sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Sobre o livro «A Cura» de Pedro Eiras, Assírio & Alvim, 2017



 







Talvez seja altura de revermos «A Interpretação dos Sonhos» de Sigmund Freud (Relógio D’Água, 2009), o «Rei Édipo» de Sófocles (Edições 70, 2006) ou o Eclesiastes na edição da Bíblia dos Capuchinhos, por ser a mais católica. Ou, então, observemos apenas o ovoide rezingão Humpty Dumpty, sentado no alto do muro, n’«O Outro Lado do Espelho».

Em «A Cura» ficamos com a ideia de que o Inferno até nem será um local assim não hostil se não permanecermos a autoflagelar-nos com esse vaivém obsessivo de martírio-culpa-impulso recalcado-pecado-perdão. Tudo está condensado, contido, reflectido dentro de nós. A solução permanece connosco. Esqueçamos, afinal, que do outro lado do espelho, reflexo do reflexo, está um super-gigante Eu pronto a apontar o dedo a quem se penteia deste lado.

Nada é possível revelar deste livro composto por um Prólogo e um Epílogo tendo por miolo o conteúdo de treze consultas de análise cujo registo, afinal, o leitor está antecipadamente proibido de ler. Ora, desta forma, ao terminar a leitura ele, o leitor, fica cúmplice de uma afronta ou de um crime, para sermos dramáticos, pois o recalcamento de que vamos sendo coniventes vai desaguar, sem apelo nem agravo, no assassinato de Laio, o pai de Édipo, esquecendo Jucasta e sem Antígona que nos salve, nem Creonte que nos ofenda.

Uma espécie de confronto de lógicas que devemos seguir como entradas antagónicas de uma enciclopédia universal – a fé absoluta e dogmática em algo superior que nos conduz, protege e condena, contra a consciência e auto-conhecimento do que nasce connosco ou que nos é inculcado por convivência ou educação parental.

Eis um livro que em formato de novela, escrito com a clássica mestria de Pedro Eiras, torna-se numa leitura imparável, revelando-se uma verdadeira, séria e comovedora comédia sobre os contrários que movimentam permanentemente a sociedade ocidental.

Um romance que, se atentarmos na permanente e sucessiva dicotomia de pensamentos, nos oferece o paraíso e o inferno em simultâneo e um óptimo modo de auto-reflexão e divertido exercício neurológico.


jef, junho 2026

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