Um filme a que chamaria ‘contra-Bergman’. Obra de tal modo íntima e
auto-sugestiva que se afasta de tudo o que o cineasta até ali realizou e a
partir dali realizaria. No entanto, parece também ser um ‘quadro resumo’ de
Ingmar Bergman só que apresentado sob a esfinge de um outro cinema, talvez um
cinema a que me habituei a ver, como dizer, como mais latino ou meridional (à falta
de melhor referência menos geográfica) – um filme que talvez me tenha lembrado
Buñuel, Fellini, Visconti ou Renoir…
A
minha mãe, que apreciava o filme, relembrava sempre a espécie de epígrafe
que dá mote ao título e, no fundo, a toda a obra – «A Hora do Lobo», aquela, indefinida,
entre a luz e a escuridão, o crepúsculo da tarde e a madrugada, com a meia-noite
pelo meio. No fundo, a hora em que mais crianças nascem, mais gente morre, mais
os pesadelos assolam os vivos.
No
fundo, é um filme de terror. Um terror explicado no início e no final pela
reflexão de Alma (a tão bela Liv Ullmann) que, desolada e virada para a câmara,
nos conta como o marido, o pintor Johan Borg (Max von Sydow), foi desaparecendo
atrás dos seus pesadelos nos esconsos daquela ilha onde se haviam refugiado para
passarem tranquilos a calma do Verão.
Uma
casa que esconde o diário do pintor que Alma irá ler instigada por um dos
fantasmas ou ‘vampiros’ ou ‘canibais’ que assombram o casal, como confirmam o
diário e os esboços desenhados pelo pintor. Figuras demoníacas e perversas (à
Edgar Allan Poe) que moram num velho castelo ao Norte e um dia chegam para convidá-los
para um jantar onde a câmara filma, estonteante, num rodopiar, único em Bergman, que
combina com o álcool que Johan vai bebendo em demasia e o desorienta.
«A
Flauta Mágica» é convocada através do magnífico teatro de marionetas, que por
sua vez lembra «A Prisão». A ilha isolada, o pesadelo e as figuras espectrais,
a ameaça permanente lembram «Um Verão de Amor», «A Vergonha» ou «A Máscara». A
infância relembrada e atormentada lembra «Fanny e Alexandre», por aí fora…
Existem
num filme verdadeiramente perturbador cenas únicas e que dificilmente se esquecem
– o sonho ou alegoria da criança que vai espreitar Johan quando este está a
pescar (ou se esconde pois, virado para o mar, parece masturbar-se) e acaba afogada
por ele. Ou aquela em que é convidado (e maquilhado de modo feminino) para se encontrar
com a antiga amante e ela surge como morta num esquife, coberta pela mortalha
branca. Ou a outra, quase no final, em que Alma procura Johan moribundo entre
as ramos sinistros de uma floresta pantanosa.
Um
filme tão belo e irreal quanto assustadoramente frontal, imaginativo, erótico e
infinito.
jef,
fmarço 2026
«A
Hora do Lobo» (Vargtimmen) de Ingmar Bergman. Com Max von Sydow, Liv Ullmann,
Gertrud Fridh, Georg Rydeberg, Erland Josephson, Naima Wifstrand, Bertil
Anderberg, Agda Helin, Gudrun Brost, Gertrud Fridh, Gudrun Brost, Ulf
Johansson, Ingrid Thulin, Mikael Rundquist. Argumento: Ingmar Bergman. Produção: Lars-Owe
Carlberg, Karl-Arne Bergman. Fotografia: Sven Nykvist. Som: Lennart Engholm. Música:
Lars Johan Werle e excertos de A Flauta Mágica de W. A. Mozart e de Arte da
Fuga de J. S. Bach. Guarda-roupa: Eivor Kullberg. Suécia, 1968, P/B, 89 min.





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