sexta-feira, 20 de março de 2026

Sobre o filme «A Hora do Lobo» de Ingmar Bergman, 1968

























Um filme a que chamaria ‘contra-Bergman’. Obra de tal modo íntima e auto-sugestiva que se afasta de tudo o que o cineasta até ali realizou e a partir dali realizaria. No entanto, parece também ser um ‘quadro resumo’ de Ingmar Bergman só que apresentado sob a esfinge de um outro cinema, talvez um cinema a que me habituei a ver, como dizer, como mais latino ou meridional (à falta de melhor referência menos geográfica) – um filme que talvez me tenha lembrado Buñuel, Fellini, Visconti ou Renoir…

A minha mãe, que apreciava o filme, relembrava sempre a espécie de epígrafe que dá mote ao título e, no fundo, a toda a obra – «A Hora do Lobo», aquela, indefinida, entre a luz e a escuridão, o crepúsculo da tarde e a madrugada, com a meia-noite pelo meio. No fundo, a hora em que mais crianças nascem, mais gente morre, mais os pesadelos assolam os vivos.

No fundo, é um filme de terror. Um terror explicado no início e no final pela reflexão de Alma (a tão bela Liv Ullmann) que, desolada e virada para a câmara, nos conta como o marido, o pintor Johan Borg (Max von Sydow), foi desaparecendo atrás dos seus pesadelos nos esconsos daquela ilha onde se haviam refugiado para passarem tranquilos a calma do Verão.

Uma casa que esconde o diário do pintor que Alma irá ler instigada por um dos fantasmas ou ‘vampiros’ ou ‘canibais’ que assombram o casal, como confirmam o diário e os esboços desenhados pelo pintor. Figuras demoníacas e perversas (à Edgar Allan Poe) que moram num velho castelo ao Norte e um dia chegam para convidá-los para um jantar onde a câmara filma, estonteante, num rodopiar, único em Bergman, que combina com o álcool que Johan vai bebendo em demasia e o desorienta.

«A Flauta Mágica» é convocada através do magnífico teatro de marionetas, que por sua vez lembra «A Prisão». A ilha isolada, o pesadelo e as figuras espectrais, a ameaça permanente lembram «Um Verão de Amor», «A Vergonha» ou «A Máscara». A infância relembrada e atormentada lembra «Fanny e Alexandre», por aí fora…

Existem num filme verdadeiramente perturbador cenas únicas e que dificilmente se esquecem – o sonho ou alegoria da criança que vai espreitar Johan quando este está a pescar (ou se esconde pois, virado para o mar, parece masturbar-se) e acaba afogada por ele. Ou aquela em que é convidado (e maquilhado de modo feminino) para se encontrar com a antiga amante e ela surge como morta num esquife, coberta pela mortalha branca. Ou a outra, quase no final, em que Alma procura Johan moribundo entre as ramos sinistros de uma floresta pantanosa.

Um filme tão belo e irreal quanto assustadoramente frontal, imaginativo, erótico e infinito.


jef, fmarço 2026

«A Hora do Lobo» (Vargtimmen) de Ingmar Bergman. Com Max von Sydow, Liv Ullmann, Gertrud Fridh, Georg Rydeberg, Erland Josephson, Naima Wifstrand, Bertil Anderberg, Agda Helin, Gudrun Brost, Gertrud Fridh, Gudrun Brost, Ulf Johansson, Ingrid Thulin, Mikael Rundquist. Argumento: Ingmar Bergman. Produção: Lars-Owe Carlberg, Karl-Arne Bergman. Fotografia: Sven Nykvist. Som: Lennart Engholm. Música: Lars Johan Werle e excertos de A Flauta Mágica de W. A. Mozart e de Arte da Fuga de J. S. Bach. Guarda-roupa: Eivor Kullberg. Suécia, 1968, P/B, 89 min.



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