O drama das comédias clássicas é que, infelizmente, não
passam de moda por mais que os séculos lhes passem por cima. Ora quero dizer, a
humanidade a viver das aparências, da ambição e da estupidez, será sempiterna, ou até que se auto-destrua por completo. O que Molière expressou
com a sua primeira peça estruturada como comédia em prosa e em um acto é
que a humanidade, para além de se afundar na estupidez cega, também se
enterrará irremediavelmente no ridículo.
Por isso, “Les Precieuses Ridicules”, posta em cena pela
primeira vez em Paris nos finais do ano de 1659, criou grande celeuma por colocar em
cheque o provincianismo decadente de quem pretendia, por fingimento, ascender
ao estatuto da aristocracia urbana, atingindo a peça grande êxito. Acima de tudo, assegurava ainda a
representação através dos tempos, como demonstra agora a encenação de Beto
Coville e da Companhia Teatro Livre.
Simplicidade e eficácia como exigem os grandes textos, já que é na
subtileza dos enganos falados que lhe reside a alma. Du Croisy e La Grange
sentem-se rebaixados pela fraca recepção na casa de Gorgibas e orquestram uma
estratégia de vingança enviando dois dos seus lacaios-cocheiros, fazendo passar-se por Marquês de Mascarille e Visconde de Jodelet, um gabarola, o outro, néscio. Estes devem cortejar as ansiosas Madalena e Catarina, a filha e afilhada
de Gorgibas. No entanto, estas rejeitam esses nomes de nascimento, pois consideram de origem plebeia ou rural, intitulando-se, mais refinadamente, de Aminte e Polixene. Tudo começa e termina num
verdadeiro jogo de encenação e falsidade. Até que os primeiros agastados vêm
desvendar o próprio engano que encenaram. Uma espécie de teatro dentro do
teatro, onde quem impõe alguma lucidez é a amarga viúva, mãe e madrinha, Gorgibas,
e a divertida aia Marotte.
Claro que as personagens surgem tão visceralmente ridículas
que até os amplos vestidos da época aparecem desmascarados apenas sob a apresentação das simples armações metálicas interiores. Tudo está a nu. Quer isto dizer, até os falsos
marquês e visconde estão tão despidos, no final, quanto a desmedida vocação para casar das falsas Aminte e Polixene.
Tudo a verdade deixa a nu (mas também em festa!), na necessária
comicidade do exagero, no colorido dos fatos e adereços, na simbologia dos
defeitos humanos. Eternos, sinceros e verdadeiros como só os bobos e os palhaços
conseguiam fazer valer nas distintas cortes reais, demonstrando que, como
sempre refere o escritor Rui Cardoso Martins, “o humor não aligeira, pelo
contrário, aprofunda”.
Que grandes actores! Que bela tarde de teatro!
p.s. já agora, sobre a estupidez, veloz, ligeira e eterna,
façam o favor de ler «Allegro ma non troppo seguido das leis fundamentais da
estupidez humana» de Carlo M. Cipolla (1988).
jef, 20 de setembro de 2026
Texto: Molière. Adaptação e encenação: Beto Coville. Com António
Camelier (Marquês de Mascarille), Beto Coville (Du Croisy), Dan Martin
(Carregador e Violinista), Eurico Lopes (La Grange), Gabriela Ferreira
(Angelique), Guilherme Inácio (Carregador e Violinista), Joana de Verona
(Madalena / Aminte), Luísa Ortigoso (Marotte), Márcia Cardoso (Catarina /
Polixene) Manuela Ferreira (Lucille), Maria D’Aires (Gorgibas, a mãe e madrinha
/ Almanzor) e Ricardo Barbosa (Visconde de Jodelet). Cenografia: Eurico Lopes.
Figurinos: Mia Lourenço. Caracterização: Magali Santana. Desenho de luz: Rui
Seabra. Desenho de som: Paulo Abelho. Costureira: Rosário Balbi. Construção de
cenário: Fábio Paulo. Desenho de Luz e Sonoplastia: Pedro Santos. Atelier
Comédia dell’Arte: Tobias Monteiro. Fotografias de cena: Manu. Cartaz: Luciano
Luz. Produção: Companhia Teatro Livre. Promotor: Ar de Filmes. Duração: 70
minutos.




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