terça-feira, 31 de março de 2026

O Sorriso de Garfield / «Um Dia de Raiva» de Joel Schumacher, 1993



 

























Na realidade existem factos que escapam à fúria racional do ser humano e que, por isso, têm sobre ele consequências aparentemente inexplicáveis. O clima é um deles. Não será necessário falar dos ventos quentes e abafados que chegam de África ou dos capacetes de nuvens baixas trazidas por frentes ciclónicas para notarmos a mudança de humores nas comunidades humanas. A simples alternância das estações ao longo do ano, que deveria ser tão natural e benéfica para o bicho-homem como para outro animal qualquer, troca-lhe as voltas à vida e prova que o homem (o da cidade, em especial) não está preparado para suportar o clima.

O Verão é apenas um exemplo: não há nada mais agradável que sair para a rua às seis da tarde e apanhar com o Sol das quatro nos costados, aguentar o calor que salta das fachadas dos prédios, enquanto os ares condicionados dos outros vão pingando nas carecas de alguns (furando o ozono de todos) e, logo de seguida, ir lentamente marinar para dentro de um autocarro envidraçado, concebido pelos gelos eternos da Suécia. Tudo isto até seria suportável se não fossemos obrigados a reagir, a manter a tensão arterial em níveis normais e, principalmente, a trabalhar nessa angustiante condição de férias terminadas – na qual obviamente me encontro. Para mal dos meus pecados.

Talvez por tudo isso não me sai da memória a imagem daquele homem de olhar enervado que, preso nos engarrafamentos à entrada de Los Angeles, atacado pelo suor, pelas moscas e pelo sorriso, alvar e escarninho, de um Garfield escarrapachado no vidro do carro ao lado, resolve deixar o automóvel no meio da estrada e ir a pé para casa. Esta cena pertence a uma das melhores americanadas que por cá passaram nos últimos meses, O filme «Um dia de Raiva» do nova-iorquino Joel Schumacher começa, assim, com este normal cidadão americano subitamente enraivecido pelas armadilhas da sobreaquecida sociedade moderna.

A caminho de casa, Michael Douglas, aliás William Foster “D-Fens” (segundo ostenta a matrícula do carro), vai impor a sua ordem à sua maneira: desfaz a loja do coreano que vende a coca-cola a preços exorbitantes e metralha a casa de hambúrgueres que oferece produtos bem menos apetitosos do que as fotografias da propaganda. Percorre as ruas pintadas de L.A., disparando sobre os mexicanos que o ameaçam e investe contra pretos e brancos, ricos e pobres, neo-nazis e cabines telefónicas, em defesa da bolsa e da moral do bom consumidor. Aparentemente é assim. Quem lhe segue os passos através do mapa da cidade é Prendergast (uma excepcional interpretação de Robert Duvall), polícia à beira da reforma, de vida familiar e profissional reduzida a pó por uma mulher neurótica e possessiva.

Da cartografia dos crimes ao perfil psicológico de tão árduo defensor da ordem pública, vai um passo. Afinal, “D-Fens” é um perigoso psicopata (quem diria?), um desempregado do Ministério da Defesa que vive com uma mãe alienada. Alguém que, naquele dia, apenas tem um desejo: estar presente no aniversário da sua filha, facto que a ex-mulher tenta impedir por razões compreensíveis. A história acaba com as previsíveis cenas de cerco e da captura do assassino, como qualquer amante destas fitas esperaria.

O que o espectador não espera é ver um thriller, de enredo aparentemente banal, desrespeitar de forma tão sistemática as regras comuns do cinema e da moral americanas. «Um Dia de Raiva», apresentado na selecção oficial de Cannes 1993, foi, sem dúvida, melhor recebido pela crítica que pelo público. Acusado de transmitir ideias de ultradireita, ele mostra a sociedade e o homem modernos a caminhar directamente para o abismo.

Mas se assim é, então por que deixa o espectador de cara à banda, a matutar nas causas e consequências reais do seu dia a dia? De um ritmo sem fôlego, este filme vai mostrando gente à deriva, famílias destruídas e profissões sem futuro (à boa maneira de David Lynch), engarrafamentos, acidentes de automóvel, violência e caos social (a lembrar «Week-end» de Jean-Luc Godard, 1967), tudo pelo meio da comédia negra, do telefilme melodramático e de uma enorme caloraça. «Um Dia de Raiva» parece-me, pois, uma séria e irreverente caricatura do quotidiano urbano e do cinema comercial, oferecida nesta história de ‘polícias e ladrões’, cheia de non-sense.

E, agora, em letargia e sem inspiração, aguardo que chegue o tempo de Outono para afastar o calor e levar para bem longe os veraneantes sorrisos de Garfields (e Penelopes) pespegados nos carros que só agora vão de férias, dirijo-me ao clube de vídeo, alugo uma cassete qualquer e espero que passe mais este dia de raiva…

19 de agosto de 1993

jef


«Um Dia de Raiva» (Falling Down) de Joel Schumacher. Com Michael Douglas, Robert Duvall, Barbara Hershey, Rachel Ticotin, Tuesday Weld, Frederic Forrest, Lois Smith, Joey Singer, Ebbe Roe Smith, Michael Paul Chan, Raymond J. Barry, D.W. Moffett, Steve Park, Kimberly Scott, James Keane, Macon McCalman, Richard Montoya, Bruce Beatty, Matthew Saks, Agustin Rodriguez, Eddie Frias, Pat Romano, Julian Scott Urena, Karina Arroyave, Irene Olga López. Argumento: Ebbe Roe Smith. Produção: Timothy Harris, Arnold Kopelson, Herschel Weingrod. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Música: James Newton Howard. Guarda-roupa: Marlene Stewart. EUA, 1993, Cores, 113 min.

 

Sem comentários:

Enviar um comentário