domingo, 12 de julho de 2026

Sobre o filme «L’Aventura» de Sophie Letourneur, 2025



 


























Podemos, por momentos, esquecer o hiper-realismo, esquecer também a velha nouvelle vague. O filme integra uma outra classe estranha de filmes, talvez uma ‘nouvelle vague hiper-realista’. Mas é sempre redutor classificar. E todos sabemos como, em férias, nessa concentração absoluta do afecto familiar, sem possibilidade de fuga ou redenção, tudo poderá vir à tona.

Se se sentir confuso, inicialmente, com a sequência narrativa, não se importe, as férias em família são sempre um pouco assim. Atente mais na evolução do chapéu de palha que vai passando de cabeça em cabeça, cada vez mais desgraçado. Atente, depois, no longo percurso a pé de Jean-Philippe (Philippe Katerine), sozinho, por uma rua da vila da Sardenha, ou na mão pousada sobre a perna de Sophie (Sophie Letourneur) e na expressão de espanto (ou repulsa) desta. Atente na sistemática prisão de ventre feminina durante as viagens ou na frequência das birras e do cocó do pequeno Raoul (Esteban Melero). Temos ainda gelados e praias è escolha. Tome atenção na beleza da cara de Claudine (Bérénice Vernet) que se vê afastada da sua infância pela omnipresença birrenta do meio-irmão, enquanto ela vai gravando as vozes de umas férias conquistadas com suor, sangue e picadas de vespa. Essas vozes são para memória futura de um provável futuro filme. Também pode recordar as versões de alguns temas Bach em versão electro-pop. Atente, finalmente, nessas ininterruptas, quase negligentes, ternas e invasoras, aproximações da câmara às faces, às expressões, aos corpos daquelas quatro personagens-criatura, daqueles quatro maravilhosos actores.

Depois, tudo é arquitectado (ou tricotado) com minúcia de metrónomo, entre o passado e o presente filmado, anacrónico, num vaivém que deixa o espectador à mercê irreflectida mas hípersensorial de umas férias que seriam para esquecer, no interior de uma família onde tudo de bom pode acontecer, mas onde reside a génese de todo o tédio, todo o cansaço de uma existência, de uma escolha que, agora, talvez não fosse escolhida.

Assim, dita Sophie Letourneur, a realizadora: “Ama a vida mais do que a sua lógica. Dessa forma compreenderás o seu sentido”.


jef, março 2026

«L’Aventura» de Sophie Letourneur. Com Bérénice Vernet (Claudine), Esteban Melero (Raoul), Philippe Katerine (Jean-Fi), Sophie Letourneur (Sophie), Carmen Letourneur (Carmen), Francesco Arcuri (Francesco). Argumento: Sophie Letourneur, Laetitia Goffi. Produção: Mathieu Verhaeghe, Sophie Letourneur, Thomas Verhaeghe, Tristan Vaslot. Montagem: Sophie Letourneur. Fotografia: Jonathan Ricquebourg. Música: Laure Arto, Carole Verner. França, 2025, Cores, 100 min.

sábado, 11 de julho de 2026

NOS Alive 2026 - menu do dia

Passeio Marítimo de Algés, Oeiras

Quinta-feira, 9 de Julho de 2026

















Sonya – Palco Heineken (16h30)






























Dogstar – Palco Heineken (18h45)

Dogstar: Keanu Reeves (baixo), Bret Domrose (voz e guitarra) e Robert Mailhouse (bateria).


















Alabama Shakes –
Palco Heineken (20h00)

Duração: 1h15

1. Rise to the Sun

2. Hang Loose

3. I Ain't the Same

4. New Song

5. Future People

6. Guess Who

7. This Feeling

8. Feel Hope Coming

9. I Found You

10. Hold On

11. Another Life

12. Dunes

13. Sound & Color

14. American Dream

15. Gimme All Your Love

16. Don't Wanna Fight

17. Always Alright

Alabama Shakes: Brittany Howard (voz e guitarra), Heath Fogg (guitarra), Zac Cockrell (baixo), Ben Tanner (teclas), Steve Johnson (bateria).

 













Nick Cave & the Bad Seeds – Palco NOS (21h15)

Duração: 2h00

1.       Get Ready for Love

2.       From Her to Eternity

3.       Train Long-Suffering

4.       Wild God

5.       O Children

6.       Tupelo

7.       Carnage (Cover de Nick Cave & Warren Ellis)

8.       Joy

9.       Rings of Saturn

10.     Henry Lee

11.     The Mercy Seat

12.     Papa Won't Leave You, Henry

13.     The Weeping Song

14.     Red Right Hand

15.     Jubilee Street

16.     Hollywood

17.      City of Refuge (bis)

18.      Wide Lovely Eyes (bis)

19.      Into My Arms (bis)

 

Nick Cave and the Bad Seeds (Wild God Tour): Nick Cave (Voz e piano). Warren Ellis (violino, guitarra tenor, sintetizadores e loops). Colin Greenwood (baixo). Jim Sclavunos (percussão, bateria e coros). George Vjestica (guitarras e coros). Larry Mullins (Toby Dammit): bateria e percussão. Carly Paradis (teclados e coros) Coro: Janet Ramus, Wendi Rose e T-Jai McCalla.





















Matt Berninger – Palco Heineken (23h45)

Duração: 1h10

1. No Love

2. Frozen Oranges

3. Distant Axis

4. Type It Up (tema original)

5. Martini Me Fatso

6. Walking on a String

7. One More Second

8. Nowhere Special

9. Little by Little

10. Gospel (The National)

11. Slow Show (The National)

12. Terrible Love (The National)

13. Bonnet of Pins

14. Inland Ocean


nota: as fotografias são de Renan Nascimento

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Sobre o filme «Ladrão de Alcova» de Ernst Lubitsch, 1932























Tão bom ser-se rico, entre Veneza e Paris!

Uma das mais puras, finas, aristocráticas comédias de Lubitsch.

Aqui nada se pode perder, nem uma imagem, nem uma palavra. Tudo conta. Tudo tem um sentido delirante. Nada é a sério. Ninguém pode ver que se está a molhar o croissant no café com leite. Todo o roubo é admissível pois todos roubam e todos desejam ser roubados. Há uma extrema volúpia no engano e ninguém deseja sair desse engano e o maior problema com as mães é que ‘primeiro nós gostamos delas depois elas morrem’.

O segundo problema, para além do roubo da carteira na fabulosa sequência da ópera de Paris, é que todos se amam e todos querem ser amados. Inclusive, a dupla frustrada de pretendentes da extraordinária Mariette Colet (Kay Francis), o Major (Charles Ruggles) e François Filiba (Edward Everett Horton), entre a rivalidade, estão a um passo de se tornarem verdadeiros amigos.

Depois, no início, há a gôndola que se passeia nocturna ao som do O Sole Mio enquanto vai recolhendo lixo pelos canais seguindo-se uma intensa cena sobre os quartos do Hotel Venezia na qual é percorrida toda a cena que anuncia o mote do filme e que termina num melancólico Barão Gaston Monescu (Herbert Marshall) declarando ao mordomo como ‘os começos são todos difíceis’, enquanto aguarda a Condessa Lily (Miriam Hopkins). Afinal, o Barão não é barão e a Condessa não é condessa, são ladrões e amam-se.

Já no final, Lily e Gaston trocam os mesmos argumentos furtados tal como fizeram durante a refeição inicial.

Sem esquecer a estupefação cantarolada do mordomo, Jacques (Robert Greig), na inacreditável sequência das portas dos dois quartos com um relógio pelo meio.

E ainda os vestidos de Lily e Mariette Colet!

Não existe filme mais delicadamente delirante, mais extravagante, mais absurdamente teatral. Mais artdeco! 

Uma obra prima!


jef, julho 2026

«Ladrão de Alcova» (1524 de Ernst Lubitsch. Com Miriam Hopkins (Lily), Kay Francis (Mariette Colet), Herbert Marshall (Gaston Monescu), Charles Ruggles (Major), Edward Everett Horton (François Filiba), C. Aubrey Smith (Adolph J. Giron), Robert Greig (Jacques, o mordomo), Leonid Kinkey (o comunista), George Humbert (o criado de Gaston). Argumento: Samson Raphaelson baseado na peça de teatro de Aladár László adaptada por Grover Jones. Produção: Ernst Lubitsch. Fotografia: Victor Milner. Música: W. Franke Harling. Canção do genérico: Leo Ribun. EUA, 1932, P/B, 83 min.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Sobre a peça «Caravana» de João Luís Barreto Guimarães, Teatro Aberto, 2026

 




 

























João Luís Barreto Guimarães é o poeta do possível, digamos melhor, o poeta do concreto, do tangível, dos contornos e das imagens, ou do que elas ensinam e nos transcendem, gravando-se em nós. Por isso, também dramaturgo, pois no palco a imagem é fundamental para transcender a realidade – Uma caravana razoavelmente equipada, mesinha, cadeiras de campismo, fogão, chaleira que assobia, gambiarra, quatro grades de cerveja. Aliás, um veículo muito bem equipado para estar estacionado em terreno baldio junto a um bosque, a poucos quilómetros da cidade de que se deseja fugir, a dois passos de um pub onde às sextas é possível encontrar companhia feminina. Quem lá vive, tem vários nomes – Estranho, Professor, por fim, talvez Tomás. Tais mulheres precisam conhecer-lhe o nome, questionam a noite, os insectos ou os animais selvagens, a fase lunar, o sentido do musgo, a alimentação saudável, a propriedade – Ana, Maria, Helena. Talvez.

Afinal, a caravana, talvez seja mais roulotte.

Afinal, em torno da Caravana, agora, tudo parece um pouco mais desarrumado, confuso. A luz permanece nocturna mas o contracampo iluminado das várias janelas fornecem a intimidade de uma certa claustrofobia. O encenador mantém assim o estatuto intimidante de uma personagem, talvez Tomás, e deixa o resto para o espectador intuir. Aliás, o encenador, João Pedro Vaz, tem pela frente um trabalho exigente, minucioso, claramente eficaz, terno mesmo, ao entregar aos actores uma marcação de cena filigrânica que inclui as inúmeras indicações e didascálias que o autor inscreve entre o discurso directo. (Leio o texto editado pela Húmus. Gosto de ler teatro.) Diga-se que a luz no espectáculo é fundamental, é de Manuel Abrantes.

É nesse jogo nocturno do recorte das janelas iluminadas, onde os actores (Joaquim Horta e Rita Calçada Bastos) e as suas personagens aparecem sincopadamente, como simulacros de vida ou cromos de uma caderneta sobre a solidão do luto, que se joga o fundamento emocional da intriga.

Por fim, em fase de Lua Cheia, num acesso voluntário de arrumação de cena, e à boca de cena, dois monólogos banais, sobre o difícil arranjo do carro na oficina ou a dificuldade de ler sem óculos progressivos, monólogos ditos em simultâneo, mas que por vezes se sincronizam em simultâneo, em cânon, em fuga (como na música de Bach), o pano cai e a luz aproxima-se salvadora. 

Talvez seja mesmo a busca de um nome próprio, a máscara necessária para resistir à solidão.


jef, 5 de julho de 2026

«Caravana» de João Luís Barreto Guimarães. com Joaquim Horta e Rita Calçada Bastos. Encenação João Pedro Vaz. Cenário e Figurinos: Sara Vieira Marques. Desenho de luz: Manuel Abrantes. Teatro Nacional São João. Teatro Aberto. Duração: 90 min.


20 junho a 26 julho 2026

quarta-feira e quinta-feira: 19.00 h; sexta-feira e sábado: 21h30; domingo: 16h. No Teatro Aberto, Lisboa.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Sobre o filme «O Céu Pode Esperar» de Ernst Lubitsch, 1943

 




 













Ora aqui está uma comédia, sublime e melancólica, sobre a vida, sobre a morte, sobre tudo. A parábola de sua Excelência, o Diabo (Laird Cregar), inteligente e sensível, que reconhece em Henry Van Cleve (Don Ameche), a ingenuidade, talvez inocência, de uma vida dedicada ao prazer do bem viver, deixando-o subir para o Céu mas prevenindo-o de que, lá por cima, as coisas também não serão muito divertidas.

Um enorme arco em flashback narrando, aniversário em aniversário, as sucessivas questões e problemas tidos com as diversas mulheres, desde a infância até chegar (em novo flashback) a Martha Strabel (Gene Tierney), uma noiva roubada em dia de aniversário ao seu primo Albert (Allyn Joslyn), passando por cima dos seus pais, Bertha (Spring Byington) e Randolph (Louis Calhern), mas tendo a eterna cumplicidade do avô Hugo (Charles Coburn).

Tudo aqui é perfeito, toda a morte é ocultada, como acontecia nas peças da Grécia Antiga, a bem de uma comédia que nos leva pelo caminho afunilado da finitude. Tal como em «Viver» de Akira Kurosawa (1952), este filme ensina a lidar com o espectro da inexistência através da soberba sumptuosidade de um diálogo infinito, da minuciosa estratégia cénica, quase amoral, da vivência do casal perfeito ao som da valsa da Viúva Alegre e dos ensinamentos do insuspeito livro How to Make Your Husband Happy, que reaparece no final como triste epílogo da memória. Também da rigorosíssima sátira a envolver os pais de Martha (Marjorie Main e Eugene Pallette) que termina no segundo rapto daquela, coadjuvado pelo avô Hugo. Terminando com a fabulosa cena, quase hitchcockiana na substituição do turno das duas enfermeiras, vendo-se aos espelho, onde Henry sonha viajar num belo navio a flutuar num oceano de whisky e soda, acarinhado pela beleza de uma jovem mulher loura.

Uma soberba comédia, triste e terna, sobre a inocência do bem viver e a eterna tentativa do bem envelhecer e do bem morrer.

Simplesmente, um filme genial. 

(O adjectivo aqui nada tem de exagero apressado.)


jef, junho 2026

«O Céu Pode Esperar» (Heaven Can Wait) de Ernst Lubitsch. Com Gene Tierney (Martha), Don Ameche (Henry Van Cleve), Charles Coburn, (Hugo Van Cleve), Majorie Main (Mrs. Strabel), Laird Cregar (Sua Excelência), Sping Byington (Bertha Van Cleve), Allyn Joslin (Albert Van Cleve), Eugene Pallette (E. F. Strabel), Signe Hasso (Mademoiselle), Louis Calhern (Randolph Van Cleve), Helen Reynolds (Peggy Nash), Clara Blandick (avó), Anita Sharp-Bolster (Mrs. Cooper-Cooper), Florence Bates (a velha do "inferno"). Argumento: Samson Raphaelson baseado no livro “Birthday” de Leslie Bush-Fekete. Produção: Ernst Lubitsch e William Goetz. Fotografia: Edward Cronjager. Música: Alfred Newman. Guarda-roupa: René Hubert. EUA, 1943, Cores, 112 min.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Sobre o livro «A Flor e o Peixe» de Afonso Cruz, Companhia das Letras, 2022


 









Esta novela gráfica de Afonso Cruz é um acto poético escrito a partir de duas histórias de José Saramago para ser interpretado num espectáculo de teatro e dança (Play False) de Catarina Câmara. Os desenhos constantes de Afonso Cruz, a preto, vermelho e branco, abrem uma perspectiva fundamental para que se entenda como funciona o livro para o leitor – uma espécie de permanente fuga e retiro filosóficos em cada um dos capítulos constituídos por frases curtas numeradas como se se tratasse de versos antigos e orientais de uma estrofe a ser cantada ou linhas quíntuplas de uma pauta musical.

Um diálogo entre a aranha, que prende a mosca na sua teia feita de nós mas deixa escapar o céu, e a serpente, que defende a visão do rio que nada retém na sua corrente. Existe um rio Yangzi, com um único peixe que fugiu com o anzol lançado por uma cana partida e deixa, na margem, o menino pescador desolado. Existe uma montanha Lu onde a flor sequiosa é ajudada gota a gota pelo menino pescador, tornando-se a maior flor do mundo. Há uma menina dançarina que salva o peixe do anzol e colhe flores, encanta-se com a maior flor do mundo no topo da montanha, porém nunca se encontra com o menino. Sobem ou descem a montanha por caminhos sempre diversos. Afinal, o peixe mais desejado e a flor da montanha são as maiores dádivas – assuntos da generosidade, coisa que libertam mas, no final, acaba por prender.

Afonso Cruz escreve poesia como desenha, as linhas que unem o céu, o horizonte, o rio e as encostas da montanha são como cones de revolução ou pontos de fuga ou planos que se interceptam criando linhas imaginárias.

Afonso Cruz cria com a sua escrita gráfica a mais bela e poética geometria descritiva dos universos paralelos.


jef, junho 2026

terça-feira, 30 de junho de 2026

Sobre o livro «Nevoeiro – Uma Investigação» de Pedro Eiras, Assírio & Alvim, 2026

 



 







Sem dúvida, este romance é uma investigação que o autor cede ao leitor. Um curto período de tempo, de Outubro de 1933 a Novembro de 1935. Três personagens (mais uma) percorrem um dos lados mais sombrios de Portugal: Salazar, o Presidente do Conselho; António Ferro, o Director do Secretariado da Propaganda Nacional; e Fernando Pessoa, o do Orpheu e da Mensagem, (mais um autor, professor, investigador que tenta não se angustiar, não naufragar no mar amplo de informações, documentos, artigos, fotografias, cartas e letras minúsculas quase ilegíveis. Esse autor que nos comoveu com os múltiplos reflexos emocionais (audíveis) do compositor maior, com o livro «Bach» (Assírio & Alvim, 2014), publica agora um nevoeiro sem sombras sobre o Portugal cinzento do Estado Novo que nunca soube lidar com as diversas personagens de Fernando Pessoa. Um Portugal que acumulou História e tragédia, repressão, censura e morte ao longo dos séculos mas que tentou dar um prémio a um poeta tão imaginado como imaginário, tão solitário quanto boémio, tão reverente quanto iconoclasta, um poeta incompreendido que era a essência da sua própria poesia.

Se «Bach» já ensinava a ler e, no meu caso que tenho a pretensão da escrita, a escrever, ler «Nevoeiro – Uma Investigação» ensina a ler um País e uma época, e todas as que lhe antecederam, através de uma aparente simplicidade que é, afinal, tão fácil de ler. Aparentemente, pois o autor, professor, investigador suou as estopinhas, digamos, sofreu as estopinhas para nos dar tal simplicidade. Quase um livro policial (daqueles “duros” como os de Georges Simenon) a ser lido avidamente, mas sem pressa. Na essência, também um livro político porque vai impor a minha consciência sobre a ignorância de factos trágicos, sem dúvida factos reais, que foram sendo dourados a bem de uma Pátria que louvava Deus e a Família sobre toda a ignomínia e tanto sacrifício.

Neste livro, Pedro Eiras usa a própria estratégia literária (e ele tem um modo literário de que é único proprietário) de nos dar o interior emotivo de cada um dos quatro personagens quando confrontados com o isolamento. Ou seja, dá-nos a ler uma belíssima prosa sobre a solidão: Salazar entra na igreja, quase se esconde e se comove. António Ferro é confrontado com Fernando Pessoa que escreve Liberdade e se aproxima da Maçonaria, quando o Estado Novo impõe a sua extinção, António Ferro aflige-se e sua da testa. Fernando António Nogueira Pessoa, um homem nu na casa de banho faz a barba frente ao espelho, apara o bigode, fuma também, então “decide que chegou o momento de atapetar a vida contra o mundo e contra si próprio”. O autor investigador professor sente-se quase traído pela dimensão hercúlea do trabalho a que se propôs, lê muito e precisa de dar a sua opinião sobre a História, ele confessa que a literatura histórica é sempre uma leitura contemporânea dos factos passados, a que ele, Pedro Eiras, tem direito, não enjeita, pelo contrário, deseja afirmar, não deixando de esclarecer na Nota Final todas as fontes consultadas, a bem da verdade da investigação. Essa é a grande liberdade, a maior responsabilidade e também vantagem de ler este romance, porque, repito, este livro é um romance que se divide entre a “Paz” adiada e a “Guerra” declarada.

Mas a par com o prazer consciente de leitura que «Nevoeiro – Uma Investigação» nos entrega, vem essa poesia, quase carinho descritivo, com que Pedro Eiras cobre as personagens, os espaços e a cidade, fazendo deste um romance obrigatório.


jef, junho 2026