Nada a esconder. São realmente 71 fragmentos na vida de uma cidade que vive os últimos
meses de 1988: Viena. Cruzando as várias histórias, ouvimos as notícias
televisivas sobre Sarajevo, o Líbano, sobre Israel e o Hezbollah, também sobre Michael
Jackson. As diversas famílias ou o que delas resta, as suas histórias em
flashback, vão-se sobrepondo em planos rápidos inconclusivos ou lentos, sem fim. Não nos é permitido deixar de olhar. A resposta está no início com a
notícia de um massacre numa dependência bancária levado a cabo por um estudante
que em seguida se suicida com uma bala na cabeça. De resto, Nada a Esconder.
Michael
Haneke não consegue suavizar a violência que se abate sobre cada indivíduo. A
violência como catarse, como móbil ou expiação. Sem música orquestrada, apenas
o som do desespero, da expectativa sem fim mas com agonia. Tendo a sociedade
por algoz.
Michael Haneke é o artífice do argumento para o medo, abstracto e silencioso, onde a angústia sem redenção subjuga.
Este filme, faz-me recordar «Código Desconhecido» (2000), passado em Paris. A eterna suspeita, o eterno silêncio, o eterno desconhecido que nos ataca.
Ninguém descreve o horror e a solidão do pânico
como o autor austríaco.
Os
filmes de Michael Haneke metem-me medo da realidade mas, quando se compravam
DVD, eu coleccionava-lhe os filmes.
«71
Fragmentos de uma Cronologia do Acaso» é perfeito como uma “master class M. H." para a qual entrámos como intrusos, sequer fomos convidados!
jef,
setembro 2026
«71
Fragmentos de uma Cronologia do Acaso» (71 Fragmente einer Chronologie des
Zufalls) de Michael Haneke. Com Gabriel Cosmin Urdes, Lukas Miko, Otto
Grünmandl, Anne Bennent, Udo Samel, Branko Samarovski, Claudia Martini, Georg
Friedrich, Alexander Pschill, Klaus Händl, Corina Eder, Dorothee Hartinger,
Patricia Hirschbichler, Barbara Nothegger, Gudrun Gutt, Michael
Jackson. Argumento: Michael
Haneke. Produção: Veit Heiduschka, Willi Segler. Fotografia: Christian Berger. Montagem:
Marie Homolkova. Som: Marc Parisotto. Guarda-roupa: Erika Navas. Áustria, 1994,
Cores, 100 min.
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