Rogério Casanova, o tradutor, no prefácio, evoca a popularidade
do substantivo próprio adjectivante “Kafka” para enquadrar estas histórias
sobre uma América que desconhece o destino ou o sonho que à boca cheia propala desde
que se conhece. Contudo, Kafka tem um sentido oniricamente psicanalítico, esteticamente
surrealista, quase romântico, para narrar as complexas situações em que os personagens
se vêem enleados. A começar por Gregor Samsa.
Em «Pastoralia» de
George Saunders não existe nada desse romantismo psicanalítico, desse diletante
modo de cada um estar por si, dentro de si, mas à margem da sociedade. As
histórias de Saunders usa o humor desabrido para colocar o leitor como juiz e credor
de gente cujo sonho americano os levou até a um barraco num subúrbio dos subúrbios
e ainda os manda ser felizes e sorrir, pois a coisa ainda pode vir a piorar… Se
algum dia, bastante improvável, Trump ainda vier a ser eleito para presidente dos
grandes Estados Unidos da América!
A começar pela novela que abre o livro “Pastoralia” onde escravos da sociedade do bem-estar se vêem
empregados e vigiados num parque de diversão sobre os diversos estágios evolutivos
da humanidade. A terminar com “Cataratas” com Morse de regresso a casa pela
margem do Taganac, rio que se dirige para umas certas cataratas. Ele teme pelo
futuro do filho Robert, teme também por desconhecer se Aldo Cummings, vizinho estranho
ainda a viver com a mãe, poderá não gostar dele. Então, o que fazer quando uma
canoa com duas miúdas pequenas se apresenta prestes a afundar?
Os contos não desdenham esse lado quase burlesco de uma certa
literatura americana que se ri dela própria para não chorar por todos, e são muitos
milhões, de americanos que, apesar de se poderem chamar Elon Musk, nunca
conseguiram juntar um chavo e amargam no interior de um país que os toma por
bastardos.
Contudo, George Saunders eleva essa literatura a uma
narrativa de discurso directo sintomático, com descrições quase sem adjectivos,
em diálogo cinematográfico, peremptória mas discreta, buscando imagens e situações
de uma fantasia inusitada que oferece ao leitor a justa perplexidade para que
ele possa completar um cenário, por vezes apenas delineado.
Afinal, Saunders reveste as personagens de uma ternura comovente, de um humor ácido e sarcástico, personagens que se aquietam perante um destino que lhes foi imposto e do qual não têm modo de fugir.
John Steinbeck
chamar-lhes-ia “ratos e homens”.

.jpg)









.jpg)

.jpg)



