Esta
é uma das comédias mais aristocraticamente requintadas que Hollywood alguma vez
nos ofereceu. Um requinte tão multifacetado que é difícil tomamo-lo por um dos
seus lados, ou reflexos, apenas. Por alguma razão, termina com a reverência
virtual da “novíssima Eve”, Phoebe (Barbara Bates), perante o jogo de espelhos –
qual «Dama de Xangai» (Orson Welles, 1947)!
Digamos
que é um requinte extraordinário liderado pelo ciúme que o próprio filme concebe
pelo teatro em palco. Teatro pelo teatro, em absoluto. Porque o ciúme é o seu tema fundador.
Um ciúme teatral que quando está prestes a descambar para o drama reverte-se,
diverte-se, e desvia-se para a alta comédia. Por essa razão, após a conversa
entre Eve Harrington (Anne Baxter) e Karen Richards (Celeste Holm) nos lavabos
femininos, Karen regressa à mesa onde os dois eternos casais jantam e a cena
termina com o riso irreprimível desta ao ouvir certa notícia da boca de Margo
Channing (Bette Davis). Sublime climax-anti-climax!
Um
filme requintado e de uma sincera simetria. Temos dois magníficos e
aristocráticos compères-voz off, o primeiro que nos apresenta a história,
explicando-a em longuíssimo flash back, o omnisciente Addison DeWitt (George Sanders) e,
depois, a maravilhosa Karen Richards, complacente e divertida, que resolve do principio
ao fim meter a foice em seara alheia, sem ser propriamente omnisciente como o
primeiro. Eles compõem a trama sabendo que, como fiel dessa simetria, sempre
estará presente a maravilhosa Birdie (Thelma Ritter), uma espécie de
deusa-criada que sobre tudo opina sem duvidar da sua pontaria analítica. O coro
grego!
Temos no centro o casal Margo Channing e o encenador Bill Simpson (Gary Merrill) e, do outro lado central, o escritor de peças Lloyd Richards (Gregory Ratoff) e a parcimoniosa Karen Richards. Tudo sempre à beira do conflito pelo eterno atraso da diva do teatro Margo, temendo sempre a impossibilidade de continuar a representar o papel de jovem heroína. O ciúme pela idade de Eve Harrington, o desencanto por deixar de ser o centro da festa, o centro de si própria.
Depois surge entre
os convidados, ainda para ofuscar Margo e iluminar a sua bebedeira, Marilyn
Monroe (Miss Casswell), bela, jovem, inexperiente e ingénua, sem saber a
diferença entre “criado” e “mordomo”, num trocadilho que não desfaz a premonitória
frase que George Sanders diz sobre Marilyn “I can see your career rising east
like the sun” / “vejo a tua carreira a erguer-se, a nascente, como o sol”.
Depois
existem cenas que parecem saídas do mais puro teatro isabelino, quando na cama
do próprio palco Margo desespera por saber que irá ser substituída pela jovem
Eve, e desenrola um chorrilho de trocadilhos sobre o pouco inocente
nome de Eva, enquanto Margo é invectivada e ao mesmo tempo mimada por Lloyd,
seu marido.
Tudo
parece saber-se no exacto momento em que tudo volta a desconhecer-se, num labirinto de actizes
e actores maravilhosos, personagens, corpos, vestidos, jóias, casacos de peles e
palavras que confundem e deslindam em permanente jogo de contrários narrativos.
Nunca os olhos de Bette Davis foram tão ávidos, nunca a figura de George Sanders,
tão pontualmente esclarecedora, a luminosidade de Marilyn, tão luminosa, a
parcimónia de Celeste Holm, tão bondosa, a irreverência de Thelma Ritter, tão
cómica.
Sobre
todos os aspectos que olhemos os espelhos que se reflectem em «All About Eve»,
este filme é um deslumbramento!
jef,
maio 2026
«Eva»
(All About Eve) de Joseph L. Mankiewicz. Com Bette Davis, Anne Baxter, George
Sanders, Celeste Holm, Marilyn Monroe, Thelma Ritter, Gary Merrill, Hugh
Marlowe, Gregory Ratoff, Barbara Bates, Walter Hampden, Randy Stuart, Craig
Hill, Leland Harris, Barbara White, Eddie Fisher, William Pullen. Argumento: Joseph L. Mankiewicz baseado na
novela e na peça radiofónica “The Wisdom of Eve” de Mary Orr. Produção: Darryl
F. Zanuck. Fotografia: Milton R. Krasner. Música: Alfred Newman. Guarda-roupa:
Edith
Head (Bette Davis), Charles Le Maire, Joan Joseff (jóias). EUA, 1950, P/B, 138 min.




































