Tão
bom ser-se rico, entre Veneza e Paris!
Uma
das mais puras, finas, aristocráticas comédias de Lubitsch.
Aqui
nada se pode perder, nem uma imagem, nem uma palavra. Tudo conta. Tudo tem um sentido delirante. Nada é a sério. Ninguém pode
ver que se está a molhar o croissant no café com leite. Todo o roubo é admissível pois
todos roubam e todos desejam ser roubados. Há uma extrema volúpia no engano e
ninguém deseja sair desse engano e o maior problema com as mães é que ‘primeiro
nós gostamos delas depois elas morrem’.
O
segundo problema, para além do roubo da carteira na fabulosa sequência da
ópera de Paris, é que todos se amam e todos querem ser amados. Inclusive, a dupla
frustrada de pretendentes da extraordinária Mariette Colet (Kay Francis), o Major
(Charles Ruggles) e François Filiba (Edward Everett Horton), entre a rivalidade, estão a um
passo de se tornarem verdadeiros amigos.
Depois,
no início, há a gôndola que se passeia nocturna ao som do O Sole Mio enquanto vai recolhendo lixo pelos canais seguindo-se uma
intensa cena sobre os quartos do Hotel Venezia na qual é percorrida toda a cena que anuncia o
mote do filme e que termina num melancólico Barão Gaston Monescu (Herbert Marshall)
declarando ao mordomo como ‘os começos são todos difíceis’, enquanto aguarda a
Condessa Lily (Miriam Hopkins). Afinal, o Barão não é barão e a
Condessa não é condessa, são ladrões e amam-se.
Já no final, Lily e Gaston trocam os mesmos argumentos furtados tal
como fizeram durante a refeição inicial.
Sem esquecer a estupefação cantarolada do mordomo, Jacques (Robert Greig), na inacreditável sequência das portas dos dois quartos com um relógio pelo meio.
E ainda os vestidos de Lily e Mariette Colet!
Não existe filme mais delicadamente delirante, mais extravagante, mais absurdamente teatral. Mais artdeco!
Uma obra prima!
jef,
julho 2026
«Ladrão
de Alcova» (1524 de Ernst Lubitsch. Com Miriam Hopkins (Lily), Kay Francis (Mariette
Colet), Herbert Marshall (Gaston Monescu), Charles Ruggles (Major), Edward
Everett Horton (François Filiba), C. Aubrey Smith (Adolph J. Giron), Robert Greig
(Jacques, o mordomo), Leonid Kinkey (o comunista), George Humbert (o criado de
Gaston). Argumento: Samson
Raphaelson baseado na peça de teatro de Aladár László adaptada por Grover Jones.
Produção: Ernst Lubitsch. Fotografia: Victor Milner. Música: W. Franke Harling.
Canção do genérico: Leo Ribun. EUA, 1932, P/B, 83 min.













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