Não se pode dizer que Valério Romão, aqui, seja um “agent provocateur”.
Ele não pretenderá ser alguém infiltrado nas hostes contrárias para provocar a denúncia
e prender o refractário. Também não estamos naquelas épocas violentas produto
das terras gaulesas.
O que o autor consegue é um enorme romance novelesco, entre o
picaresco e a crónica de costumes onde ninguém sai ileso. E estamos apenas no
primeiro volume, onde a narrativa, para desespero do leitor, fica em suspenso
ao longo dos derradeiros capítulos, sem título. Enfim, pobre leitor, nada a
fazer, deve esperar pela continuação. Entre a Bica, o Cais do Sodré e a Rua de
São Paulo, em Lisboa, todos se juntam num momento muito particular para a
Humanidade.
Alex, de fraca figura e encantador de golfinhos; Hélder,
franzino e dado à intelectualidade; e Alejandro, filho de Bárbara, nascido ao
contrário numa família ao contrário, deseja ser faroleiro mas foge de barco.
Mais de meio século após o 25 de Abril e da queda da censura,
o mundo contemporâneo da híper-política ou da híper-ventilação opinatva, via tiquetoques,
tornou o humor e a crítica acorrentados novamente a novas correntes estruturantes
da híper-moral. Pode dizer-se que agora é preciso pensar-se duas vezes antes de
dizer uma anedota qualquer, em público ou em privado.
Ora, Valério Romão, afinal agente provocador da moral
vigente, arrasa com tudo. Não deixa ninguém de fora do sistema e coloca-os a
todos dentro do sistema do absurdo numa narrativa que vais acelerando para o
fim e, que, até lá, disserta sobre quantos assuntos aprouver – a etnia, a
escolha política, a sexualidade, os usos, os costumes, a barbárie e a fala do
povo, não sem, aqui e ali, se perder a semântica narrativa nalguma urgência de
composição das frases. (Talvez, também, a urgência na publicação tenha deixado
as gralhas de revisão a provocar a interrupção da leitura).
Contudo, «O Desfufador Vol.1 Contágio» tem aquela vocação da
sátiraa crítica sem olhar ao sujeito visado que faculta a liberdade da escrita
e desperta a consciência activa no leitor.
Uma escrita que me sugeriu uma série de livros que muito
deram que falar e de ler a muitos: «Crónica dos Bons Malandros» de Mário
Zambujal (1980), «O Que Diz Molero» de Dinis Machado (1977), «Coca-Cola Killer» de
António Victorino D'Almeida (1981) ou «Cá Vai Lisboa» de Alface (2004).
Nem provocador, nem refractário, este volume 1 de «O Desfufador»
é um belo presente ao direito independente de pensar a escrita e a leitura.
Aguardemos o próximo episódio.
jef, junho 2026
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