É
um filme para dois actores – Özgü Namal, que representa Derya, a célebre actriz, e Tansu Biçer, que representa Aziz, o reconhecido dramaturgo, actor e professor
universitário de teatro. Em Ancara, ou seja Berlim. Por razões de perseguição
política são expulsos e ostracizados pelo sistema. Ficam sem
emprego e rumam a Istambul, ou seja Hamburgo, para casa da mãe de Aziz, a
actriz Ipek Bilgin, o terceiro nome a recordar.
Eu
que não sabia que o filme fora rodado na Alemanha, precisamente em Berlim
e Hamburgo, estranhei os separadores que deste modo anunciam os episódios
seguintes. Fiquei algo confuso com algumas inscrições nos edifícios e com as
imagens das manifestações de protesto contra a liberdade de expressão. Achei
nesse meu desnorteamento geográfico e político algum desconchavo, algum tique
de estilo para alemão ver e reconhecer a importância que tem a comunidade turca
no país.
Um
facto é que o filme que se inicia com a recusa pela célebre actriz de ser
fotografada ao lado dos dirigentes do regime que tinham ido assistir à peça por ela
representada e escrita pelo seu marido dramaturgo, termina com uma deriva em
prol da sobrevivência familiar, aceitando o que as condições que a ingrata sociedade
vai impondo. Talvez essa deriva, tão comum na vida de todos os dias, de todas as
famílias, de tantos países, transmita ao espectador a importância de um novo
realismo na arte contemporânea. Na verdade, há um verdadeiro e universal desconchavo
social e político, de comunicação também, no nosso triste planeta.
jef,
setembro 2026
«Cartas Amarelas» (Gelbe Briefe / Yellow Letters) de İlker Çatak. Com Özgü Namal, Tansu Biçer, Leyla Smyrna Cabas, İpek Bilgin, Yusuf Akgün, Emre Bakar, Kerem Can, Aziz Çapkurt, Mustafa Cicek, Ela Cosen, Siir Eloglu, Ömer Filikci, Elit Iscan, Ipek Seyalioglu, Yusuf Özhan Tali, Uygar Tamer, Sultan Ulutas, Eray von Egilmez, Cüneyt Yalaz, Aycil Yeltan. Argumento: Ayda Meryem Çatak, Ilker Çatak, Enis Köstepen. Produção: Ingo Fliess. Fotografia: Judith Kaufmann. Música: Marvin Miller. Guarda-roupa: Christian Röhrs. Alemanha / França / Turquia, 2026, Cores, 128 min.



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