quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Sobre o livro «Um Homem Que Dorme» de Georges Perec, Antígona, 2026 (1967). Tradução de Luís Leitão.



 







Como um homem sem qualidades. Melhor, alguém que rejeita o mundo que o envolve (e o devolve) e se concentra na ideia de permanecer só ou no interior do próprio estado solitário. Qualquer coisa de Meursault de Albert Camus («O Estrangeiro» 1942), qualquer coisa de Gohar de Albert Cossery («Mendigos e Altivos» 1955), ou de «Bartleby» de Herman Melville (1853), de Zeno de Italo Svevo («A Consciência de Zeno» 1923), de Frank Friedmaier de Georges Simenon («A Neve Estava Suja» 1948).

Uma espécie de absurdo libertário, muito mais essencialista que existencialista. Alguém com 25 anos, afasta-se dos amigos, da universidade, da família, vive também perto ou longe do seu estreito quarto na Rue de Saint-Honoré, das horas contadas pelo campanário da igreja de Saint-Roch, da Place Clichy. O mundo corre lá fora, sem sucesso, sem pressa, demora ou entusiasmo. A mesma refeição diária, o mesmo jornal relido, o cigarro, a eterna paciência de cartas sobre a cama. O vizinho tosse e abre e fecha gavetas. Uma bacia de plástico cor-de-rosa com seis peúgas de molho. Por dentro, o sono invade a cabeça tomada pela almofada, os membros soltam-se, o corpo eleva-se imponderável. O mundo externo ou interno sobrevive na abstracção. Refúgio e desagregação na liberdade mais pura, mais simples.

«Que maravilhosa invenção é o homem! Pode soprar as mãos para as aquecer e soprar a sopa para a arrefecer. Se não ficar demasiado enojado, pode pegar delicadamente em qualquer besouro entre o polegar e o indicador. É capaz de cultivar plantas e extrair delas o seu alimento, a sua roupa, alguns medicamentos, e mesmo perfumes que ajudarão a disfarçar o seu odor desagradável. É capaz de bater os metais e fazer panelas (coisa que um macaco não conseguiria fazer). (…)

Só os idiotas continuam a falar, sem se rirem, do Homem, do Animal, do Caos.»

Ler o modernismo descritivo ou a narrativa naturalista de George Perec faz-nos conhecer a exacta consistência do solo que se comprime por baixo das solas dos nossos sapatos. Um apuro de escrita filosófica.

E que bela é a tradução de Luís Leitão.


jef, outubro 2026

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