quinta-feira, 19 de março de 2026

Sobre o filme «O Estrangeiro» de François Ozon, 2025



 


























Tenho de reler «O Estrangeiro» de Albert Camus (aliás, como o realizador pretende motivar o espectador-leitor a fazer no final da excelente entrevista-artigo de Vasco Câmara no suplemento Ípsilon do Público, de 13 de março de 2026).

Em tempo, foi dos livros que mais me perturbaram, que me deixaram suspenso nesse absoluto zero que é, afinal, o caminho existencialista sartriano para a consciência do caminho libertário e do nada, caminho anti-empático, talvez apenas em direcção à solidão final.

Desde o início, o filme tocou-me, fez-me reviver o livro (porque o livro é mesmo visualmente cinematográfico, uma obra dificilmente esquecível).

Felizmente, o livro apenas residia no meu córtex como memória filosófica e estética, retocando longos planos cheios de brilho colorido, de branco, de sol, de calor e mar. Tudo batia certo no filme de Ozon, inclusive a estranha sensação de todos os personagens com quem Meursault (Benjamin Voisin) se vai cruzando são todas, sem excepção, mais dialogantes em fotogenia e empatia que o próprio protagonista, aliás como a minha memória ainda retinha: Marie (Rebecca Marder), Raymond Sintès (Pierre Lottin) ou qualquer outra das figuras que, mais tarde, testemunharão no seu julgamento. Aliás, as cenas na praia com a actriz Rebecca Marder (Marie) são de uma sensualidade expectante assombrosa, e as refeições tomadas com o actor Pierre Lottin (Raymond) revestem-se de um subreptício e latente humor. Assim devem ser pois o protagonista é, exactamente, o que os outros lhe contrapõem ou sobre ele reflectem. Como no espelho onde se barbeia. Cenas de uma beleza igualmente perturbadora.

Tudo batia certo até à longa cena na praia (imaginada-recordada pela minha estafada memória), uma demorada perspectiva de caminhada sob o calor e alheamento, quase de exausto delírio, onde o brilho da lâmina do árabe se encontra com o metal do revólver empunhado. O que eu sempre retive como um denso regresso ao nada através do contraponto incompreensível da sociedade, torna-se no filme de Ozon acelerado, extrovertido e, sobretudo, explicativo… O que não fazia parte do mistério que o livro deixara preservado no dito córtex.

Depois da cena, o meu espírito deligou um pouco, ficando mais agarrado ainda à cativante e estética fotografia de Manuel Dacosse e, por último, à respectiva captação de som e banda sonora imprescindíveis (Roland Escary e Fatima Al Qadiri) – Reparei no primeiro leve sorriso de Meursault, sentado no murete enquanto aguarda, vendo o caminhar do pequeno escaravelho e o espectador escutando o, afinal, silencioso caminhar das patas do animal sobre a pedra caiada! E, por fim, os The Cure “Killing an Arab” (1979).

(Depois de ler «O Estrangeiro», e talvez alertado e motivado por ele, habituei-me a coleccionar personagens estranhas ou ausentes de si próprias questionando o espaço que as envolve e/ou as oprime: «Um, Ninguém e Cem Mil» de Luigi Pirandello, «O Crime de Lorde Arthur Savile» de Oscar Wilde, «A Noite do Professor Andersen» Dag Solstad  «Bartleby» de Herman Melville ou «A Consciência de Zeno» de Italo Svevo.)

Agora, tenho mesmo de ir reler «O Estrangeiro» de Albert Camus!

 

jef, março 2026

«O Estrangeiro» (L'Étranger) de François Ozon. Com Benjamin Voisin, Rebecca Marder, Pierre Lottin, Denis Lavant, Swann Arlaud, Christophe Malavoy, Nicolas Vaude, Jean-Charles Clichet, Mireille Perrier, Hajar Bouzaouit, Abderrahmane Dehkani, Jean-Claude Bolle-Reddat, Jean-Claude Bolle-Reddat, Jérôme Pouly, Jean-Benoît Ugeux, Joël Cudennec, Christophe Vandevelde, Mar Sodupe, Denis Déon, Théo Costa-Marini, Benjamin Hicquel, Salim Benmoussa, Noureddine Soutbani, Brahim Bihi. Argumento: François Ozon e Philippe Piazzo segundo o romance de Albert Camus. Produção: François Ozon. Fotografia: Manuel Dacosse. Captação de som: Roland Escary. Música: Fatima Al Qadiri. Guarda-roupa: Lydie Collin. Cenário: Hind Ghazali. França, 2025, Cores, 110 min.


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