quarta-feira, 1 de julho de 2026

Sobre o livro «A Flor e o Peixe» de Afonso Cruz, Companhia das Letras, 2022


 









Esta novela gráfica de Afonso Cruz é um acto poético escrito a partir de duas histórias de José Saramago para ser interpretado num espectáculo de teatro e dança (Play False) de Catarina Câmara. Os desenhos constantes de Afonso Cruz, a preto, vermelho e branco, abrem uma perspectiva fundamental para que se entenda como funciona o livro para o leitor – uma espécie de permanente fuga e retiro filosóficos em cada um dos capítulos constituídos por frases curtas numeradas como se se tratasse de versos antigos e orientais de uma estrofe a ser cantada ou linhas quíntuplas de uma pauta musical.

Um diálogo entre a aranha, que prende a mosca na sua teia feita de nós mas deixa escapar o céu, e a serpente, que defende a visão do rio que nada retém na sua corrente. Existe um rio Yangzi, com um único peixe que fugiu com o anzol lançado por uma cana partida e deixa, na margem, o menino pescador desolado. Existe uma montanha Lu onde a flor sequiosa é ajudada gota a gota pelo menino pescador, tornando-se a maior flor do mundo. Há uma menina dançarina que salva o peixe do anzol e colhe flores, encanta-se com a maior flor do mundo no topo da montanha, porém nunca se encontra com o menino. Sobem ou descem a montanha por caminhos sempre diversos. Afinal, o peixe mais desejado e a flor da montanha são as maiores dádivas – assuntos da generosidade, coisa que libertam mas, no final, acaba por prender.

Afonso Cruz escreve poesia como desenha, as linhas que unem o céu, o horizonte, o rio e as encostas da montanha são como cones de revolução ou pontos de fuga ou planos que se interceptam criando linhas imaginárias.

Afonso Cruz cria com a sua escrita gráfica a mais bela e poética geometria descritiva dos universos paralelos.


jef, junho 2026