quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Sobre o filme «Natal Amargo» de Pedro Almodóvar, 2025



 


























«Negros Hábitos» (1983), «Tudo Sobre a Minha Mãe» (1999) ou «Fala com Ela» (2002)...

A meio do filme «Natal Amargo» perdi-me na história e comecei a recordar todos os filmes de Almodõvar que me encantaram e encantam ainda. São muitos… Depois voltei a tentar seguir a história e dei-me conta de que estava a apreciar de novo o magnífico colorido, a produção de Agustín Almodóvar, a música de Alberto Iglesias, as linhas definidas pelos corpos das personagens, pelo seu guarda-roupa em contraste com a belíssima composição cénica, os adereços escolhidos a dedo, as actrizes sempre a um passo da comoção ao som da híper-dramática «La Llorona» de Chavela Vargas, e as lágrimas, sempre as lágrimas, nos grandes planos daquelas belas expressões.

Mas e a história?...

Parece que Almodóvar tentou mergulhar em si próprio mas não conseguiu sair da superfície do plano de água – Punindo-se através daquela cena muito particular em que a médica pergunta à personagem principal, Elsa (Bárbara Lennie), que emana do guião que está a ser escrito pelo segundo personagem principal, Raúl (Leonardo Sbaraglia): O que é um “director” (realizador) de culto, se ela faz parte de alguma seita…

O humor esvai-se aos poucos, lentamente, e todas aquelas belas mulheres choram, choram muito. As figuras vêm de um mundo que só a elas próprias diz respeito deixando os espectadores de fora.

A vibração caótica e fulgurante que nos guiava pela fantasia colorida da realidade de «A Lei do Desejo» (1987) ou de «Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos» (1988) ou «Voltar» (2006), onde está? Afinal, o filme vai-se perdendo numa espécie de comiseração flagelada sem nos chegar verdadeiramente ao coração, sem chegar ao climax emocional, tão criativo e tão particular em Pedro Almodóvar.

E é uma pena. Pois eu gostaria muito de ter adorado o filme!

(Felizmente ainda vemos, por momentos, Rossy de Palma).


jef, outubro 2026

«Natal Amargo» (Amarga Navidad) de Pedro Almodóvar. Com Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Victoria Luengo, Patrick Criado, Quim Gutiérrez, Carmen Machi, Gloria Muñoz Gloria Muñoz, Nico Martín, Amaia Romero, María Morales, Rossy de Palma, Milena Smit, Aitana Sanchéz-Gijón. Argumento: Pedro Almodóvar. Produção: Agustín Almodóvar. Fotografia: Pau Esteve Birba. Som: Knud Kristensen. Música: Alberto Iglesias. Direcção artística e arte: Antxón Gómez, Isabel Peinado, Carlota Casado. Guarda-roupa: Paco Delgado. Espanha, 2026, Cores, 111 min.

 

Sobre o filme «Laura» de Otto Preminger, 1944



 

































Procuro versões da canção «Laura» (David Raksin / Johnny Mercer). Facilmente encontro nos discos de Ella Fitzgerald ou Julie London, por exemplo. Sem dúvida que a canção ressoa sobre todo o filme, desde o início (sem as palavras de Johnny Mercer), e sobre o retrato de Laura como um dos factos mais misteriosos do filme, tal como a voz off que nos cativa a favor da perspectiva de quem a pronuncia, tomando nós pela voz da verdade. No entanto, o mistério que se adensa em torno do fantasma de Laura (Gene Tierney) e da paixão espiritual e, depois, pós-platónica do detective McPherson (Dana Andrews), é sobretudo um apuro dramático em que todos dialogam sem interrupção sobre um crime que, parece, esses todos, levarem com leve ânimo: Waldo Lydecker (Clifton Webb), Shelby Carpenter (Vincent Price) ou Anne Treadwell (Judith Anderson). O sedutor fantasma, afinal, serve para colocar em confronto quatro ou cinco escalas sociais que surgem mais ou menos aristocráticas mas que todas pertencem à pequena burguesia endinheirada. Salve-se Bessie Clary (Dorothy Adams), a empregada devota e protectora de Laura. E claro, o detective McPherson, esse ser distante e próximo, profissional e apaixonado, em simultâneo.

Leio também com devota atenção a folha da cinemateca de João Bénard da Costa. Tudo ali faz sentido e cobre de senso o argumento que nos vai dando pistas acusatórias sobre todos e a todas elas nega o sentido. Supremo humor! Como será possível que as personagens se persigam constantemente, entrem nas casas uns dos outros (na de Laura, principalmente) com o beneplácito do circunspecto caderninho de apontamentos de McPherson, Numa espécie de filme "de Portas". Todos parecem suspeitar de todos ou todos desejarem ou odiarem, sempre com um sorriso sarcástico ou com matreira displicência.

E ainda temos os decores, os adereços, os fatos e os vestidos, os chapéus! Tudo parece ser feito para em nada o espectador poder acreditar mas cuja verossimilhança não somos incapazes de resistir, como se o espectador representasse a personagem final deste supremo filme negro desses encantados anos 40 do cinéfilo século passado.  


jef, outubro 2026

«Laura» de Otto Preminger. Com Gene Tierney (Laura Hunt), Dana Andrews (Mark McPherson), Clifton Webb (Waldo Lydecker), Vincent Price (Shelby Carpenter), Judith Anderson (Anne Treadwell), Dorothy Adams (Bessie Clary), Kathlenn Howard (Louise), James Flavin (McAvity). Argumento: Jay Dratler, Samuel Hoffenstein e Betty Reinhardt, baseado num conto de Vera Casparay. Produção: Otto Preminger para a 20th Century Fox. Fotografia: Joseph LaShelle. Música: David Raksin. Guarda-roupa: Bonnie Cashin. EUA, 1944, Cores, 88 min.

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Sobre o livro «A Cura» de Pedro Eiras, Assírio & Alvim, 2017



 







Talvez seja altura de revermos «A Interpretação dos Sonhos» de Sigmund Freud (Relógio D’Água, 2009), o «Rei Édipo» de Sófocles (Edições 70, 2006) ou o Eclesiastes na edição da Bíblia dos Capuchinhos, por ser a mais católica. Ou, então, observemos apenas o ovoide rezingão Humpty Dumpty, sentado no alto do muro, n’«O Outro Lado do Espelho».

Em «A Cura» ficamos com a ideia de que o Inferno até nem será um local assim não hostil se não permanecermos a autoflagelar-nos com esse vaivém obsessivo de martírio-culpa-impulso recalcado-pecado-perdão. Tudo está condensado, contido, reflectido dentro de nós. A solução permanece connosco. Esqueçamos, afinal, que do outro lado do espelho, reflexo do reflexo, está um super-gigante Eu pronto a apontar o dedo a quem se penteia deste lado.

Nada é possível revelar deste livro composto por um Prólogo e um Epílogo tendo por miolo o conteúdo de treze consultas de análise cujo registo, afinal, o leitor está antecipadamente proibido de ler. Ora, desta forma, ao terminar a leitura ele, o leitor, fica cúmplice de uma afronta ou de um crime, para sermos dramáticos, pois o recalcamento de que vamos sendo coniventes vai desaguar, sem apelo nem agravo, no assassinato de Laio, o pai de Édipo, esquecendo Jucasta e sem Antígona que nos salve, nem Creonte que nos ofenda.

Uma espécie de confronto de lógicas que devemos seguir como entradas antagónicas de uma enciclopédia universal – a fé absoluta e dogmática em algo superior que nos conduz, protege e condena, contra a consciência e auto-conhecimento do que nasce connosco ou que nos é inculcado por convivência ou educação parental.

Eis um livro que em formato de novela, escrito com a clássica mestria de Pedro Eiras, torna-se numa leitura imparável, revelando-se uma verdadeira, séria e comovedora comédia sobre os contrários que movimentam permanentemente a sociedade ocidental.

Um romance que, se atentarmos na permanente e sucessiva dicotomia de pensamentos, nos oferece o paraíso e o inferno em simultâneo e um óptimo modo de auto-reflexão e divertido exercício neurológico.


jef, junho 2026

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Sobre o filme «71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso» de Michael Haneke, 1994



























Nada a esconder. São realmente 71 fragmentos na vida de uma cidade que vive os últimos meses de 1988: Viena. Cruzando as várias histórias, ouvimos as notícias televisivas sobre Sarajevo, o Líbano, sobre Israel e o Hezbollah, também sobre Michael Jackson. As diversas famílias ou o que delas resta, as suas histórias em flashback, vão-se sobrepondo em planos rápidos inconclusivos ou lentos, sem fim. Não nos é permitido deixar de olhar. A resposta está no início com a notícia de um massacre numa dependência bancária levado a cabo por um estudante que em seguida se suicida com uma bala na cabeça. De resto, Nada a Esconder.

Michael Haneke não consegue suavizar a violência que se abate sobre cada indivíduo. A violência como catarse, como móbil ou expiação. Sem música orquestrada, apenas o som do desespero, da expectativa sem fim mas com agonia. Tendo a sociedade por algoz.

Michael Haneke é o artífice do argumento para o medo, abstracto e silencioso, onde a angústia sem redenção subjuga. 

Este filme, faz-me recordar «Código Desconhecido» (2000), passado em Paris. A eterna suspeita, o eterno silêncio, o eterno desconhecido que nos ataca. 

Ninguém descreve o horror e a solidão do pânico como o autor austríaco.

Os filmes de Michael Haneke metem-me medo da realidade mas, quando se compravam DVD, eu coleccionava-lhe os filmes.

«71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso» é perfeito como uma “master class M. H." para a qual entrámos como intrusos, sequer fomos convidados!


jef, setembro 2026

«71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso» (71 Fragmente einer Chronologie des Zufalls) de Michael Haneke. Com Gabriel Cosmin Urdes, Lukas Miko, Otto Grünmandl, Anne Bennent, Udo Samel, Branko Samarovski, Claudia Martini, Georg Friedrich, Alexander Pschill, Klaus Händl, Corina Eder, Dorothee Hartinger, Patricia Hirschbichler, Barbara Nothegger, Gudrun Gutt, Michael Jackson. Argumento: Michael Haneke. Produção: Veit Heiduschka, Willi Segler. Fotografia: Christian Berger. Montagem: Marie Homolkova. Som: Marc Parisotto. Guarda-roupa: Erika Navas. Áustria, 1994, Cores, 100 min.

Sobre a peça «Pigmalião» de Gerson de Sousa Batista e Tiago Schwäbl, Teatro Variedades, 2026



 























Não. Este Pigmalião não será aquele, antigo, que, horrorizado com as mais dissolutas mulheres de Atenas, resolve esculpir um marfim a esposa mais perfeita, cobrindo a estátua de belas roupas e das melhores joias e por ela apaixonar-se. Pedindo inclusive a Afrodite que lhe enviasse uma mulher assim idealizada. Por fim, o marfim ganhou vida, ele desposou-a, tendo-lhe dado mesmo descendência.

Não. Também não estamos em 1913 quando foi representada a peça escrita por Bernard Shaw, ironizando a aposta feita por Henry Higgins que conseguiria transformar a vendedeira de flores londrina Eliza Doolittle numa distinta senhora de sociedade, My Fair Lady.

Não. Este Pigmalião (António Lourenço Menezes) vive num mundo sub-humano pois estes já terão desaparecido e alimenta-se de manequins, como todos os outros pigmaliões que se nutrem de metal, feltro, velcro e poliéster. É um mundo distópico, desértico e sem conclusão, onde a predação e a fuga, afinal se vão encontrar num esconderijo onde a técnica apodrece. Afinal, o Manequim (Sara Afonso) desmembrado deseja reconstruir-se e o Pigmalião prefere alimentar-se de manequins completos e oferece-se para completá-la já que é perito em sucata e yoga. Aqui reside o humor que perpassa toda a ópera. Pigmalião trata a manequim por “Amor, meu Amorzinho” mas pretende simplesmente saciar a sua fome. A manequim mascara-se de marionete apresentando-lhe uma falsa mão e um falso rosto. Contudo, Pigmalião não lhe fica atrás pois, nas suas altas andas, de sinistra roupagem de outra marionete se reveste. Nada é o que parece e o final oculta-se na morte improvável e na inversão de papéis, numa certa e delicada vingança.

A partitura acompanha directa e simples, a evolução dramática desta tragicomédia em que as belas vozes de contratenor de António Lourenço Menezes e de soprano de Sara Afonso, timbradas, modeladas, fazem com eficácia a transição entre as árias e os recitativos falados. Sempre secundados pelo coro que oferece a profundidade emocionalmente fantasmagórica de um mundo que entrou em ruptura com os valores humanos. Contudo, faz falta a presença visual das figuras dos cantores do coro pois a sua imagem faria outro contraponto com as imagens gravadas em vídeo e projectadas no pano de fundo.

Uma ópera contemporânea portuguesa, como é promovida, acompanhada pelo som sintetizado e, depois, pelo timbre orgânico do sexteto de câmara. Talvez com um algo excessivo movimento de plástico por uma ventoinha cuja subtracção abrupta do palco não seria necessário termos presenciado.

É de sublinhar, e nunca será demais repetir o facto, a vitalidade da arte dramática, na sua extraordinária diversidade, em Portugal e em especial em Lisboa.

Vamos pois ao teatro!


jef, 18 de setembro de 2026

«Pigmalião» de Gerson de Sousa Batista (Composição musical e som) e Tiago Schwäbl (Libreto original - Mane-Quim / Pig-Malião). Com António Lourenço Menezes (Pigmalião – contratenor) e Sara Afonso (Manequim – soprano). Músicos: Martim Ricardo (Flauta); Sara Rocha (Clarinete); Francisco Cipriano (Percussão); Francisco Costa (Violino); Camille Estêvão (Viola d’arco); Marta Nabeiro (Violoncelo). Coro (Grupo Vocal Arsis): Alexandra Almeida, Alexandrina Leal, Ana Jacobety, Ana Sacramento, António Morgado*, António Rocha*, Dina Oliveira*, Fernando Alves, Helena Pinto Janeiro*, Isabel Almeida, Joana Proença, Jorge Afonso Paulo, Manuel João Martins, Manuel Serpa Branco, Margarida Madeira*, Maria Clara Assunção, Maria da Luz França, Maria Luísa Lima, Maria Luísa Nogueira, Mário Jorge Ervilha, Miguel Monteiro*, Osvaldo de Sá, Paula Fonseca, Pedro Laginha, Rui Gonçalves, Sofia Isidoro*, Susana Carvalho*, Teresa Amaro, Teresa Huertas Parente, Teresa Travassos*, Vanda Freitas, José Manuel Sobral, Kina Yum, Leonor Proença (*membros Incognitus Ensemble). Encenação e conceção plástica: João Vieira Fino. Direção Musical e Maestro: Gonçalo Santos. Curadoria artística e direção coral: António Lourenço Menezes. Direção técnica e desenho de luz: Paulo Santos. Produção: João Figueiredo Dias / Plataforma Cultural. Figurinos: Natália Mil-Homens Pereira. Caracterização: Eliseu Ferreira. Fotografia de cartaz: Filipe Ferreira. Design gráfico: João Castro.  Vídeos: Bárbara Medinas. Cenografia Digital: João Vieira Fino dirigiu atelier comunitário na escola Play-Brincar para Crescer com a turma de alunos dos 4/5 anos. Encomenda Original: Festival Informal de Ópera. Duração: 65 minutos.

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Sobre a peça «As Preciosas Ridículas» de Molière, Teatro do Bairro, 2026



 




























O drama das comédias clássicas é que, infelizmente, não passam de moda por mais que os séculos lhes passem por cima. Ora quero dizer, a humanidade a viver das aparências, da ambição e da estupidez, será sempiterna, ou até que se auto-destrua por completo. O que Molière expressou com a sua primeira peça estruturada como comédia em prosa e em um acto é que a humanidade, para além de se afundar na estupidez cega, também se enterrará irremediavelmente no ridículo.

Por isso, “Les Precieuses Ridicules”, posta em cena pela primeira vez em Paris nos finais do ano de 1659, criou grande celeuma por colocar em cheque o provincianismo decadente de quem pretendia, por fingimento, ascender ao estatuto da aristocracia urbana, atingindo a peça grande êxito. Acima de tudo, assegurava ainda a representação através dos tempos, como demonstra agora a encenação de Beto Coville e da Companhia Teatro Livre.

Simplicidade e eficácia como exigem os grandes textos, já que é na subtileza dos enganos falados que lhe reside a alma. Du Croisy e La Grange sentem-se rebaixados pela fraca recepção na casa de Gorgibas e orquestram uma estratégia de vingança enviando dois dos seus lacaios-cocheiros, fazendo passar-se por Marquês de Mascarille e Visconde de Jodelet, um gabarola, o outro, néscio. Estes devem cortejar as ansiosas Madalena e Catarina, a filha e afilhada de Gorgibas. No entanto, estas rejeitam esses nomes de nascimento, pois consideram de origem plebeia ou rural, intitulando-se, mais refinadamente, de Aminte e Polixene. Tudo começa e termina num verdadeiro jogo de encenação e falsidade. Até que os primeiros agastados vêm desvendar o próprio engano que encenaram. Uma espécie de teatro dentro do teatro, onde quem impõe alguma lucidez é a amarga viúva, mãe e madrinha, Gorgibas, e a divertida aia Marotte.

Claro que as personagens surgem tão visceralmente ridículas que até os amplos vestidos da época aparecem desmascarados apenas sob a apresentação das simples armações metálicas interiores. Tudo está a nu. Quer isto dizer, até os falsos marquês e visconde estão tão despidos, no final, quanto a desmedida vocação para casar das falsas Aminte e Polixene.

Tudo a verdade deixa a nu (mas também em festa!), na necessária comicidade do exagero, no colorido dos fatos e adereços, na simbologia dos defeitos humanos. Eternos, sinceros e verdadeiros como só os bobos e os palhaços conseguiam fazer valer nas distintas cortes reais, demonstrando que, como sempre refere o escritor Rui Cardoso Martins, “o humor não aligeira, pelo contrário, aprofunda”.

Que grandes actores! Que bela tarde de teatro!


p.s. já agora, sobre a estupidez, veloz, ligeira e eterna, façam o favor de ler «Allegro ma non troppo seguido das leis fundamentais da estupidez humana» de Carlo M. Cipolla (1988).

 

jef, 20 de setembro de 2026

Texto: Molière. Adaptação e encenação: Beto Coville. Com António Camelier (Marquês de Mascarille), Beto Coville (Du Croisy), Dan Martin (Carregador e Violinista), Eurico Lopes (La Grange), Gabriela Ferreira (Angelique), Guilherme Inácio (Carregador e Violinista), Joana de Verona (Madalena / Aminte), Luísa Ortigoso (Marotte), Márcia Cardoso (Catarina / Polixene) Manuela Ferreira (Lucille), Maria D’Aires (Gorgibas, a mãe e madrinha / Almanzor) e Ricardo Barbosa (Visconde de Jodelet). Cenografia: Eurico Lopes. Figurinos: Mia Lourenço. Caracterização: Magali Santana. Desenho de luz: Rui Seabra. Desenho de som: Paulo Abelho. Costureira: Rosário Balbi. Construção de cenário: Fábio Paulo. Desenho de Luz e Sonoplastia: Pedro Santos. Atelier Comédia dell’Arte: Tobias Monteiro. Fotografias de cena: Manu. Cartaz: Luciano Luz. Produção: Companhia Teatro Livre. Promotor: Ar de Filmes. Duração: 70 minutos.

 

Sobre o filme «Calle Málaga» de Maryam Touzani, 2025



 











Não se pode exigir-lhe muito. É um presente para Carmen Maura, uma espécie de homenagem definitiva à actriz, talvez um pouco cerimoniosa demais, talvez com truques narrativos para que Carmen Maura se desdobre nos diversos capítulos da persona a que se entregou, Maria Angeles Muñoz.

Também uma homenagem à salutar convivência histórica entre povos, culturas e religiões na cidade de Tânger. Contudo, a trágica e talvez bastante forçada situação imposta pela filha Clara (Marta Etura) a Maria Angeles, e todas as reviravoltas que esta tem de dar para manter a independência na sua casa e na sua cidade natal não salvam a interessante cena final, na qual ficamos por saber o desfecho da história.

Um filme bonito que tem o condão de nos apresentar um actor maior Ahmed Boulane, no papel de um desconfiado e depois muito solícito Abslam.

Um filme que explora mais a bela cenografia e, mais uma vez, um guarda-roupa muito especial, mas perdendo a verosimilhança narrativa que toda a fantasia deve ter mesmo que se apresente longe da realidade.

Um filme que deixa bastantes saudades de um outro da realizadora, o renascentista «O Azul do Cafetã» (2022).


jef, setembro 2026

«Calle Málaga» de Maryam Touzani. Com Carmen Maura, Marta Etura, Ahmed Boulane, María Alfonsa Rosso, La Imèn, Abdelilah Iramdane, Ghali Errazqi, Miguel Garcés, Tarik Rmili, Mohamed Naimane, Sanae Regragui, Fouad Mnebhi, Moustapha Haouchine, Laila Hotait Salas, Mohammed El Aouni, Yassine Akel, Jaafar Brigui, Youssef Imrani, Nazha Tahiri, Tarik Gharbaoui. Argumento: Maryam Touzani, Nabil Ayouch. Produção: Nabil Ayouch, Amine Benjelloun, Jean-Remi Ducourtioux. Fotografia: Virginie Surdej. Música: Freya Arde. Guarda-roupa: Hanane Bouhouch. Marrocos / França / Espanha / Alemanha / Bélgica, 2025, Cores, 116 min.