É fundamental entender que o mundo dos homens nunca deixou de
estar em crise. Digamos mais concretamente, em guerra. Por isso, em qualquer
época da dita humanidade, poderemos assistir ao absurdo concreto da peça «As
Cadeiras», de Eugène Ionesco, escrita poucos anos após o fim da segunda grande
guerra, como o eterno retorno ao abandono, à solidão, talvez mesmo desespero
para que o fim se aproxime o mais rapidamente possível. Por isso, o Velho, ou
Zelador-Chefe (Manuel Coelho), pretende reunir toda a sociedade para que oiçam finalmente
a mensagem que esclarecerá em definitivo a questão essencial. Ele tem talento,
muito talento, como diz a sua mulher, a Velha (Custódia Gallego), a sua “mãe”, “protectora”,
eterna e devota ouvinte, mas ele não se sabe exprimir. Por isso, contratou o orador para
apresentar “a sua boa nova”. Há muita agitação na sala. Todas as cadeiras já estão
ocupadas pela sociedade, enchem o palco, até o imperador compareceu. Todos ansiosos
pelo discurso final. Contudo, o Velho e a Velha vêem-se separados pela multidão,
cada um à beira das duas janelas do casebre, no meio do lago. Mal se ouvem.
As luzes estão suavemente acesas sobre os espectadores. Nós
somos a assembleia ansiosa por ouvir a palavra. Porém, o Velho, entre a
humildade e o orgulho, não entende o atraso do orador, e a Velha não sabe como
mais mimar o seu “orfãozinho”. Não haverá outra solução!
E ficamos nós, apenas nós, espectadores, também sozinhos,
para ouvir as palavras finais, a derradeira mensagem!
Que actores magníficos.
Que encenação tão precisa, concisa e solitária.
Que texto tão concreto e sintomático.
jef, 17 de maio de 2026
«As Cadeiras» de Eugène Ionesco. com Custódia Gallego (Velha),
Manuel Coelho (Velho), João Mota ou Carlos Paulo (Orador). Encenação e versão
cénica: João Mota. Tradução: Luís Lima. Cenografia: Renato Godinho e João Mota.
Figurinos: João Mota. Desenho de luz: Paulo Graça. Ambiente Sonoro e
Sonoplastia: Hugo Franco. Operador de Luz / Som: Rogério Vale. Fotografias: Pedro
Soares. Gabinete de Produção: Rosário Silva, Carlos Bernardo, Catarina Oliveira.
Comuna Teatro de Pesquisa. Duração: 75 min.
































