domingo, 1 de novembro de 2026

Sobre o livro «Dinossauro Excelentíssimo» de José Cardoso Pires com ilustrações de João Abel Manta e arranjo de Sebastião Rodrigues, Publicações Europa-América, fevereiro de 1974 (6.ª edição). Escrito em Londres, entre o Natal de 1969 e março de 1971.



 























O próprio autor, em caracteres mais pequenos, vai dialogando com a Ritinha, explicando ao que vem, o que pretende nesta alegoria, nesta diversão, nesta anedota. Por fim, esclarece Ritinha e esclarece-nos e adverte-nos:

«…Ritinha, fiquemo-nos por aqui, que o conto vai longo e repetido. Fecha o livro. Arruma-o em qualquer parte e manda passear os fantasmas. Fartámo-nos de falar de mortos, de velhos, de mistérios, quando afinal temos tanto para viver. Não é?»

Fecha-se o livro e, realmente, sobressai o cheiro áspero e fétido de um mundo tão português que o país, hoje, não consegue despegar-se da pele e dos ossos desse Portugal velho, tenebrosamente arcaico e repressor das gentes e das palavras, religioso e obediente. Não é verdade que o velho e deformado Dinossaurus Um proíbe, aprisiona e devora sistematicamente palavra sobre palavra, descobrindo finalmente, horrorizado, que a abençoada palavra «ordem» contém dentro «medo» e «morde»? Não é verdade que ao fim de tantas décadas de democracia sempre se repetiu “quem se lixa é o mexilhão”? Que toda a política é liderada por cortesãos devotos, dê-erres deslumbrantes deslumbrados, por mexilhões obedientes, todos eles venerando o Mestre, o Imperador, o Ermitão encerrado na Torre das Sete Chaves, vindo de umas insuspeitas berças, fugindo com sua mãe e seu pai no dorso de um burrico destinado a enfrentar e dominar com inteligência o templo dos Doutores? Que nunca deixou de existir a falsa notícia do envelhecimento de Sua Excelência, o Sáurio, da sua morte, ficando todos, obnubilados, cumprindo ordens decrépitas, emanadas afinal pela máscara de uma estátua de bronze, a sempre jovem?

Este parece ser um livro dedicado a crianças velhas, velhos imaturos, a um pais que parece não sair da cepa torta, autoritariamente democrático, nostalgicamente rural, sempre com a saudade no dorso de um jurássico Sebastião.

Um livro terrível e divertido, escrito pela mão absolutamente de livre do mestre e desenhado pela demoníaca inspiração figurativa de outro mestre.

Como hoje nos fazem falta José Cardoso Pires e João Abel Manta!


jef, outubro 2026

  

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