Tenho
de reler «O Estrangeiro» de Albert Camus (aliás, como o realizador pretende
motivar o espectador-leitor a fazer no final da excelente entrevista-artigo de Vasco
Câmara no suplemento Ípsilon do Público, de 13 de março de 2026).
Em
tempo, foi dos livros que mais me perturbaram, que me deixaram suspenso nesse absoluto
zero que é, afinal, o caminho existencialista sartriano para a consciência do
caminho libertário e do nada, caminho anti-empático, talvez apenas em direcção à solidão final.
Desde
o início, o filme tocou-me, fez-me reviver o livro (porque o livro é mesmo
visualmente cinematográfico, uma obra dificilmente esquecível).
Felizmente,
o livro apenas residia no meu córtex como memória filosófica e estética,
retocando longos planos cheios de brilho colorido, de branco, de sol, de calor
e mar. Tudo batia certo no filme de Ozon, inclusive a estranha sensação de
todos os personagens com quem Meursault (Benjamin Voisin) se vai cruzando são todas, sem excepção, mais dialogantes em fotogenia e empatia que o próprio protagonista, aliás como a
minha memória ainda retinha: Marie (Rebecca Marder), Raymond Sintès (Pierre
Lottin) ou qualquer outra das figuras que, mais tarde, testemunharão no seu
julgamento. Aliás, as cenas na praia com a actriz Rebecca Marder (Marie) são de
uma sensualidade expectante assombrosa, e as refeições tomadas com o actor Pierre
Lottin (Raymond) revestem-se de um subreptício e latente humor. Assim devem ser
pois o protagonista é, exactamente, o que os outros lhe contrapõem ou sobre ele
reflectem. Como no espelho onde se barbeia. Cenas de uma beleza igualmente
perturbadora.
Tudo
batia certo até à longa cena na praia (imaginada-recordada pela minha estafada
memória), uma demorada perspectiva de caminhada sob o calor e alheamento, quase
de exausto delírio, onde o brilho da lâmina do árabe se encontra com o metal do
revólver empunhado. O que eu sempre retive como um denso regresso ao nada
através do contraponto incompreensível da sociedade, torna-se no filme de Ozon
acelerado, extrovertido e, sobretudo, explicativo… O que não fazia parte do
mistério que o livro deixara preservado no dito córtex.
Depois
da cena, o meu espírito deligou um pouco, ficando mais agarrado ainda à
cativante e estética fotografia de Manuel Dacosse e, por
último, à respectiva captação de som e banda sonora imprescindíveis (Roland
Escary e Fatima Al Qadiri) – Reparei no primeiro leve sorriso de Meursault,
sentado no murete enquanto aguarda, vendo o caminhar do pequeno escaravelho e o
espectador escutando o, afinal, silencioso caminhar das patas do animal sobre a
pedra caiada! E, por fim, os The Cure “Killing an Arab” (1979).
(Depois
de ler «O Estrangeiro», e talvez alertado e motivado por ele, habituei-me a
coleccionar personagens estranhas ou ausentes de si próprias questionando o
espaço que as envolve e/ou as oprime: «Um, Ninguém e Cem Mil» de Luigi
Pirandello, «O Crime de Lorde Arthur Savile» de Oscar Wilde, «A Noite do Professor
Andersen» Dag Solstad «Bartleby» de
Herman Melville ou «A Consciência de Zeno» de Italo Svevo.)
Agora,
tenho mesmo de ir reler «O Estrangeiro» de Albert Camus!
jef,
março 2026
«O
Estrangeiro» (L'Étranger) de François Ozon. Com Benjamin Voisin, Rebecca
Marder, Pierre Lottin, Denis Lavant, Swann Arlaud, Christophe Malavoy, Nicolas
Vaude, Jean-Charles Clichet, Mireille Perrier, Hajar Bouzaouit, Abderrahmane
Dehkani, Jean-Claude Bolle-Reddat, Jean-Claude Bolle-Reddat, Jérôme Pouly,
Jean-Benoît
Ugeux, Joël Cudennec, Christophe Vandevelde, Mar Sodupe, Denis Déon, Théo
Costa-Marini, Benjamin Hicquel, Salim Benmoussa, Noureddine Soutbani, Brahim Bihi.
Argumento: François
Ozon e Philippe Piazzo segundo o romance de Albert Camus. Produção: François
Ozon. Fotografia: Manuel Dacosse. Captação de som: Roland Escary. Música: Fatima
Al Qadiri. Guarda-roupa: Lydie Collin. Cenário: Hind Ghazali. França, 2025, Cores,
110 min.





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