Na
realidade existem factos que escapam à fúria racional do ser humano e que, por
isso, têm sobre ele consequências aparentemente inexplicáveis. O clima é um
deles. Não será necessário falar dos ventos quentes e abafados que chegam de
África ou dos capacetes de nuvens baixas trazidas por frentes ciclónicas para
notarmos a mudança de humores nas comunidades humanas. A simples alternância
das estações ao longo do ano, que deveria ser tão natural e benéfica para o
bicho-homem como para outro animal qualquer, troca-lhe as voltas à vida e prova
que o homem (o da cidade, em especial) não está preparado para suportar o
clima.
O
Verão é apenas um exemplo: não há nada mais agradável que sair para a rua às
seis da tarde e apanhar com o Sol das quatro nos costados, aguentar o calor que
salta das fachadas dos prédios, enquanto os ares condicionados dos outros vão
pingando nas carecas de alguns (furando o ozono de todos) e, logo de seguida,
ir lentamente marinar para dentro de um autocarro envidraçado, concebido pelos
gelos eternos da Suécia. Tudo isto até seria suportável se não fossemos
obrigados a reagir, a manter a tensão arterial em níveis normais e,
principalmente, a trabalhar nessa angustiante condição de férias terminadas –
na qual obviamente me encontro. Para mal dos meus pecados.
Talvez
por tudo isso não me sai da memória a imagem daquele homem de olhar enervado
que, preso nos engarrafamentos à entrada de Los Angeles, atacado pelo suor,
pelas moscas e pelo sorriso, alvar e escarninho, de um Garfield escarrapachado
no vidro do carro ao lado, resolve deixar o automóvel no meio da estrada e ir a
pé para casa. Esta cena pertence a uma das melhores americanadas que por cá
passaram nos últimos meses, O filme «Um dia de Raiva» do nova-iorquino Joel
Schumacher começa, assim, com este normal cidadão americano subitamente
enraivecido pelas armadilhas da sobreaquecida sociedade moderna.
A
caminho de casa, Michael Douglas, aliás William Foster “D-Fens” (segundo
ostenta a matrícula do carro), vai impor a sua ordem à sua maneira: desfaz a
loja do coreano que vende a coca-cola a preços exorbitantes e metralha a casa
de hambúrgueres que oferece produtos bem menos apetitosos do que as fotografias
da propaganda. Percorre as ruas pintadas de L.A., disparando sobre os mexicanos
que o ameaçam e investe contra pretos e brancos, ricos e pobres, neo-nazis e
cabines telefónicas, em defesa da bolsa e da moral do bom consumidor.
Aparentemente é assim. Quem lhe segue os passos através do mapa da cidade é
Prendergast (uma excepcional interpretação de Robert Duvall), polícia à beira
da reforma, de vida familiar e profissional reduzida a pó por uma mulher
neurótica e possessiva.
Da
cartografia dos crimes ao perfil psicológico de tão árduo defensor da ordem
pública, vai um passo. Afinal, “D-Fens” é um perigoso psicopata (quem diria?),
um desempregado do Ministério da Defesa que vive com uma mãe alienada. Alguém
que, naquele dia, apenas tem um desejo: estar presente no aniversário da sua
filha, facto que a ex-mulher tenta impedir por razões compreensíveis. A
história acaba com as previsíveis cenas de cerco e da captura do assassino,
como qualquer amante destas fitas esperaria.
O
que o espectador não espera é ver um thriller,
de enredo aparentemente banal, desrespeitar de forma tão sistemática as regras
comuns do cinema e da moral americanas. «Um Dia de Raiva», apresentado na
selecção oficial de Cannes 1993, foi, sem dúvida, melhor recebido pela crítica
que pelo público. Acusado de transmitir ideias de ultradireita, ele mostra a sociedade
e o homem modernos a caminhar directamente para o abismo.
Mas
se assim é, então por que deixa o espectador de cara à banda, a matutar nas
causas e consequências reais do seu dia a dia? De um ritmo sem fôlego, este
filme vai mostrando gente à deriva, famílias destruídas e profissões sem futuro
(à boa maneira de David Lynch), engarrafamentos, acidentes de automóvel,
violência e caos social (a lembrar «Week-end» de Jean-Luc Godard, 1967), tudo
pelo meio da comédia negra, do telefilme melodramático e de uma enorme
caloraça. «Um Dia de Raiva» parece-me, pois, uma séria e irreverente caricatura
do quotidiano urbano e do cinema comercial, oferecida nesta história de
‘polícias e ladrões’, cheia de non-sense.
E,
agora, em letargia e sem inspiração, aguardo que chegue o tempo de Outono para
afastar o calor e levar para bem longe os veraneantes sorrisos de Garfields (e
Penelopes) pespegados nos carros que só agora vão de férias, dirijo-me ao clube
de vídeo, alugo uma cassete qualquer e espero que passe mais este dia de raiva…
19
de agosto de 1993
jef
«Um
Dia de Raiva» (Falling Down) de Joel Schumacher. Com Michael Douglas, Robert
Duvall, Barbara Hershey, Rachel Ticotin, Tuesday Weld, Frederic Forrest, Lois
Smith, Joey Singer, Ebbe Roe Smith, Michael Paul Chan, Raymond J. Barry, D.W.
Moffett, Steve Park, Kimberly Scott, James Keane, Macon McCalman, Richard
Montoya, Bruce Beatty, Matthew Saks, Agustin Rodriguez, Eddie Frias, Pat Romano,
Julian Scott Urena, Karina Arroyave, Irene Olga López. Argumento: Ebbe Roe
Smith. Produção: Timothy Harris, Arnold Kopelson, Herschel Weingrod.
Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Música: James Newton Howard. Guarda-roupa: Marlene
Stewart. EUA, 1993, Cores, 113 min.





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