Um livro especial. Não apenas por incluir duas fábulas únicas e intrigantes do escritor e humanista Kenji Miyazawa (1896-1933) sobre como viver a
espiritualidade activa entre a comunhão com os demais viventes humanos, a
tecnologia em prol da melhoria de vida dos que mais necessitam e a conservação
da natureza. «Noite no Caminho de Ferro da Via Láctea» e «A Biografia de Gusuko
Budori» são, acima de tudo, excepcionais actos poéticos sobre a sobrevivência,
a devoção literária e a abnegação à causa social.
Esqueçam as comparações aleatórias com «O Principezinho» de Antoine
de Saint-Exupéry. São mundos paralelos, mas que dificilmente se tocam. São
poesias diversas, a de Saint-Exupéry, um abstraccionismo intelectualmente
adulto e disseminado; o mundo de Miyazawa é concreto, tecnológico, astronómico,
paleontológico, agronómico e silvícola lembrando-me ainda trechos das aventuras de Stevenson, de Júlio Verne, dos Irmãos Grimm ou Selma Lagerlöf. Só que é tudo
diferente! Intelectualmente puro, emocionalmente profundo e toldado pela
ventura da dádiva e pelo altruísmo definitivo sem moeda de troca. Apenas
entrega seguindo o despojamento budista de que Miyazawa era seguidor ou
perseguindo o mundo dos Kami, essa
xintoísta profusão de seres mitológicos que nos rodeiam e acompanham.
A par da leitura dos dois textos
traduzidos directamente por António Barrento, somos auxiliados pelas
circunstanciais notas pé-de-página, a introdução “Sobre o Autor” e o posfácio
“Notas finais”, onde o tradutor enquadra temporalmente e politicamente a
publicação das novelas. Para além da extensa bibliografia e um glossário onde
pontuam, identificando-as, as muitas plantas mencionadas ao longo das
narrativas, ou não tivesse Miyazawa estudado Agronomia.
Um livro que também é muito prático,
emocionante e emocional que resulta de uma proposta editorial directa de
António Barrento (e Hugo Xavier) para financiamento colectivo, através do qual
os leitores podem ir construindo a própria editora E-Primatur.
Um livro rigorosíssimo a ser acarinhado e ‘estudado’ por todos os
leitores (e editores).
jef, julho 2026



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