domingo, 29 de março de 2026

Sobre o livro «Noites Gregas» de Cláudio Moreno, L&PM Editores, 2015



 







São 63 crónicas, dir-se-ia 63 histórias, algumas das quais ouvi através do seu podcast, onde Cláudio Moreno fala de Xerxes, o persa, de Xanto, o cavalo, Pátroclo, o morto, Aquiles, o ofendido, Telémaco, o filho, Príamo, o pai, Heitor, o sacrificado… Mas também fala de Borges, Stevenson, George Stein, Stefan Zweig ou Miguel Esteves Cardoso. O autor transporta para os seus textos a simplicidade moral e a profundidade ética que os textos antigos nos deixaram, latinos ou gregos, como fábulas ou metáforas ou parábolas que nos deixam tranquilamente exaltados com esta coisa de viver o dia a dia, simplesmente, sem pedir muito mais mas exigindo de cada momento a força única da existência.

Mais do que a Bíblia, o Alcorão ou o Talmude, textos vindos de Abraão, mas que permanecem na mente dos actuais viventes como dogmas ou sinais que devem ser perseguidos, e quantas vezes impostos e esgrimidos, os textos da antiguidade têm a imensa vantagem sobre aqueles, de serem simplesmente bela literatura que cristalizou no tempo, sem exigirem mais nada do Mundo, mas contendo todo o coração, a razão ou os sentimentos da humanidade de outrora e do amanhã.

Cláudio Moreno sabe disso e, nestas crónicas, transmite-nos tais ensinamentos com a serenidade de um conto nocturno para crianças adultas. Por isso, este livro permanecerá junto à minha almofada!

Nele desvendamos a perícia bélica, e devoção amorosa, do Batalhão dos Amantes quando este enfrentou o vastos exército de Filipe da Macedónia e de seu filho Alexandre, futuramente Magno.

Também a perícia da boa vida, através da antiga estatuária ora esculpida, lascando pedaço a pedaço o mármore, ora acrescentado, argila a argila, até conseguir o molde que levará à perfeita fundição do metal. Segundo Epicuro:

“o sábio deve esculpir a sua própria estátua. Não é que eu deva me conformar com pouco, mas sim, se eu não tiver muito, que este pouco me baste.”

Ou relembrar as palavras de Beda vindas da Inglaterra do século VII (que eu talvez tenha conhecido pelo livro «A Consciência de Zeno» de Italo Svevo):

“Nossa vida se assemelha ao curto voo de um pardalzinho que atravesse a sala de banquetes, aquecida por um bom fogo, onde Vossa Majestade e seus conselheiros estejam reunidos para jantar, numa fria noite de inverno. A avezinha entra por uma porta e sai por outra; enquanto voa pela sala, está livre da gélida tormenta e pode aproveitar a luz e o calor da chama da lareira – mas logo estará lá fora, outra vez, mergulhando no frio e na escuridão. Assim é a nossa vida, meu rei: nós a temos por pouco tempo, e nada sabemos do que veio antes e do que virá depois.”

Por isso repito, mais dos que os textos, um tanto despóticos, ligados à actual divindade monoteísta, os textos de Cláudio Moreno traduzindo, para nosso uso e consolo, a maravilhosa poética multifacetada de um mundo antigo e desaparecido deixa-nos de certo modo tranquilos sobre o que nos antecedeu e o que estará por acontecer.


jef, março 2026

quinta-feira, 26 de março de 2026

Sobre o filme «Histórias do Vale Bom» de José Luis Guerin, 2025



 





























Este filme maravilhoso não é um documentário. E, como anunciado logo no início, está em construção (work in progress de José Luis Guerin). Duplo sentido para o filme que parece um documentário sobre o próprio processo de filmagens (com as imagens iniciais do casting realizado aos diversos habitantes do bairro, para que relatem as suas histórias, antigas e recentes, em Vallbona, no subúrbio de Barcelona). Um bairro que está e será sempre, também ele sitiado, em destruição e reconstrução por linhas de caminho de ferro, viadutos e autoestradas. É este o segundo sentido. Se os comboios passam incessantemente pelo ecrã, também as flores e as hortas, as árvores, as couves e as canas de açúcar o enchem de nostálgica benevolência. O renascimento pelas sementes que serão espalhadas pelo chão.

Tudo aqui é encenado, montado milimetricamente para que faça sentido cinematográfico. É um filme de extrema fotogenia. Novos e velhos, miúdos e graúdos, tenham vindo, antigamente ou recentemente, da Andaluzia, do Subcontinente Indiano, de África, da Ucrânia, da Rússia ou de Portugal. Todos têm aqui uma história que vai ser contada e costurada. Como a do velho que explica, ponto por ponto, que o que devia este ser era um filme de cowboys, e que o medo se crava na noite trazido pelo ruído que o vento faz nas folhas e no escuro das árvores. Mais tarde, já nos prédios e no isolamento dos altos andares, vemos uma fita de índios e cowboys a passar numa longínqua televisão. Tal como o abandono das hortas, a morte, a doença, o esquecimento neurológico das partituras que seriam cantadas ao piano, em italiano. A tristeza pura de quem já não tem par para dançar o tango nem lugar para o fazer. O cântico fúnebre como elegia a um homem que desaparece. (No genérico final, surge a lista de todos os que transpuseram, entretanto, a margem de um certo rio vital…)

Porém, alguém cantando em português resgata da morte as canas e as cerejeiras para as replantar mais além. Tudo é olhado de longe por todos no reflexo dos vidros dos apartamentos onde agora vivem, isolados, sem as cantorias em flamengo que, por serem poesia, não fazem muito sentido. Como as brincadeiras no rio ou no canal onde é proibido tomar banho, mas onde todos, em conjunto, se vão divertir, rir, contar histórias, cantar, dançar e comer melancia. Até que um miúdo a correr, desalmado, os vem avisar de que a guarda está a chegar e, para não serem multados, tudo desaparece num ápice. Pela pressa, meia melancia é espezinhada. Um colchão de praia é retirado da água, por último, às escondidas. Um raminho de flores fica esquecido a circular à superfície. O som da água. Até que entra um cão a inspecionar o local abandonado.

O requiem por um Vale Bom ou o eterno ‘déjeuner sur l'herbe’.

Um dos filmes do ano.


jef, março 2026

«Histórias do Vale Bom» (Historias del Buen Valle) de José Luis Guerin (Historias del buen valle). Com o povo de Vallbona. Argumento e Montagem: José Luis Guerin. Produção: Jonás Trueba, Gaelle Jones, Javier Lafuente, José Luis Guerin. Director de arte: Kazuo Oga. Som: Maximiliano Martínez, Pablo Rivas Leyva. Fotografia: Alicia Almiñana. Música: Joe Hisaishi. Espanha / França, 2025, Cores. 122 min.

terça-feira, 24 de março de 2026

Sobre o filme «Totoro» de Hayao Miyazaki / Estúdio Ghibli, 1988

 



 








Este é um dos grandes filmes sobre o amor e a infância alguma vez realizados.

Talvez o maior filme sobre esse amor abstracto, irreflectido, sensorial, acima de tudo fortíssimo, que as crianças emanam ou criam antes de entrarem, depois, num mundo que deve ou é obrigado a ser vigiado. O mundo concreto, menos livre, mais comprometido, que manda ser sério e responsável sobre todas as tropelias com que os adultos enchem o tal mundo.

Aqui, nada é explicado literalmente, tudo é sentido e olhado através de duas irmãs que seguem viagem com o pai até uma casa longe da cidade, perto de campos de cultivo de arroz, para estarem, supostamente, mais perto do hospital onde a mãe se encontra internada.

Tudo o resto é a mais simples alegria pela descoberta de um espaço novo, não urbano, e livre e natural porque é florestal e agrícola, também amedrontador. Um mundo desconhecido mas que vai ser explorado pelas irmãs – Satsuki (Noriko Hidaka - voz) e Mei (Chika Sakamoto - voz) – no interior da sua ávida, afectiva, imaginativa inteligência infantil.

Um adulto, para ver o filme, deve obrigar-se a rever os seus cinematográficos padrões comparativos.

Um adulto deverá libertar-se da lógica comum analítica com que normalmente o condiciona a aderir ou rejeitar uma obra de arte olhada pela primeira vez.

Um adulto ocidental, desconhecedor da profunda cultura oriental e nipónica, tem de ter em conta que parte dos amáveis símbolos lhe escapará, o que não deixa de ser, igualmente, um outro e libertador modo de gostar (ou de “amar”) esta absoluta obra prima do cinema de todos os tempos.


jef, março 2026

«Totoro» de Hayao Miyazaki (Tonari no Totoro / My Neighbor Totoro. Com Noriko Hidaka (Satsuki - voz), Chika Sakamoto (Mei - voz), Shigesato Itoi (Tatsuo Kusakabe - voz), Sumi Shimamoto (Yasuko Kusakabe - voz), Tanie Kitabayashi (Yasuko Kusakabe - voz), Hitoshi Takagi (Totoro - voz), Hiroko Maruyama (voz), Machiko Washio (voz), Reiko Suzuki (voz), Masashi Hirose (voz), Toshiyuki Amagasa (voz), Shigeru Chiba (voz), Naoki Tatsuta (voz), Tarako (voz), Tomohiro Nishimura (voz). Argumento: Hayao Miyazaki. Produção: Toru Hara e Ned Lott / Estúdio Ghibli. Director de arte: Kazuo Oga. Som: Shigeharu Shiba. Fotografia: Hisao Shirai. Música: Joe Hisaishi. Japão, 1988, Cores / Animação 86 min.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Sobre a peça «T2 em Benfica por 600 euros» de Vicente Alves do Ó, Cine-Teatro Turim, 2026.



 































As décadas passam e o papel de parede mantém-se firme na parede. Talvez seja esse o maior problema. Ou a melhor solução. Um apartamento assim, por aquele preço, no centro de Lisboa, Benfica, é quase uma impossibilidade. Será mesmo possível?

Cinco personagens assinam no mesmo dia contratos para o mesmo espaço, pagam rendas e meses de caução. Cinco personagens caem no logro, são ludibriadas e, agora, vêem-se em palpos de aranha e confrontam a papelada. O telefone do agente imobiliário não atende.

O que parece ser uma comédia sobre um tema do dia-a-dia desvenda-se uma tragédia quando a luz recai sobre o rosto de cada e ouvimos a alegação inicial (ou final) sobre a própria urgência da necessidade de ficar com o vantajoso arrendamento. Os outros ouvem e não conseguem comparar ou pontuar a desgraça.

Rex (Francisco Beatriz) tenta reerguer-se após anos a viver na rua; Zézinho (António Camelier) quase que ainda vive com a mãe e sofre de narcolepsia; Catarina (Margarida Antunes), gestora de marketing, precisa de um canto já que o ensino da filha lhe levou o rendimento; Vera (Margarida Moreira), professora, deseja reconciliar-se visualmente com a filha; e Daniel Aranha (Ricardo Barbosa), cozinheiro, influencer gastronómico, deu um mau passo no Master Chef e ainda não conseguiu viver num espaço que diga ser apenas seu.

Estão todos na mesma ‘barca’, como as personagens de Gil Vicente. Todos se confrontam através dos seus tiques, os seus medos, segredos e passados, figuras vindas de uma pequena burguesia espoliada por um capitalismo imobiliário desenfreado que todos expulsa de Lisboa, excepto imigrantes sugados até ao tutano e turistas embasbacados com um Fernando Pessoa que jamais lerão.

Cinco figuras, triste e alegres, eternamente amáveis, talvez caricaturas, como as saídas da commedia dell’arte, que nos confrontam em simultâneo com a realidade mais dura e o riso que, afinal, nos salvará.

Viva o Cine-Teatro Turim e a associação produtora Meia Palavra Basta (e acólitos)!

Viva o teatro!


Cine-Teatro Turim

12 a 29 de Março de 2026. Quinta a Sábado às 21h30. Domingos às 17h00.

Datas extra: 2 e 4 de Abril às 21h30


jef, 22 de Março de 2026

«T2 em Benfica por 600 euros». Texto e encenação: Vicente Alves do Ó. Com António Camelier (Zézinho), Margarida Antunes (Catarina), Margarida Moreira (Vera), Francisco Beatriz (Rex) e Ricardo Barbosa (Daniel Aranha). Operação de Som: Rúben Brandão. Figurinos: João Telmo. Guarda-roupa: Ukbar Filmes. Imagem Cartaz: Mariana Lokelani Produção: Meia Palavra Basta – Associação Cultural. 90 minutos.

sábado, 21 de março de 2026

Sobre o livro «Noite Sem Lua» de John Steinbeck, Ulisseia / Sucessos Literários n.º 5, 1955 (1940). Tradução e Prefácio de Pedro M. Figueiredo. Capa de Querubim Lapa. Ilustrações de Costa Pinheiro.



 





















Um livro magnífico. Eis a guerra e a respectiva resistência ao invasor “contados às crianças e lembrados ao povo”, como diria João de Barros numa velha colecção de clássicos, também ilustrada.

John Steinbeck sai da sua Califórnia e dos seus Estados Unidos da América, e centra-se numa pequena cidade possivelmente situada na Noruega. Estaremos possivelmente da Segunda Grande Guerra e os invasores acham inicialmente que a campanha será muito fácil pois o povo é, por demais, pacífico. Não conhecem a guerra nem se lembram da última invasão que sofreram.

Estão no pacífico país pois a potência ocupante necessita do seu carvão (aqui não é o petróleo que manda!).

No pequeno romance, quase novela, o autor usa uma espécie de enquadramento teatral em que explora praticamente toda a acção através dos seus mais finos, ágeis e acutilantes diálogos.

Os cenários, dois no essencial, o palacete do Presidente Orden e a casa humilde de Molly Morden, são descritos minuciosamente para que tenhamos consciência da dimensão do palco e dos seus espaços cénicos e ribaltas.

As personagens, os residentes e os invasores vem descritos na sua essência nas primeiras páginas, na respectiva acção física e psicológica, como sucede nos dramas teatrais, à guisa de didascálias: Orden e a sua determinante esposa, o criado José, a cozinheira Annie, o médico Winter, George Corell, o coronel Lanser, o major Hunter, os capitães Bentick e Loft, os tenentes Prackle e Tonder…

E refiro a máxima de João de Barros pois este drama tem o melhor humor, a mais irónica descrição psicológica das personagens. As cenas são descritas minuciosamente de modo ternurento, apesar da acutilância das situações, como numa peça para crianças. Todo o cenário parece uma casa de bonecas. (Lembrei-me muito das silenciosas observação e observância do Senhor Hulot).

Porém, a morte, o ódio, o rancor e a ininteligência absurda da arte da guerra estão lá todos. Também, o supremo amor, a fraternidade e a resistência do povo.

Um maravilhoso retrato de um conflito armado que devia ser dado às crianças e aos povos para que tomem plena consciência da dificuldade de conservar as frágeis liberdade e paz democráticas.

Por último rasgo de humor, fala Sócrates segundo Platão: “Crito, eu devo um galo a Asclépio. Quer fazer-me o favor de pagar essa dívida?”


jef, março 2026

  

sexta-feira, 20 de março de 2026

Sobre o filme «A Hora do Lobo» de Ingmar Bergman, 1968

























Um filme a que chamaria ‘contra-Bergman’. Obra de tal modo íntima e auto-sugestiva que se afasta de tudo o que o cineasta até ali realizou e a partir dali realizaria. No entanto, parece também ser um ‘quadro resumo’ de Ingmar Bergman só que apresentado sob a esfinge de um outro cinema, talvez um cinema a que me habituei a ver, como dizer, como mais latino ou meridional (à falta de melhor referência menos geográfica) – um filme que talvez me tenha lembrado Buñuel, Fellini, Visconti ou Renoir…

A minha mãe, que apreciava o filme, relembrava sempre a espécie de epígrafe que dá mote ao título e, no fundo, a toda a obra – «A Hora do Lobo», aquela, indefinida, entre a luz e a escuridão, o crepúsculo da tarde e a madrugada, com a meia-noite pelo meio. No fundo, a hora em que mais crianças nascem, mais gente morre, mais os pesadelos assolam os vivos.

No fundo, é um filme de terror. Um terror explicado no início e no final pela reflexão de Alma (a tão bela Liv Ullmann) que, desolada e virada para a câmara, nos conta como o marido, o pintor Johan Borg (Max von Sydow), foi desaparecendo atrás dos seus pesadelos nos esconsos daquela ilha onde se haviam refugiado para passarem tranquilos a calma do Verão.

Uma casa que esconde o diário do pintor que Alma irá ler instigada por um dos fantasmas ou ‘vampiros’ ou ‘canibais’ que assombram o casal, como confirmam o diário e os esboços desenhados pelo pintor. Figuras demoníacas e perversas (à Edgar Allan Poe) que moram num velho castelo ao Norte e um dia chegam para convidá-los para um jantar onde a câmara filma, estonteante, num rodopiar, único em Bergman, que combina com o álcool que Johan vai bebendo em demasia e o desorienta.

«A Flauta Mágica» é convocada através do magnífico teatro de marionetas, que por sua vez lembra «A Prisão». A ilha isolada, o pesadelo e as figuras espectrais, a ameaça permanente lembram «Um Verão de Amor», «A Vergonha» ou «A Máscara». A infância relembrada e atormentada lembra «Fanny e Alexandre», por aí fora…

Existem num filme verdadeiramente perturbador cenas únicas e que dificilmente se esquecem – o sonho ou alegoria da criança que vai espreitar Johan quando este está a pescar (ou se esconde pois, virado para o mar, parece masturbar-se) e acaba afogada por ele. Ou aquela em que é convidado (e maquilhado de modo feminino) para se encontrar com a antiga amante e ela surge como morta num esquife, coberta pela mortalha branca. Ou a outra, quase no final, em que Alma procura Johan moribundo entre as ramos sinistros de uma floresta pantanosa.

Um filme tão belo e irreal quanto assustadoramente frontal, imaginativo, erótico e infinito.


jef, fmarço 2026

«A Hora do Lobo» (Vargtimmen) de Ingmar Bergman. Com Max von Sydow, Liv Ullmann, Gertrud Fridh, Georg Rydeberg, Erland Josephson, Naima Wifstrand, Bertil Anderberg, Agda Helin, Gudrun Brost, Gertrud Fridh, Gudrun Brost, Ulf Johansson, Ingrid Thulin, Mikael Rundquist. Argumento: Ingmar Bergman. Produção: Lars-Owe Carlberg, Karl-Arne Bergman. Fotografia: Sven Nykvist. Som: Lennart Engholm. Música: Lars Johan Werle e excertos de A Flauta Mágica de W. A. Mozart e de Arte da Fuga de J. S. Bach. Guarda-roupa: Eivor Kullberg. Suécia, 1968, P/B, 89 min.



quinta-feira, 19 de março de 2026

Sobre o filme «O Estrangeiro» de François Ozon, 2025



 


























Tenho de reler «O Estrangeiro» de Albert Camus (aliás, como o realizador pretende motivar o espectador-leitor a fazer no final da excelente entrevista-artigo de Vasco Câmara no suplemento Ípsilon do Público, de 13 de março de 2026).

Em tempo, foi dos livros que mais me perturbaram, que me deixaram suspenso nesse absoluto zero que é, afinal, o caminho existencialista sartriano para a consciência do caminho libertário e do nada, caminho anti-empático, talvez apenas em direcção à solidão final.

Desde o início, o filme tocou-me, fez-me reviver o livro (porque o livro é mesmo visualmente cinematográfico, uma obra dificilmente esquecível).

Felizmente, o livro apenas residia no meu córtex como memória filosófica e estética, retocando longos planos cheios de brilho colorido, de branco, de sol, de calor e mar. Tudo batia certo no filme de Ozon, inclusive a estranha sensação de todos os personagens com quem Meursault (Benjamin Voisin) se vai cruzando são todas, sem excepção, mais dialogantes em fotogenia e empatia que o próprio protagonista, aliás como a minha memória ainda retinha: Marie (Rebecca Marder), Raymond Sintès (Pierre Lottin) ou qualquer outra das figuras que, mais tarde, testemunharão no seu julgamento. Aliás, as cenas na praia com a actriz Rebecca Marder (Marie) são de uma sensualidade expectante assombrosa, e as refeições tomadas com o actor Pierre Lottin (Raymond) revestem-se de um subreptício e latente humor. Assim devem ser pois o protagonista é, exactamente, o que os outros lhe contrapõem ou sobre ele reflectem. Como no espelho onde se barbeia. Cenas de uma beleza igualmente perturbadora.

Tudo batia certo até à longa cena na praia (imaginada-recordada pela minha estafada memória), uma demorada perspectiva de caminhada sob o calor e alheamento, quase de exausto delírio, onde o brilho da lâmina do árabe se encontra com o metal do revólver empunhado. O que eu sempre retive como um denso regresso ao nada através do contraponto incompreensível da sociedade, torna-se no filme de Ozon acelerado, extrovertido e, sobretudo, explicativo… O que não fazia parte do mistério que o livro deixara preservado no dito córtex.

Depois da cena, o meu espírito deligou um pouco, ficando mais agarrado ainda à cativante e estética fotografia de Manuel Dacosse e, por último, à respectiva captação de som e banda sonora imprescindíveis (Roland Escary e Fatima Al Qadiri) – Reparei no primeiro leve sorriso de Meursault, sentado no murete enquanto aguarda, vendo o caminhar do pequeno escaravelho e o espectador escutando o, afinal, silencioso caminhar das patas do animal sobre a pedra caiada! E, por fim, os The Cure “Killing an Arab” (1979).

(Depois de ler «O Estrangeiro», e talvez alertado e motivado por ele, habituei-me a coleccionar personagens estranhas ou ausentes de si próprias questionando o espaço que as envolve e/ou as oprime: «Um, Ninguém e Cem Mil» de Luigi Pirandello, «O Crime de Lorde Arthur Savile» de Oscar Wilde, «A Noite do Professor Andersen» Dag Solstad  «Bartleby» de Herman Melville ou «A Consciência de Zeno» de Italo Svevo.)

Agora, tenho mesmo de ir reler «O Estrangeiro» de Albert Camus!

 

jef, março 2026

«O Estrangeiro» (L'Étranger) de François Ozon. Com Benjamin Voisin, Rebecca Marder, Pierre Lottin, Denis Lavant, Swann Arlaud, Christophe Malavoy, Nicolas Vaude, Jean-Charles Clichet, Mireille Perrier, Hajar Bouzaouit, Abderrahmane Dehkani, Jean-Claude Bolle-Reddat, Jean-Claude Bolle-Reddat, Jérôme Pouly, Jean-Benoît Ugeux, Joël Cudennec, Christophe Vandevelde, Mar Sodupe, Denis Déon, Théo Costa-Marini, Benjamin Hicquel, Salim Benmoussa, Noureddine Soutbani, Brahim Bihi. Argumento: François Ozon e Philippe Piazzo segundo o romance de Albert Camus. Produção: François Ozon. Fotografia: Manuel Dacosse. Captação de som: Roland Escary. Música: Fatima Al Qadiri. Guarda-roupa: Lydie Collin. Cenário: Hind Ghazali. França, 2025, P/B, 110 min.