Londres
está por perto, vislumbra-se do alto de um prédio ainda (ou já) quase desabitado.
Apenas Adam (Andrew Scott) e, no sexto andar, Harry (Paul Mescal). Ambos têm
uma escolha imposta, entre a solidão e a sobrevivência. Adam escreve guiões
para cinema e recorre à memória das fotografias de infância para prosseguir o
seu trabalho. Harry bate à porta de Adam, depois de se terem olhado pela janela
alta. Traz uma garrafa de uma qualquer bebida chinesa, pergunta se pode entrar,
Adam recusa, talvez por medo, talvez por não querer destruir o casulo onde
vive. Contudo, uma velha fotografia de uma casa fá-lo voltar de comboio a
tempos idos.
Aí,
o que parece uma cena de engate com um homem, passada numa zona florestal e
depois num supermercado, é apenas a necessidade de regressar e tentar
reconciliar-se com o passado quando, aos 12 anos de idade, Adam perde ambos os
pais num acidente brutal de viação, em noite de Natal.
É
quando, em sucessivos arcos em flashback impossível, numa excepcional entrada
num tempo cristalizado, reavaliará a estratégia calada (ou
reprimida) desde essa altura, com a mãe (Claire Foy) e com o pai (Jamie Bell).
Um acto cinematográfico absolutamente poético. Adam explicará assim, após décadas, o bullying que sofreu na escola por ser homossexual e como agora a
SIDA até já tem cura.
A
densidade espectral da luz na fotografia de Jamie Ramsay vai envolvendo a
necessidade cada vez maior dos dois inquilinos, também eles quase espectrais, se encontrarem
numa relação que tem tanto de afecto e de desejo sexual como de necessidade de
compreensão e protecção, uma difícil estratégia psicanalítica de regresso ao que já foi para se
compreender e, certamente, desculpar. Também para desculpar os pais que partiram
antes do tempo, deixando-o apenas entregue aos seus mortos e à própria memória
truncada.
Adam
precisa do desejo de Harry para ultrapassar o medo que é provocado pela inevitabilidade
da morte, pelo desaparecimento irreversível.
Porém,
a morte é inevitável e o fim de tudo, irreversível. Resta-nos apenas a
respectiva convivência factual, paradoxal, mas absolutamente carinhosa.
Como
a ternura pode estar em pé de igualdade com a solidão e a morte.
É preciso ouvir «The Power of Love» dos Frankie Goes to Hollywood!
jef,
março 2026
«All
of Us Strangers» (Desconhecidos) de Andrew Haigh. Com Andrew Scott, Paul Mescal,
Jamie Bell, Claire Foy, Carter John Grout, Ami Tredrea. Argumento: Andrew Haigh segundo o romance
“Strangers” de Taichi Yamada. Produção: Graham Broadbent, Peter Czernin, Sarah
Harvey Fotografia: Jamie Ramsay. Música: Emilie Levienaise-Farrouch.
Guarda-roupa: Sarah Blenkinsop. EUA / Grã-Bretanha, 2023, Cores, 105 min.

































