Antes
de mais, «Naza» é um belo exemplo de cinematografia. Ou, mais simples e apesar do que se ouve, um belíssimo filme! Sob a luz negra da
noite de Telavive, sob as janelas iluminadas mostrando a tranquilidade familiar, seccionada, pois nunca se vê a identidade dos rostos, num jogo preciso de
enquadramentos, triangulações, pontos de fuga ou linhas de convergência; alternando com a azáfama rodoviária das grandes vias iluminadas pelos faróis da
grande cidade; banhado pelas negras águas mediterrânicas; num simples terraço, são entrevistados por Yuval Abraham, o realizador, 24
militares da tecnológica elite militar israelita, que não são identificados por óbvios motivos. Mais uma vez a
obscuridade é a alma do negócio ou da chacina. Conta-se como as casas e os bairros
de Gaza eram digitalmente identificados, parametrizados e escolhidos por electrónica e inteligência
artificial. Escolhidos os alvos onde supostamente viviam elementos do Hamas e
enviadas bombas certeiras para os atingir. Não interessava saber-se quem seria atingido ou sacrificado. Era mais um jogo que divertia quem o jogava mesmo
sabendo que matavam famílias inteiras, velhos, mulheres e crianças. Algumas
vezes, o elemento identificado supostamente como sendo do Hamas saía ileso. Nada se vê sob
a citada luz negra de Telavive, o militar apenas ilustra com um desenho a branco e preto, bairro
a bairro, andar por andar, os prédios de Gaza que devem ser destruídos pelas bombas. Apenas um critério, o genocídio em Gaza.
Naturalmente,
as imagens omissas vêm recordar o monumental filme de Claude Lanzmann «Shoah» (1985)
sobre o Holocausto nazi, Treblinka ou Auschwitz-Birkenau, onde as possíveis imagens
são permanentemente substituídas pela das figuras entrevistadas. Nada mais,
pois o que se pretendia com o Holocausto não era apenas chacinar um povo, mas destruir-lhe
o essencial, o espaço, a história e as memórias.
«Naza»,
pela sua contundente “noite sem imagens” também recorda o surpreendente filme «A
Imagem que Falta» de Rithy Panh (2013) onde Camboja e o seu povo foi despojado integralmente
da sua vida da sua cultura, das suas aldeias. Até o nome lhes foi retirado pelo
regime de Pol Pot e dos Khmer Vermelho, entre 1975-1979. Um filme que o
realizador filmou através da transfiguração das atrocidades por marionetas (numa
espécies de “stop motion”) pois tudo o que existia como documentos foi sistematicamente
destruído pela ditadura. A memória como futura ameaça.
A
memória, uma permanente ameaça para o futuro, como acontece actualmente (e
novamente) em Gaza e aqui descrita por quem, a partir de Israel, era pago para
obliterar a história e o povo palestinianos, convidados aqueles para um jogo real-letal executado por consolas militares. Afinal, uma certa banalidade do
mal, e respectiva oficialização, lembrando Eichmann
e as célebres palavras de Hannah Arendt.
Saio do cinema, com a sala quase esgotada e depois de uma salva de palmas por parte dos espectadores. Saio em silêncio, estranhando o ódio sistemático dos isrealitas perante o povo ancestral daquelas paragens, estranho ainda mais um genocídio praticado por que já sofreu um dos maiores horrores da história da humanidade. Talvez o judeu Sigmund Freud soubesse explicar o facto “de uma criança abusada vir a transformar-se num pai abusador”.
Shoah por Shoah. Ou como quem diz, proverbialmente: “Não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu”.
jef,
outubro 2026
«Naza»
de Yuval Abraham e Rachel Szor. Com Yuval Abraham. Argumento: Yuval Abraham e Rachel Szor. Produção:
Jonathan Glazer, James Wilson, The Guardian. Fotografia e montagem: Rachel Szor. Reino Unido, 2026, Cores,
80 min.






















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