segunda-feira, 27 de abril de 2026

Sobre o filme «Mektoub, Meu Amor: Canto Segundo» de Abdellatif Kechiche, 2025



 



























Parece que a palavra “mektoub”, de origem árabe, significa “já está escrito”, como “destino”.

O filme conclui a trilogia filmada entre 2016 e 2018 começada com «Mektoub, Meu Amor: canto Primeiro» (2018) e prossegue com «Mektoub, My Love: Intermezzo» (2019), que não foi estreado.

«Mektoub, Meu Amor: Canto Segundo», a terceira parte, conclui-se com uma corrida nocturna (ou uma fuga, ou até uma possível chegada) de Amin (Shaïn Boumedine), tal como sucede no final nevrótico de «O Segredo de um Cuscuz» (2008). (Outro filme maravilhoso!) Amin corre, Amin foge, porque tudo vê, tudo reflecte com a sua máquina fotográfica, Amin tudo sabe mas tudo deve silenciar, a consciência calada do ecrã, numa espécie de reserva moral da verdade e da sobrevivência. Contudo, nesta terceira parte da trilogia, neste final festivo que celebra o futuro casamento entre Ophélie (Ophélie Bau) e o soldado destacado no exterior Clément (Robin Brodu), uma celebração condimentada pelo regresso do casal sucesso, vindo de Hollywood, Jodi Taylor (Jessica Patterson) e Andre Jacobs (Jack Patterson). Tudo é festa numa espécie de comédia exuberante e familiar pontuada por parêntesis de silêncios e omissões, quase segredos, como acontece em todas as famílias. Pelo meio, um guião para um filme de ficção científica e um primo, Tony (Salim Kechiouche), exibicionista, fala-barato, conquistador de meia tijela, que em tudo mete o bedelho. Tudo sob a discrição do silencioso primo Amin. Tony que vai desencadear o final de acção, um final quase burlesco onde a fuga sem termo de Amin representa toda a não conclusão que sempre sustém a vida.

Se existe um realizador “hiper-realista” ele é Abdellatif Kechiche. Ele tem a ciência estética de colocar a câmara sobre os actores de tal modo que sugere neles desaparecer para extrair apenas a mais sincera fotogenia de cada um, de cada um dos personagens. Abdellatif Kechiche consegue que nos apaixonemos por todos eles, mulheres e homens, um por um, e em simultâneo, que abracemos as respectivas dores, sintamos as suas angústias e nos irmanemos desse lado festivo (mas calado) de cada uma das sequências, com a sensação verídica de que os seus filmes são sobre tudo mas, afinal, são sobre nada. Mais uma vez, como na vida. No fundo, o realizador faz-nos sentar à mesa das personagens e desaparecer dentro do seu apetite. Principalmente, do voraz apetite de Jessica Patterson que, pela sua exigência tardia por um bom cuscuz, nos introduz numa família em ansiedade colectiva, dentro de um restaurante de portas fechadas.

Não há como Abdellatif Kechiche para nos demonstrar como é à mesa que tudo começa (e que tudo pode terminar) – Não esqueço as cenas sublimes em torno de um almoço em «O Segredo de um Cuscuz».

Afinal, Abdellatif Kechiche (tal como Abbas Kiastomi) faz-me desaparecer no interior dos seus filmes, desaparecer no interior da sua realidade, sofrer e amar a existência sem história das suas personagens.

Ou seja, Abdellatif Kechiche faz da realidade um belíssimo cerimonial! Da fotogenia, uma paixão pela verdade!


jef, março 2026

«Mektoub, Meu Amor: Canto Segundo» (Mektoub, My Love: Canto Due) de Abdellatif Kechiche. Com Shaïn Boumedine, Ophélie Bau, Jodi Taylor, Salim Kechiouche, Andre Jacobs, Dany Martial, Delinda Kechiche, Alexia Chardard, Hafsia Herzi, Lou Luttiau, Marie Bernard, Meleinda Elasfour, Roméo De Lacour, Kamel Saadi, Hatika Karaoui, Athénaïs Sifaoui-Blanc, Christophe Brodu, Jeanne Corporon, Henri Cohen, Robin Brodu, Morgane Sallet-Doucey, Pauline Dumas, Emilia Suau, Magali Boudou, Laurent Garcia, Alexandre Ribot, Kader Bouallaga, Justine Garcia, Rabah Benjadou, Hélène Geier, Christian Prat. Argumento: Abdellatif Kechiche, Ghalya Lacroix. Produção: Abdellatif Kechiche, Riccardo Marchegiani. Fotografia: Marco Graziaplena. Música: Leo Caresio, Hugo Rossi. França, 2025, Cores, 134 min.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Sobre o filme «Niagara» de Henry Hathaway, 1953



 
























É um filme que nunca esqueci. Visto algumas vezes desde criança, na televisão.

Afinal, como é possível esquecer esta Marilyn Monroe (Rose Loomis) em maravilhoso Technicolor, o andar coleante, quase desequilibrado, a chegar perto do disco jockey pedindo para colocar o disco com a canção “Kiss” (levando depois o marido George Loomis (Joseph Cotten) a sair como um louco do quarto para escaqueirar em bocadinhos o mesmo disco)? Como esquecê-la, vestido vermelho, sentada, enquanto trauteia-a os versos da canção?

Algumas cenas depois, a sair da pensão enigmática com aquela pequena mala paralelepipédica, de peguinha, totalmente transparente. Muito depois, já acossada, escondendo-se na torre dos sinos, subindo infinitas escadas arquitectónicas, entre sombras e luz trapezoidal (a fotografia é de Joseph MacDonald), os sinos como vigilantes acusadores, numa cena que colocaria Hitchcock ruído de inveja.

Como não admirar a frescura de Jean Peters, a bondosa e inteligente Polly Cutler, que, à pergunta do marido Ray (Casey Adams) porque não usava um vestido assim, ela responde, para o fazer, deveria ter começado a treinar aos 13.

Como não ficarmos presos a outra cena de escadas, agora de madeira, sob a chuva constante das cataratas, quando o vivo-morto George persegue Polly, quase para se desculpar, ou para se ilibar?

Como não nos comovermos pelo gesto de Joseph Cotten tentando salvar Jean Peters na frenética viagem em direcção à implacável queda do barco no abismo aquático?

Pode não ser o filme de suspense mais perfeito mas que é inesquecível, é mesmo. E quase tudo por culpa de Marilyn Monroe (que até desaparece muito antes das cenas finais!).


jef, abril 2026

«Niagara» de Henry Hathaway. Com Marilyn Monroe, Joseph Cotten, Jean Peters, Casey Adams, Denis O'Dea, Richard Allan, Don Wilson, Lurene Tuttle, Russell Collins, Will Wright, Harry Carey Jr, Carleton Young. Argumento: Charles Brackett, Walter Reisch, Richard L. Breen. Produção: Charles Brackett. Fotografia: Joseph MacDonald. Música: Sol Kaplan, Lionel Newman, Edward B. Powell. Canção: “Kiss” de Lionel Newman e Haven Gillespie. Efeitos visuais: Larry H. Hampton Guarda-roupa: Dorothy Jeakin. EUA, 1953, Cores, 88 min.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Sobre o filme «All of Us Strangers» de Andrew Haigh, 2023









 













Londres está por perto, vislumbra-se do alto de um prédio ainda (ou já) quase desabitado. Apenas Adam (Andrew Scott) e, no sexto andar, Harry (Paul Mescal). Ambos têm uma escolha imposta, entre a solidão e a sobrevivência. Adam escreve guiões para cinema e recorre à memória das fotografias de infância para prosseguir o seu trabalho. Harry bate à porta de Adam, depois de se terem olhado pela janela alta. Traz uma garrafa de uma qualquer bebida chinesa, pergunta se pode entrar, Adam recusa, talvez por medo, talvez por não querer destruir o casulo onde vive. Contudo, uma velha fotografia de uma casa fá-lo voltar de comboio a tempos idos.

Aí, o que parece uma cena de engate com um homem, passada numa zona florestal e depois num supermercado, é apenas a necessidade de regressar e tentar reconciliar-se com o passado quando, aos 12 anos de idade, Adam perde ambos os pais num acidente brutal de viação, em noite de Natal.

É quando, em sucessivos arcos em flashback impossível, numa excepcional entrada num tempo cristalizado, reavaliará a estratégia calada (ou reprimida) desde essa altura, com a mãe (Claire Foy) e com o pai (Jamie Bell). Um acto cinematográfico absolutamente poético. Adam explicará assim, após décadas, o bullying que sofreu na escola por ser homossexual e como agora a SIDA até já tem cura.

A densidade espectral da luz na fotografia de Jamie Ramsay vai envolvendo a necessidade cada vez maior dos dois inquilinos, também eles quase espectrais, se encontrarem numa relação que tem tanto de afecto e de desejo sexual como de necessidade de compreensão e protecção, uma difícil estratégia psicanalítica de regresso ao que já foi para se compreender e, certamente, desculpar. Também para desculpar os pais que partiram antes do tempo, deixando-o apenas entregue aos seus mortos e à própria memória truncada.

Adam precisa do desejo de Harry para ultrapassar o medo que é provocado pela inevitabilidade da morte, pelo desaparecimento irreversível.

Porém, a morte é inevitável e o fim de tudo, irreversível. Resta-nos apenas a respectiva convivência factual, paradoxal, mas absolutamente carinhosa.

Como a ternura pode estar em pé de igualdade com a solidão e a morte.

É preciso ouvir «The Power of Love» dos Frankie Goes to Hollywood!


jef, março 2026

«All of Us Strangers» (Desconhecidos) de Andrew Haigh. Com Andrew Scott, Paul Mescal, Jamie Bell, Claire Foy, Carter John Grout, Ami Tredrea. Argumento: Andrew Haigh segundo o romance “Strangers” de Taichi Yamada. Produção: Graham Broadbent, Peter Czernin, Sarah Harvey Fotografia: Jamie Ramsay. Música: Emilie Levienaise-Farrouch. Guarda-roupa: Sarah Blenkinsop. EUA / Grã-Bretanha, 2023, Cores, 105 min.


segunda-feira, 20 de abril de 2026

Sobre a peça «Rei Lear» de William Shakespeare, Teatro do Bairro, 2026





 


















































Como entender o prazer, o entusiasmo, talvez a necessidade, de, hoje, estar em palco e assistirmos a «Rei Lear» publicado pela primeira vez em 1607 (e representado em 1606)? Como justificar a sumptuosidade clássica e dramática da mais trágica das tragédias, de onde poucos saem vivos?

Será pela eterna similitude da questão política quanto à partilha de terrenos e bens (naquela vaga era pré-cristã ainda não se falava em poços de petróleo)?

Será pela notada decrepitude de um monarca que se abstém do poder e dos bens para os distribuir pelas três infantas, suas filhas e herdeiras, mas não possui já o discernimento de bem as julgar nem quer abdicar do séquito de centenas de cavaleiros, pretendendo continuar a circular pelo território, outrora seu, sem obrigações de estado mas mantendo intactas a reverência para com o monarca e as respectivas mordomias?

Será pela infalível clarividência sobre a inveja e igualmente pouca sabedoria, também o menor afecto demostrados, que obrigam as duas herdeiras mais velhas a intrigarem, dizendo o dito pelo não dito, a mentira pela verdade, trocando a lisonja pela responsabilidade, deixando, afinal, o velho rei empobrecido e desvairado entregue à tempestade sem tecto e acompanhado somente pela lealdade sem barreiras do bobo e depois por um homem selvagem que ocupa uma pobre cabana onde poderão abrigar-se da borrasca?

Ou será pelo maléfico enredo de mentiras e mal-entendidos arquitectado por um filho bastardo que pretende conquistar a riqueza do seu pai e do seu irmão, o legítimo?

Obviamente todas as respostas afirmativas às questões são verdadeiras, e muitas outras poderiam ser feitas, pois tão trágica tragédia demonstra-se infinita quanto a análises e interpretações. Contudo, seria leviano não perceber que o que me leva acima de tudo a entusiasmar-me com esta longínqua história vinda de uma lenda antiquíssima sobre um hipotético monarca com três filhas, lenda que terá passado ainda a canção de bardo, é a sua absoluta poética colocada em suspenso perante os olhos e o coração do espectador. 

É soberbo o acto em que o filho bom, mascarado de andarilho, leva Gloucester até ao precipício onde este se pretendia lançar. Um falso precipício onde nada se vê por Gloucester estar cego, onde nada se ouve vindo do mar por este estar tão infinitamente distante (e ausente).

Também a cena pungente final quando o velho Lear doente, sustenta o cadáver da filha, mortalmente sofrido, como uma Pietà, e Kent pede para o deixarem partir, não o perturbarem mais, pois seria odiá-lo prolongar-lhe a existência neste mundo feroz.

Maravilhoso tal conjunto de actores que sofrem por Lear, diante nós, num casto por quase românico cenário, numa sequente circulação de personagens na penumbra de portas ogivais, tronos vazios, escadas fúnebres e paredes tumulares que giram. O exercício carinhoso e hercúleo de movimentação cenográfica para tão delicada e labiríntica marcação de cena.


jef, 18 de abril de 2026


Rei Lear, um dos textos maiores de William Shakespeare, conta-nos a história de um monarca envelhecido que decide dividir o reino entre as três filhas, esperando retirar-se do governo, mas conservar a autoridade e a reverência de todos. Ao exigir declarações públicas de devoção, desencadeia um jogo político que rapidamente se volta contra ele. Expulso do poder e traído pelas próprias alianças que julgava seguras, Lear vagueia num mundo que já não lhe pertence. Na tempestade e na ruína descobre demasiado tarde a fragilidade do poder e da própria condição humana.

 

Texto: William Shakespeare. Tradução: Álvaro Cunhal. Encenação: António Pires. Com Adriano Luz (Lear, Rei da Bretanha), André Ramos, Carolina Campanela (Cordélia), Cláudio da Silva (Bobo), Crista Alfaiate (Regane), Dinarte Branco (Duque de Albânia), Dinis Gomes (Duque de Cornualha), Francisco Vistas (Edmundo), Gonçalo Norton (Osvaldo, intendente de Goneril), Hugo Mestre Amaro (Rei de França), Jaime Baeta (Edgar / Tom de Bedlam), João Barbosa (Conde de Kent), Marcello Urgeghe (Conde de Gloucester), Rodrigo Machado (Duque de Borgonha) e Sofia Marques (Goneril). Cenografia: João Mendes Ribeiro. Figurinos: Luísa Pacheco. Música: Daniel Bernardes. Caracterização: Nuno Esteves (Blue). Assistente de encenação: Carolina Ferrão. Desenho de luz: Rui Seabra. Desenho de som: Paulo Abelho. Costureira: Rosário Balbi. Construção de cenário: Fábio Paulo. Operação de luz: António Serrão e João Madeira. Operação de som: Vasco Maciel. Chefe de guarda roupa: Inês da Mata. Assistentes de guarda-roupa: Beatriz Dinis e Ema Falcão; Ilustração: Joana Villaverde. Fotografia de cena: Miguel Bartolomeu. Produção: Carolina Leite Ribeiro, Isabel Carvalho, Ana Bordalo, Alexandre Oliveira. Ar de Filmes / Teatro do Bairro.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Sobre o filme «Quando a Cidade Dorme» de John Huston, 1950



 

























Não sei se motivado pela discussão sobre o género na sociedade contemporânea vejo este filme e parece-me que a cinematografia de John Huston é substancialmente ultra-masculina. «The Asphalt Jungle» é um filme nocturno onde homens durões, polícias sisudos, ladrões musculados e de voz grossa, agentes corruptos, comerciantes cúmplices tecem estratagemas de “toca e foge” para conseguirem abrir casinos clandestinos, apostar em cavalos sem dinheiro, roubar jóias e pedras preciosas, prender meliantes, fugir à policia, tentando, apesar de tudo, viver uma vida normal.

Todas as cenas entre eles, planeando o golpe de mestre, são de uma clareza ostensiva entre as sombras minuciosas e a luz fotográfica (Harold Rosson). Todo o golpe é apresentado milimetricamente numa sumptuosa contenda aristocrática entre Alonzo Emmerich (Louis Calhern) e Doc Erwin Riedenschneider (Sam Jaffe), tendo pelo meio o peão de brega, alto, forte, rural, quase ingénuo, Dix (Sterling Hayden). Tudo se move à noite, vigiado pelo omnipresente e omnisciente chefe da polícia (Ray Bennett). Tudo másculo, implacável e testosterónico, sempre de cigarro ou charuto ao canto da boca.

Do lado feminino mas ao lado de Emmerich, permanece de cama, frágil, entediada e a solicitar um jogo de cartas, a sua mulher May (Dorothy Tree) e na sua outra mansão a boneca estilizada Angela (Marilyn Monroe), rogando por uma viagem às Caraíbas. Ao lado do apostador em corridas de cavalos, Dix, circula a carente Doll Conovan (Jean Hagen) que lhe roga por tecto, apoio e, principalmente, um pouco de amor, contudo ele apenas pretende chegar até à propriedade dos pais e encontrar-se definitivamente com os seus cavalos, num regresso à infância.

Os géneros neste filme parecem estar bastante definidos. No início dos anos 50, um filme com polícias e ladrões de John Huston não podia deixar de ser assim.

Contudo, a cena quase final em que Doc, fugindo da cidade com o forro do sobretudo pesado de tantas pedras preciosas, se deixa inebriar, digamos comover, pela jovem que no grupo de amigos dança alegremente ao som da jukebox. Um passado germânico de solidão, misogenia, quase de atracção-repulsa pelo sexo feminino passa-lhe pelos olhos. Passa pelo ecrã.

Um filme que, afinal, não deixa de ser um apuro narrativo e de caracterização dogmática dos géneros no cinema americano dos anos 50. Uma delícia de filme.


jef, abril 2026

«Quando a Cidade Dorme» (The Asphalt Jungle) de John Huston. Com Sterling Hayden, Louis Calhern, Jean Hagen, James Whitmore, Marilyn Monroe, Sam Jaffe, John McIntire, Marc Lawrence, Barry Kelley, Anthony Caruso, Teresa Celli, William 'Wee Willie' Davis, Dorothy Tree, Brad Dexter, John Maxwell, Ray Bennett. Argumento: Ben Maddow, John Huston segundo o romance de W.R. Burnett. Produção: Arthur Hornblow Jr., John Huston. Fotografia: Harold Rosson. Música: Miklós Rózsa. Guarda-roupa: Consolata Boyle. EUA, 1950, P/B, 112 min.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Sobre o livro «Fuga Sem Fim» de Joseph Roth, Dom Quixote, 2025 (1927). Tradução de José Sousa Monteiro.



 







Judeu errante. Tal como Stefan Zweig, o austro-húngaro viveu e escreveu sem pátria. O império e os Habsburgo em declínio, o arquiduque Franz Ferdinand morto em Sarajevo. O alistado Joseph Roth, preso na Rússia, vai percorrendo a Europa para oeste com os seus passos, com a proximidade de uma segunda guerra, com a sua veia de jornalista. Da Galícia ucraniana e do Cáucaso, à Sibéria, de Moscovo a Kiev, de Bucareste a Amesterdão. A Paris!

Mas ao contrário de um certo romantismo, trágico e bucólico de Stefan Zweig, a Paris de Joseph Roth é modernista, cheira a jazz e a charleston, a álcool e a Gatsby. Também este escritor romântico, diletante, apaixonado e profusamente filosófico.

Avisa logo no início que contará a história, através de factos sabidos e documentos, de um amigo, camarada e companheiro de ideias: Franz Tunda – um militar refugiado e escondido na taiga siberiana, filho de um major austríaco e de uma judia polaca. Polaco por adopção e subterfúgio, eterno noivo prometido de Irene Hartmann. Forte e indolente, um romântico e apaixonado, repito: Yekaterina Pavlovna, Natacha Alexandrovna, Alja, à senhora G. ou a Pauline Cardillac.

Pode dizer-se que Joseph Roth tem o génio de narrar e filosofar, provocar a sociedade, com um sarcasmo surrealista e ternurento e o delirante humor ácido costurado entre as linhas das suas descrições, como fizeram, décadas antes, Eça de Queirós, Flaubert ou Dickens.

«Tunga, porém, personificava a falta de confiança. Era uma pessoa de tão pouca confiança que nem sequer poderíamos suspeitar, nele, egoísmo. (…). No fundo era um europeu, um “individualista”, como dizem as pessoas cultas. Para viver a vida precisava de relações complicadas. Precisava de uma atmosfera de mentiras confusas, ideais falsos, aparência de saúde, de putrefação bem conservada, fantasmas pintados de vermelho, no fundo era a atmosfera dos cemitérios que mais parecem salas de baile, fábricas, escolas ou grandes salões. Precisava da proximidade de arranha-céus, porque andamos sempre a adivinhar o dia em que eles irão desmoronar-se, mas por outro lado têm existência garantida para durar séculos.

Era um “homem moderno”.»

(Franz Tunda ou Baranowics ou) Joseph Roth é um constructor de cenários de papel sobre pedra e cal, de personagens luminosas de carne osso e fantasia, tão desesperadamente humano e interior (como Albert Camus) que só podia manisfestar-se através de uma alma literária enraizada no seu profundo interior, mais tarde também em nós, em confronto com o riso, a sociedade e a solidão.

Um autor imprescindível.

 

jef, abril 2026

terça-feira, 14 de abril de 2026

Sobre a peça «Evita» de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice. Paulo Sousa Costa / Yellow Star Company. Capitólio, 2026.



 













































Muito interessante assistir ao musical «Evita», hoje, em Lisboa, enquanto vejo Donald Trump a fazer-se passar por Jesus Cristo; pouco depois do prisioneiro Bolsonaro empunhar armas frente à multidão entusiasmada; enquanto Javier Milei, o argentino, exibe motosserras e conquista o voto do povo. Sim, a mesma Argentina da desvalida Eva Duarte, mais tarde santa Eva Péron, vice-presidente e voz dos “descamisados”, que não possuía redes sociais ou algoritmos digitais mas conquistou igualmente o poder graças a uma vontade indómita e uma determinação ilimitada. Evita, assim se apelidava a si própria, viveu o apogeu, de modo fulgurante e fugaz até à sua morte, em 1952. Sete anos de esplendor, apenas. Como qualquer estrela pop ou actor levado na flor da idade pela droga ou acidente de viação, e para gáudio da eterna fama ou devoção. Regressando ela, anos mais tarde, a Buenos Aires, embalsamada, de branco, num caixão de vidro.

É campo perfeito para que Andrew Lloyd Webber e Tim Rice escrevessem uma nova e imortal ópera-rock (1978). Uma peça musical que chega a Lisboa, numa das épocas teatrais mais maravilhosamente agitadas da capital. Pela mão de Paulo Sousa Costa e da Yellow Star Company.

E a alegria e também qualidade da produção subscreve a aparente simplicidade com que monta (ou desmonta) o figurino do drama, construído através de uma enorme analepse, ou flashback, de duas horas. No início, um caixão de vidro iluminado é cerimoniosamente construído pelo povo sobre duas mesas simples de bar ou cabaret. Um requiem ou um salve regina, um tango, uma breve elegia a condensar a meteórica tragédia de Eva Duarte.

Sofia Escobar interpreta de alma, voz e corpo a fragilidade da figura imortal, e Diogo Morgado, mordaz e forte, evoca o contraponto heroico e teatral da fábula, como coro grego explicando e desfazendo o logro de tal ambição, de tal encenação. Ainda a voz de Diogo de Carvalho, Ricardo Soler e Rebeca Reinaldo a fazer todo o sentido no timbre e na harmonia dessa mesma ascensão e queda, representada num cenário arquitectónico simples (para não distrair e concentrar emocionalmente o drama), num palco exíguo que transforma as coreografias em actos íntimos de dança, apenas interrompidos, entre cenas, aqui e ali, por curtos e silenciosos espaços temporais a negro.

Uma peça musical que nos emociona e diverte mas que nos coloca também a eterna questão: será que a história no mundo se repete?


 27 de março a 28 de junho de 2026. De quinta-feira a sábado, 21h00. Sábado e domingo, 16h00 e 21h00

 

jef, Capitólio, 11 de Abril de 2026

«Evita» de Andrew Lloyd Webber (música) e Tim Rice (letra). Encenação e direcção artística: Paulo Sousa Costa. Com: Sofia Escobar (Eva Péron), Diogo Morgado (Che), Diogo de Carvalho (Péron), Ricardo Soler (Magaldi), Rebeca Reinaldo (Amante de Péron), André Lourenço (Ensemble), Beatriz Lema (Ensemble), Diogo Pinto (Ensemble), Eliseu Ferreira (Ensemble), Inês Martins (Ensemble), João Maria Reis (Ensemble), José Valente (Ensemble), Maria Almeida (Ensemble), Maria Braga (Ensemble), Mariana Marques Guedes (Ensemble), Miguel Barroso (Ensemble), Miguel Sousa (Ensemble), Sílvia Mirpuri (Ensemble). Assistente de encenação: João Vilas. Coreografia: Mariana Luís e Pedro Borralho. Direcção musical: Carolina Puntel. Figurinos: Sofia Lima, Tony Miranda. Cenografia: Fred Klaus. Aderecista: Carolina Almeida. Desenho de luz: João Oliveira. Cartaz, criativo e voz off: Pedro Matias Maria. Fotografia: José Correia. Designer gráfico: Vasco Lopes. Capitólio. Produção: Yellow Star Company. Duração: 120 minutos.