Este
filme maravilhoso não é um documentário. E, como anunciado logo no início, está em
construção (work in progress de
José
Luis Guerin). Duplo sentido para o filme que parece um documentário sobre o
próprio processo de filmagens (com as imagens iniciais do casting realizado aos diversos habitantes do bairro, para que
relatem as suas histórias, antigas e recentes, em Vallbona, no subúrbio de
Barcelona). Um bairro que está e será sempre, também ele sitiado, em destruição
e reconstrução por linhas de caminho de ferro, viadutos e autoestradas. É este
o segundo sentido. Se os comboios passam incessantemente pelo ecrã, também as
flores e as hortas, as árvores, as couves e as canas de açúcar o enchem de nostálgica
benevolência. O renascimento pelas sementes que serão espalhadas pelo chão.
Tudo
aqui é encenado, montado milimetricamente para que faça sentido
cinematográfico. É um filme de extrema fotogenia. Novos e velhos, miúdos e graúdos,
tenham vindo, antigamente ou recentemente, da Andaluzia, do Subcontinente Indiano,
de África, da Ucrânia, da Rússia ou de Portugal. Todos têm aqui uma
história que vai ser contada e costurada. Como a do velho que explica, ponto
por ponto, que o que devia este ser era um filme de cowboys, e que o medo
se crava na noite trazido pelo ruído que o vento faz nas folhas e no escuro das
árvores. Mais tarde, já nos prédios e no isolamento dos altos andares, vemos
uma fita de índios e cowboys a passar numa longínqua televisão. Tal como o abandono
das hortas, a morte, a doença, o esquecimento neurológico das partituras que seriam
cantadas ao piano, em italiano. A tristeza pura de quem já não tem par para
dançar o tango nem lugar para o fazer. O cântico fúnebre como elegia a um homem
que desaparece. (No genérico final, surge a lista de todos os que transpuseram,
entretanto, a margem de um certo rio vital…)
Porém,
alguém cantando em português resgata da morte as canas e as cerejeiras para as
replantar mais além. Tudo é olhado de longe por todos no reflexo dos vidros dos
apartamentos onde agora vivem, isolados, sem as cantorias em flamengo que, por
serem poesia, não fazem muito sentido. Como as brincadeiras no rio ou no canal
onde é proibido tomar banho, mas onde todos, em conjunto, se vão divertir, rir,
contar histórias, cantar, dançar e comer melancia. Até que um miúdo a correr, desalmado,
os vem avisar de que a guarda está a chegar e, para não serem multados, tudo
desaparece num ápice. Pela pressa, meia melancia é espezinhada. Um colchão de
praia é retirado da água, por último, às escondidas. Um raminho de flores fica esquecido a
circular à superfície. O som da água. Até que entra um cão a inspecionar o
local abandonado.
O
requiem por um Vale Bom ou o eterno ‘déjeuner sur l'herbe’.
Um dos filmes do ano.
jef,
março 2026
«Histórias do Vale Bom» (Historias del Buen Valle) de José Luis Guerin (Historias del buen valle). Com o povo de Vallbona. Argumento e Montagem: José Luis Guerin. Produção: Jonás Trueba, Gaelle Jones, Javier Lafuente, José Luis Guerin. Director de arte: Kazuo Oga. Som: Maximiliano Martínez, Pablo Rivas Leyva. Fotografia: Alicia Almiñana. Música: Joe Hisaishi. Espanha / França, 2025, Cores. 122 min.







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