Não
sei se motivado pela discussão sobre o género na sociedade contemporânea vejo
este filme e parece-me que a cinematografia de John Huston é substancialmente ultra-masculina.
«The Asphalt Jungle» é um filme nocturno onde homens durões, polícias sisudos,
ladrões musculados e de voz grossa, agentes corruptos, comerciantes cúmplices
tecem estratagemas de “toca e foge” para conseguirem abrir casinos
clandestinos, apostar em cavalos sem dinheiro, roubar jóias e pedras preciosas,
prender meliantes, fugir à policia, tentando, apesar de tudo, viver uma vida
normal.
Todas
as cenas entre eles, planeando o golpe de mestre, são de uma clareza ostensiva
entre as sombras minuciosas e a luz fotográfica (Harold Rosson). Todo o golpe
é apresentado milimetricamente numa sumptuosa contenda aristocrática entre
Alonzo Emmerich (Louis Calhern) e Doc Erwin Riedenschneider (Sam Jaffe), tendo
pelo meio o peão de brega, alto, forte, rural, quase ingénuo, Dix (Sterling Hayden).
Tudo se move à noite, vigiado pelo omnipresente e omnisciente chefe da polícia
(Ray Bennett). Tudo másculo, implacável e testosterónico, sempre de cigarro ou
charuto ao canto da boca.
Do
lado feminino mas ao lado de Emmerich, permanece de cama, frágil, entediada e
a solicitar um jogo de cartas, a sua mulher May (Dorothy Tree) e na sua outra
mansão a boneca estilizada Angela (Marilyn Monroe), rogando por uma viagem às Caraíbas. Ao lado do apostador em corridas
de cavalos, Dix, circula a carente Doll Conovan (Jean Hagen) que lhe roga por
tecto, apoio e, principalmente, um pouco de amor, contudo ele apenas pretende chegar
até à propriedade dos pais e encontrar-se definitivamente com os seus cavalos,
num regresso à infância.
Os
géneros neste filme parecem estar bastante definidos. No início dos anos 50, um
filme com polícias e ladrões de John Huston não podia deixar de ser assim.
Contudo,
a cena quase final em que Doc, fugindo da cidade com o forro do sobretudo
pesado de tantas pedras preciosas, se deixa inebriar, digamos comover, pela
jovem que no grupo de amigos dança alegremente ao som da jukebox. Um passado germânico
de solidão, misogenia, quase de atracção-repulsa pelo sexo feminino passa-lhe
pelos olhos. Passa pelo ecrã.
Um
filme que, afinal, não deixa de ser um apuro narrativo e de caracterização dogmática
dos géneros no cinema americano dos anos 50. Uma delícia de filme.
jef,
abril 2026
«Quando a Cidade Dorme» (The Asphalt Jungle) de John Huston. Com Sterling Hayden, Louis Calhern, Jean Hagen, James Whitmore, Marilyn Monroe, Sam Jaffe, John McIntire, Marc Lawrence, Barry Kelley, Anthony Caruso, Teresa Celli, William 'Wee Willie' Davis, Dorothy Tree, Brad Dexter, John Maxwell, Ray Bennett. Argumento: Ben Maddow, John Huston segundo o romance de W.R. Burnett. Produção: Arthur Hornblow Jr., John Huston. Fotografia: Harold Rosson. Música: Miklós Rózsa. Guarda-roupa: Consolata Boyle. EUA, 1950, P/B, 112 min.




























