sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Sobre o livro «Confissão de um Assassino, relato de uma noite» de Joseph Roth, Cavalo de Ferro, 2018 (1936). Tradução de Paulo Tavares.



 







Como encontramos um dos “nossos” livros, um dos “nossos” autores? Como vamos construindo a “nossa” biblioteca?

Não sei por que algoritmo mental, mnemónica, silogismo ou apenas memória de leitura, ao ler o livro, esta grande novela ou este grande pequeno romance, pois os livros não se medem aos palmos ou às páginas, em número de 141, foi ele recordando-me alguns dos meus livros de eleição que aqui menciono sem olhar a cronologias ou preferências– «O Jogador» de Fiódor Dostoiévski (1866), «A Prisão» de Georges Simenon (1961), «O Primo Basílio» de Eça de Queirós (1877), «Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher» de Stefan Zweig (1927) ou «Mendigos e Altivos» de Albert Cossery (1955). Todos eles, de certo modo, sobre patifes que a literatura outorga, desvendado o véu que os assombra ou colocando uma pedra sobre o assunto. Afinal até gostamos dos patifes da literatura.

E se menciono aqueles livros por memória, este não lhes fica atrás em intriga, na minuciosa descrição de quartos, salas, guarda-roupa, atmosfera, penumbras e iluminações, melhor definidoras das personagens que suportam do que parágrafos com simples listas de objectos 'em leilão'. Por entre a descrição do lugar, encontra-se a atenta e quase comovente dissecação psicológica das personagens que o cativa. Aqui se define um verdadeiro espião a soldo da inteligência repressiva russa entre a sangrenta revolução russa e aquela mais tardia madrugada sangrenta da Segunda Grande Guerra – Semion Golubchik, aliás agente Krapotkin, por impostura e também por genética verdadeira.

Este é um autêntico livro policial cujo subtítulo “relato de uma noite” não significa que a acção descrita decorra num período temporal curto, relembrando Bloom ou Dalloway, mas sim o tempo em que o narrador conta a sua história perante uma audiência silência frente a copos meio vazios de aguardente russa, como quantas vezes faz Stefan Zweig.

Este é um romance que vai costurando a intriga linha a linha, página a página, até à última, modelando as personagens de modo profundo, diria inesquecível – Golubchik, o falso verdadeiro Krapotkin, Krapotkin, afinal o falso, a bela modelo Lutécia, o imponente director da espionagem em Paris Solowejczyk, o efeminado estilista Monsieur Charron, principalmente, o misterioso e sempiterno, Jenö Lakatos.

É verdade, «Confissão» de um Assassino» tornou-se um dos “meus” livros e Joseph Roth, um dos “meus” autores.

jef, setembro 2026

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