domingo, 18 de outubro de 2026

Sobre o filme «O Sétimo Continente» de Michael Haneke, 1989



 























É o primeiro filme de Michael Haneke para o cinema. E toda a sua arte já lá está – nua e crua! Sem contemplações nem artifícios. Quase sem música. Apenas um trecho de um concerto para violino de Alban Berg se ouve a sair de um radio de um carro a ser vendido, enquanto cá fora, a pequena Evi (Leni Tanzer) espera. A música é interrompida quando o carro é ligado. Nada mais.

Um filme sem rede nem apaziguamento.

Cada cena é directa, a imagem simples e definida (Anton Peschke), o som (Karl Schlifelner), igualmente. No início, a identidade dos rostos das personagens é ocultada. Cada cena, separada da seguinte por um slide negro que dura quase um segundo, coloca-nos frente, sem subterfúgios, perante uma família austríaca bem instalada na vida, com uma rotina detalhada entre o trabalho e as compras dos pais Georg (Dieter Berner) e Anna (Birgit Doll), e a escola de Evi. Nada mais. Apenas uma espécie de quadro extra-cena intermitente de uma praia da Austrália, o sétimo continente, para onde a família viajará e, finalmente. regressará.

No panorama de um neo-hiper-realismo, os peixinhos de Evi são ternamente alimentados, Georg sobe de posto na empresa, Anna trabalha como optometrista num oculista, eles cuidam atentamente do irmão e tio Alexander (Udo Samel) que sofre com a morte da mãe. Anna vai frequentemente ao médico pois também ela sofre emocionalmente. É ela que escreve regularmente aos sogros para ir relatando o seu quotidiano tranquilo.

O filme divide-se em três partes, por três anos: 1987, 1988 e 1989. Nada mais nos é relatado, contextualizado, amenizado, o espectador apenas fica de fronte a uma crescente angústia face a uma decisão irreversível, comemorada com as mais faustosas das refeições. Também ela por explicar, apenas detectada por sinais tardios e diferentes reflexos quotidianos que se agravam. O espectador não tem armas para se defender. A explicação final de que um caso semelhante ocorreu na realidade na Áustria ainda torna mais premente e explicita a violência de uma decisão consciente.

Por fim, a televisão é um único objecto em movimento, aproximando-se da objectiva, em chuva técnica, a preto e branco, como ela também morta, por entre a qual passam imagens de um passado que não poderá ser mais recordado.

É um filme brutalmente explícito, de uma inigualável genialidade narrativa, que vem demonstrar a fragilidade de uma sociedade burguesa que se reveste de falsas roupagens de abastança socio-económica e equilíbrio emocional. Um filme que inicia a Trilogia da Glaciação da qual fazem parte «71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso» (1994), «O Vídeo de Benny» (1992).

Um filme que não será para todos.


jef, outubro 2026

«O Sétimo Continente» (Der Siebente Kontinent) de Michael Haneke. Com Dieter Berner, Birgit Doll, Leni Tanzer, Udo Samel, Silvia Fenz, Robert Dietl, Elisabeth Rath, Georges Kern, Georg Friedrich. Argumento: Michael Haneke, Johanna Teicht. Produção: Veit Heiduschka. Fotografia: Anton Peschke. Montagem: Marie Homolkova. Som: Karl Schlifelner. Música: Alban Berg. Guarda-roupa: Anna Georgiades. Áustria, 1989, Cores, 109 min.

 

Sobre o livro «Maigret e o Homem do Banco» de Georges Simenon, Livros do Brasil, Colecção Vampiro n.º 132. Tradução de Mascarenhas Barreto. Capa de Lima de Freitas, 1958 (1953).



 







«No automóvel em que regressava a Paris, lembrou-se de que quando, aos vinte anos, chegara à capital o que mais o impressionara fora a fermentação constante da enorme cidade, essa agitação contínua de centenas de milhar de seres humanos à procura de alguma coisa. (…)

O que outrora o impressionara, o que lhe comunicava uma febre romântica, no meio dessa multidão em perpétuo movimento, era o bando de desencorajados, dos vencidos, dos resignados que não tinham ânimo para se firmar à corda e se deixavam ir por água a baixo.

Depois aprendera a conhecê-los e esses já não o impressionavam, mas sim os do escalão superior, decentes e limpos, sem pitoresco, que lutavam, dia após dia, para se aguentarem ao de cima da corrente ou para se oferecerem a ilusão de que existiam e de que a vida merece ser vivida.»

Georges Simenon, ao escrever estas linhas, rever-se-ia nessa activa contemplação do Comissário Maigret perante uma cidade em movimento? Pois ao longo de todo o romance, o Comissário Maigret não deixa de se rever com afecto reflexivo no resignado caixeiro M. Louis Thouret e respectivos os sapatos amarelos.

Sobre este pormenor, o único que devemos ou podemos referir sem fazer spoiler, pois é o título do primeiro capítulo, não é apenas a marca, o signo, o triunfo de uma personalidade, mas antes o expoente máximo da resistência humana perante essa mole citadina em permanente fermentação.

Simenon tem, como é seu dever de exímio mestre, um cuidado para com os desvalidos que rodeiam o centro da intriga – M. Louis –, mesmo aqueles que o “acusavam” de complacência perante o triste remedeio com que a vida o brindara.

Contudo, Maigret (Simenon) envolve M. Louis de gente afável e carinhosa, reflexo da própria afabilidade e carinho que ele emanava perante a micro sociedade familiar. Inclusive, ou principalmente, a relação deste com o circense Jef Schrameck. Os diálogos saídos dos interrogatórios sucessivos de Monique, Schrameck e Albert Jorisse são a absoluta prova desse coração maior com que Maigret distingue o trigo do joio social.

Mais não se poderá escrever sobre esta grande peça narrativa (e descritiva) sem estragar o enredo que é no fundo a vocação de todo o livro policial.

E este é um enorme livro carregando uma excelente tradução de Mascarenhas Barreto e apresentando na capa uma das obras maiores de Lima de Freitas.

p.s. Infelizmente, ao velhinho exemplar encontrado no fundo da prateleira da casa de férias faltava a folha com as páginas 127-128, logo aquelas entre os capítulos VI e VII onde se descrevem as tropelias de Schrameck. Tentarei encontrar no alfarrabista um exemplar completo…


jef, outubro 2026

 

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Sobre as exposições de Pedro Cabrita Reis e Joana Vasconcelos, Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, 2026



 



































Uma improvável ligação para comemorar os 10 anos do Museu. É a função da Arte e da imaginação dos seus curadores.

Visito o Museu pela primeira vez num fim de semana de entrada gratuita.

Milhares de visitantes à beira Tejo. Os visitantes fazem parte do espectáculo. Ou são eles o espectáculo, além do rio Tejo, claro.

Pedro Cabrita Reis «Com o Coração Livre de Cuidados»: todos passam por essa espiral das arrebatadoras telas impressionistas e panorâmicas, 28 no seu número. «Nymphaea Redux». Ou pelos mais pequenos mas não menos numéricos quadros alegóricos da sua persona «Ridi Paglaccio». Fotografo uma das pequenas telas de paisagens vagamente ou destorcidamente helénicas.

As pessoas seguem rápido pois mais desejam Joana Vasconcelos «Venus». Eu nunca tinha assistido à famosa parafernália gigantesca de objectos sintéticos e/ou sincréticos, que atraem e repelem em simultâneo e na mesma proporção, por entre os velhos vestidos criados por Valentino (Garavani). O retorcido plástico de «Coração Independente Vermelho», as mutantes flores vaporizadas Bosch de «A Todo o Vapor» ou as cintilantes, ameaçadoras, carnívoras flores luminosas do obscuro «Jardim do Éden».

O modo como a arte contemporânea se torna impenetrável por tamanha multidão de espectadores e, ao mesmo tempo, libidinosamente popular e oferecida.

Gostei muito.

jef, 4 de outubro de 2026

Sobre a peça «O Casamento de Fígaro» de Pierre Caron Beaumarchais. Teatro do Bairro, 2026.



 






















Lembrando Maio de 1999, «O Casamento de Fígaro» na belíssima tradução de Luis Miguel Cintra no Teatro da Cornucópia. 

O mesmo texto agora pela encenação de António Pires, a provocação social, política e revolucionária de 1784, quando foi estreada, a guerra dos sexos e o conflito entre classes, a aristocracia que nasce para que nada lhe falta sem esforço e os pajens e as aias que têm de usar o mérito, o engenho e a arte para trabalhar e atingir os seus fins.

Assuntos que continuam na ordem do dia. Os clássicos, felizmente (ou infelizmente) permanecem como pontos de honra apontando o dedo à sistemática e eterna iniquidade humana. A luta de classes e o poderio masculino sobre a astúcia feminina.

Porém, esta “Louca e ininterrupta Jornada” é uma alta comédia, irónica e prazenteira, cheia de portas e esconderijos, troca de identidades, ardis bem urdidos, confiança quebrada, e depois reposta, numa espécie de comédia pueril onde os homens todos sem excepção são tidos por tolos, nada entendem, joguetes nas mãos das intrigas femininas. No entanto, Beaumarchis nada pretende mudar e tudo ilude com o mais luminoso e divertido happy end, em alegria e festa, após uma tortuosa “jornada" nocturna no jardim, por baixo dos castanheiros.

Envoltos num ambiente de cortinas e tule, semelhantes a suaves nuvens ou doce e branco merengue, as personagens ali se divertem. A fantástica Sofia Marques, no papel de Condessa Rosina, o eterno Fígaro nas mãos do sempre inesquecível Francisco Vistas, a sombria sempre noiva Marcelina, provocadora e defensora da causa feminina, tendo por dentro a actriz Alexandra Rosa, ou a bela e fresca Susana dando a mão à actriz Vera Moura.

O Teatro do Bairro é um dos primeiros responsáveis por manter em cena, actualmente, uma grande parte da dramaturgia clássica, peças imprescindíveis para entender a apressada volubilidade da sociedade contemporânea.


jef, 11 de outubro de 2026

 

Texto: Pierre Caron Beaumarchais. Tradução: Luis Miguel Cintra. Encenação: António Pires. Com Alexandra Rosa (Marcelina), Carolina Campanela (Fininha, prima), Dinis Gomes (Conde Almaviva), Francisco Vistas (Fígaro), João Araújo (Meirinho), João Maria (Querubim), Mário Sousa (Médico, Advogado), Sofia Marques (Rosina, Condessa), Vera Moura (Susana). Cenografia: João Mendes Ribeiro. Cenografia: Alexandre Oliveira. Figurinos originais: Susana Moura e adaptação de outros figurinos de Luís Mesquita e Luísa Pacheco. Desenho de luz: Rui Seabra. Desenho de som: Paulo Abelho. Costureira: Rosário Balbi. Construção de cenário: Fábio Paulo. Operação de luz: António Serrão e João Madeira. Operação de som: Vasco Maciel. Ilustração: Joana Villaverde. Produtor: Alexandre Oliveira. Ar de Filmes / Teatro do Bairro. Duração: 130min


9 Outubro a 6 Novembro

Quarta a Sexta. 21h00

Sábado e Domingo. 17h00

 

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Sobre o concerto de Ist Ist, Lisboa 2026


 









































Lisboa, Alvalade. O RCA Club. Entre o Pingo Doce e o Continente, duas igrejas evangélicas e a estância de madeiras Lino & Filhos Lda.. Não longe dos Bombeiros e do Mercado de Alvalade.

Um local à antiga tão longínquo e obscuro, quanto amável e acolhedor. Uma arquitectura mínima que faz lembrar um velho Ritz Clube ou uma Velha Voz do Operário. Um balcão com venda ininterrupta de cerveja ladeado por uma escada cujo corrimão que, por ausência de estratégia, não acompanha até ao fim os degraus fazendo dançar até ao chão os incautos amantes desse pós-proto-amável punk dos Ist Ist, banda da grande e inglesa Manchester, que produz música através da sua própria editora e divulgadora– a Kind Violence Records. Desde 2014.

São eles: Adam Houghton – vocais e guitarra; Mat Peters – teclados, sintetizadores e guitarra; Andy Keating – baixo e Joel Kay – Bateria.

Ao fundo, para meu gáudio e de tantos velhos conhecedores e amantes de Joy Division, New Order, The Durutti Column, Depeche Mode, The National / Matt Beninger ou dos portugueses Decline and Fall (todos de velho negro e usado cabedal), brinda-se, com precisão inglesa pelas 21h30, à moderna velha escola da acústica eléctrica, simples e precisa, quase fora de moda. Batida romântica sob refrões firmemente dementes ou perdidamente amorosos. Temas vindos dos álbuns Architecture (2020), The Art of Lying (2021), Protagonists 2023), Light a Bigger Fire (2024) e Dagger (2025). Todos com capas requintadamente estéticas.

Alegre (e negra) convivência entre o povo lusitano e os britânicos exilados neste oeste europeu. Tudo fixe, tudo calmo, tudo animado por esse ritmo forte e sintético.

Saímos felizes mas não chegámos a ir comer o gelado na Conchanata mas comprei o cd «Dagger» de 2026 (o povo musical precisa de apoio!)

(As imagens do concerto são cortesia de Renan Nascimento.)


jef, 10 de outubro 2026

Sobre a peça «Macbeth» de William Shakespeare, Teatro Nacional D. Maria II, 2026



 





























A mais recente referência que tenho de «Macbeth» é a comédia idealizada por Manuel Jerónimo a partir de Shakespeare, levada à cena em 2024 na Boutique da Cultura – «Macbeth - A Peça Escocesa». Aquela peça que não se pode nomear por maldição, dessa vez passada nos bastidores de um restaurante “haute couture” onde a floresta avançava segundo os movimentos de uns vasos com plantas sintécticas do Ikea. Um delírio.

Como um certo delírio é, afinal, a peça escrita por Shakespeare. Macbeth, um mesmo muito competente José Raposo, é mandatado pela enérgica e autoritária Lady M., interpretada pela super-actriz Bárbara Branco, que enche o palco de perfídia e alma do marido de dúvidas, remorsos e fantasmas. Os dois montam o plano maquiavélico de assalto ao trono da Escócia.

Claro que a super-bruxa, vestida de D. Maria II (o maravilhoso João Grosso, que já aparecera como malogrado rei da Escócia, Duncan) e o cenário a aparentar a fachada do teatro nacional, outrora incendiado, e o fogo e o fumo e as trovoadas demoníacas (talvez um pouco intensas demais), para além da exuberância da tragédia pautadas pelas maldições-previsões das três divertidas bruxas (Ana Tang, Ana Coimbra e Stela), torna tudo um pouco avesso à tragédia e mais à comédia de costumes… Isto sou eu a dizer ou a sentir.

Mesmo a cabeça de Macbeth, finalmente atirada sem pudor nem estilo para o caldeirão, onde as bruxas tinham atirado previamente  as asas de morcego, as pernas de sapo ou as almas de gato, tudo indica um exagero que apenas é atenuado pela mestria de um texto genial e delirantemente sangrento, que oferece finalmente um diálogo fulcral, à boca de cena, com o apaniguado do futuro rei da Escócia Malcolm (Sandro Feliciano), dito por um fantástico Macduff (June João). O diálogo da moral final que representa a salvação da peça, talvez como William Shakespeare tenha idealizado no interior de tanta sanguinária maldade.

Uma peça felizmente maldita! Uma peça eterna, quer seja na cozinha de um restaurante gourmet amaldiçoado, quer no interior de um Teatro Nacional ameaçado sempre pelas chamas e pelas lotações esgotadas, em 2026!

Os clássicos são imprescindíveis! Não têm hora nem tempo!


jef, 3 de Outubro de 2026

«Macbeth». Texto: William Shakespeare. Encenação e tradução: Pedro Penin. Com Ana Coimbra (uma bruxa), Ana Tang (uma bruxa), Bárbara Branco (Lady Macbeth), Bernardo de Lacerda, Hugo Van Der Ding (Banquo), João Grosso (Duncan, rei da Escócia, bruxa-mor / D. Maria II), José Neves, José Raposo (Macbeth), June João (Macduff), Sandro Feliciano (Malcolm), Stela (uma bruxa, Lady Macduff), Vítor Silva Costa. Cenografia: Joana Sousa. Composição e desenho de som: Filipe Baptista. Luz: Daniel Worm d’Assmpção. Figurinos BÉHEN (Joana Duarte). Produção: Teatro Nacional D. Maria II. 150 minutos.

 

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Sobre o filme «Naza» de Yuval Abraham e Rachel Szor



 











Antes de mais, «Naza» é um belo exemplo de cinematografia. Ou, mais simples e apesar do que se ouve, um belíssimo filme! Sob a luz negra da noite de Telavive, sob as janelas iluminadas mostrando a tranquilidade familiar, seccionada, pois nunca se vê a identidade dos rostos, num jogo preciso de enquadramentos, triangulações, pontos de fuga ou linhas de convergência; alternando com a azáfama rodoviária das grandes vias iluminadas pelos faróis da grande cidade; banhado pelas negras águas mediterrânicas; num simples terraço, são entrevistados por Yuval Abraham, o realizador, 24 militares da tecnológica elite militar israelita, que não são identificados por óbvios motivos. Mais uma vez a obscuridade é a alma do negócio ou da chacina. Conta-se como as casas e os bairros de Gaza eram digitalmente identificados, parametrizados e escolhidos por electrónica e inteligência artificial. Escolhidos os alvos onde supostamente viviam elementos do Hamas e enviadas bombas certeiras para os atingir. Não interessava saber-se quem seria atingido ou sacrificado. Era mais um jogo que divertia quem o jogava mesmo sabendo que matavam famílias inteiras, velhos, mulheres e crianças. Algumas vezes, o elemento identificado supostamente como sendo do Hamas saía ileso. Nada se vê sob a citada luz negra de Telavive, o militar apenas ilustra com um desenho a branco e preto, bairro a bairro, andar por andar, os prédios de Gaza que devem ser destruídos pelas bombas. Apenas um critério, o genocídio em Gaza.

Naturalmente, as imagens omissas vêm recordar o monumental filme de Claude Lanzmann «Shoah» (1985) sobre o Holocausto nazi, Treblinka ou Auschwitz-Birkenau, onde as possíveis imagens são permanentemente substituídas pela das figuras entrevistadas. Nada mais, pois o que se pretendia com o Holocausto não era apenas chacinar um povo, mas destruir-lhe o essencial, o espaço, a história e as memórias.

«Naza», pela sua contundente “noite sem imagens” também recorda o surpreendente filme «A Imagem que Falta» de Rithy Panh (2013) onde Camboja e o seu povo foi despojado integralmente da sua vida da sua cultura, das suas aldeias. Até o nome lhes foi retirado pelo regime de Pol Pot e dos Khmer Vermelho, entre 1975-1979. Um filme que o realizador filmou através da transfiguração das atrocidades por marionetas (numa espécies de “stop motion”) pois tudo o que existia como documentos foi sistematicamente destruído pela ditadura. A memória como futura ameaça.

A memória, uma permanente ameaça para o futuro, como acontece actualmente (e novamente) em Gaza e aqui descrita por quem, a partir de Israel, era pago para obliterar a história e o povo palestinianos, convidados aqueles para um jogo real-letal executado por consolas militares. Afinal, uma certa banalidade do mal, e respectiva oficialização, lembrando Eichmann e as célebres palavras de Hannah Arendt.

Saio do cinema, com a sala quase esgotada e depois de uma salva de palmas por parte dos espectadores. Saio em silêncio, estranhando o ódio sistemático dos isrealitas perante o povo ancestral daquelas paragens, estranho ainda mais um genocídio praticado por que já sofreu um dos maiores horrores da história da humanidade. Talvez o judeu Sigmund Freud soubesse explicar o facto “de uma criança abusada vir a transformar-se num pai abusador”. 

Shoah por Shoah. Ou como quem diz, proverbialmente: “Não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu”.


jef, outubro 2026

«Naza» de Yuval Abraham e Rachel Szor. Com Yuval Abraham. Argumento: Yuval Abraham e Rachel Szor. Produção: Jonathan Glazer, James Wilson, The Guardian. Fotografia e  montagem: Rachel Szor. Reino Unido, 2026, Cores, 80 min.