O que mais apaixona na escrita de Tchékhov, talvez mesmo
comova, é o lado ternurento com que cobre todas as personagens, sempre a um
passo da comédia quando estamos à beira de uma tragédia familiar. Mas, na
realidade, uma família consegue ser sempre trágica e cómica ao mesmo tempo.
Em «A Gaivota» é surpreendente como esse facto surge do
interior do próprio texto, do teatro dentro do teatro, da procura um tanto
frustrada do artista em busca do sentido e do cerne da própria arte. Tchékhov
faz desse mote a metáfora da ave morta por ciúme ou desespero ou mesmo
tédio. Esta metáfora e as palavras iniciais da peça escrita por Constantino (André
Leitão), e cuja representação é logo gorada no início, vão perpassando ao longo
texto até ao final, como um refrão, relembrando ao espectador que quase todos
os seres da Terra já desapareceram, numa evocação dramática do apocalipse. No entanto,
todos alegremente permanecem ou regressam àquela quinta longínqua, de acesso e transportes
difíceis. Regressamà própria metáfora, à ausência de fé, de futuro. A metáfora da morte.
Contudo, existe o permanente e alegre fingimento do eterno
retorno: o tio Pedro (Guilherme Filipe) parece à beira do colapso mas sempre resiste
para o seu vinho, para o seu charuto; Irina (Alexandra Lencastre), a diva, roda sobre o seu vaidoso auto-elogio
como uma eterna sobrevivente, uma eterna vingadora; Simão (Flávio Gil), o alegremente
triste professor, consente casar com a desgostosa Márcia (Margarida Bakker) pois
esta prefere casar a morrer. Alexandre (Ivo Canelas), Nina (Rita Rocha Silva) ou
Constantino perseguem o fantasma da sua provável arte, ou seja o fantasma de si
próprios. Ou seja, a alegoria da gaivota empalhada em cima do piano.
Diogo Infante tem o cuidado de actualizar apenas ligeiramente o ambiente da quinta, retirando referências geográficas, acelerando e adoçando a contemporaneidade com pequenas referências aos dias de hoje mas deixando-o a meio caminho de algum donbass perdido, de algum Alentejo cristalizado. Sobretudo, entrega Tchékhov aos actores que, num ritmo permanente e certeiro entre cenas, devolvem aos espectadores a alegria plena de uma peça fundadora da modernidade do teatro existencialista.
jef, Teatro da Trindade, 22 de Fevereiro de 2026


























