«À Beira Rio» levou 75 anos a ser escrito, ou arquitectado, ou fotografado, ou
paginado, ou editado. Os autores, João Vieira e Paulo Andrade, preferem assim
dar tempo ao tempo, dar tempo ao Tejo e ficar por ali a dar-nos conversa. O
tempo ali não se compara, é lento.
«À Beira Rio» tem no centro ou na margem Vila Franca de Xira e o Tejo.
«À Beira Rio» tem 25 x 18 centímetros, 136 páginas, 6
capítulos, folha branca nada menos do que 100 gramas. Encadernação ao estilo
oriental. Tudo feito com recurso à inteligência natural, cada página é construída como um diverso
desenho original.
«À Beira Rio», desde a capa, às guardas, aos separadores, tem
um motivo, dito “leitmotiv” pelos bárbaros germânicos. Circunferências que se
cruzam como aquelas coloridas que aparecem, em número de cinco, de quatro em
quatro anos, nos olímpicos jogos. Só que neste caso são em filete negro
e o padrão é infinito. É muito interessante, digamos emocionalmente estratégico,
essa escolha, já que resulta da cópia da guarda que protege a montra da Flor do
Tejo, atafulhada de motivos e bonequinhos náuticos. Uma montra que, quando o
Bar-Taberna se apresenta aberto, ninguém repara mas que todos olham com saudade, talvez algum rancor, quando passam, durante a semana, frente ao pequeno centro cultural com povo,
patos, arte, livros, moscatel e caracóis, e constatam a desfaçatez de as suas
portas e esplanada se manterem orgulhosamente trancadas. Exactamente, como a pedra da calçada
que só lhe sentimos a importância quando falta.
Sim, este livro conta a história política de labor,
resistência, literatura, patuscada e convívio que se foi transformando em Portugal e na
beira Tejo durante 75 anos, recordando 25 anos em ditadura e 50+2 em democracia.
Eu também por lá estou com sentido e alegria: num texto, numa fotografia e na
memória grata que foi por ali perto que comecei a alinhavar o meu último livro.
E quanto é bom sentirmos a inspiração, uma certa alegre
profissão, digamos Amor, que se estabelece quando nos aproximamos do intenso ritmo
familiar que passa pela Flor do Tejo. Uma alegria afectuosa que devemos, acima
de tudo e de todos, ao esforço e energia do João Vieira e do Paulo Andrade.
Assim continuem eles, assim continuo eu, assim continuaremos nós
a visitá-los!
jef, junho 2026







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