segunda-feira, 15 de junho de 2026

Sobre a peça «Júlio César Assassinado» de William Shakespeare, segundo o texto de Manuel Jerónimo. Boutique da Cultura, 2026.






 






















Os temas históricos, políticos ou sociais da época clássica são sempre uma metáfora dos dias contemporâneos quando são interpretados, reinventados, talvez mesmo inventados, pelos autores que promovem a respectiva releitura. Promovendo ainda a sua eternidade. Quem não recorda o aviso dos “idos de março” anunciados pelo adivinho Espurina e que Júlio César ignora; ou os sonhos ensanguentados tidos por Calpúrnia, sua esposa, nas vésperas do assassinato; ou a recusa de ser coroado de louro como imperador; ou ainda o afamado ‘também tu, Brutus!?’?

Na realidade, o que na peça Shakespeare destaca é a lealdade pela morte, a devoção a uma cidade, o confronto retórico, político porque público, que coloca em oposição amigos, quase família, de Júlio César – Bruto e Cássio contra António e Octávio, terminando da Batalha de Filipos.

É uma peça, acima de tudo, sobre a ética e a moral no quadro da urbe política face à visão democrática da cidade.

Manuel Jerónimo, com a sua equipa de actores amadores, mas que amam verdadeiramente, digamos assim, profissionalmente o teatro, montam uma redacção completa de jornal que irá acompanhar, para o bem e para o mal, os derradeiros dias de Júlio César e a sequente guerra entre facções. Nada mais eficaz para tornar “actual e público” um facto político vindo da tribuna clássica. E o melhor de tudo é essa alegre jovialidade transmitida por tão excelso grupo de actores amadores, vindos da Oficina da Boutique da Cultura, numa encenação simples que fornece pragmatismo a uma marcação de cena em torno de duas secretárias e algumas cadeiras, uma marcação que faz acrescer dinamismo a uma acto de cena, afinal, um acto dramático de acção conspirativa, finalmente um acto bélico.

Há excelente teatro a fazer-se pelos bairros de Lisboa!


jef, 4 de junho de 2026

«Júlio César Assassinado» de William Shakespeare, segundo o texto e a encenação de Manuel Jerónimo. Com Ana Cotrim, Ana Luísa Guerreiro, Ana Domingos, Ana Maria Tomé, Ana Sofia Rodrigues, André Moura, Elisabeth Carreira, Henrique Nunes, Luísa Pires, Mafalda Gândara, Maria Teresa Escobar, Paulo Raposo, Teresa Sacadura, Teresa Vicente, Zé Duarte Almeida. Fotografia: Pat Blázquez. Produção: Oficinas de Teatro da Boutique da Cultura. Duração: 70 minutos.

 

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