É um soberbo e inquietante filme da acção passado na cidade onde os comboios por tradição se cruzam ou cruzavam: Entroncamento, no qual, desde o primeiro minuto, ficamos em palpos de aranha. Como num filme de cowboys onde dois grupos se digladiam, suspeitam e espreitam ao fundo de uma rua deserta e nocturna. Sem momentos de respiração e sob uma perfeita avalanche de som estridente e ameaçador.
Dois actores
surgem, inesquecíveis, de um outro enorme filme: «O Riso e a Faca»
de Pedro Pinho (2025): Cleo Diára (Nádia)
e Sérgio Coragem (Bruno). Contudo, sobre toda a banda sonora, sobre todos os
actores, aparece uma força única a que poderíamos dar o crédito definidor de “fotogenia”
por falta de melhor termo: Ana Vilaça (Laura) e os seus cabelos… Quantas vezes
surge ela de costas, rápida, determinada, poderosa, destemida. Sim, dominadora
num mundo masculino onde a droga e o roubo fazem de marca de água onde tudo
parece estar a um passo de se dissolver na agressividade do crime, da rejeição,
da segregação, da xenofobia, da inclemência de uma sociedade que sitia uma comunidade
e uma juventude para depois, sem pudor, a culpar de se auto-excluir, de
se segregar a si própria.
Um
acto puro cinematográfico, de montagem narrativa, de construção de personagens,
de minúcia fotográfica e de enquadramento (Leonor Teles), também de definição
social de cada uma das personagens – outro ponto central no filme é aquele
que gira em tornos da figura interpretada por Henrique Barbosa (Virgílio ‘Gilinho’)
e na sua relação com Nádia, com a enteada, Viviana (Beatriz Almeida), ou na
cena fundamental em que ele questiona a mãe (Maria Gil) sobre o pai e os irmãos, na cozinha daquela,
enquanto o café vai arrefecendo.
Um
filme onde a violência é apenas sentida pelo espectador por sugestão dramática,
mas que encerra, finalmente, a redenção que verte sobre as todas as personagens,
não fosse de uma profunda ética social e emocional. De uma extrema minúcia afectiva.
Simplesmente
magnífico!
jef,
março 2026
«Entroncamento»
de Pedro Cabeleira. Com Ana Vilaça, Cleo Diára, Rafael Morais, Tiago Costa,
Sérgio Coragem, André Simões, Henrique Barbosa, Ivo Arroja, Beatriz Almeida,
Maria Gil, Luís Filipe Eusébio, João Craveiro, Carlos Sabado, Bruno Santos,
Nuno Rogério, Jairo Sousa, Márcio Ferrão, Carlos Carvalho, Vera Santana, Pedro
Marujo, Vera Gonçalves, Dora Carregosa, João Marques. Argumento: Pedro
Cabeleira e Diogo Figueira Produção:
Vasco
Esteves, Edyta Janczak-Hiriart e Abel Ribeiro Chaves. Fotografia: Leonor Teles.
Som: Joana Niza Braga, Teresa Braga, Paulo Lima, Débora Oliveira, Tiago
Raposinho, Bernardo Theriaga. Guarda-roupa: Andrea Azevedo. Portugal / França. 2025,
cores, 131 min.






Sem comentários:
Enviar um comentário