Como encontramos um dos “nossos” livros, um dos “nossos”
autores? Como vamos construindo a “nossa” biblioteca?
Não sei por que algoritmo mental, mnemónica, silogismo ou
apenas memória de leitura, ao ler o livro, esta grande novela ou este grande
pequeno romance, pois os livros não se medem aos palmos ou às páginas, em
número de 141, foi ele recordando-me alguns dos meus livros de eleição que aqui
menciono sem olhar a cronologias ou preferências– «O Jogador» de Fiódor Dostoiévski (1866), «A
Prisão» de Georges Simenon (1961), «O Primo Basílio» de Eça de Queirós (1877), «Vinte
e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher» de Stefan Zweig (1927) ou «Mendigos e
Altivos» de Albert Cossery (1955). Todos eles, de certo modo, sobre patifes que
a literatura outorga, desvendado o véu que os assombra ou colocando uma pedra
sobre o assunto. Afinal até gostamos dos patifes da literatura.
E se menciono aqueles livros por memória, este não lhes fica
atrás em intriga, na minuciosa descrição de quartos, salas, guarda-roupa,
atmosfera, penumbras e iluminações, melhor definidoras das personagens que
suportam do que parágrafos com simples listas de objectos 'em leilão'. Por entre
a descrição do lugar, encontra-se a atenta e quase comovente dissecação
psicológica das personagens que o cativa. Aqui se define um verdadeiro espião a
soldo da inteligência repressiva russa entre a sangrenta revolução russa e aquela
mais tardia madrugada sangrenta da Segunda Grande Guerra – Semion Golubchik,
aliás agente Krapotkin, por impostura e também por genética verdadeira.
Este é um autêntico livro policial cujo subtítulo “relato de
uma noite” não significa que a acção descrita decorra num período temporal curto,
relembrando Bloom ou Dalloway, mas sim o tempo em que o narrador conta a sua
história perante uma audiência silência frente a copos meio vazios de aguardente russa, como
quantas vezes faz Stefan Zweig.
Este é um romance que vai costurando a intriga linha a linha,
página a página, até à última, modelando as personagens de modo profundo, diria
inesquecível – Golubchik, o falso verdadeiro Krapotkin, Krapotkin, afinal o
falso, a bela modelo Lutécia, o imponente director da espionagem em Paris
Solowejczyk, o efeminado estilista Monsieur Charron, principalmente, o
misterioso e sempiterno, Jenö Lakatos.
É verdade, «Confissão» de um Assassino» tornou-se um dos “meus”
livros e Joseph Roth, um dos “meus” autores.
jef, setembro 2026

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