Fará assim muito sentido eu estar a assistir a um teatro
musicado no Parque Mayer, em Lisboa, agora mesmo, no final do Inverno de 2026; a uma peça de teatro americano estreada na Broadway em 2002, peça quase infantil,
sobre penteados ripados, laca e conjuntinhos de malha?
Recordar esse mundo citado e ancorado em Baltimore, Maryland,
1962, quando a televisão veiculava o sonho americano lixiviado para adolescentes
brancos, num mundo musical pós-twist, quase pós-Elvis, em plena ascensão do black power americano, do rhythm and blues e da Motown, quando a
América tentava impor-se com Napalm na Indochina e no Vietname.
Fará sentido levar à cena, agora, um espectáculo onde a mãe
da estrela Tracy Turnblad, Edna, é interpretada por um actor (Diogo Almeida), e
a própria Tracy (Emília Guimarães), que vence com estrondo o concurso televisivo no programa “The Corny Collins Show”, é uma rapariga de baixa estatura e
bastante anafada, e o próprio pai, Wilburn (Rafael Pina), é um apaixonado
baixote, quase metade da altura da sua mulher?
Não será estranho, eu ter-me apaixonado por um espectáculo
dançado e musicado do principio ao fim, com uma direcção de actores e
coreografia feliz, complexa e rigorosa, onde actuam os estagiários da equipa da produtora
Àpriori (João Prior), integrando um dos momentos mais fulgurantes do mundo dramático
em Lisboa, e em Portugal?
Não será por certo estranho, no mundo actual, a desmoronar-se à conta do espírito bélico de uns quantos doidos varridos que pretendem obter petróleo anexando países soberanos, eu ter-me emocionado, como uma criança a assistir ao antigo teatro para crianças (Teatro Gerifaldo?), vendo um espectáculo onde a consciencialização social e política, a amizade, o amor, a integração racial e o apelo contra a segregação, qualquer que ela seja, são os seus alegres e populares primados.
«Hairspray», hoje, faz todo o sentido.
jef, Teatro Variedades, 13 de Março de 2026
«Hairspray» de Mark O’Donnell e Thomas Meehan (texto), Marc
Shaiman (música) e Scott Wittman e Marc Shaiman (letras). Encenação e produção
executiva: João Prior. Tradução e adaptação: Inês Lima, João Prior e Marta
Martins. Com: Ailèma Monteiro, Inês Maia, Soraia Morais (Dynamites) Alexandra
Galhordas, Amália Santana (Motormouth Maybelle), Beatriz Alves (Tammy), Dennis
Correia (Seaweed), Diogo Almeida (Edna), Diogo Pinto (Corny Collins), Emília
Guimarães (Tracy), Fábio Teixeira, Guilherme Coutinho (Fender), Haba Barbosa,
Inês Azevedo, Inês Lima (Penny), Inês Nunes (Shelley), Inês Reais, Inês Rocha
(Lou Anne), João Monteiro, Kelly Oliveira, Leonardo Viana (Brad), Margarida
Esteves (Brenda), Maria Prata (Amber), Matilde Lima, Naymara Cruz Pequena Inês),
Rafael Pina (Wilbur), Raquel Carvalho (Prudy), Renata Arenga (Kooks), Rui
Serrinha (Link), Simão Sousa (Sketch), Sofia de Castro (Velma), Zé Francisco. Coreografias:
Leonardo Viana. Direção musical; Mari Ribeiro. Direção de atores: Marta Martins. Figurinos: Alexandra
Galhordas, João Prior. Desenho de luz: Tiago Santos. Desenho de som: Margarida
Pinto. Costura e criações: Tabita, Preciosa Verdilheiro. Cabelos: Pedro Ribeiro
e Dennis Correia. Produção: Inês Lima, Inês Azevedo, João Monteiro, Marta
Martins, Patrícia Rodrigues, Margarida Esteves. Fotografia e design de cartaz: Renato
Arroyo. Teatro Variedades. Duração: 120 minutos.




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