quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Sobre o filme «Laura» de Otto Preminger, 1944



 

































Procuro versões da canção «Laura» (David Raksin / Johnny Mercer). Facilmente encontro nos discos de Ella Fitzgerald ou Julie London, por exemplo. Sem dúvida que a canção ressoa sobre todo o filme, desde o início (sem as palavras de Johnny Mercer), e sobre o retrato de Laura como um dos factos mais misteriosos do filme, tal como a voz off que nos cativa a favor da perspectiva de quem a pronuncia, tomando nós pela voz da verdade. No entanto, o mistério que se adensa em torno do fantasma de Laura (Gene Tierney) e da paixão espiritual e, depois, pós-platónica do detective McPherson (Dana Andrews), é sobretudo um apuro dramático em que todos dialogam sem interrupção sobre um crime que, parece, esses todos, levarem com leve ânimo: Waldo Lydecker (Clifton Webb), Shelby Carpenter (Vincent Price) ou Anne Treadwell (Judith Anderson). O sedutor fantasma, afinal, serve para colocar em confronto quatro ou cinco escalas sociais que surgem mais ou menos aristocráticas mas que todas pertencem à pequena burguesia endinheirada. Salve-se Bessie Clary (Dorothy Adams), a empregada devota e protectora de Laura. E claro, o detective McPherson, esse ser distante e próximo, profissional e apaixonado, em simultâneo.

Leio também com devota atenção a folha da cinemateca de João Bénard da Costa. Tudo ali faz sentido e cobre de senso o argumento que nos vai dando pistas acusatórias sobre todos e a todas elas nega o sentido. Supremo humor! Como será possível que as personagens se persigam constantemente, entrem nas casas uns dos outros (na de Laura, principalmente) com o beneplácito do circunspecto caderninho de apontamentos de McPherson, Numa espécie de filme "de Portas". Todos parecem suspeitar de todos ou todos desejarem ou odiarem, sempre com um sorriso sarcástico ou com matreira displicência.

E ainda temos os decores, os adereços, os fatos e os vestidos, os chapéus! Tudo parece ser feito para em nada o espectador poder acreditar mas cuja verossimilhança não somos incapazes de resistir, como se o espectador representasse a personagem final deste supremo filme negro desses encantados anos 40 do cinéfilo século passado.  


jef, outubro 2026

«Laura» de Otto Preminger. Com Gene Tierney (Laura Hunt), Dana Andrews (Mark McPherson), Clifton Webb (Waldo Lydecker), Vincent Price (Shelby Carpenter), Judith Anderson (Anne Treadwell), Dorothy Adams (Bessie Clary), Kathlenn Howard (Louise), James Flavin (McAvity). Argumento: Jay Dratler, Samuel Hoffenstein e Betty Reinhardt, baseado num conto de Vera Casparay. Produção: Otto Preminger para a 20th Century Fox. Fotografia: Joseph LaShelle. Música: David Raksin. Guarda-roupa: Bonnie Cashin. EUA, 1944, Cores, 88 min.

 

Sem comentários:

Enviar um comentário