Não. Este Pigmalião não será aquele, antigo, que, horrorizado
com as mais dissolutas mulheres de Atenas, resolve esculpir um marfim a esposa mais
perfeita, cobrindo a estátua de belas roupas e das melhores joias e por ela apaixonar-se. Pedindo inclusive a Afrodite que lhe enviasse uma mulher assim idealizada. Por
fim, o marfim ganhou vida, ele desposou-a, tendo-lhe dado mesmo descendência.
Não. Também não estamos em 1913 quando foi representada a
peça escrita por Bernard Shaw, ironizando a aposta feita por Henry Higgins que conseguiria
transformar a vendedeira de flores londrina Eliza Doolittle numa distinta senhora de
sociedade, My Fair Lady.
Não. Este Pigmalião (António Lourenço Menezes) vive num mundo
sub-humano pois estes já terão desaparecido e alimenta-se de manequins, como
todos os outros pigmaliões que se nutrem de metal, feltro, velcro e poliéster. É
um mundo distópico, desértico e sem conclusão, onde a predação e a fuga, afinal
se vão encontrar num esconderijo onde a técnica apodrece. Afinal, o Manequim (Sara Afonso) desmembrado
deseja reconstruir-se e o Pigmalião prefere alimentar-se de manequins completos
e oferece-se para completá-la já que é perito em sucata e yoga. Aqui reside o
humor que perpassa toda a ópera. Pigmalião trata a manequim por “Amor, meu Amorzinho”
mas pretende simplesmente saciar a sua fome. A manequim mascara-se de marionete
apresentando-lhe uma falsa mão e um falso rosto. Contudo, Pigmalião não lhe fica
atrás pois, nas suas altas andas, de sinistra roupagem de outra marionete se
reveste. Nada é o que parece e o final oculta-se na morte improvável e na inversão de papéis, numa certa e delicada vingança.
A partitura acompanha directa e simples, a evolução
dramática desta tragicomédia em que as belas vozes de contratenor de António
Lourenço Menezes e de soprano de Sara Afonso, timbradas, modeladas, fazem com
eficácia a transição entre as árias e os recitativos falados. Sempre secundados pelo coro
que oferece a profundidade emocionalmente fantasmagórica de um mundo que entrou
em ruptura com os valores humanos. Contudo, faz falta a presença visual das figuras dos cantores do coro
pois a sua imagem faria outro contraponto com as imagens gravadas em vídeo e projectadas no
pano de fundo.
Uma ópera contemporânea portuguesa, como é promovida, acompanhada pelo som sintetizado e, depois, pelo timbre orgânico do sexteto de câmara. Talvez com um algo excessivo movimento de
plástico por uma ventoinha cuja subtracção abrupta do palco não seria necessário termos
presenciado.
É de sublinhar, e nunca será demais repetir o facto, a vitalidade
da arte dramática, na sua extraordinária diversidade, em Portugal e em especial
em Lisboa.
Vamos pois ao teatro!
jef, 18 de setembro de 2026
«Pigmalião» de Gerson de Sousa Batista (Composição musical e
som) e Tiago Schwäbl (Libreto
original - Mane-Quim / Pig-Malião). Com António Lourenço Menezes (Pigmalião – contratenor)
e Sara Afonso (Manequim – soprano). Músicos: Martim Ricardo (Flauta); Sara
Rocha (Clarinete); Francisco Cipriano (Percussão); Francisco Costa (Violino);
Camille Estêvão (Viola d’arco); Marta Nabeiro (Violoncelo). Coro (Grupo Vocal
Arsis): Alexandra Almeida, Alexandrina Leal, Ana Jacobety, Ana Sacramento,
António Morgado*, António Rocha*, Dina Oliveira*, Fernando Alves, Helena Pinto
Janeiro*, Isabel Almeida, Joana Proença, Jorge Afonso Paulo, Manuel João Martins,
Manuel Serpa Branco, Margarida Madeira*, Maria Clara Assunção, Maria da Luz
França, Maria Luísa Lima, Maria Luísa Nogueira, Mário Jorge Ervilha, Miguel
Monteiro*, Osvaldo de Sá, Paula Fonseca, Pedro Laginha, Rui Gonçalves, Sofia
Isidoro*, Susana Carvalho*, Teresa Amaro, Teresa Huertas Parente, Teresa
Travassos*, Vanda Freitas, José Manuel Sobral, Kina Yum, Leonor Proença
(*membros Incognitus Ensemble). Encenação e conceção plástica: João Vieira Fino.
Direção Musical e Maestro: Gonçalo Santos. Curadoria artística e direção coral:
António Lourenço Menezes. Direção técnica e desenho de luz: Paulo Santos. Produção: João Figueiredo Dias /
Plataforma Cultural. Figurinos:
Natália Mil-Homens Pereira. Caracterização: Eliseu Ferreira. Fotografia de
cartaz: Filipe Ferreira. Design gráfico: João Castro. Vídeos: Bárbara Medinas. Cenografia Digital: João
Vieira Fino dirigiu atelier comunitário na escola Play-Brincar para Crescer com
a turma de alunos dos 4/5 anos. Encomenda Original: Festival Informal de Ópera.
Duração: 65 minutos.