João Luís Barreto Guimarães é o poeta do possível, digamos
melhor, o poeta do concreto, do tangível, dos contornos e das imagens, ou do
que elas ensinam e nos transcendem, gravando-se em nós. Por isso, também
dramaturgo, pois no palco a imagem é fundamental para transcender a realidade –
Uma caravana razoavelmente equipada, mesinha, cadeiras de campismo, fogão,
chaleira que assobia, gambiarra, quatro grades de cerveja. Aliás, um veículo muito
bem equipado para estar estacionado em terreno baldio junto a um bosque, a
poucos quilómetros da cidade de que se deseja fugir, a dois passos de um pub
onde às sextas é possível encontrar companhia feminina. Quem lá vive, tem
vários nomes – Estranho, Professor, por fim, talvez Tomás. Tais mulheres precisam
conhecer-lhe o nome, questionam a noite, os insectos ou os animais selvagens, a
fase lunar, o sentido do musgo, a alimentação saudável, a propriedade – Ana,
Maria, Helena. Talvez.
Afinal, a caravana, talvez seja mais roulotte.
Afinal, em torno da Caravana, agora, tudo parece um pouco mais
desarrumado, confuso. A luz permanece nocturna mas o contracampo iluminado das
várias janelas fornecem a intimidade de uma certa claustrofobia. O encenador
mantém assim o estatuto intimidante de uma personagem, talvez Tomás, e deixa o
resto para o espectador intuir. Aliás, o encenador, João Pedro Vaz, tem pela
frente um trabalho exigente, minucioso, claramente eficaz, terno mesmo, ao
entregar aos actores uma marcação de cena filigrânica que inclui as inúmeras
indicações e didascálias que o autor inscreve entre o discurso directo. (Leio o
texto editado pela Húmus. Gosto de ler teatro.) Diga-se que a luz no
espectáculo é fundamental, é de Manuel Abrantes.
É nesse jogo nocturno do recorte das janelas iluminadas, onde
os actores (Joaquim Horta e Rita Calçada Bastos) e as suas personagens aparecem
sincopadamente, como simulacros de vida ou cromos de uma caderneta sobre a
solidão do luto, que se joga o fundamento emocional da intriga.
Por fim, em fase de Lua Cheia, num acesso voluntário de arrumação de cena, e à boca de cena, dois monólogos banais, sobre o difícil arranjo do carro na oficina ou a dificuldade de ler sem óculos progressivos, monólogos ditos em simultâneo, mas que por vezes se sincronizam em simultâneo, em cânon, em fuga (como na música de Bach), o pano cai e a luz aproxima-se salvadora.
Talvez
seja mesmo a busca de um nome próprio, a máscara necessária para resistir à
solidão.
jef, 5 de julho de 2026
«Caravana» de João Luís Barreto Guimarães. com Joaquim Horta
e Rita Calçada Bastos. Encenação João Pedro Vaz. Cenário e Figurinos: Sara
Vieira Marques. Desenho de luz: Manuel Abrantes. Teatro Nacional São João. Teatro
Aberto. Duração: 90 min.
20 junho a 26 julho 2026
quarta-feira e quinta-feira: 19.00 h; sexta-feira e sábado:
21h30; domingo: 16h. No Teatro Aberto, Lisboa.









.jpg)

.jpg)













