Maio
68. Paris. Tráfego urbano intenso, algumas manifestações, encontros fortuitos, Sacré-Cœur
Montmartre, prostitutas ao virar da esquina, pleno emprego. A Cinemateca
fechada. Apenas o cinema corre atrás de uma explosiva, diria imparável, talvez
alegre, nouvelle vague. Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), uma espécie de faltoso
desertor recorrente também não pára, é expulso do exército, tem uma provável
namorada, Christine (Claude Jade), mas nela não se fixa. Antoine não será
propriamente volúvel, tem sentimentos profundos, mas não terá tempo. Talvez
antes queira tudo ao mesmo tempo. Afinal, estamos em Paris, 1968, numa
sequência corrida e benévola de episódios, de cenas que parece juntarem-se como
por acaso, mas unidas num impressionante jogo de câmara que corre atrás do
prejuízo, do benefício, do azar, dos beijos roubados, do amor transitório, dos
sucessivos agentes de vigilância da firma Agência Blady. Há que repetir com insistência, ao espelho, os nomes próprios mais importantes, A câmara corre atrás
de um diálogo satírico ainda mais veloz, mais absurdo, mais irónico, onde a violência
faz parte de uma sociedade em crise de seriedade: o marido encornado parte a
mobília do quarto de hotel, o homossexual abandonado desvaira ao constatar que o
namorado já não o quer. Antoine é despreocupado com tudo, deseja apenas o
minuto que está a viver, ali. Lê muito mas evita o cinema. Lê “Le Lya dans la
Vallée” de Balzac, enquanto nós ouvimos Charles Trenet a cantar “Que reste-t-il
de nos Amours”.
Por
fim, num ápice de melancólica ironia, o desconhecido, eterno vigilante da casa
de Christine, aproxima-se deles, ignorando Antoine, e declara-se a Christina
advertindo-a, antes de se afastar, de que ela tem de “romper laços provisórios
com pessoas provisórias. Quanto a mim, eu
Serei
o definitivo”. Antoine e Christine chamam-lhe louco e continuam o passeio no
jardim. Logo mais tarde verão o que poderá acontecer!
Uma
fábula, quase uma hipérbole satírica, sobre o dia que acabou de passar e apenas
pudemos vislumbrar.
jef, julho 2026
«Beijos Roubados» (Baisers Volés) de François Truffaut. Com Jean-Pierre Léaud (Antoine Doinel), Claude Jade (Christine), Delphine Seyrig (Fabianne Tabard), Michel Lonsdale (M. Tabard), Daniel Ceccaldi (o pai de Christine), Claire Duhamel (a mãe de Christine), André Falcon (M. Blady), Harry Max (Henri), Serge Rousseau (o desconhecido), Marie-France Pisier (Colette), Simono (Albani), Jacques Delord (o restidigitador), Martine Ferrière (a vendedora de sapatos), Jacques Rispal (Mr Colin). Argumento e diálogos: François Truffaut, Claude de Givray e Bernard Revon. Produção: Marcel Berbert para Les Films du Carrosse e Les Artistes Associés. Fotografia: Denys Clerva. Música: Antoine Duhamel e a canção de Charles Trenet “Que reste-t-il de nos Amours”. França, 1968, Cores, 92 min.


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