Este é um dos filmes que, vistos pela primeira vez, permanece dentro do espectador como uma divergência emocional ou um incómodo que poderíamos apelidar de moralmente estético. Jamais esquecemos a solidão pungente, o afecto candente que aquelas figuras nos causam.
Certas imagens jamais serão esquecidas.
Por
que Roslyn (Roslyn Taber) é filmada à distância, figura branca sobre o deserto
branco, tomada pelo desespero histérico suplicando pela sobrevivência dos cavalos
selvagens, acusando todos três cowboys de assassinos se, afinal, é contra a
morte a que todos estão verdadeiramente ligados que ela vocifera?
Após
o rodeo, no bar onde todos se embebedam, a figura luminosa de Roslyn surge como
o anjo que os tenta salvar da inevitável perda final, que também a
consome: Gay (Clark Gable) deseja
desesperadamente reencontrar os filhos que lhe fugiram e dos quais fugiu; Perce
(Montgomery Clift) não admite ter sido expulso de casa (e da mãe)
pelo padrasto após a morte do pai; Guido (Eli Wallach) tenta sublimar a morte
da mulher por causa da ausência de um pneu sobresselente e toda a morte que o
seu avião causou durante a grande guerra. Enquanto isso, Guido pisa as flores
que Gay plantou e prega as tábuas da casa que não chegou a terminar.
Por
que razão Isabelle (Thelma Ritter), o sorriso e a voz doce do
perdão e da reconciliação, talvez da redenção, desaparece de cena a meio do
filme correndo atrás do ex-marido que ela encontra na rua com a nova
mulher?
Tudo,
verdadeiramente tudo é dramático: as expressões carentes, quase mutiladas pelo
destino incerto e pelas escolhas por assumir, também a música (Alex North) e a
luz (Russell Metty), nos indicam que a tragédia se aproxima e se consumará
(apesar do possível e dramático “final feliz”).
Tudo,
até as lágrimas pela amargura nas cenas durante do rodeo onde Perce se sacrifica
montado no cavalo e na vaca, depois o riso quando Roslyn ganha dinheiro com a
raquete aprisionada à própria bola, tudo vai ficando denso, igualmente aprisionado
à insegurança sem futuro e ao sofrimento dilacerante dos seis cavalos exaustos, agrilhoados por correntes a pesados pneus de camião. Afinal, tal como os
animais, prontos para o sacrifício final, cuja libertação afinal jamais os resgatará.
Um
dos meus filmes de sempre!
jef,
maio 2026
«Os
Inadaptados» (The Misfits) de John Huston. Com Clark Gable (Langland), Marilyn
Monroe (Roslyn Taber), Montgomery Clift (Perce Howland), Thelma
Ritter (Isabelle Steers), Eli Wallach (Guido Delinni), James Barton (o velho no
bar), Kevin McCarthy (Raymond Taber), Peggy Barton (a noiva), Rex Bell, Ryall
Bowker, Frank Fanelli Sr., Estelle Winwood (a mulher que faz o peditório),
Philip Mitchell (Charles Steers), Walter Ramage (o noivo), Peggy Barton (a
noiva), Marietta Tree (Susan), Bobby Lasalle (um empregado de bar), John Huston
(um jogador). Argumento: Arthur
Miller. Produção: Frank E. Taylor, John Huston. Fotografia: Russell Metty.
Música: Alex North. Guarda-roupa: Jean-Louis (vestidos de
Marylin Monroe). EUA, 1961, P/B, 125 min.




































