Uma daquelas comédias de enganos, troca de identidades,
muitas portas e alçapões (e uma varanda com a porta estranhamente sempre
aberta), que muitos já usaram e que eternamente se repetirão. O dramaturgo
francês, Sébastien Castro, escreveu-a em 2022 trazendo à memória outras tantas que
fizeram a delícia dos espectadores durante séculos… Shakespeare, Marivaux ou Beaumarchais.
Gémeos irmãos confundíveis, sedução e troca de casais, permuta entre classes
sociais. Contudo, nesses tempos a troca de identidades entre nobres e criados
colocada em teatro era uma questão política e, dizem, ter influenciado mesmo o curso
da Revolução Francesa.
Em «Uma Ideia Genial», em 2026, a questão simplifica-se num contexto mundial absurdo e violento oferecendo ao espectador o absurdo da
diversão pura e simples – uma questão de terapia emocional.
Ricardo Neves-Neves sempre tem mão lesta e espírito assertivo
para dar ainda mais rapidez a uma dramaturgia à partida em passo de corrida,
colocando o cenário ao seu serviço, deixando-lhe a parte central da narrativa
dramática, quantas vezes acrobática e circense.
Outra parte fundamental é entregue a Ruben Madureira que
representa praticamente em simultâneo o Tomás, o Diogo e o Júlio, obrigando o actor
a uma extraordinária mudança de modo, carácter e figurino, contracenando com a
figura do Alberto, representada por Cristóvão Campos, actor que quando entra em
cena sempre lhe entrega uma aura de seriedade. Nada melhor do que o colocar
frente a Ruben Madureira.
O lado feminino é entregue a Ana Guiomar, Mariana, a mulher
que pretende enganar e é enganada, e à Catarina, que tem dentro uma transformada Sandra Faleiro,
vizinha tola e um tudo nada anafada, de líbido exaltado, entrando permanentemente pela varanda
sem pedir licença.
Uma comédia mais do absurdo do que de costumes provando a
popularidade do teatro que tem esgotado as salas por toda a cidade de Lisboa.
jef, 7 de abril de 2026
«Uma Ideia Genial» de Sébastien Castro. Com Ana Guiomar
(Mariana), Cristóvão Campos (Alberto), Ruben Madureira (Tomás, Diogo, Júlio) e
Sandra Faleiro (Catarina). Encenação: Ricardo Neves-Neves. Tradução: Ana
Sampaio. Cenário: Catarina Amaro. Figurinos: Rafaela Mapril. Desenho de luz: Rui
Seabra. Vídeo: João Lourenço e Kimmy Simões. Fotografias: Filipe Figueiredo. Música:
Artur Guimarães. Produção: Força de Produção. Teatro Maria Matos. Duração: 90
min.






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