Sem dúvida, este romance é uma investigação que o autor cede
ao leitor. Um curto período de tempo, de Outubro de 1933 a Novembro de 1935.
Três personagens (mais uma) percorrem um dos lados mais sombrios de Portugal:
Salazar, o Presidente do Conselho; António Ferro, o Director do Secretariado da
Propaganda Nacional; e Fernando Pessoa, o do Orpheu e da Mensagem, (mais
um autor, professor, investigador que tenta não se angustiar, não naufragar no
mar amplo de informações, documentos, artigos, fotografias, cartas e letras minúsculas
quase ilegíveis. Esse autor que nos comoveu com os múltiplos reflexos
emocionais (audíveis) do compositor maior, com o livro «Bach» (Assírio &
Alvim, 2014), publica agora um nevoeiro sem sombras sobre o Portugal cinzento do Estado Novo que
nunca soube lidar com as diversas personagens de Fernando Pessoa. Um Portugal
que acumulou História e tragédia, repressão, censura e morte ao longo dos
séculos mas que tentou dar um prémio a um poeta tão imaginado como imaginário,
tão solitário quanto boémio, tão reverente quanto iconoclasta, um poeta incompreendido
que era a essência da sua própria poesia.
Se «Bach» já ensinava a ler e, no meu caso que tenho a pretensão da escrita, a escrever, ler «Nevoeiro – Uma Investigação» ensina a ler um País e uma época, e todas as que lhe antecederam, através de uma aparente simplicidade que é, afinal, tão fácil de ler. Aparentemente, pois o autor, professor, investigador suou as estopinhas, digamos, sofreu as estopinhas para nos dar tal simplicidade. Quase um livro policial (daqueles “duros” como os de Georges Simenon) a ser lido avidamente, mas sem pressa. Na essência, também um livro político porque vai impor a minha consciência sobre a ignorância de factos trágicos, sem dúvida factos reais, que foram sendo dourados a bem de uma Pátria que louvava Deus e a Família sobre toda a ignomínia e tanto sacrifício.
Neste livro, Pedro Eiras usa a própria estratégia literária (e
ele tem um modo literário de que é único proprietário) de nos dar o interior
emotivo de cada um dos quatro personagens quando confrontados com o isolamento.
Ou seja, dá-nos a ler uma belíssima prosa sobre a solidão: Salazar entra na
igreja, quase se esconde e se comove. António Ferro é confrontado com Fernando
Pessoa que escreve Liberdade e se
aproxima da Maçonaria, quando o Estado Novo impõe a sua extinção, António Ferro
aflige-se e sua da testa. Fernando António Nogueira Pessoa, um homem nu na casa
de banho faz a barba frente ao espelho, apara o bigode, fuma também, então
“decide que chegou o momento de atapetar a vida contra o mundo e contra si
próprio”. O autor investigador professor sente-se quase traído pela dimensão
hercúlea do trabalho a que se propôs, lê muito e precisa de dar a sua opinião
sobre a História, ele confessa que a literatura histórica é sempre uma leitura
contemporânea dos factos passados, a que ele, Pedro Eiras, tem direito, não
enjeita, pelo contrário, deseja afirmar, não deixando de esclarecer na Nota Final
todas as fontes consultadas, a bem da verdade da investigação. Essa é a grande
liberdade, a maior responsabilidade e também vantagem de ler este romance, porque, repito, este livro é um romance que se divide entre a “Paz” adiada e a “Guerra” declarada.
Mas a par com o prazer consciente de leitura que «Nevoeiro – Uma Investigação» nos entrega, vem essa poesia, quase carinho descritivo, com que Pedro Eiras cobre as personagens, os espaços e a cidade, fazendo deste um romance obrigatório.
jef, junho 2026

.jpg)




















.jpg)
.jpg)

.jpg)
.jpg)




