Um
filme muito curioso, disperso, desconexo, para olhar sem querer tudo compreender, para contemplar as paisagens de Verão, na praia, e as paisagens de
Inverno, na neve, ao som das composições do músico japonês Hi'Spec. É por aí
que devemos ser levados. Mesmo com bastante nostalgia das obras de Éric Rohmer («O
Raio Verde»,1986) ou de Takeshi Kitano («Um Lugar à Beira-mar», 1991).
Sigamos
pois a nostalgia do «não querer». A argumentista Li (Shim Eun-kyung) tenta
escrever o próximo guião e vai contando em voz off a dificuldade de imaginar as
cenas. Como é belo o lápis sobre as folhas pautadas do caderno e a escrita e a
voz japonesas, em contraponto. Ela escreve a história de dois desconhecidos que se
encontram, isolados, algures numa praia, Nagisa (Yumi Kawai) e Natsuo (Mansaku
Takada). Tomam banho num mar aparentemente revolto.
A
argumentista não consegue explicar bem os motivos para a escrita dos guiões,
nem a razão do seu filme, frente a uma assembleia de estudante de cinema. Um
velho e doente mestre morre e é-lhe oferecida uma máquina fotográfica que lhe
pertencia. Em crise existencial e criativa, Li parte para o Inverno nas
montanhas e alberga-se numa velha estalagem dirigida pelo ermita Benzo
(Shin'ichi Tsutsumi). Tudo se passa entre o humor e o trágico, a beleza da
imagem e o insólito da banda sonora, a explicação e o inexplicável, como talvez
seja costume no universo manga de Yoshiharu Tsuge, de onde saiu a inspiração
para o argumento. Como ainda talvez seja o motivo da atracção sentida pelo
mundo espiritual e estético japonês, essa estranha espécie de solidão
acompanhada, embora desértica. Relembrei o único livro lido de Hakuri
Murakami «Kafka à Beira-Mar» (2002).
Uma
certa abstracção perdida entre a estética e a narrativa.
jef,
novembro 2026
«Duas
Estações, Dois Desconhecidos» (Tabi to Hibi) de Sho Miyake. Com Eun-Kyung Shim,
Yumi Kawai, Mansaku Takada, Shiro Sano, Shin'ichi Tsutsumi, Tomomitsu Adachi, Shinichirô
Matsuura, Yôichirô Saitô Isogai, Ariei Umefune. Argumento: Sho Miyake segundo dois álbuns de
manga de Yoshiharu Tsuge. Produção: Masayoshi Jônai, Kensuke Zushi. Fotografia:
Yûta Tsukinaga. Montagem: Keiko Okawa. Som: Takamitsu Kawai. Música: Hi'Spec. Japão,
2025, Cores, 89 min.

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