Talvez seja altura de revermos «A Interpretação dos Sonhos»
de Sigmund Freud (Relógio D’Água, 2009), o «Rei Édipo» de Sófocles (Edições 70, 2006) ou o
Eclesiastes na edição da Bíblia dos Capuchinhos, por ser a mais católica. Ou,
então, observemos apenas o ovoide rezingão Humpty Dumpty, sentado no alto
do muro, n’«O Outro Lado do Espelho».
Em «A Cura» ficamos com a ideia de que o Inferno até nem será
um local assim não hostil se não permanecermos a autoflagelar-nos com esse vaivém
obsessivo de martírio-culpa-impulso recalcado-pecado-perdão. Tudo está
condensado, contido, reflectido dentro de nós. A solução permanece connosco. Esqueçamos, afinal, que do outro lado do espelho, reflexo do reflexo, está um super-gigante
Eu pronto a apontar o dedo a quem se penteia deste lado.
Nada é possível revelar deste livro composto por um Prólogo e
um Epílogo tendo por miolo o conteúdo de treze consultas de análise cujo
registo, afinal, o leitor está antecipadamente proibido de ler. Ora, desta
forma, ao terminar a leitura ele, o leitor, fica cúmplice de uma afronta ou de um
crime, para sermos dramáticos, pois o recalcamento de que vamos sendo
coniventes vai desaguar, sem apelo nem agravo, no assassinato de Laio, o pai de
Édipo, esquecendo Jucasta e sem Antígona que nos salve, nem Creonte que nos ofenda.
Uma espécie de confronto de lógicas que devemos seguir como
entradas antagónicas de uma enciclopédia universal – a fé absoluta e dogmática em algo
superior que nos conduz, protege e condena, contra a consciência e auto-conhecimento
do que nasce connosco ou que nos é inculcado por convivência ou educação
parental.
Eis um livro que em formato de novela, escrito com a clássica
mestria de Pedro Eiras, torna-se numa leitura imparável, revelando-se uma
verdadeira, séria e comovedora comédia sobre os contrários que movimentam permanentemente
a sociedade ocidental.
Um romance que, se atentarmos na permanente e sucessiva dicotomia
de pensamentos, nos oferece o paraíso e o inferno em simultâneo e um óptimo
modo de auto-reflexão e divertido exercício neurológico.

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