspetiva da ‘imortalidade’ e do teatro.

Viva o teatro!

As fotografias de cena são de meu amigo Fernando Santos, a quem agradeço.

(Nota: nunca fui frequentador do Parque Mayer, nunca lá vi uma Revista sequer, mas tenho a mais grata memória de ter ido ao Capitólio, em 1974 ver «A Ilha dos Escravos e A Herança» de Pierre Marivaux pela Cornucópia… da qual fiquei para sempre apaixonado. No Capitólio, subíamos por uma escada rolante que tremia assustadiça… 

Mas agora,  Ah, bom é o presente! O Variedades é o teatro que mais tenho frequentado!)


jef, 26 de Julho de 2026

«Variedades (…Como uma Ópera Bufa Erótica e Satírica)» de Fernando Heitor, Flávio Gil e João Paulo Soares. Com Bernardo Souto (Tremidinho), Bruno Madeira (Jacinto), Carlos Malvarez (Cigano), Cátia Garcia (Palmira), Flávio Gil (António), Maria João Luís (Zé), Miguel Raposo (Camarão), Sandra Rosado (Carmen), Teresa Zenaida (Marquinhas) e Wanda Stuart (Catarina). Músicos: João Paulo Soares (piano e direcção musical); Nuno Allan (baixo); Miguel Majer (bateria); Maria João Cunha (acordeão); Henrique Fialho (clarinete); Eurico Cardoso (viola de arco). Encenação: Fernando Heitor e Flávio Gil. Coreografia: Guilherme Leal. Figurinos: Rafaela Mapril. Telão: Tomaz Colaço. Desenho de luz: Paulo Graça. Desenho de som: Sérgio Milhano. Assistência de encenação

e pesquisa histórica: André Camilo. Produção: Teatro Variedades

Lisboa Cultura. Fotografias: Fernando Santos. 120 minutos.

 

Teatro Variedades

8 julho 2026 – 16 agosto 2026

quarta a sábado, 21h

domingo, 16h

 

terça-feira, 7 de julho de 2026

Sobre a peça «Caravana» de João Luís Barreto Guimarães, Teatro Aberto, 2026

 




 

























João Luís Barreto Guimarães é o poeta do possível, digamos melhor, o poeta do concreto, do tangível, dos contornos e das imagens, ou do que elas ensinam e nos transcendem, gravando-se em nós. Por isso, também dramaturgo, pois no palco a imagem é fundamental para transcender a realidade – Uma caravana razoavelmente equipada, mesinha, cadeiras de campismo, fogão, chaleira que assobia, gambiarra, quatro grades de cerveja. Aliás, um veículo muito bem equipado para estar estacionado em terreno baldio junto a um bosque, a poucos quilómetros da cidade de que se deseja fugir, a dois passos de um pub onde às sextas é possível encontrar companhia feminina. Quem lá vive, tem vários nomes – Estranho, Professor, por fim, talvez Tomás. Tais mulheres precisam conhecer-lhe o nome, questionam a noite, os insectos ou os animais selvagens, a fase lunar, o sentido do musgo, a alimentação saudável, a propriedade – Ana, Maria, Helena. Talvez.

Afinal, a caravana, talvez seja mais roulotte.

Afinal, em torno da Caravana, agora, tudo parece um pouco mais desarrumado, confuso. A luz permanece nocturna mas o contracampo iluminado das várias janelas fornecem a intimidade de uma certa claustrofobia. O encenador mantém assim o estatuto intimidante de uma personagem, talvez Tomás, e deixa o resto para o espectador intuir. Aliás, o encenador, João Pedro Vaz, tem pela frente um trabalho exigente, minucioso, claramente eficaz, terno mesmo, ao entregar aos actores uma marcação de cena filigrânica que inclui as inúmeras indicações e didascálias que o autor inscreve entre o discurso directo. (Leio o texto editado pela Húmus. Gosto de ler teatro.) Diga-se que a luz no espectáculo é fundamental, é de Manuel Abrantes.

É nesse jogo nocturno do recorte das janelas iluminadas, onde os actores (Joaquim Horta e Rita Calçada Bastos) e as suas personagens aparecem sincopadamente, como simulacros de vida ou cromos de uma caderneta sobre a solidão do luto, que se joga o fundamento emocional da intriga.

Por fim, em fase de Lua Cheia, num acesso voluntário de arrumação de cena, e à boca de cena, dois monólogos banais, sobre o difícil arranjo do carro na oficina ou a dificuldade de ler sem óculos progressivos, monólogos ditos em simultâneo, mas que por vezes se sincronizam em simultâneo, em cânon, em fuga (como na música de Bach), o pano cai e a luz aproxima-se salvadora. 

Talvez seja mesmo a busca de um nome próprio, a máscara necessária para resistir à solidão.


jef, 5 de julho de 2026

«Caravana» de João Luís Barreto Guimarães. com Joaquim Horta e Rita Calçada Bastos. Encenação João Pedro Vaz. Cenário e Figurinos: Sara Vieira Marques. Desenho de luz: Manuel Abrantes. Teatro Nacional São João. Teatro Aberto. Duração: 90 min.


20 junho a 26 julho 2026

quarta-feira e quinta-feira: 19.00 h; sexta-feira e sábado: 21h30; domingo: 16h. No Teatro Aberto, Lisboa.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Sobre a peça «Uma Ideia Genial» de Sébastien Castro. Teatro Maria Matos, 2026.



 
























Uma daquelas comédias de enganos, troca de identidades, muitas portas e alçapões (e uma varanda com a porta estranhamente sempre aberta), que muitos já usaram e que eternamente se repetirão. O dramaturgo francês, Sébastien Castro, escreveu-a em 2022 trazendo à memória outras tantas que fizeram a delícia dos espectadores durante séculos… Shakespeare, Marivaux ou Beaumarchais. Gémeos irmãos confundíveis, sedução e troca de casais, permuta entre classes sociais. Contudo, nesses tempos a troca de identidades entre nobres e criados colocada em teatro era uma questão política e, dizem, ter influenciado mesmo o curso da Revolução Francesa.

Em «Uma Ideia Genial», em 2026, a questão simplifica-se num contexto mundial absurdo e violento oferecendo ao espectador o absurdo da diversão pura e simples – uma questão de terapia emocional.

Ricardo Neves-Neves sempre tem mão lesta e espírito assertivo para dar ainda mais rapidez a uma dramaturgia à partida em passo de corrida, colocando o cenário ao seu serviço, deixando-lhe a parte central da narrativa dramática, quantas vezes acrobática e circense.

Outra parte fundamental é entregue a Ruben Madureira que representa praticamente em simultâneo o Tomás, o Diogo e o Júlio, obrigando o actor a uma extraordinária mudança de modo, carácter e figurino, contracenando com a figura do Alberto, representada por Cristóvão Campos, actor que quando entra em cena sempre lhe entrega uma aura de seriedade. Nada melhor do que o colocar frente a Ruben Madureira.

O lado feminino é entregue a Ana Guiomar, Mariana, a mulher que pretende enganar e é enganada, e à Catarina, que tem dentro uma transformada Sandra Faleiro, vizinha tola e um tudo nada anafada, de líbido exaltado, entrando permanentemente pela varanda sem pedir licença.

Uma comédia mais do absurdo do que de costumes provando a popularidade do teatro que tem esgotado as salas por toda a cidade de Lisboa.


jef, 7 de abril de 2026

«Uma Ideia Genial» de Sébastien Castro. Com Ana Guiomar (Mariana), Cristóvão Campos (Alberto), Ruben Madureira (Tomás, Diogo, Júlio) e Sandra Faleiro (Catarina). Encenação: Ricardo Neves-Neves. Tradução: Ana Sampaio. Cenário: Catarina Amaro. Figurinos: Rafaela Mapril. Desenho de luz: Rui Seabra. Vídeo: João Lourenço e Kimmy Simões. Fotografias: Filipe Figueiredo. Música: Artur Guimarães. Produção: Força de Produção. Teatro Maria Matos. Duração: 90 min.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Sobre a peça «Júlio César Assassinado» de William Shakespeare, segundo o texto de Manuel Jerónimo. Boutique da Cultura, 2026.






 






















Os temas históricos, políticos ou sociais da época clássica são sempre uma metáfora dos dias contemporâneos quando são interpretados, reinventados, talvez mesmo inventados, pelos autores que promovem a respectiva releitura. Promovendo ainda a sua eternidade. Quem não recorda o aviso dos “idos de março” anunciados pelo adivinho Espurina e que Júlio César ignora; ou os sonhos ensanguentados tidos por Calpúrnia, sua esposa, nas vésperas do assassinato; ou a recusa de ser coroado de louro como imperador; ou ainda o afamado ‘também tu, Brutus!?’?

Na realidade, o que na peça Shakespeare destaca é a lealdade pela morte, a devoção a uma cidade, o confronto retórico, político porque público, que coloca em oposição amigos, quase família, de Júlio César – Bruto e Cássio contra António e Octávio, terminando da Batalha de Filipos.

É uma peça, acima de tudo, sobre a ética e a moral no quadro da urbe política face à visão democrática da cidade.

Manuel Jerónimo, com a sua equipa de actores amadores, mas que amam verdadeiramente, digamos assim, profissionalmente o teatro, montam uma redacção completa de jornal que irá acompanhar, para o bem e para o mal, os derradeiros dias de Júlio César e a sequente guerra entre facções. Nada mais eficaz para tornar “actual e público” um facto político vindo da tribuna clássica. E o melhor de tudo é essa alegre jovialidade transmitida por tão excelso grupo de actores amadores, vindos da Oficina da Boutique da Cultura, numa encenação simples que fornece pragmatismo a uma marcação de cena em torno de duas secretárias e algumas cadeiras, uma marcação que faz acrescer dinamismo a uma acto de cena, afinal, um acto dramático de acção conspirativa, finalmente um acto bélico.

Há excelente teatro a fazer-se pelos bairros de Lisboa!


jef, 4 de junho de 2026

«Júlio César Assassinado» de William Shakespeare, segundo o texto e a encenação de Manuel Jerónimo. Com Ana Cotrim, Ana Luísa Guerreiro, Ana Domingos, Ana Maria Tomé, Ana Sofia Rodrigues, André Moura, Elisabeth Carreira, Henrique Nunes, Luísa Pires, Mafalda Gândara, Maria Teresa Escobar, Paulo Raposo, Teresa Sacadura, Teresa Vicente, Zé Duarte Almeida. Fotografia: Pat Blázquez. Produção: Oficinas de Teatro da Boutique da Cultura. Duração: 70 minutos.