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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Sobre o filme «A Estrada do Tabaco» de John Ford, 1941



 

































Esta é uma enorme comédia realizada sobre a mais profunda das tragédias, vinda de um romance de Erskine Caldwell que deu origem a uma peça de teatro de Jack Kirkland, de enorme sucesso estreada em 1933, que também assina o argumento.

A história da família Lester, antigos produtores de tabaco e algodão na Geórgia, uma terra antigamente fértil e produtiva, agora caída em desgraça, abandono, penúria e isolamento, como logo indica o fantástico prólogo. É esta a história que iremos assistir, a história do pai Jeeter (Charley Grapewin) e da sua mulher Ada (Elizabeth Patterson) e da última filha por casar Ellie May (Gene Tierney), já que o filho Dude (William Tracy), amante de buzinas de automóvel, irá casar em breve casar com a devota e emotiva cantora de hinos luteranos Sister Bessie (Marjorie Rambeau). A filha Elli May será por fim oferecida ao já genro e choroso Lov (Ward Bond) – a quem Jeeter no início roubou um saco de nabos – mas cuja mulher, a outra filha, fugiu para a cidade por causa de maus tratos. Um banqueiro irá tomar por crédito as pobres terras, assim como o velho casebre, onde o casal vive à espera que o destino se cumpra, adiando a entrada no lar e o abandono de uma vida inteira. Entretanto, o velho Jeeter, ameaçando Deus pelo futuro que não chega, vende um pneu sobresselente do novo carro na nora Sister Bessie e resolve ir passar uma noite num hotel onde brinca e acende todos os candeeiros que encontra.

É assim esta alta tragédia mascarada de alta comédia, onde a luz e a fotografia exemplares de Arthur C. Miller fazem recair a densidade emocional de cada personagem, de cada enquadramento, assistindo a essa magnífica vocação de John Ford de enumerar os heróis e os anti-heróis de uma América tão enorme e bela quanto triste e desvalida.


jef, outubro 2026

«A Estrada do Tabaco» (Tobacco Road) de John Ford. Com Charley Grapewin (Jeeter Lester), Marjorie Rambeau (Sister Bessie), Gene Tierney (Ellie May), William Tracy (Dude Lester), Elizabeth Patterson (Ada Lester), Dana Andrews (Captain Tim), Slim Summerville (Peabody), Ward Bond (Lov), Grant Mitchell (George Payne) Zeffie Tilbury (Grandma), Russell Simpson (Chefe da Police), Spencer Charters (County Clerk), Irving Bacon (Bank Teller), Harry Tyler (Vendedor de automóveis) Charles Halton (Mayor), George Chandler (porteiro do hotel). Argumento: Nunnally Johnson, Jack Kirkland baseado na peça de teatro do próprio saída do romance de Erskine Caldwell. Produção: Darryl F. Zanuck. Fotografia: Arthur C. Miller. Música: David Buttolph. Guarda-roupa: Harry Kernell. EUA, 1941, P/B, 84 min.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Sobre os filmes «Eu vos saúdo, Maria» de Jean-Luc Godard, 1984, e «O Livro de Maria» de Anne-Marie Miéville, 1984.



 






















É um acto extremo e poético sobre a condição feminina perante a maternidade, o existencialismo mais puro e o desespero da solidão. Também é um acto simbólico sobre como olhar o cosmos, a natureza, corpo, a origem da vida e o acaso que lhe está subjacente. “Naquele Tempo”, sobretudo sobre o Tempo.

Um acto sobre a beleza e o passo dado em direcção à finitude. O professor cita-se Hölderlin enquanto Eva escuta: “Cada um vai e cada um chega ao lugar a que pode esperar chegar”, o último verso escrito, o último verso da Terra. Ouve-se Bach e Dvorak.

Depois disto, Maria, a basquetebolista, José, o taxista, só podem deixar partir Jesus. Ele regressará pela Páscoa ou pelas Trindades. Entretanto Gabriel, contrafeito, levanta a mão e diz-lhe: “Eu vos saúdo, Maria.”

Inicialmente, em «O Livro de Maria», a curta metragem de Anne-Marie Miéville, a pequena Maria vê-se acolhida alternadamente na casa da mãe e na casa do pai. E ela dança ao som de um disco de Malher. O pai ensina-lhe a diferença que existe entre os triângulos. A mãe toma banho com ela. Por fim, sozinha, e perante a original emergência do ovo, ela decide que o melhor é cozê-lo!


jef, outubro 2026

«Eu vos saúdo, Maria» (Je vous salue, Marie) de Jean-Luc Godard. Com Myriem Roussel (Maria), Thierry Rode (José), Philippe Lacoste (Anjo Gabriel), Manon Andersen (a Menina), Malachi Jara Kohan (Jesus), Juliette Binoche (Juliette), Dick (o cão), Georges Staquet, Anne Gautier (Eva), Johan Leysen, Gisele Musy, Serge Musy. Argumento: Jean-Luc Godard. Produção: Yves Peyrot, Alain Sarde. Fotografia: Jacques Firmann, Jean-Bernard Menoud. Montagem: Anne-Marie Miéville. Som: François Musy. Música: Johann Sebastian Bach, Antonin Dvorak. França, 1984, Cores, 72 min.

 «O Livro de Maria» (Le livre de Marie) de Anne-Marie Miéville. Com Bruno Cremer (o pai), Aurore Clément (a mãe), Rebecca Hampton (Maria) Copi (o viajante), Valentine Mercier (a Menina), Cléa Rédalier (a Menina). Argumento e Montagem: Anne-Marie Miéville. Produção: JLG Films, Pégase Films. Fotografia: Caroline Champetier, Jacques Firmann, Jean-Bernard Menoud. Som: François Musy. Música: Frédéric Chopin, Gustav Mahler. França, 1984. Cores, 27 min.

 

domingo, 18 de outubro de 2026

Sobre o filme «O Sétimo Continente» de Michael Haneke, 1989



 























É o primeiro filme de Michael Haneke para o cinema. E toda a sua arte já lá está – nua e crua! Sem contemplações nem artifícios. Quase sem música. Apenas um trecho de um concerto para violino de Alban Berg se ouve a sair de um radio de um carro a ser vendido, enquanto cá fora, a pequena Evi (Leni Tanzer) espera. A música é interrompida quando o carro é ligado. Nada mais.

Um filme sem rede nem apaziguamento.

Cada cena é directa, a imagem simples e definida (Anton Peschke), o som (Karl Schlifelner), igualmente. No início, a identidade dos rostos das personagens é ocultada. Cada cena, separada da seguinte por um slide negro que dura quase um segundo, coloca-nos frente, sem subterfúgios, perante uma família austríaca bem instalada na vida, com uma rotina detalhada entre o trabalho e as compras dos pais Georg (Dieter Berner) e Anna (Birgit Doll), e a escola de Evi. Nada mais. Apenas uma espécie de quadro extra-cena intermitente de uma praia da Austrália, o sétimo continente, para onde a família viajará e, finalmente. regressará.

No panorama de um neo-hiper-realismo, os peixinhos de Evi são ternamente alimentados, Georg sobe de posto na empresa, Anna trabalha como optometrista num oculista, eles cuidam atentamente do irmão e tio Alexander (Udo Samel) que sofre com a morte da mãe. Anna vai frequentemente ao médico pois também ela sofre emocionalmente. É ela que escreve regularmente aos sogros para ir relatando o seu quotidiano tranquilo.

O filme divide-se em três partes, por três anos: 1987, 1988 e 1989. Nada mais nos é relatado, contextualizado, amenizado, o espectador apenas fica de fronte a uma crescente angústia face a uma decisão irreversível, comemorada com as mais faustosas das refeições. Também ela por explicar, apenas detectada por sinais tardios e diferentes reflexos quotidianos que se agravam. O espectador não tem armas para se defender. A explicação final de que um caso semelhante ocorreu na realidade na Áustria ainda torna mais premente e explicita a violência de uma decisão consciente.

Por fim, a televisão é um único objecto em movimento, aproximando-se da objectiva, em chuva técnica, a preto e branco, como ela também morta, por entre a qual passam imagens de um passado que não poderá ser mais recordado.

É um filme brutalmente explícito, de uma inigualável genialidade narrativa, que vem demonstrar a fragilidade de uma sociedade burguesa que se reveste de falsas roupagens de abastança socio-económica e equilíbrio emocional. Um filme que inicia a Trilogia da Glaciação da qual fazem parte «71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso» (1994), «O Vídeo de Benny» (1992).

Um filme que não será para todos.


jef, outubro 2026

«O Sétimo Continente» (Der Siebente Kontinent) de Michael Haneke. Com Dieter Berner, Birgit Doll, Leni Tanzer, Udo Samel, Silvia Fenz, Robert Dietl, Elisabeth Rath, Georges Kern, Georg Friedrich. Argumento: Michael Haneke, Johanna Teicht. Produção: Veit Heiduschka. Fotografia: Anton Peschke. Montagem: Marie Homolkova. Som: Karl Schlifelner. Música: Alban Berg. Guarda-roupa: Anna Georgiades. Áustria, 1989, Cores, 109 min.

 

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Sobre o filme «Naza» de Yuval Abraham e Rachel Szor



 











Antes de mais, «Naza» é um belo exemplo de cinematografia. Ou, mais simples e apesar do que se ouve, um belíssimo filme! Sob a luz negra da noite de Telavive, sob as janelas iluminadas mostrando a tranquilidade familiar, seccionada, pois nunca se vê a identidade dos rostos, num jogo preciso de enquadramentos, triangulações, pontos de fuga ou linhas de convergência; alternando com a azáfama rodoviária das grandes vias iluminadas pelos faróis da grande cidade; banhado pelas negras águas mediterrânicas; num simples terraço, são entrevistados por Yuval Abraham, o realizador, 24 militares da tecnológica elite militar israelita, que não são identificados por óbvios motivos. Mais uma vez a obscuridade é a alma do negócio ou da chacina. Conta-se como as casas e os bairros de Gaza eram digitalmente identificados, parametrizados e escolhidos por electrónica e inteligência artificial. Escolhidos os alvos onde supostamente viviam elementos do Hamas e enviadas bombas certeiras para os atingir. Não interessava saber-se quem seria atingido ou sacrificado. Era mais um jogo que divertia quem o jogava mesmo sabendo que matavam famílias inteiras, velhos, mulheres e crianças. Algumas vezes, o elemento identificado supostamente como sendo do Hamas saía ileso. Nada se vê sob a citada luz negra de Telavive, o militar apenas ilustra com um desenho a branco e preto, bairro a bairro, andar por andar, os prédios de Gaza que devem ser destruídos pelas bombas. Apenas um critério, o genocídio em Gaza.

Naturalmente, as imagens omissas vêm recordar o monumental filme de Claude Lanzmann «Shoah» (1985) sobre o Holocausto nazi, Treblinka ou Auschwitz-Birkenau, onde as possíveis imagens são permanentemente substituídas pela das figuras entrevistadas. Nada mais, pois o que se pretendia com o Holocausto não era apenas chacinar um povo, mas destruir-lhe o essencial, o espaço, a história e as memórias.

«Naza», pela sua contundente “noite sem imagens” também recorda o surpreendente filme «A Imagem que Falta» de Rithy Panh (2013) onde Camboja e o seu povo foi despojado integralmente da sua vida da sua cultura, das suas aldeias. Até o nome lhes foi retirado pelo regime de Pol Pot e dos Khmer Vermelho, entre 1975-1979. Um filme que o realizador filmou através da transfiguração das atrocidades por marionetas (numa espécies de “stop motion”) pois tudo o que existia como documentos foi sistematicamente destruído pela ditadura. A memória como futura ameaça.

A memória, uma permanente ameaça para o futuro, como acontece actualmente (e novamente) em Gaza e aqui descrita por quem, a partir de Israel, era pago para obliterar a história e o povo palestinianos, convidados aqueles para um jogo real-letal executado por consolas militares. Afinal, uma certa banalidade do mal, e respectiva oficialização, lembrando Eichmann e as célebres palavras de Hannah Arendt.

Saio do cinema, com a sala quase esgotada e depois de uma salva de palmas por parte dos espectadores. Saio em silêncio, estranhando o ódio sistemático dos isrealitas perante o povo ancestral daquelas paragens, estranho ainda mais um genocídio praticado por que já sofreu um dos maiores horrores da história da humanidade. Talvez o judeu Sigmund Freud soubesse explicar o facto “de uma criança abusada vir a transformar-se num pai abusador”. 

Shoah por Shoah. Ou como quem diz, proverbialmente: “Não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu”.


jef, outubro 2026

«Naza» de Yuval Abraham e Rachel Szor. Com Yuval Abraham. Argumento: Yuval Abraham e Rachel Szor. Produção: Jonathan Glazer, James Wilson, The Guardian. Fotografia e  montagem: Rachel Szor. Reino Unido, 2026, Cores, 80 min.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Sobre o filme «O Vídeo de Benny» de Michael Haneke, 1992



 





















A semente da violência em contraponto com o processo imoral da assunção da culpa.

«O Vídeo de Benny» é uma das obras mais integras e condensadas no abecedário do realizador, onde o fulcro da narrativa se fixa na expressão silenciada, sempre quase silenciosa, de Benny, a expressão da total aparente inocência do actor Arno Frisch (que veremos cinco anos depois em «Brincadeiras Perigosas»). 

Tudo está perfeito no mundo das cassetes vídeo que se alugavam por dias na loja. Tudo está estável na serenidade burguesa da família de Benny, 14 anos. Os pais (Angela Winkler e Ulrich Mühe) passam o fim de semana na quinta e Benny enclausura-se no quarto pouco arejado da casa de Viena. Tudo é filmado e o resultado acumulado nas cassetes é mais verosímil de que a realidade. Benny encontra na loja uma rapariga (Ingrid Stassner), também ela fascinada pelos vídeos na loja e convida-a para casa. Depois, há que experimentar, há que ir mais além.

Tudo é descrito na sombra crua e pixelizada do vídeo. Tudo fica registado para memória futura. Aqui não há culpa, nem sequer remorso. Apenas pragmatismo numa sociedade que se abstém (ou se desvia) da empatia emocional.

Um filme rigoroso e brutal que mostra como Haneke é o mestre da génese da violência e da exegese da suspeição na sociedade ocidental.

Da trilogia da Glaciação fazem parte ainda «O Sétimo Continente» (1989) e «71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso» (1994).


jef, outubro 2026

«O Vídeo de Benny» (Benny’s Video) de Michael Haneke. Com Arno Frisch, Angela Winkler, Ulrich Mühe, Ingrid Stassner, Stephanie Brehme, Stefan Polasek, Christian Pundy, Max Berner, Hanspeter Müller, Shelley Kästner, Wolfgang Böck, Cecile Gordon, Paulus Manker. Argumento: Michael Haneke. Produção: Veit Heiduschka, Bernard Lang. Fotografia: Christian Berger. Montagem: Marie Homolkova. Som: Karl Schlifelner. Guarda-roupa: Erika Navas. Áustria / Suíça, 1992, Cores, 110 min.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Sobre o filme «Natal Amargo» de Pedro Almodóvar, 2025



 


























«Negros Hábitos» (1983), «Tudo Sobre a Minha Mãe» (1999) ou «Fala com Ela» (2002)...

A meio do filme «Natal Amargo» perdi-me na história e comecei a recordar todos os filmes de Almodõvar que me encantaram e encantam ainda. São muitos… Depois voltei a tentar seguir a história e dei-me conta de que estava a apreciar de novo o magnífico colorido, a produção de Agustín Almodóvar, a música de Alberto Iglesias, as linhas definidas pelos corpos das personagens, pelo seu guarda-roupa em contraste com a belíssima composição cénica, os adereços escolhidos a dedo, as actrizes sempre a um passo da comoção ao som da híper-dramática «La Llorona» de Chavela Vargas, e as lágrimas, sempre as lágrimas, nos grandes planos daquelas belas expressões.

Mas e a história?...

Parece que Almodóvar tentou mergulhar em si próprio mas não conseguiu sair da superfície do plano de água – Punindo-se através daquela cena muito particular em que a médica pergunta à personagem principal, Elsa (Bárbara Lennie), que emana do guião que está a ser escrito pelo segundo personagem principal, Raúl (Leonardo Sbaraglia): O que é um “director” (realizador) de culto, se ela faz parte de alguma seita…

O humor esvai-se aos poucos, lentamente, e todas aquelas belas mulheres choram, choram muito. As figuras vêm de um mundo que só a elas próprias diz respeito deixando os espectadores de fora.

A vibração caótica e fulgurante que nos guiava pela fantasia colorida da realidade de «A Lei do Desejo» (1987) ou de «Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos» (1988) ou «Voltar» (2006), onde está? Afinal, o filme vai-se perdendo numa espécie de comiseração flagelada sem nos chegar verdadeiramente ao coração, sem chegar ao climax emocional, tão criativo e tão particular em Pedro Almodóvar.

E é uma pena. Pois eu gostaria muito de ter adorado o filme!

(Felizmente ainda vemos, por momentos, Rossy de Palma).


jef, outubro 2026

«Natal Amargo» (Amarga Navidad) de Pedro Almodóvar. Com Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Victoria Luengo, Patrick Criado, Quim Gutiérrez, Carmen Machi, Gloria Muñoz Gloria Muñoz, Nico Martín, Amaia Romero, María Morales, Rossy de Palma, Milena Smit, Aitana Sanchéz-Gijón. Argumento: Pedro Almodóvar. Produção: Agustín Almodóvar. Fotografia: Pau Esteve Birba. Som: Knud Kristensen. Música: Alberto Iglesias. Direcção artística e arte: Antxón Gómez, Isabel Peinado, Carlota Casado. Guarda-roupa: Paco Delgado. Espanha, 2026, Cores, 111 min.

 

Sobre o filme «Laura» de Otto Preminger, 1944



 

































Procuro versões da canção «Laura» (David Raksin / Johnny Mercer). Facilmente encontro nos discos de Ella Fitzgerald ou Julie London, por exemplo. Sem dúvida que a canção ressoa sobre todo o filme, desde o início (sem as palavras de Johnny Mercer), e sobre o retrato de Laura como um dos factos mais misteriosos do filme, tal como a voz off que nos cativa a favor da perspectiva de quem a pronuncia, tomando nós pela voz da verdade. No entanto, o mistério que se adensa em torno do fantasma de Laura (Gene Tierney) e da paixão espiritual e, depois, pós-platónica do detective McPherson (Dana Andrews), é sobretudo um apuro dramático em que todos dialogam sem interrupção sobre um crime que, parece, esses todos, levarem com leve ânimo: Waldo Lydecker (Clifton Webb), Shelby Carpenter (Vincent Price) ou Anne Treadwell (Judith Anderson). O sedutor fantasma, afinal, serve para colocar em confronto quatro ou cinco escalas sociais que surgem mais ou menos aristocráticas mas que todas pertencem à pequena burguesia endinheirada. Salve-se Bessie Clary (Dorothy Adams), a empregada devota e protectora de Laura. E claro, o detective McPherson, esse ser distante e próximo, profissional e apaixonado, em simultâneo.

Leio também com devota atenção a folha da cinemateca de João Bénard da Costa. Tudo ali faz sentido e cobre de senso o argumento que nos vai dando pistas acusatórias sobre todos e a todas elas nega o sentido. Supremo humor! Como será possível que as personagens se persigam constantemente, entrem nas casas uns dos outros (na de Laura, principalmente) com o beneplácito do circunspecto caderninho de apontamentos de McPherson, Numa espécie de filme "de Portas". Todos parecem suspeitar de todos ou todos desejarem ou odiarem, sempre com um sorriso sarcástico ou com matreira displicência.

E ainda temos os decores, os adereços, os fatos e os vestidos, os chapéus! Tudo parece ser feito para em nada o espectador poder acreditar mas cuja verossimilhança não somos incapazes de resistir, como se o espectador representasse a personagem final deste supremo filme negro desses encantados anos 40 do cinéfilo século passado.  


jef, outubro 2026

«Laura» de Otto Preminger. Com Gene Tierney (Laura Hunt), Dana Andrews (Mark McPherson), Clifton Webb (Waldo Lydecker), Vincent Price (Shelby Carpenter), Judith Anderson (Anne Treadwell), Dorothy Adams (Bessie Clary), Kathlenn Howard (Louise), James Flavin (McAvity). Argumento: Jay Dratler, Samuel Hoffenstein e Betty Reinhardt, baseado num conto de Vera Casparay. Produção: Otto Preminger para a 20th Century Fox. Fotografia: Joseph LaShelle. Música: David Raksin. Guarda-roupa: Bonnie Cashin. EUA, 1944, Cores, 88 min.

 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Sobre o filme «71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso» de Michael Haneke, 1994



























Nada a esconder. São realmente 71 fragmentos na vida de uma cidade que vive os últimos meses de 1988: Viena. Cruzando as várias histórias, ouvimos as notícias televisivas sobre Sarajevo, o Líbano, sobre Israel e o Hezbollah, também sobre Michael Jackson. As diversas famílias ou o que delas resta, as suas histórias em flashback, vão-se sobrepondo em planos rápidos inconclusivos ou lentos, sem fim. Não nos é permitido deixar de olhar. A resposta está no início com a notícia de um massacre numa dependência bancária levado a cabo por um estudante que em seguida se suicida com uma bala na cabeça. De resto, Nada a Esconder.

Michael Haneke não consegue suavizar a violência que se abate sobre cada indivíduo. A violência como catarse, como móbil ou expiação. Sem música orquestrada, apenas o som do desespero, da expectativa sem fim mas com agonia. Tendo a sociedade por algoz.

Michael Haneke é o artífice do argumento para o medo, abstracto e silencioso, onde a angústia sem redenção subjuga. 

Este filme, faz-me recordar «Código Desconhecido» (2000), passado em Paris. A eterna suspeita, o eterno silêncio, o eterno desconhecido que nos ataca. 

Ninguém descreve o horror e a solidão do pânico como o autor austríaco.

Os filmes de Michael Haneke metem-me medo da realidade mas, quando se compravam DVD, eu coleccionava-lhe os filmes.

«71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso» é perfeito como uma “master class M. H." para a qual entrámos como intrusos, sequer fomos convidados!


jef, setembro 2026

«71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso» (71 Fragmente einer Chronologie des Zufalls) de Michael Haneke. Com Gabriel Cosmin Urdes, Lukas Miko, Otto Grünmandl, Anne Bennent, Udo Samel, Branko Samarovski, Claudia Martini, Georg Friedrich, Alexander Pschill, Klaus Händl, Corina Eder, Dorothee Hartinger, Patricia Hirschbichler, Barbara Nothegger, Gudrun Gutt, Michael Jackson. Argumento: Michael Haneke. Produção: Veit Heiduschka, Willi Segler. Fotografia: Christian Berger. Montagem: Marie Homolkova. Som: Marc Parisotto. Guarda-roupa: Erika Navas. Áustria, 1994, Cores, 100 min.