O próprio autor, em caracteres mais pequenos, vai dialogando
com a Ritinha, explicando ao que vem, o que pretende nesta alegoria, nesta
diversão, nesta anedota. Por fim, esclarece Ritinha e esclarece-nos e adverte-nos:
«…Ritinha, fiquemo-nos por aqui, que
o conto vai longo e repetido. Fecha o livro. Arruma-o em qualquer parte e manda
passear os fantasmas. Fartámo-nos de falar de mortos, de velhos, de mistérios,
quando afinal temos tanto para viver. Não é?»
Fecha-se o livro e, realmente, sobressai o cheiro áspero e
fétido de um mundo tão português que o país, hoje, não consegue despegar-se da
pele e dos ossos desse Portugal velho, tenebrosamente arcaico e repressor das
gentes e das palavras, religioso e obediente. Não é verdade que o velho e deformado
Dinossaurus Um proíbe, aprisiona e devora sistematicamente palavra sobre
palavra, descobrindo finalmente, horrorizado, que a abençoada palavra «ordem»
contém dentro «medo» e «morde»? Não é verdade que ao fim de tantas décadas de
democracia sempre se repetiu “quem se lixa é o mexilhão”? Que toda a política é
liderada por cortesãos devotos, dê-erres deslumbrantes deslumbrados, por
mexilhões obedientes, todos eles venerando o Mestre, o Imperador, o Ermitão encerrado na Torre das Sete Chaves, vindo de umas
insuspeitas berças, fugindo com sua mãe e seu pai no dorso de um burrico destinado a enfrentar e dominar com inteligência o templo dos Doutores? Que nunca
deixou de existir a falsa notícia do envelhecimento de Sua Excelência, o
Sáurio, da sua morte, ficando todos, obnubilados, cumprindo ordens decrépitas,
emanadas afinal pela máscara de uma estátua de bronze, a sempre jovem?
Este parece ser um livro dedicado a crianças velhas, velhos
imaturos, a um pais que parece não sair da cepa torta, autoritariamente
democrático, nostalgicamente rural, sempre com a saudade no dorso de um
jurássico Sebastião.
Um livro terrível e divertido, escrito pela mão absolutamente
de livre do mestre e desenhado pela demoníaca inspiração figurativa de outro
mestre.
Como hoje nos fazem falta José Cardoso Pires e
João Abel Manta!
jef, outubro 2026


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