São 63 crónicas, dir-se-ia 63 histórias, algumas das quais ouvi através do seu podcast, onde Cláudio Moreno fala de Xerxes,
o persa, de Xanto, o cavalo, Pátroclo, o morto, Aquiles, o ofendido, Telémaco,
o filho, Príamo, o pai, Heitor, o sacrificado… Mas também fala de Borges, Stevenson,
George Stein, Stefan Zweig ou Miguel Esteves Cardoso. O autor transporta para os seus textos a simplicidade
moral e a profundidade ética que os textos antigos nos deixaram, latinos ou gregos, como fábulas ou metáforas ou parábolas que nos deixam tranquilamente
exaltados com esta coisa de viver o dia a dia, simplesmente, sem pedir muito
mais mas exigindo de cada momento a força única da existência.
Mais do que a Bíblia, o Alcorão ou o Talmude, textos vindos de
Abraão, mas que permanecem na mente dos actuais viventes como dogmas ou sinais
que devem ser perseguidos, e quantas vezes impostos e esgrimidos, os textos da antiguidade
têm a imensa vantagem sobre aqueles, de serem simplesmente bela literatura que
cristalizou no tempo, sem exigirem mais nada do Mundo, mas contendo todo o coração, a razão ou os sentimentos da humanidade de outrora
e do amanhã.
Cláudio Moreno sabe disso e, nestas crónicas, transmite-nos
tais ensinamentos com a serenidade de um conto nocturno para crianças adultas.
Por isso, este livro permanecerá junto à minha almofada!
Nele desvendamos a perícia bélica, e devoção amorosa,
do Batalhão dos Amantes quando este enfrentou o vastos exército de Filipe da
Macedónia e de seu filho Alexandre, futuramente Magno.
Também a perícia da boa vida, através da antiga estatuária
ora esculpida, lascando pedaço a pedaço o mármore, ora acrescentado, argila a
argila, até conseguir o molde que levará à perfeita fundição do metal. Segundo
Epicuro:
“o sábio deve esculpir a sua própria
estátua. Não é que eu deva me conformar com pouco, mas sim, se eu não tiver
muito, que este pouco me baste.”
Ou relembrar as palavras de Beda vindas da Inglaterra do
século VII (que eu talvez tenha conhecido pelo livro «A Consciência de Zeno» de
Italo Svevo):
“Nossa vida se assemelha ao curto voo
de um pardalzinho que atravesse a sala de banquetes, aquecida por um bom fogo,
onde Vossa Majestade e seus conselheiros estejam reunidos para jantar, numa
fria noite de inverno. A avezinha entra por uma porta e sai por outra; enquanto
voa pela sala, está livre da gélida tormenta e pode aproveitar a luz e o calor
da chama da lareira – mas logo estará lá fora, outra vez, mergulhando no frio e
na escuridão. Assim é a nossa vida, meu rei: nós a temos por pouco tempo, e
nada sabemos do que veio antes e do que virá depois.”
Por isso repito, mais dos que os textos, um tanto despóticos,
ligados à actual divindade monoteísta, os textos de Cláudio Moreno traduzindo, para
nosso uso e consolo, a maravilhosa poética multifacetada de um mundo antigo e desaparecido deixa-nos
de certo modo tranquilos sobre o que nos antecedeu e o que estará por acontecer.
jef, março 2026





























