sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Sobre o filme «Santo António - O Casamenteiro de Lisboa» de Ruben Alves, 2025



 











Este filme parece não ter tempo. Ou seja, este filme não nos dá tempo. (Ou talvez eu estivesse um pouco cansado). Desde o início que não consegui pegar num único fio condutor tal é a parafernália visual. Queria agarrar tantos actores, tantos cenários, tantas personagens, tantos efeitos e sons que não dava tempo de me concentrar nas personagens nem na história. Era logo obrigado a saltar para a cena seguinte. Por fim, cansei-me e deixei correr as quase duas horas sem dar muito crédito aos intervalos de tempo que iam passando como capítulos. Concentrei-me na belíssima Rita Blanco, em Ana Bola, em Joaquim de Almeida, também um pouco em Joaquim Monchique (apesar da personagem não ter grande profundidade) – descobri depois que a mãe deitada era representada pela Natalina José – Tentei esquecer a terrível personagem imposta a Maria Rueff – porquê tanta parvoíce se tinham nas mãos uma das actrizes mais versáteis portuguesas?. Tentei não ligar aos amantes por encomenda de Carmo (Rita Blanco), às figuras para chamar público mas sem qualquer função narrativa, como Vasco Pereira Coutinho ou Lili Canechas. Fingi não ver as ostensivas marcas dos patrocinadores.

Eu queria gostar do filme. Tinha gostado da ternura como o filme anterior «A Gaiola Dourada» (2013) me havia conquistado, até emocionado! Ficou-me o silêncio do olhar da grande grande Rita Blanco ao encontrar-se com o passado na Sé de Lisboa, com Joaquim de Almeida. Fui me concentrando na intenção em mostrar, inclusivo, o amor entre os mais velhos (Lídia Franco, Rui Mendes), ou a aceitação do casamento entre pessoas do mesmo sexo (Miguel Amorim, Pedro Nuno). Também a violenta descaracterização de Lisboa pelo rolo compressor do turismo sem lei!

Valha-nos as intenções e de fazer de uma comédia, afinal, uma hipérbole nostálgica sobre a solidão no interior de uma cidade em vias de sucumbir à marabunta voraz no airbnb.


jef, setembro 2026

«Santo António - O Casamenteiro de Lisboa» de Ruben Alves. Com Rita Blanco, Joaquim Monchique, Ana Bola, Maria Rueff, Pedro Nercessian, Maria João Bastos, Paco León, Jacqueline Corado, João Catarré, Inês Aires Pereira in Paixão, Nuno Nolasco, Pedro Nuno, Miguel Amorim, Lídia Franco, Rui Mendes, Joaquim de Almeida, Santiago Lagerfield, Isabel Abreu, João Hungria Alves, Margarida Antunes, Rosa Areia, Sofia Baessa, Mariana Bossy, Valerie Braddell, Ricardo Burgos, Lili Caneças, Cauê, Sara Correia, Vasco Pereira Coutinho, Mafalda Creative, Maria d'Aires, Joseph Dixon, Teresa Faria, Maria Ana Filipe, Andy Gillet, Albano Jerónimp, Natalina José, Amanda Lear, Joana Marques, Michael Misha, Rui Olavo, Cristina Oliveira, Fernando Emanuel Pinheiro, Catarina Rabaça, Catarina Raimundo, Eduardo Rêgo, Isabel Ribas, Erica Rodrigues, Fernando Santos, Ana Saragoça, Leïla Slimani, Paula Só, Rodrigo Soares, Inês Sobral, Adriano Soves, Maria Hernâni. Argumento: Ruben Alves, Fernando Pérez. Produção: Hemi Fortes, Ruben Alves. Fotografia: André Szankowski. Música: Guillaume Ferran. Guarda-roupa: Patrícia Dória. Portugal / França, 2026, Cores, 119 min.

domingo, 13 de setembro de 2026

Sobre o livro «Arkansas» de David Leavitt, Asa, 1999. Tradução de Paula Teixeira.



 







Quando a homossexualidade vivia aprisionada pelo vírus VIH e pela doença, numa espécie de toca e foge, entre o remorso da liberdade promíscua e, depois, o terror do sofrimento sem tréguas que arrastava atrás a inelutável sentença de morte. Finais dos anos 80, início dos anos 90. Califórnia, Los Angeles. Também a eterna Florença e os seus arredores aromaticamente sedutores como paraíso libertário e romântico. Um livro triplo: “Trabalhos de Artista”, “Bodas de Madeira” e “Saturn Street”, três contos sob a epígrafe atribuída a Oscar Wilde que terá escrito no final da vida “Gostava de fugir, como um veado ferido, para o Arkansas”.

Sim, são contos de medo e de fuga, digamos, histórias do profundo sentido de exílio e abandono que a comunidade homossexual sentiu numa época de pandemia e abandono.

Se, pelo meio, o conto “Bodas de Madeira” narra o desespero de um grupo de amigos que se encontram ao fim de muitos anos em casa de Lizzie, onde ministra cursos de culinária italiana, algures na Tuscânia. Celia é a narradora e Nathan um homem cujo passado todos liga mas de modo silenciado e muito pouco esclarecido. Nathan, porém, sofre de visões alucinadas e de uma incessante busca por um futuro pouco conciliador. Até que chega o cozinheiro encartado italiano, Mauro, de certo modo comparado a Apolo. Aí o conto descamba numa verdadeira circunstância novelesca entre pessoas instáveis, no entanto, sem problemas de maior na vida.

O livro inicia-se com a história em nome próprio, na qual um “Dave Leavitt”, já com créditos na edição e na publicação literária americanas sofre um bloqueio criativo e, numa espécie de ilícita “transacção comercial” resolve vender os créditos em composições para universitários sem escrúpulos, motivação ou talento, escrevendo os seus melhores textos abordando os livros de Henry James ou E.M. Foster ou, ainda, as suspeitas de mossexualidade que recaíam sobre príncipes e lordes britânicos ou sobre Jack, o Estripador.

Contudo, emocionalmente, o livro conclui-se com o encontro de Phil com Jerry que trabalha para uma organização de voluntários que faz a distribuição ao domicílio de refeição para doentes de Sida. Jerry vive obcecado pelo que o futuro próximo lhe trará levando na memória um trágico abandono, temendo realizar os necessários testes e análises. Phil vive sob ameaça constante e lembra quando certos bairros de Los Angeles ainda traziam o futuro no nome. Phil sempre viveu sem medo e não teme o futuro que será breve ensinando a Jerry como o presente não deve ser toldado pela provável renuncia que o dia de amanhã trará.

Um conto que revela com subtileza o peso da solidão, a certeza fulcral da amizade e da generosidade e que, pela sua profundidade emocional e substância histórica, salva o livro.

 

jef, setembro 2026

Sobre o filme ««Cartas Amarelas» de İlker Çatak, 2026



 














É um filme para dois actores – Özgü Namal, que representa Derya, a célebre actriz, e Tansu Biçer, que representa Aziz, o reconhecido dramaturgo, actor e professor universitário de teatro. Em Ancara, ou seja Berlim. Por razões de perseguição política são expulsos e ostracizados pelo sistema. Ficam sem emprego e rumam a Istambul, ou seja Hamburgo, para casa da mãe de Aziz, a actriz Ipek Bilgin, o terceiro nome a recordar.

Eu que não sabia que o filme fora rodado na Alemanha, precisamente em Berlim e Hamburgo, estranhei os separadores que deste modo anunciam os episódios seguintes. Fiquei algo confuso com algumas inscrições nos edifícios e com as imagens das manifestações de protesto contra a liberdade de expressão. Achei nesse meu desnorteamento geográfico e político algum desconchavo, algum tique de estilo para alemão ver e reconhecer a importância que tem a comunidade turca no país.

Um facto é que o filme que se inicia com a recusa pela célebre actriz de ser fotografada ao lado dos dirigentes do regime que tinham ido assistir à peça por ela representada e escrita pelo seu marido dramaturgo, termina com uma deriva em prol da sobrevivência familiar, aceitando o que as condições que a ingrata sociedade vai impondo. Talvez essa deriva, tão comum na vida de todos os dias, de todas as famílias, de tantos países, transmita ao espectador a importância de um novo realismo na arte contemporânea. Na verdade, há um verdadeiro e universal desconchavo social e político, de comunicação também, no nosso triste planeta.

Talvez por todas estas razões, tenha ganho o Urso de Ouro no Festival de Berlim 2026.


jef, setembro 2026

«Cartas Amarelas» (Gelbe Briefe / Yellow Letters) de İlker Çatak. Com Özgü Namal, Tansu Biçer, Leyla Smyrna Cabas, İpek Bilgin, Yusuf Akgün, Emre Bakar, Kerem Can, Aziz Çapkurt, Mustafa Cicek, Ela Cosen, Siir Eloglu, Ömer Filikci, Elit Iscan, Ipek Seyalioglu, Yusuf Özhan Tali, Uygar Tamer, Sultan Ulutas, Eray von Egilmez, Cüneyt Yalaz, Aycil Yeltan. Argumento: Ayda Meryem Çatak, Ilker Çatak, Enis Köstepen. Produção: Ingo Fliess. Fotografia: Judith Kaufmann. Música: Marvin Miller. Guarda-roupa: Christian Röhrs. Alemanha / França / Turquia, 2026, Cores, 128 min.

 


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Sobre o livro «Confissão de um Assassino, relato de uma noite» de Joseph Roth, Cavalo de Ferro, 2018 (1936). Tradução de Paulo Tavares.



 







Como encontramos um dos “nossos” livros, um dos “nossos” autores? Como vamos construindo a “nossa” biblioteca?

Não sei por que algoritmo mental, mnemónica, silogismo ou apenas memória de leitura, ao ler o livro, esta grande novela ou este grande pequeno romance, pois os livros não se medem aos palmos ou às páginas, em número de 141, foi ele recordando-me alguns dos meus livros de eleição que aqui menciono sem olhar a cronologias ou preferências– «O Jogador» de Fiódor Dostoiévski (1866), «A Prisão» de Georges Simenon (1961), «O Primo Basílio» de Eça de Queirós (1877), «Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher» de Stefan Zweig (1927) ou «Mendigos e Altivos» de Albert Cossery (1955). Todos eles, de certo modo, sobre patifes que a literatura outorga, desvendado o véu que os assombra ou colocando uma pedra sobre o assunto. Afinal até gostamos dos patifes da literatura.

E se menciono aqueles livros por memória, este não lhes fica atrás em intriga, na minuciosa descrição de quartos, salas, guarda-roupa, atmosfera, penumbras e iluminações, melhor definidoras das personagens que suportam do que parágrafos com simples listas de objectos 'em leilão'. Por entre a descrição do lugar, encontra-se a atenta e quase comovente dissecação psicológica das personagens que o cativa. Aqui se define um verdadeiro espião a soldo da inteligência repressiva russa entre a sangrenta revolução russa e aquela mais tardia madrugada sangrenta da Segunda Grande Guerra – Semion Golubchik, aliás agente Krapotkin, por impostura e também por genética verdadeira.

Este é um autêntico livro policial cujo subtítulo “relato de uma noite” não significa que a acção descrita decorra num período temporal curto, relembrando Bloom ou Dalloway, mas sim o tempo em que o narrador conta a sua história perante uma audiência silência frente a copos meio vazios de aguardente russa, como quantas vezes faz Stefan Zweig.

Este é um romance que vai costurando a intriga linha a linha, página a página, até à última, modelando as personagens de modo profundo, diria inesquecível – Golubchik, o falso verdadeiro Krapotkin, Krapotkin, afinal o falso, a bela modelo Lutécia, o imponente director da espionagem em Paris Solowejczyk, o efeminado estilista Monsieur Charron, principalmente, o misterioso e sempiterno, Jenö Lakatos.

É verdade, «Confissão» de um Assassino» tornou-se um dos “meus” livros e Joseph Roth, um dos “meus” autores.

jef, setembro 2026

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Sobre o livro «Pietr, o Letão» de Georges Simenon, Livros do Brasil, Colecção Vampiro n.º 145. Tradução de Mascarenhas Barreto. Capa de Lima de Freitas, 1959 (1931).



 








Investigo por Inteligência Artificial e na Wikipedia, confirmo depois. Em 1930, é publicado num periódico, por episódios. No ano seguinte, em nome próprio Georges Simenon, é editado em livro. Surge pela primeira vez a imponente figura, quase monolítica, friorenta e comilona, do Comissásio Maigret. Assim se inicia a imensa biblioteca onde Simenon estrutura o seu “alfabeto maigret”, a sua capacidade de definir personagens e lugares, misturando o suspense na narração, o humor na descrição e essa tão particular mestria de definir as personagens pelos gestos, os quartos pelos odores, as atmosferas pelos sentimentos que lhes são impostos. Maigret é gigantesco e imperturbável, contudo o seu coração desfaz-se quando entra no quarto do Magestic e procura o seu camarada Torrence.

Nada neste primeiro “Maigret” está definido, porém tem tudo o que ditará a estrutura analítica, para não dizer psicanalítica, do Comissário. Tudo é condensado num humor, para não falar em sarcasmo, muito peculiar. Ferido e cansado por uma investigação que dura há horas consecutivas, dias mesmo, sem o deixar descansar, quase no final, Maigret deve dirigir-se ao porto e percorrer por baixo de uma ponte entre as estacas inundadas pela maré:

«Por fim suspendeu-se nos arcobotantes das estacas. Executou um desses movimentos em que é preferível não se ser visto. Fazem-se gestos para os quais se não está preparado. Falha-se a todo o instante, como mau acrobata, mas avança-se, por assim dizer, pela força da vontade. Cai-se e levanta-se. Patinha-se sem prestígio, sem beleza.»

Dali a pouco, polícia e meliante vão encontrar-se, frente a frente, num quarto de hotel de província, vestindo os dois mal medidos roupões tomados de empréstimo.

Depois, como a concluir esse lado interior de narrador que não se permite julgar, de comentador que não se exprime mas tudo observa, de explorador infinito do espaço social:

«Seria talvez exagerado pretender que, em muitos inquéritos, nascem relações cordiais entre a polícia e aqueles que, por dever, terá de entregar à justiça.

Quase sempre, a não ser que se trate de um antagonismo especial, estabelece-se uma espécie de intimidade. Isso deve-se, sem dúvida, a que, durante semanas, por vezes durante meses, polícia e malfeitor não pensam senão um no outro.

O inquiridor encarniça-se em penetrar cada vez mais na vida passada do culpado, tenta reconstruir os seus pensamentos, prever-lhe os mínimos reflexos.

Ambos arriscam a pele nesta partida. E, quando se encontram, é em circunstâncias suficientemente dramáticas para fazer fundir a indiferença polida que, na vida quotidiana, preside às relações entre os homens.»

Temendo a repetição, diria que este livro é como fundador da geografia etimológica e emocional de Georges Simenon, onde se inclui igualmente a minuciosa etimologia da cidade de Paris, senão mesmo a definição quase burlesca da circulação humana no Grande Hotel Magestic.

Georges Simenon é um enormíssimo escritor e este livro uma grande obra literária.


jef, agosto 2026

domingo, 30 de agosto de 2026

Sobre o livro «Salvo o Meu Coração, Tudo Está Bem» de Héctor Abad Faciolince, Alfaguara, 2024. Tradução de Margarida Amado Acosta.



 







Héctor Abad Faciolince é um verdadeiro cronista, alguém que nos devolve a realidade sob a chama da maior percepção emocional, demonstrando que a literatura ficcionada é uma das principais armas que garante a aceitação da verdade pela razão do leitor. Mas, principalmente, pelo coração do leitor crítico. Pois, é exacto, «Salvo o Meu Coração, Tudo Está Bem» é sobre o coração maior de um padre devoto, Luis Córdoba, 50 anos, gigante em estatura, a viver em Medellín, amante e divulgador reconhecido das artes da música clássica e do cinema, amante também da boa mesa. Porém, um coração periclitante pela própria hipertrofia. Vivendo primeiro na própria casa, na esquina da Villa com a San Juan, em celibato conjugal com o padre Aurelio Sánchez (o narrador), mais tarde, saído da clínica, na casa verde e amarela de Teresa e de Darlis, sem escadas aliás, no bairro Laureles.

Não fiz spoiler nenhum, pois tudo isto está escrito nas primeiras duas páginas do romance-crónica, que se lê sem parar, por capítulos de A a Z (incluindo o Ñ), com direito a Abertura e Coda como uma peça antiga de música barroca. A ordem anacrónica faz-se a favor de uma leitura ágil e emotiva, interceptando as histórias dos dois amigos inseparáveis e também a de Joaquín Restrepo que, afinal, juntará as pontas dos apontamentos memoráveis que Aurelio Sánchez (ou Lelo) foi redigindo e colecionando episódios comuns ou não com o Gordo, ou seja, Luis Córdoba. Joaquín apresentará no final o presente livro que, confessa, gostaria de ter sido ele a escrever.

Um livro importante sobre a vida, a doença, a morte e o luto. Também sobre a dualidade da sublimação do espírito sobre a vocação biológica de um corpo que deseja e precisa de ser fisicamente consumado. Também sobre os abjectos meandros da hierarquia da igreja católica. Também sobre a esperança e a fé, como se um ateu explicasse a fé em Deus a um crente ou um devoto exprimisse a inexplicável vocação em confiar o amor a um ser impalpável e irresolúvel.

Um livro que ensina a ser-se efectivamente alegre, ou feliz, apesar da continua infelicidade que sempre vela, ou ameaça, a existência mais pacífica, e que me deixou lavado em lágrima quando o terminei de ler.

Eu, ateu convicto, confesso, vou sentir falta da bondade, jovialidade, honestidade e clarividência dos padres Aurelio Sánchez e Luis Córdoba, e da Teresa, da Darlis, do Joaquín e de todos os outros.

Nota: o autor nas linhas finais confessa que o leitor deve suspeitar de que o livro se baseia livremente na vida de Luis Alberto Álvarez, “um sacerdote extraordinário, um bom padre do qual fui amigo.”


jef, agosto 2026

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Sobre o livro «Morrer na Primavera» de Ralf Rothmann, Sextante, 2019. Tradução de Gabriela Fragoso.


 









«Quando a cultivares, não voltará a dar-te os seus frutos. Serás vagabundo e fugitivo sobre a Terra.». Frase vincada com a unha sobre a página de uma antiga Bíblia, encadernação a couro, letras góticas, rebordo dourado, recheada de folhas secas de Outono e notas de marcos da inflação de 1923, mais tarde, talões do Supermercado Schätzlein.

A enigmática frase do Génesis (4:12) surge como a mais violenta epígrafe e a  grave conclusão do livro. Um arco de tempo sobre uma Alemanha que teve de superar a derrota de uma geração de, quase crianças, foi forçada a seguir para a frente húngara na Primavera de 1945, já americanos e russos avançavam e cercavam por todos os lados, por todos os meios. Walter e Friedrich-Fiete, amigos inseparáveis, ordenhadores competentes na vacaria propriedade da casa de Thamling. Dezassete anos, despojados da vida, de tudo viram, tudo sofreram sob a desesperada derrota breve dos nazis.

Um livro contado por fragmentos sincopados, fragmentos narrativos suportados por descrições tão visuais como paradigmáticas de uma exegese comprometida com a paz.

Um livro difícil mas que nos transmite a ternura infinita pelo sofrimento dos inocentes, nasçam eles onde nascerem. A vã procura de uma sepultura ou a necessidade urgente de um esquecimento impossível.

É fundamental conhecermos todas as belas ou terríveis histórias do mundo, venham elas de onde vierem.


jef, agosto 2026