A
abominável arte da guerra segundo o extraordinário olhar de Ingmar Bergman. Antes,
os efeitos de uma hipotética e abominável guerra fratricida no corpo e na alma
de um casal de músicos exilados numa ilha após a extinção da orquestra pela iminência
do conflito. Eva Rosenberg (Liv Ullmann) e Jan Rosenberg (Max von Sydow) têm
uma estufa de mirtilos, criam galinhas e coelhos, vivem num idílio enquanto falam
da possibilidade de um próximo primeiro filho. Contudo, o idílio está ameaçado.
Os sinos não param de tocar e não é domingo, o telefone toca mas ninguém fala
do outro lado, eles devem sair de casa depressa mas o carro não pega e o casaco está
esquecido. Há um sonho inicial e não é agradável.
O
efeito da guerra está espelhado nos sonhos, esse, o sonho inicial, depois aquele
em que Eva diz que está a viver o de uma outra pessoa e questiona o acordar alheio, aquele outro em que vê o muro branco e as rosas em chamas. Para além dos
sonhos, fundamental é o som (Lennart Engholm) num dos filmes mais violentos de Bergman. Como resistir a um conflito que atinge cada um (e como é
expressamente referido) sob o signo da culpa, da dor e do medo? Que fazer
quando ambas as partes (indistintas pelos fardamentos iguais) os fazem colaboracionistas
ou os tomam por colaboracionistas. Como fugir à barbárie se as estradas estão incendiadas? Como resistir ao ódio
que a guerra instala em cada um dos seus corações?
O fim está próximo. Após comprarem o peixe a Filip (Sigge Fürst) e venderem os frutos ao presidente da câmara, Jacobi (Gunnar Björnstrand), visitam o amigo antiquário (Hans Alfredson) para lhe comprarem uma garrafa de vinho. Este aparece fardado, mobilizado, e despede-se das suas antiguidades e dos amigos, deixando-os a ouvir uma caixa de música de porcelana do século XVIII. É a alegoria mais programática do filme que mal começou. Para terminar no larguíssimo plano oceânico que suporta um pequeno barco sem barqueiro.
Um
filme belíssimo, trágico e urgente para um bélico e ignóbil início do século
XXI.
jef,
fevereiro 2026
«A
Vergonha» (Skammen) de Ingmar Bergman. Com Liv Ullmann, Max von Sydow, Sigge
Fürst, Gunnar Björnstrand, Ulf Johansson, Hans Alfredson, Frank
Sundström, Vilgot Sjöman, Bengt Eklund, Gösta Prüzelius, Willy Peters, Barbro
Hiort af Ornäs, Agda Helin, Ellika Mann, Rune Lindström, Axel Düberg, Lars
Amble. Argumento: Ingmar
Bergman. Produção: Lars-Owe Carlberg. Fotografia: Sven Nykvist. Som: Lennart
Engholm. Música: Excertos de Brandenburg Concerto nº 4, de J. S. Bach. Guarda-roupa:
Mago. Suécia, 1968, Cores, 103 min.






















