É
o primeiro filme de Michael Haneke para o cinema. E toda a sua arte já lá está –
nua e crua! Sem contemplações nem artifícios. Quase sem música. Apenas um trecho de um concerto
para violino de Alban Berg se ouve a sair de um radio de um carro a ser vendido,
enquanto cá fora, a pequena Evi (Leni Tanzer) espera. A música é interrompida
quando o carro é ligado. Nada mais.
Um filme sem rede nem apaziguamento.
Cada
cena é directa, a imagem simples e definida (Anton Peschke), o som (Karl
Schlifelner), igualmente. No início, a identidade dos rostos das personagens é
ocultada. Cada cena, separada da seguinte por um slide negro que dura quase um
segundo, coloca-nos frente, sem subterfúgios, perante uma família austríaca bem
instalada na vida, com uma rotina detalhada entre o trabalho e as compras dos
pais Georg (Dieter Berner) e Anna (Birgit Doll), e a escola de Evi. Nada mais.
Apenas uma espécie de quadro extra-cena intermitente de uma praia da Austrália,
o sétimo continente, para onde a família viajará e, finalmente. regressará.
No
panorama de um neo-hiper-realismo, os peixinhos de Evi são ternamente alimentados,
Georg sobe de posto na empresa, Anna trabalha como optometrista num oculista,
eles cuidam atentamente do irmão e tio Alexander (Udo Samel) que sofre com a
morte da mãe. Anna vai frequentemente ao médico pois também ela sofre emocionalmente.
É ela que escreve regularmente aos sogros para ir relatando o seu quotidiano
tranquilo.
O
filme divide-se em três partes, por três anos: 1987, 1988 e 1989. Nada mais nos
é relatado, contextualizado, amenizado, o espectador apenas fica de fronte a uma
crescente angústia face a uma decisão irreversível, comemorada com as mais
faustosas das refeições. Também ela por explicar, apenas detectada por sinais tardios e diferentes reflexos quotidianos que se agravam. O espectador não tem armas para se defender. A explicação
final de que um caso semelhante ocorreu na realidade na Áustria ainda torna mais
premente e explicita a violência de uma decisão consciente.
Por
fim, a televisão é um único objecto em movimento, aproximando-se da objectiva, em
chuva técnica, a preto e branco, como ela também morta, por entre a qual passam
imagens de um passado que não poderá ser mais recordado.
É
um filme brutalmente explícito, de uma inigualável genialidade narrativa, que
vem demonstrar a fragilidade de uma sociedade burguesa que se reveste de falsas
roupagens de abastança socio-económica e equilíbrio emocional. Um filme que inicia a
Trilogia da Glaciação da qual fazem parte «71 Fragmentos de uma Cronologia do
Acaso» (1994), «O Vídeo de Benny» (1992).
Um filme que não será para todos.
jef,
outubro 2026
«O
Sétimo Continente» (Der Siebente Kontinent) de Michael Haneke. Com Dieter
Berner, Birgit Doll, Leni Tanzer, Udo Samel, Silvia Fenz, Robert
Dietl, Elisabeth Rath, Georges Kern, Georg Friedrich. Argumento: Michael Haneke, Johanna Teicht. Produção:
Veit Heiduschka. Fotografia: Anton Peschke. Montagem: Marie Homolkova. Som: Karl
Schlifelner. Música: Alban Berg. Guarda-roupa: Anna Georgiades. Áustria, 1989, Cores,
109 min.





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