Quando a homossexualidade vivia aprisionada pelo vírus VIH e
pela doença, numa espécie de toca e foge, entre o remorso da liberdade promíscua
e, depois, o terror do sofrimento sem tréguas que arrastava atrás a inelutável sentença de
morte. Finais dos anos 80, início dos anos 90. Califórnia, Los Angeles. Também a
eterna Florença e os seus arredores aromaticamente sedutores como paraíso libertário e romântico. Um livro triplo: “Trabalhos
de Artista”, “Bodas de Madeira” e “Saturn Street”, três contos sob a epígrafe atribuída
a Oscar Wilde que terá escrito no final da vida “Gostava de fugir, como um veado
ferido, para o Arkansas”.
Sim, são contos de medo e de fuga, digamos, histórias
do profundo sentido de exílio e abandono que a comunidade homossexual sentiu
numa época de pandemia e abandono.
Se, pelo meio, o conto “Bodas de Madeira” narra o desespero
de um grupo de amigos que se encontram ao fim de muitos anos em casa de Lizzie,
onde ministra cursos de culinária italiana, algures na Tuscânia. Celia é a narradora e Nathan um
homem cujo passado todos liga mas de modo silenciado e muito pouco esclarecido.
Nathan, porém, sofre de visões alucinadas e de uma incessante
busca por um futuro pouco conciliador. Até que chega o cozinheiro encartado
italiano, Mauro, de certo modo comparado a Apolo. Aí o conto descamba numa
verdadeira circunstância novelesca entre pessoas instáveis, no entanto, sem
problemas de maior na vida.
O livro inicia-se com a história em nome próprio, na qual um “Dave
Leavitt”, já com créditos na edição e na publicação literária americanas sofre um bloqueio criativo e, numa espécie de ilícita “transacção comercial” resolve vender os
créditos em composições para universitários sem escrúpulos, motivação ou
talento, escrevendo os seus melhores textos abordando os livros de Henry James ou E.M.
Foster ou, ainda, as suspeitas de mossexualidade que recaíam sobre príncipes e lordes britânicos
ou sobre Jack, o Estripador.
Contudo, emocionalmente, o livro conclui-se com o encontro de Phil com Jerry que trabalha para uma organização de
voluntários que faz a distribuição ao domicílio de refeição para doentes de Sida. Jerry vive
obcecado pelo que o futuro próximo lhe trará levando na memória um trágico abandono,
temendo realizar os necessários testes e análises. Phil vive sob ameaça constante e lembra quando certos
bairros de Los Angeles ainda traziam o futuro no nome. Phil sempre viveu sem medo e não teme o futuro
que será breve ensinando a Jerry como o presente não deve ser toldado pela provável
renuncia que o dia de amanhã trará.
Um conto que revela com subtileza o peso da solidão, a certeza fulcral da amizade e da generosidade
e que, pela sua profundidade emocional e substância histórica, salva o livro.
jef, setembro 2026








