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terça-feira, 13 de outubro de 2026

Sobre as exposições de Pedro Cabrita Reis e Joana Vasconcelos, Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, 2026



 



































Uma improvável ligação para comemorar os 10 anos do Museu. É a função da Arte e da imaginação dos seus curadores.

Visito o Museu pela primeira vez num fim de semana de entrada gratuita.

Milhares de visitantes à beira Tejo. Os visitantes fazem parte do espectáculo. Ou são eles o espectáculo, além do rio Tejo, claro.

Pedro Cabrita Reis «Com o Coração Livre de Cuidados»: todos passam por essa espiral das arrebatadoras telas impressionistas e panorâmicas, 28 no seu número. «Nymphaea Redux». Ou pelos mais pequenos mas não menos numéricos quadros alegóricos da sua persona «Ridi Paglaccio». Fotografo uma das pequenas telas de paisagens vagamente ou destorcidamente helénicas.

As pessoas seguem rápido pois mais desejam Joana Vasconcelos «Venus». Eu nunca tinha assistido à famosa parafernália gigantesca de objectos sintéticos e/ou sincréticos, que atraem e repelem em simultâneo e na mesma proporção, por entre os velhos vestidos criados por Valentino (Garavani). O retorcido plástico de «Coração Independente Vermelho», as mutantes flores vaporizadas Bosch de «A Todo o Vapor» ou as cintilantes, ameaçadoras, carnívoras flores luminosas do obscuro «Jardim do Éden».

O modo como a arte contemporânea se torna impenetrável por tamanha multidão de espectadores e, ao mesmo tempo, libidinosamente popular e oferecida.

Gostei muito.

jef, 4 de outubro de 2026

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Sobre o livro «Bug» de André Ruivo, Bedeteca de Lisboa CML/ Imagens de Bolso 02, 2000



 


















































Tomemos as 33 legendas-títulos que, no final, ilustram as imagens deste senhor livro de capa dura preta e sobrecapa de tonalidades amora-suave (20,7 x 16 cm). 25 anos depois, visitemos uma suposta guerra-fria informática que levaria ao colapso do Universo quando fossem dadas as 12 badaladas na transição do milénio. Um perigo iminente observado pela arte gráfica de André Ruivo como complemento de diversos artigos que o jornal Público publicou entre fevereiro de 1999 e janeiro de 2000.

33 imagens catalogadas narrativamente pelas citadas legendas-títulos dos artigos do jornal. Imagens de fundo espesso e monocrático em certo jeito aterrador, apocalíptico, também político, demoníaco, expressionista (modo George Grosz). Aqui, a artimanha, o roubo, a fuga e o desespero final parecem ser os nossos fantasmas mais queridos consubstanciados em pequenos insectos de três pares de patas e em ácaros ou aracnídeos de mais algumas patinhas. O Mundo terminava ali!

Porém, 25 anos depois, o célebre “Bug do Milénio” faz-nos rir comparado com a efervescente e perigosíssima guerra quente mundial que agora assistimos diariamente.

Os desenhos de André Ruivo, expressando as pobres criaturas humanas enleadas nos cordéis de marionetas esgrimidas por americanos, russos e chineses, fazem esmorecer o sorriso inicial. Afinal, o Bug Bélico do Milénio pode estar bem a acontecer agora mesmo, um quarto de século mais tarde, sem baratas mas com bombas e drones. Sempre os mesmos protagonistas!

O trabalho que deu origem ao livro pode ser visitado na exposição patente em Setúbal até ao dia 29 de novembro de 2025, na Casa Bocage, integrada na Festa da Ilustração 2025 «É Preciso Fazer Um Desenho?».


jef, 22 de novembro 2025

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Sobre a exposição «Com as Minhas Tamanquinhas» de João de Azevedo. Biblioteca Camões, 2025.










































No dia em que soube da morte de João Queiroz (1957-2025), esse aguarelista das doces paisagens do absurdo, visito a exposição das obras concebidas por João de Azevedo (1950-2020) a pedido de José Afonso para o álbum «Com as Minhas Tamanquinhas» (1976). Algo de delírio visionário, cromático e definitivo, qualquer coisa de plástico e onírico, careto transmontano, ave-rara, medusa e espectro animista de uma África alucinogénia. Talvez ainda o sopro gélido e róseo na sombra de um nórdico Thor em hibernação, Ícaro levitado. As cores enchem o espaço e a nossa imaginação. A alegria do figurativo desfigurado e fulgurante das peças de João Azevedo contra a triste notícia da memória do aquoso mundo verde-cinzento, quase concreto quase granítico, a desaparecer no abstracionismo do pincel plácido de João Queiroz.

O único modo de preservarmos a nossa alma numa triste, húmida, tropical tarde de uma leitosa Lisboa, a abarrotar de turistas basbaques, é mantermos no coração as cores e os traços de João de Azevedo, a névoa que cobre a possível floresta de João Queiroz.


jef, 22 de outubro de 2025

«Com as Minhas Tamanquinhas, A obra de João de Azevedo na obra de José Afonso.

Biblioteca Camões, Largo do Calhariz, 17, Lisboa.

9 a 31 de Outubro de 2025

Curadoria e design expositivo: José Teófilo Duarte

Programação: Biblioteca Camões / Lithales Soares

Design de Comunicação, produção e montagem: DDLX


domingo, 18 de maio de 2025

Sobre a exposição «Espuma, Ruído e Atonia (2020-2025)» de Paulo Romão Brás. Inaugura a 22 de Maio na Biblioteca Camões, em Lisboa











Espuma, Ruído e Atonia (2020–2025)

Paulo Romão Brás

 

O tempo e a sua estrutura.

Feita de atmosfera, a estrutura da espuma está suspensa entre a química das moléculas e as forças da respectiva física. A espuma é uma espécie de nada que se pulveriza com o tempo. Quando observada de perto, tem a sua arte. Efémera.

Existe uma frase repetida de Schopenhauer que diz que a música traduz a maior filosofia através de uma linguagem que a razão não compreende. O ruído, tal como a música, é igualmente uma ligação irracional, com uma estrutura ainda mais incompreensível, que o tempo não consegue aprisionar idiomaticamente, fazendo-o desaparecer no momento imediato.

Por outras palavras, tanto a espuma como o ruído (e a música) sofrem de acentuada atonia, de uma lassidão atómica, de uma fraqueza muscular. Não se podem esculpir, polir, agarrar e colocar sobre o aparador para que as visitas, convidadas para o jantar, possam admirar.

A arte e o seu tempo.

A obra de Paulo Romão Brás contraria essa vacuidade temporal, surgindo como se de um pêndulo a oscilar se tratasse, sistematicamente, entre a sombra que surge da profundidade da fotografia rasurada e o brilho definido pela cor solar. Os limites de um recorte planificado a duas dimensões, por uma colagem imposta pelas matérias física e digital. Penumbra e contorno, sombra e colorido, balançando com o pêndulo do relógio de parede exposto na sala.

O tempo com o seu tempo.

Kurt Schwitters, nos anos 40 do século XX, riscava já o tempo com a arte, colando figuras e letras, refazendo o abecedário da pintura, castigando a textura da própria evolução artística, hostilizando o expressionismo, o cubismo, o dadaísmo. Kurt Schwitters provoca o minuto presente no seu quotidiano.

Ao contrário, «Espuma, Ruído e Atonia», apresentando 24 obras realizadas entre os anos 2020 e 2025, está bem ciente do minuto que a assiste, sublinhando-o, não o provocando. Estas obras redefinem o limite dos espaços e a sólida arquitectura das linhas de fuga que vêm de um passado assumido. Relembre-se «Coisa Perene Entre a Casa e o Crânio» (Galeria do IAC, Angra do Heroísmo, 2019), «O Ciclo Curvo das Noites» (A Morte do Artista, 2019) ou «Camera» (LP, Knok Knok, 2024).

A arte com a sua arte. A função estruturalista.

Com «Espuma, Ruído e Atonia», Paulo Romão Brás não pretende quebrar o vidro do relógio, antes convidar-nos a relembrar um tempo em que o artista e sua arte estiveram confinados epidemiologicamente, clinicamente. Um tempo em que o tempo ficou sem estrutura, parado, mas onde a função do homem como artista esteve a cargo do mundo que o envolve, por sistema. Ou seja, pela ética, ou melhor pela respectiva linguagem comum, a que se pode chamar: Estética.

Sintam-se convidados. O jantar é servido.


Biblioteca Camões, Lisboa

Inauguração: 22 de maio de 2025 (quinta-feira) - 18:30.

Patente até 20 de junho de 2025


jef, 18 de maio de 2025

domingo, 16 de março de 2025

Sobre a exposição «De Muito Longe» de Margarida Jardim, Galeria Monumental, 2025



 
































A porta entreaberta faz chegar o vento de inverno. Os quadros, antes as telas, antes as cortinas movimentam-se. São grandes quadros suspensos no topo. Papel kraft impregnado de alcatrão ao qual lhe foi retirado a espessura, a densidade, o negro, a absorção da claridade e do brilho. Rasuras até ao limite da luz, diluente, emendas ao negro para atingir os castanhos quase renascentistas, aquele castanho que apenas faz sentido se o olharmos como dourado. Pinceladas reversas, como correcções mas sem forma ou credo. Apenas linhas, sombras, prespectivas que roem o preto do papel original. Do modo inicial. Por vezes, roído até ao osso. É necessário suturá-las carinhosamente com adesivo e agrafos. Fingir que vem de muito perto para restituir um novo brilho ao sombrio nocturno.

São quadros de grandes dimensões, outras nem tanto (120 x 170 cm / 80 x 80 cm), a movimentarem-se, inflando, adquirindo o volume do vento, agradecendo o brilho reflexo de uma luz que vem da rua, que não lhe é original mas que ali, naquele segundo, o é em definitivo. Com o relevo líquido que o vento lhe dá. Sem forma mas com volume, como nós estudámos no liceu. E aquele movimento é o seu relevo, ponto final. Como uma escultura em calcário corroído até ao fim pelo tempo.

Os castanhos e os negros, os brancos e os dourados. Vindos de muito longe para nos ensinar como a ruína e o movimento eterno representam apenas o renascimento para que estas pinturas rasuradas, a sua luz e o vento, nos convocam. Nos provocam.


jef, 15 de março 2025

«De Muito Longe» de Margarida Jardim. Galeria Monumental. Lisboa.

15 de Março a 12 de Abril de 2025

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Sobre a exposição «Lisboa Clichê» de Daniel Blaufuks. Museu de Lisboa, Palácio Pimenta, Pavilhão Preto, Lisboa, Fevereiro 2022.







«São fotografias tiradas em Lisboa entre o final da década de 1980 e o início dos anos 90. Das mais de 300 imagens publicadas em livro pela Tinta-da-china foram selecionadas cerca de 80.»

Aprendi com Daniel Blaufuks, na exposição «Léxico», em Vila Franca de Xira (Outubro, 2016) e, mais tarde, no livro «Não Pai» (Tinta da China, 2019) que o passado ou os seus estilhaços ou sombras, ficam de certa forma cristalizados dentro de nós, misturando os respectivos ecos com o que o espaço exterior nos vai impressionando; mas, igualmente, criando para o espaço que nos rodeia um vocabulário através do qual agora o justificamos. Contudo, com o tempo, esse vocabulário, esse léxico muda constantemente, assim como a cidade. Porém, tais ecos e estilhaços, as sombras do léxico ou da cidade, dentro de nós, revoltam-se e resistem à mudança. A esse espaço conservador muito íntimo da nossa visão do exterior, os dicionários dão o nome de Nostalgia.

A exposição utiliza a palavra, como o autor também explica, que anteriormente era dada à fotografia: “clichê”, num uso duplicado e irónico do vocábulo, quase corruptela etimológica.

São oitenta retratos de rostos ou ruas, imagens clichês de um passado público que ficou vincado também nas paredes de uma cidade inexistente. A cidade pode já não existir mas elas, as sombras e os ecos, as fotografias existem na realidade, presentes, nas paredes reais do museu. Também no véu concreto da nossa nostalgia.


jef, fevereiro 2022

 


domingo, 8 de março de 2020

Sobre a exposição «Manual de Conversação» de Henrique Ruivo, Casa da Cultura, Setúbal, Março 2020
















Não lhe chamem surrealista…

São duas dezenas de caixas, moldura com requinte, profundidade e relevo suficientes para a pintura se chamar colagem e esta se transformar em escultura. A primeira imagem que me veio à cabeça é a de estar na frente de objectos regressados de um museu de caixas de música com bailarina em pontas lá no topo ou de um teatro mecânico onde se coloca a moeda para o macaquinho bater os pratos. Ou daqueles livros ilustrados para miúdos onde se puxa uma patilha lateral e o lobo mau vai de comer os três porquinhos de uma vez só. Caixa de furos dos chocolates regina a sair sempre a bola prateada, a grande tablete.

Porém, aqui não podemos tocar o objecto. É ele que nos toca. No início, um homem nostálgico, a pensar, sentadinho no cimo de uma ravina obscura, feita de folhas e outras nuvens coladas, diz: «foda-se!». É esse o movimento inicial. O movimento mais profundo e sintomático, o da palavra dita ou redigida. Coloquial ou introspectiva, colada sobre o recorte em cartolina da «casa da beira alta de raúl lino» e com a política a subnadar… Temos de sorrir. A conversa de leitaria ou de salão de cabeleireiro ou de clube chique da marinha, posta como pensamento escrito em balão de banda desenhada, pode ser incompreensivelmente irónica, talvez romântica, mas nunca é modernista ou surrealista! Porque, aqui, o absurdo absorve clinicamente o desespero do mundo real e reinventa-o, em termos estéticos, para nós o suportarmos.

Há poucos dias, Henrique Ruivo partiu com Madalena Ruivo. Deixou-nos esta exposição para podermos sorrir (sempre sem escárnio e com a ternura pela mão) sobre um futuro ‘impossível’ e entendermos que a conversa e a memória, como as palavras e as imagens ali sobrepostas, são imprescindíveis para nos trazer luz sobre o nosso mundo ‘hiper-realista’. Henrique Ruivo fá-lo muito mais facilmente do que uma biblioteca cheia de dicionários de academia, tratados de história da arte ou manuais de conversação.

jef, março 2020

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Sobre a inauguração da exposição «Movimentos que Oscilam entre Formas Regulares» de Paulo Romão Brás. Galeria Lilliput. Bar Flor do Tejo. Cais de Vila Franca de Xira. 8 de Dezembro 2019 a 12 de Janeiro de 2020














Ilustrando o abstracto.

Na arte existe a superfície e o resto. Como nos perfis geológicos quando a Terra esconde o que tem dentro da crosta. Paulo Romão Brás procura com exactidão esse ponto de contacto entre o visível e o invisível, entre o que é presente e estamos agora a olhar e o que vai sendo transformado, geologicamente, pela memória.

Max Ernst (1891-1976), nascido na Alemanha, mobilizado na primeira guerra mundial, artista “degenerado” e proscrito pelos nazis, não era alemão, nem depois americano, parisiense. Nem cubista, surrealista, expressionista. Viu-se obrigado na década de 1920 a rasgar as páginas de catálogos ilustrados sobrepondo-lhes as imagens para descobrir os interstícios do seu passado.

Como Max Ernst, que recorria à grafite para riscar sobre o papel revelando a textura gráfica da superfície “invisível” da madeira (frottage), Paulo Romão Brás dá uso à arte labiríntica de agente secreto e falsificador de ídolos, e coloca à nossa frente uma cortina de cabos que suspendem fios de caricas metálicas. Para entrar no espaço ténue entre o passado e o presente, devemos afastar a cortina e entrar numa taberna do Alentejo sideral. Assim, o espaço cronológico fica apartado entre essa memória rural e um falso futuro urbano.

Dois trabalhos (100 x 70cm) revelam-se face a face. Ou, repito, escondem-se face a face. Porque são rostos de um passado a preto e branco que tentam emergir em plano primeiro enquanto o recorte e colagem de «papéis de catálogo» gritam, coloridos, papelinhos de carnaval anacrónico, que ainda não é tempo de revelar as identidades. Apenas o brilho do artifício.

Por isso, Paulo Romão Brás escreve: Movimentos que Oscilam entre Formas Regulares. À nossa frente apresenta-se, peremptória, uma pequena escultura em contraponto conclusivo, alegando que é com ela que o nosso olhar se inicia. Pelo movimento das figuras que se expõem entre as fissuras de uma memória assustada pelo presente que não sabe o que vai ser. «Nightmare before Christmas» mas no abstracto. Com ela, a nossa conclusão principia e o ‘catálogo’ de Paulo Romão Brás começa a ser rasgado.

«Movimentos que Oscilam entre Formas Regulares»
Galeria Lilliput. Bar Flor do Tejo. Cais de Vila Franca de Xira

João Eduardo Ferreira
Dezembro 2019

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Sobre a exposição «E não sei se o mundo nasceu. Fernando Namora – 100 anos.» Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira, até 17 de Novembro de 2019. Curador: António Pedro Pita

 
 
 

O mais interessante na exposição é o facto de colocar o neorrealismo como uma classificação em permanente desajuste face aos autores que aí se pretende agrupar. Principalmente Fernando Namora.

No texto inaugural, muito esclarecedor, diz-nos como Fernando Namora, ao longo da sua carreira, sempre se foi auto-excluindo de um movimento sem prévia definição, afinal sempre motivado muito mais pela espontânea volição criativa de escritor do que pela premeditação associativa ou social.

Em seguida, refere o característica vincadamente paisagística que a sua obra evidencia, numa perspectiva de descrição geográfica onde as personagens se movem entre brenhas e penhascos, tristezas graníticas, enquadramentos arbóreos, aldeias enclausuradas. Fernando Namora, ele próprio também era pintor.

Por último, fala do seu desejo de ficcionista e de transfiguração da realidade (e do «realismo»).

Fernando Namora amava a realidade e o seu movimento constante. É o autor sensível e amável de um dos mais belos livros sobre profissões, povos e rochas. «Retalhos da Vida de Médico» (1949).

jef, outubro 2019

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Sobre a exposição «Coisa Perene entre a Casa e o Crânio» de Paulo Romão Brás, Angra do Heroísmo 2019


















O Paradigma da Cor

No conjunto de obras que o autor intitulou «Coisa Perene entre a Casa e o Crânio» existe uma substância exemplar. Encerra algo estruturalmente paradigmático, no sentido etimológico. Quero dizer, aqui, Paulo Romão Brás desestrutura e volta a reorganizar não para simplificar ou edificar mas para exemplificar. Como reordenando as peças do Lego com a intenção de introduzir no dicionário de antónimos uma nova palavra gráfica ou um recorte simbólico inesperado. Exemplos (ou paradigmas) que se opõem entre si para vermos mais claro.

Duas das unidades orgânicas, a linha e a forma, ficam nitidamente aprisionadas pela terceira circunstância: a cor. É ela que contradiz, se opõe, tornando-se mais livre e ‘paradigmática’. Suspeitamos que a obra do autor aguardava há algum tempo por tal contradição libertadora. Da sua génese recorde-se «As Sombras Errantes» (Galeria Má Arte - Aveiro, 2014) ou «Arqueologia» (Balla - Livro/CD, 2016).

As impressões sobre papel 100 x 70 cm executadas de modo quase displicente para corresponder ao trabalho que sobre elas será executado posteriormente, sugerindo rasura, decomposição, dúvida (pastel, acrílico, caneta,…), parecem exigir esse espaço novíssimo, mais amplo, quase ilimitado por ausência da velha norma. As cores das peças de menor dimensão entram para redireccionar as primeiras. As demais obras, a três dimensões, não se apelidarão ‘esculturas’ mas simplesmente exemplos de um olhar mais físico, mais centrado na referida evolução cromática. Paradigma da luz.

Tal como a ‘arquitectura’ de Fernand Léger desejava libertar-se do formalismo sentimental da figura humana, planificando-a, adoçando-lhe os vértices cubistas, para a elevar ao superior termo pictórico da abstracção, também Paulo Romão Brás tende a reorientar as linhas recortadas em planos diferentes e profundidades de campo quase paralelas. São contornos curvos ou rectilíneos do presente de certos objectos reais que deixam o olhar do leitor entrar num ‘país das maravilhas’ futurista, descobrindo aí, alternadamente, o seu-nosso amor, o seu-nosso temor. Talvez, antes, para chegar à planificação do passado, refazendo a nossa memória insuspeita, desconexa e onírica.

Encontramos em «Coisa Perene entre a Casa e o Crânio» o ponto e a vírgula de um sintagma esclarecedor, porque exemplificativo. «Descubra o que está por trás!» A frase que nos guiará nesse jogo infantil do troca-pernas-e-cabeças da estética formal entre as linhas, as formas e as cores de Paulo Romão Brás.

jef, setembro 2019