quarta-feira, 27 de maio de 2026

Sobre o livro «Animalário, um bestiário lusitano» de Pedro Castro Henriques, edição Margarida Oliveira, 2023

 
























«Os animais, que não humanos, sugerem não se interrogar sobre a sua condição. Um lagarto não se lamenta de ser lagarto e nem sequer lhe passa pela cabeça vir a ser borboleta ou elefante, é apenas lagarto e julga desempenhar bem o seu papel.

«Nós, pelo contrário, protestamos sem cessar sobre o nosso destino, invejamos o triunfo dos demais, sentimo-nos culpados de muitos actos que praticamos e, não raro, temos consciência da mediocridade do nosso desempenho. Este sentimento de culpa é agravado pelo facto de modernas ortodoxias nos responsabilizarem face ao estado da Terra e demais ocupantes. Por enquanto, ainda não pedimos desculpa pelo facto de termos nascido, mas nisso imitamos qualquer mosquito, emérito e despreocupado transmissor de vírus e de morte.»

 

Assim, o autor inicia o prólogo deste dicionário, ou bestiário, com centenas de entradas, desde “abandono” a “zurro”. Quando faço este pesquisa, o autor adianta-se pois exactamente na última página coloca a palavra “fim”, instigando o leitor a preencher os espaços em falta, infinitos diga-se, pois ele não voltará ao caso, pois o Bobi chama para o levar à rua!

Por isso, confirmo que a escrita curta de Pedro Castro Henriques é tão motivadora e inteligente, divertida e consciente, quanto ilógica e irreverente. Temos de encontrar para a sua escrita um novo código de leitura. Um novo abecedário que nos oriente entre as suas farpas políticas, éticas, morais ou ambientais. No fundo, o alfabeto PCH apenas nos indica novos caminhos para a leitura do nosso comportamento na sociedade.

Ou seja, «Animalário – um bestiário lusitano» não é mais que um espelho onde nos podemos rever e compor socialmente. A gravata não fica bem, o colarinho está desajustado, o chupão vê-se ainda no pescoço… Não podemos sair assim para a rua! Temos de nos saber comportar como um homenzinho. Neste caso, como um humanozinho!

Diderot enciclopendiou, Lineu ou Gothe quiseram pôr em ordem alfabética o reino vegetal que Deus tão desorganizadamente criou em tão poucos dias…

Esopo, La Fontaine, ou mesmo os irmãos Grimm, usaram toda a casta de animais para justificar os piores comportamentos humanos. Aquilino Ribeiro catalogou e encafuou a zoologia, com saber e parcimónia infantil e subtil vocabulário na «Arca de Noé – 3.ª Classe»…

…não! Não pensem encontrar no Dicionário ou Enciclopédia animal de PCH a moralidade factual, o pressuposto religioso, a admoestação política e social do nosso comportamento.

Uma vez mais. Não! Pedro Castro Henriques é cerimoniosamente irreverente, repito, literariamente belo, polidamente iconoclasta, psicanaliticamente clínico, até cínico. (Por favor, ler com atenção a entrada para “leitão”!)

Eu só agora comecei a ler. Uma entrada por noite, em jeito de compensação bíblica pelos pesadelos ou belos sonhos que encontrarei de olhos fechados no subconsciente da almofada.


jef, maio 2026


Sobre o filme «A Culpa Foi do Macaco» de Howard Hawks, 1952


 
























Este é um dos meus filmes de infância, quando a RTP passava as loucas comédias de Howard Hawks nas tardes de cinema de domingo. Ria-me muito com tamanha macacada, apreciava a loucura infantil, praticamente sem nexo daquelas figuras, que eram tomadas por chimpanzés. quando, inadvertidamente, bebiam o elixir da “eterna” juventude criado pela macaca Esther, vertido depois dentro do depósito de água do bebedouro do laboratório. O suposto elixir "B-For"!

Delirava com todas as extravagantes peripécias cómicas mas não me apercebia de quanto machista, quase misógino, era a personagem de Dr. Barnaby Fulton (Cary Grant), pitósga, distraído e obcecado pelo trabalho de cientista químico, que nem reparava na belíssima figura da sua devota esposa Edwina (Ginger Rogers) que o instiga a ir a uma festa, desistindo depois com um sorriso, irrompendo a meio dos ovos mexidos preparados à pressa, o proto-pretendente de Edwina, Harvey Entwhistle (Hugh Marlowe). Também o bom do Barnaby não repara na super meia-de-vidro, com produto por ele criado, que cobre a perna de Lois, uma soberba Marilyn Monroe, secretária do patrão Mr. Oxley (Charles Coburn) que tanto fica encantada com a aparição metamórfica da adolescência de Barnaby, enfiado num fato de fantasia, conduzindo à desfilada um carro desportivo ou atirando-se da prancha em chapão para dentro da piscina.

Tudo neste filme não fará sentido lógico, a fantasia cénica é apenas uma diversão assumidamente teatral como é explicitada, logo no início da ficha técnica, quando a voz off do realizador surge para fazer repetir a Barnaby a cena da porta mas tratando-o directamente por “Cary”. Ou no escalpe índio do agora mal tratado Harvey Entwhistle. Ou quando Barnaby parece ter bebido tanta poção mágica que surge nos braços da chorosa esposa como um bebé. Ou quando, tomados todos pela sede bebendo daquela água mágica, um pouco amarga demais, brincam todos como crianças ou macacos endiabrados nas instalações do laboratório.

É impossível não esquecer «As Duas Feras» (Bringing Up Baby), 1938, e também não comparar Cary Grant no papel de outro cientista, agora paleontólogo, a braços com a maravilhosamente endiabrada Katharine Hepburn!

Maiores são as comédias de Howard Hawks!


jef, maio 2026

«A Culpa Foi do Macaco» (Monkey Business) de Howard Hawks. Com Cary Grant (Dr. Barnaby Fulton), Ginger Rogers (Edwina), Charles Coburn (Mr. Oxley), Marilyn Monroe (Lois Laurel), Hugh Marlowe (Harvey Entwhistle), Henri Letondal (Siegfried Kitzel), Robert Cornthwaite (Dr. Zoldeck), Larry Keating (Mr. Culverly), Douglas Spencer (Dr. Brunner), Esther Dale (Mrs. Rhinelander). Argumento: Ben Hecht, I.A.L. Diamond e Charles Lederer e (não creditado) Howard Hawks, a partir dum conto de Harry Segall. Produção: Sol C. Siegel para a 20th Century Fox. Fotografia: Milton Krasne. Música: Leigh Harline. Guarda-roupa: Charles Le Maire e Travilia. EUA, 1952, P/B, 91 min.

 





quinta-feira, 21 de maio de 2026

Sobre o livro «Greve Geral» de André Ruivo, Casa da Esquina / The Inspector Cheese Adventures, 2026



 



























105 x 78 milímetros. 36 páginas-couché envoltas numa capa de leve cartolina escarlate com badanas onde o título vem gravado em profundidade. Um extra-ordinário A7! É o microcosmo do artista plástico que, uma vez mais, assume mais o seu pendor de cronista gráfico do que de ilustrador social.

É o mais pequeno livro impresso da sua vasta obra e a concisão milimétrica da respectiva esquadria faz concentrar a atenção do leitor sobre cada um dos dias que passam pelo diário do artista (e do espectador). É como um presente filatélico que é oferecido ao nosso passado recente. Ou seja, o leitor não precisa de vasculhar na pilha de jornais dos meses transactos ou nas notas que deixou pespegadas nos ímanes do frigorífico: em «Greve Geral» está tudo descrito com a proverbial intimidade política tão característica da última fase plástica do artista – as cores amplas e em fundo monocromático no interior de contorno negro digital sublinham (até parece que ampliam) quanto a tempestade nos impediu de ver o sol; quanto o genocídio na Palestina nos angustiou os noticiários; quanto o Natal é vermelho, igual à Greve Geral, igual à raiva de não querer trabalhar para aquele patrão. Mas o Sol ainda está lá em cima, apesar da depressão dos dias entediados, apesar do Ventura, apesar da chuva persistente.

Ler cada dia André Ruivo através da sua resistência bruta, da teimosa persistência, quantas vezes, talvez, contra a sua própria vontade de desistência, é um acto de extrema eficácia.

Muitos coleccionaram o Almanaque Bertrand. Eu, com orgulho e alegria, colecciono o Almanaque Ruivo!


jef, maio 2026

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Sobre a apresentação da revista «A Morte do Artista # 9 – ‘Reviravolta’». Biblioteca do Palácio Galveias, dia 23 de maio, pelas 16h00. Lisboa, 2026



 














Quem sabe quantas voltas elípticas em torno do Sol o mundo ainda dará sobre o seu eixo ligeiramente inclinado, Verão, Inverno? Também desconhecemos quantas reviravoltas ainda teremos de fazer para nos mantermos de pé sem vacilar nesse rodopio do planeta que coloca tantos Doutores e Presidentes de cabeça tonta, indigente.

E assim chegamos ao número #9 de A Morte do Artista. E tal como diz o preâmbulo em jeito de prefácio ou editorial:

«Estávamos muito bem a andar, sem particular direção, a caminho de sítio nenhum, que é como quem diz, a caminho de todos os lugares, quando, de repente, sem aviso prévio, um vendaval, um cataclismo, um tremor de dentes, uma minudência, uma vírgula fora do lugar, uma borboleta de asas assimétricas, um sorriso comprometedor, um raio de ar, uma orla marítima, uma curva acentuada para o céu, uma periclitância, uma tempestade com nome de homem, um anticiclone com nome de mulher nos fizeram perder o norte e, claro está, também o sul, o este e o oeste — já se sabe quando se perde um, perdem-se logo os outros todos.»

 Mas nós não estamos perdidos porque estamos bem encontrados, rodeados de tão belos artistas. A saber:

 A começar por Afonso Cruz, o nosso consagrado, que nos faz seguir aquele estranho percurso que levou os heróis-anti-heróis pelos mares luminosos da velha Grécia.

No “Ponto Zero”, Fernanda Cunha deixa-nos perceber o que uma certa Inteligência Artificial poderá ter a ver com a alteração de uma cidade-modelo. Entre o Amor e a Revolução.

Pedro Eiras oferece-nos o “Quarteto”, uma renuncia ao que a rotina e o dever quantas vezes obrigam cada um de nós a ceder em detrimento do prazer ou da razão.

Ana Costa Franco mostra a transformação de uma rua, de um bairro, de um café face ao tempo que fica cristalizado sobre cada um dos minutos que faz mover o dia-a-dia. “Maria de Tânger”.

De Nilson Dourado, três poemas sobre as palavras voláteis mas desejadas em cada sopro, em cada desejo, em cada beijo.

João Eduardo Ferreira (eu mesmo, na terceira pessoa do singular) inscreve a receita sobre por que não dormir. “Insónia – Uma Teoria”.

Manuel Halpern faz o elogio do refractário subtrator apresentando a respectiva bula programática e, mais à frente, apresenta o “Tutorial” para não arriscarmos o passo em falso no Amor.

Quem vai ao teatro moderno pela mão da artista dramática Magda Fiolhais, famosa pelos seus happenings desconstructivos é Pedro Castro Henriques. O futuro do drama é com ela. O futuro é com ele.

Henrique Pires-Teixeira faz-nos compreender a importância da crónica como entusiástico registo do passado. A história do nosso presente, entre continentes.

Vindo ainda do continente África, da sua costa leste, Lino Mukurruza, relembra-nos ainda a memória esparsa do poeta Sebastião Alba.

A dupla de poetas Joana Koehler e Tiago Gomes fazem-nos seguir na viagem do Amor e do Furacão através da ferida provocada pelos estilhaços, da premência do desejo ou da impossibilidade do regresso.

Luís Natal Marques em “Não te esqueças de pedir licença” transpõe a barreira do outro, convida a senti-lo como nós. No fundo, o autor coloca-nos num certo jardim, Ali, somos, de facto, o Outro.

E, no final, João de Melo narra a impossibilidade de viver sem a poesia. Ou melhor, traduz-nos como a vida sem a palavra sentida pode ser tão enfadonha como inútil. Concretamente, faz um imenso elogio à literatura como peça fundamental da sobrevivência. "A Salvação pela Poesia".

Por último, por ser a primeira que nós, com deleite, aqui usufruímos, está toda a arte gráfica, composição e obras do artista plástico, nosso estimado associado, Paulo Romão Brás que nos oferece o objecto que temos na mão onde vemos as imagens retiradas da extraordinária série “Espuma, Ruído e Atonia” (2020-2025).

Por todos estes motivos e pelo teatro e pelos bolinhos, será impensável não estar presente na festa de lançamento do #9 de 'A Morte do Artista' que terá lugar na Biblioteca do Palácio Galveias, no dia 23 de maio, pelas 16h00, em Lisboa.


jef, maio 2026

terça-feira, 19 de maio de 2026

Sobre o filme «Rio Sem Regresso» de Otto Preminger, 1954



 
















Um filme mítico de cowboys, com dois actores improváveis em dois improváveis personagens. Um dos primeiros a ser filmado na grandiosidade do CinemaScope / Technicolor. O filme em que no esplendor do saloon a luminosa Marilyn Monroe (Kay Weston) canta “One Silver Dollar” e, depois, quase no final, no saloon da cidade, interpreta “River of No Return”. Pelo meio, na casa de Robert Mitchum (Matt Calder), ela canta, já maternal, despida do sedutor ambiente nocturno, “Down in the Meadow” para o embevecido miúdo Matt Calder (Tommy Rettig), filho de Matt.

Tudo aqui parece ser uma alegoria bíblica, nada é dito naturalmente, tudo vem do teatro, de um conceito moral. Não é por acaso que Matt apanha do chão a Bíblia que o padre deixa cair, no início do filme, enquanto atrás passa uma espécie de carrossel humano ao estilo “Sodoma e Gomorra”. Também não será ocasional que o filme termine com Kay a deitar por terra os seus sapatos vermelhos, rejeitando a cidade, rejeitando o passado, viajando de volta a uma casa que nunca terá sido sua. Duas cenas em espelho, deslumbrantes, sobre o pó e a terra nua.

Matt é a reserva moral de uma provável redenção pelo seu passado obscuro que vai sendo revelado aos poucos a seu filho Mark. Ao poucos surge a razão trágica do seu próprio abandono, que, assim revoltada pelo acto paterno, afinal, praticará o mesmo acto para salvar o pai. Outra vez uma questão da simetria.

Afinal, também será reflexiva, a indiferença de Matt perante Kay, até certo ponto, pois ele deverá manter sempre a reserva moral do filme, como aprendizagem de vida do filho, como regresso ao bom caminho de Kay. Por razão evangélica, o pai explica ao filho a razão de se chamar Mark, pois Marco segue a Mateus no Novo Testamento.

Filme mítico da minha infância. A minha mãe sempre me dizia que a Marilyn era das actrizes mais injustiçadas e exploradas pelo vórtice hollywoodesco que lhe colara à sua belíssima e luminosa pele o trágico anátema de mulher-modelo, sendo ela tão sensível e inteligentíssima, belíssima actriz.

Marilyn é mesmo deslumbrante. A câmara que em torno dela filma, nos saloons, e depois na gruta, enregelada após o desmaio, enquanto Robert Mitchum lhe fricciona as pernas, surge como acto de pura, digamos divina, devoção.


jef, maio 2026

«Rio Sem Regresso» (River of No Return) de Otto Preminger. Com Robert Mitchum (Matt Calder), Marilyn Monroe (Kay Weston), Rory Calhoun (Harry Weston), Tommy Rettig (Mark Calder), Murvyn Vye (Dave Colby), Douglas Spencer (Sam Denson), Fred Aldrich, Claire Andre, Hal Baylor, Don Beddoe, Phil Bloom, Buck Bucko, Roy Bucko. Argumento: Frank Fenton segundo a história de Louis Lantz. Produção: Stanley Rubin. Fotografia: Joseph LaShelle. Música: Ken Darby (letras das canções e ditector vocal), Lionel Newman (director e compositor musical), Edward B. Powell (orquestrador). Guarda-roupa: Travilla. Coreografia: Jack Cole. EUA, 1954, Cores, 91 min.

 

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Sobre a peça «As Cadeiras» de Eugène Ionesco. Teatro da Comuna, 2026.




É fundamental entender que o mundo dos homens nunca deixou de estar em crise. Digamos mais concretamente, em guerra. Por isso, em qualquer época da dita humanidade, poderemos assistir ao absurdo concreto da peça «As Cadeiras», de Eugène Ionesco, escrita poucos anos após o fim da segunda grande guerra, como o eterno retorno ao abandono, à solidão, talvez mesmo desespero para que o fim se aproxime o mais rapidamente possível. Por isso, o Velho, ou Zelador-Chefe (Manuel Coelho), pretende reunir toda a sociedade para que oiçam finalmente a mensagem que esclarecerá em definitivo a questão essencial. Ele tem talento, muito talento, como diz a sua mulher, a Velha (Custódia Gallego), a sua “mãe”, “protectora”, eterna e devota ouvinte, mas ele não se sabe exprimir. Por isso, contratou o orador para apresentar “a sua boa nova”. Há muita agitação na sala. Todas as cadeiras já estão ocupadas pela sociedade, enchem o palco, até o imperador compareceu. Todos ansiosos pelo discurso final. Contudo, o Velho e a Velha vêem-se separados pela multidão, cada um à beira das duas janelas do casebre, no meio do lago. Mal se ouvem.

As luzes estão suavemente acesas sobre os espectadores. Nós somos a assembleia ansiosa por ouvir a palavra. Porém, o Velho, entre a humildade e o orgulho, não entende o atraso do orador, e a Velha não sabe como mais mimar o seu “orfãozinho”. Não haverá outra solução!

E ficamos nós, apenas nós, espectadores, também sozinhos, para ouvir as palavras finais, a derradeira mensagem!

Que actores magníficos.

Que encenação tão precisa, concisa e solitária.

Que texto tão concreto e sintomático.


jef, 17 de maio de 2026


«As Cadeiras» de Eugène Ionesco. com Custódia Gallego (Velha), Manuel Coelho (Velho), João Mota ou Carlos Paulo (Orador). Encenação e versão cénica: João Mota. Tradução: Luís Lima. Cenografia: Renato Godinho e João Mota. Figurinos: João Mota. Desenho de luz: Paulo Graça. Ambiente Sonoro e Sonoplastia: Hugo Franco. Operador de Luz / Som: Rogério Vale. Fotografias: Pedro Soares. Gabinete de Produção: Rosário Silva, Carlos Bernardo, Catarina Oliveira. Comuna Teatro de Pesquisa. Duração: 75 min.

 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Sobre o livro «Um Rio Que Vem da Grécia – Crônicas do Mundo Antigo» de Cláudio Moreno, L&PM Editores – Coleção Pocket vol. 866, 2023.



 







São crónicas breves, certamente saídas do audível espaço sem forma da rádio e dos podcasts. São simples e pragmáticas, contrapõem a nossa visão do dia-a-dia, por vezes tão cego, com o sedimento essencial do que chegou até nós de um mundo antigo grego, persa ou latino. Longe fica a dogmática e impositiva moral cristã; próximo, muito próximo, fica a amoralidade, para não dizer imoralidade, de todos aqueles deuses perversos, tão santos com satânicos, tão vaidosos e libidinosos como amorosos e vingativos, cuja crença leviana surge impante no metamórfico Zeus.

Contudo, o que nos demonstra, quase por A + B, Cláudio Moreno é a imensa capacidade que a cultura clássica tem de não julgar, por si só, como um preconceito, mas antes dar-nos ferramentas espirituais para formar o nosso cabal julgamento, o nosso juízo baseado tanto na lei civil ou no estatuto da Ágora, como, em pé de igualdade, colocando-o também sujeito à norma racional, emocional ou afectiva de cada um dos leitores, como indivíduos e cidadãos.

Teoriza sobre a vingança como acto tão mais natural quanto a cristã desculpa (Ah, Aquiles! Ah, Medeia!); estabelece a franca norma dos dois tempos que nos condicionam em simultâneo – a do cronos, o do calendário, relógio ou estações do ano – e a do kairos – “o momento certo, propício, a ocasião oportuna para as coisas acontecerem”, aquele tempo sem cronómetro que apenas a intuição comanda sem hora certa; afirma que o Amor não é cego e defende tanto a figura rechonchuda de Cupido como a atlética, sedutora e máscula figura de Eros; fala sobre a vantagem, quase necessidade, do esquecimento perante o natural decorrer dos factos na nossa vida; citando afinal Marguerite Yourcenar – “tudo o que pudermos imaginar para prejudicar o nosso semelhante já foi, ao menos uma vez, experimentado pelos gregos, assim como também são gregos os modelos de todos os nossos vícios”.

Cládio Moreno é um mestre sereno e enciclopédico que tem o dom de contar com simplicidade erudita brevíssimas histórias romanescas, imaginativas, fantasiosas, delirantes. Histórias que, no início da noite, nos fazem, tranquilamente, adormecer acordados.

Como um amigo meu refere, são histórias para podermos lavar o palato do contemporâneo correr desenfreado, tão fétido e endiabrado.


jef, maio 2026