segunda-feira, 23 de março de 2026

Sobre a peça «T2 em Benfica por 600 euros» de Vicente Alves do Ó, Cine-Teatro Turim, 2026.



 































As décadas passam e o papel de parede mantém-se firme na parede. Talvez seja esse o maior problema. Ou a melhor solução. Um apartamento assim, por aquele preço, no centro de Lisboa, Benfica, é quase uma impossibilidade. Será mesmo possível?

Cinco personagens assinam no mesmo dia contratos para o mesmo espaço, pagam rendas e meses de caução. Cinco personagens caem no logro, são ludibriadas e, agora, vêem-se em palpos de aranha e confrontam a papelada. O telefone do agente imobiliário não atende.

O que parece ser uma comédia sobre um tema do dia-a-dia desvenda-se uma tragédia quando a luz recai sobre o rosto de cada e ouvimos a alegação inicial (ou final) sobre a própria urgência da necessidade de ficar com o vantajoso arrendamento. Os outros ouvem e não conseguem comparar ou pontuar a desgraça.

Rex (Francisco Beatriz) tenta reerguer-se após anos a viver na rua; Zézinho (António Camelier) quase que ainda vive com a mãe e sofre de narcolepsia; Catarina (Margarida Antunes), professora, precisa de um canto já que o ensino da filha lhe levou o rendimento; Vera (Margarida Moreira) deseja reconciliar-se visualmente com a filha; e Daniel Aranha (Ricardo Barbosa), cozinheiro, influencer gastronómico, deu um mau passo no Master Chef e ainda não conseguiu viver num espaço que diga ser apenas seu.

Estão todos na mesma ‘barca’, como as personagens de Gil Vicente. Todos se confrontam através dos seus tiques, os seus medos, segredos e passados, figuras vindas de uma pequena burguesia espoliada por um capitalismo imobiliário desenfreado que todos expulsa de Lisboa, excepto imigrantes sugados até ao tutano e turistas embasbacados com um Fernando Pessoa que jamais lerão.

Cinco figuras, triste e alegres, eternamente amáveis, talvez caricaturas, como as saídas da commedia dell’arte, que nos confrontam em simultâneo com a realidade mais dura e o riso que, afinal, nos salvará.

Viva o Cine-Teatro Turim e a associação produtora Meia Palavra Basta (e acólitos)!

Viva o teatro!


Cine-Teatro Turim

12 a 29 de Março de 2026. Quinta a Sábado às 21h30. Domingos às 17h00.

Datas extra: 2 e 4 de Abril às 21h30


jef, 22 de Março de 2026

«T2 em Benfica por 600 euros». Texto e encenação: Vicente Alves do Ó. Com António Camelier (Zézinho), Margarida Antunes (Catarina), Margarida Moreira (Vera), Francisco Beatriz (Rex) e Ricardo Barbosa (Daniel Aranha). Operação de Som: Rúben Brandão. Figurinos: João Telmo. Guarda-roupa: Ukbar Filmes. Imagem Cartaz: Mariana Lokelani Produção: Meia Palavra Basta – Associação Cultural. 90 minutos.

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